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ASTRONOMIA CULTURAL NAS PESQUISAS DE ENSINO: UM PANORAMA DA DÉCADA ATUAL (2010-2018)

Clístines Mariano Danieli Merlucci, Gustavo Isaac Killner, José Tomaz De Oliveira Junior

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XXIII
Ano
2019
Data
29/01/2019
Linha de pesquisa
Equidade, Inclusão, Estudos Culturais E O Ensino De Física
Tipo
Pôster

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Texto completo

## ASTRONOMIA CULTURAL NAS PESQUISAS DE ENSINO: UM PANORAMA DA DÉCADA ATUAL (2010-2018)

Clístines Mariano Danieli Merlucci 1 , Gustavo Isaac Killner 2 , José Tomaz de Oliveira Junior 3

1 Instituto Federal de São Paulo, clistines.merlucci@gmail.com

2 Instituto Federal de São Paulo, gisaack@usp.br

3 Instituto Federal de São Paulo, jtjtoj@gmail.com

## Resumo

Este trabalho é o recorte inicial de nossa pesquisa de mestrado que investigará as concepções de professores de física sobre o tema Astronomia Cultural e o Currículo Multiculturalista. O presente artigo relata nossa pesquisa inicial, do tipo revisão bibliográfica, sobre o tema Astronomia Cultural, dentro dos principais periódicos da área de ensino de Física, Ciências e Astronomia e comunicações orais nos Simpósios Nacionais de Ensino de Física (SNEF) e Astronomia (SNEA), e do Encontro de Pesquisa em Ensino de Física (EPEF) no período de Janeiro de 2011 até Julho de 2018. Complementamos essa busca com possíveis dissertações e teses no banco de teses da CAPES no mesmo período e assim obtivemos 17 trabalhos relativos a Astronomia Cultural, os quais foram analisados um a um e categorizados entre trabalhos de reconhecimento cultural, proposta didática ou analise documental. Ao final deste trabalho, foi realizado um comparativo junto a outro artigo com pesquisa similar a nossa, feito na primeira década dos anos 2000, e pudemos observar um aumento no número de publicações da área tratada neste trabalho, revelando um crescimento na área de pesquisa a respeito do tema Astronomia Cultural.

Palavras-chave : Astronomia Cultural, Etnoastronomia.

## Introdução

Descolonizar os currículos é mais um desafio para o ensino de física. Desde a Lei Federal 11.645/08, que alterou a lei de diretrizes e bases da educação nacional de 1996, é obrigatória a inserção da história e cultura africana e indígena brasileira no ensino regular, de modo a contemplar tais culturas negadas e silenciadas nos currículos escolares. Esta obrigatoriedade não se limita apenas às disciplinas com um vínculo explícito na lei - como história - mas se espalha por todo o espectro de disciplinas básicas, aí incluindo a Física e as ciências em geral. Aliado a esta lei, tanto os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN), as Diretrizes Curriculares Nacionais (DCN) e mesmo a atual Base Nacional Comum Curricular (BNCC), indicam a necessidade da implementação no ensino básico de conteúdos a respeito das várias culturas que formam o Brasil, confrontando o currículo clássico que se volta apenas para a cultura científica tecnicista, imposta como forma hegemônica na construção das narrativas escolares, nas quais 'as culturas ou vozes dos grupos sociais minoritários e/ou marginalizados que não dispõem de estruturas importantes de poder costumam ser silenciadas, quando não estereotipadas e deformadas, para

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anular suas possibilidades de reação' (SANTOMÉ, 1995, 161). Os estudos atuais '[...] sobre o espaço escolar, as práticas pedagógicas que nele se desenvolvem, bem como os estudos que se têm envolvido com as pedagogias culturais têm mostrado como estamos, em nossa sociedade, sempre operando a partir de uma identidade que é a norma' (MEYER, 2003, p. 24). A Astronomia Cultural, uma recente área de pesquisa dentro do ensino de Física e de Astronomia, pode proporcionar uma prática crítica no trabalho docente, incorporando muitas culturas brasileiras dentro da disciplina de Física, numa perspectiva multicultural.

A astronomia Cultural, como descrita por JAFELICE (2013):

'tem significado tentativas de entendimento e de tradução de como outras culturas, do passado ou do presente, se relacionam com aquilo que no nosso recorte, ocidental, chamamos de céu. Assim, a arqueoastronomia e a etnoastronomia são denominações para AC, dependendo se a outra cultura estudada pertence, respectivamente, a um passado mais distante ou nos é contemporânea'

Este entendimento das diferentes culturas através do olhar da Astronomia tem o poder de levar à sala de aula um rico conhecimento que, além de se valer por si só, também ajuda o aluno a vencer estereótipos, preconceitos e a inferiorização de outras culturas.

Para mais além, a Astronomia Cultural confronta a visão universalista da ciência, da própria Astronomia e a visão eurocêntrica do conhecimento propondo um relativismo do conhecimento, ampliando, assim, os significados de 'civilização', 'progresso' e 'cultura evoluída' (Jafelice, 2013).

Tendo isto em vista, o presente trabalho é o início de um projeto de dissertação de mestrado no qual investigaremos as concepções de professores de Física a respeito do currículo multiculturalista e a possibilidade da inserção em sala de aula da Astronomia Cultural.

No presente momento queremos compartilhar a pesquisa bibliográfica feita em periódicos e eventos da área sobre publicações do tema Astronomia Cultural na atual década (2011-2018). Esta pesquisa segue como extensão de outra publicada nas atas do I SNEA (Albuquerque et al., 2011) na qual foi dado um panorama da primeira década dos anos 2000, do qual utilizaremos a mesma forma de categorização dos trabalhos como base para traçar uma evolução dos últimos 18 anos desta área de conhecimento.

## Metodologia

Para a nossa pesquisa, buscamos artigos de comunicação oral publicados nos cadernos dos principais eventos da área de ensino de Física ou Astronomia (SNEA, SNEF e EPEF) além de artigos publicados em revistas. As revistas selecionadas foram as revistas nacionais de Qualis A1, A2, B1 e B2 na área de ensino, cujo tema tivesse relação com Física, Ciências ou Astronomia. Para aperfeiçoar nossa busca, a dissertação de Rodrigues (2015), em que uma revisão do mesmo tema também foi feita, entretanto até 2013, foi utilizada como arremate

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entre as já selecionadas por nós e as que ali estão de forma a incluir outros periódicos que nos escaparam, na intenção de deixar nossa pesquisa mais completa, como no caso da adição de algumas revistas internacionais.

A relação dos 14 periódicos selecionados está exposta no Quadro 1 abaixo:

Quadro 1: Relação de Periódicos pesquisados

A pesquisa dentro de eventos e periódicos selecionados foi feita através da busca de palavras chaves nos títulos dos artigos que indicavam a menor relação com Astronomia. Destes artigos selecionados à primeira vista, todos tiveram seu resumo lido e aqueles em que o tema Astronomia Cultural (AC) ou algum relativo seu, como Etnoastronomia, esteve presente foram lidos na íntegra e analisados para futura categorização.

Através de toda a nossa pesquisa, tivemos contatos com quase 4500 artigos, dos quais 342 destes tratavam sobre Astronomia sendo que destes 12 artigos foram relevantes para nossa pesquisa. Ou seja, aproximadamente 3,5% dos trabalhos sobre astronomia tratavam da AC.

De forma a completar o baixo número de trabalhos encontrados, buscamos no banco de teses da Capes por dissertações ou teses que tivessem as palavras chaves 'Astronomia Cultural', 'Etnoastronomia' ou 'Arqueoastronomia'. Esta busca nos trouxe mais 5 trabalhos de dissertação de mestrado, nos dando um total de 17 trabalhos.

## Resultados e Análise

Após o trabalho de pesquisa, voltamos nosso olhar ao artigo de Albuquerque (2011), já citado acima, que nos serviu de base para construção da categorização dos trabalhos encontrados na atual década. Mantivemos as grandes categorias ali colocadas Reconhecimento Cultural e Propostas de Ensino - melhor explicadas

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abaixo, pois entendemos que os atuais trabalhos continuam a se encaixar nestas categorias. Adicionamos a estas uma terceira categoria criada por nós: Análise Documental.

A seguir, explicitaremos as categorias e os trabalhos que se encaixam nelas, dando uma sucinta explicação dos trabalhos para deixar clara nossa categorização.

## Reconhecimento Cultural

Nesta categoria classificamos artigos que relatavam pesquisas de levantamento do conhecimento Astronômico de algum grupo cultural, seja na literatura ou diretamente em campo, com o intuito geral de elaborar materiais didáticos. Nossa pesquisa nos trouxe a quatro trabalhos deste tipo, o de Garcia et al. (2016), Ducheiko e da Silva (2017) e as dissertações de Silva (2014), Araújo (2015) e Rodrigues (2015).

Em Garcia et al. (2016) os autores realizaram uma investigação em campo, dentro de comunidade guarani MBYA, localizada no litoral norte do Rio Grande do Sul, sobre os conhecimentos astronômicos daquele povo. O intuito final desta investigação foi a construção de um livreto pedagógico sobre estes saberes para utilização na escola indígena Nhu Porá. Semelhante a esta pesquisa, a dissertação de Silva (2014) buscou junto a pescadores da praia de Ponta Negra em Natal as relações práticas que estes tinham com as estações do ano e a influencia destas em suas vidas, levando assim a criação de um vídeo didático sobre estações do ano.

No trabalho de Ducheiko e da Silva (2017), os autores fizeram um levantamento na literatura sobre objetos artísticos ornados por povos indígenas que se relacionam a rituais e desenvolveram, a partir do conceito de transposição didática de Chevallard, um material didático interdisciplinar entre a astronomia indígena e as Artes Visuais.

Para finalizar essa categoria, a dissertação de Araújo (2015) fez, por meio de uma pesquisa bibliográfica, um levantamento dos conhecimentos indígenas de várias nações. Se embasando nos pensamentos freirianos, o autor desenvolveu como produto final de sua dissertação um livro paradidático sobre a astronomia indígena brasileira. Em Rodrigues (2015), também temos uma grande pesquisa bibliográfica, mas que se estendeu não apenas a periódicos, mas também a eventos de ensino e aos livros didáticos de Física, analisando como se dá a abordagem da AC dentro destes. Ao final de seu trabalho, Rodrigues ressalta algumas potencialidades do uso da Astronomia Cultural no ensino formal.

## Propostas de Ensino

Dentro desta categoria estão os trabalhos os autores propuseram ou aplicaram atividades didáticas em sala de aula. Aqui estão trabalhos que foram aplicados com alunos, em cursos de formação de professores ou até mesmo apenas propostas para aplicação no ensino formal e atividades que foram realizadas no ensino não formal.

## Formal

A pesquisa nos levou a cinco artigos de propostas para o ensino formal. São eles os trabalhos de Barros e Ovigli (2014), Jafelice (2015), Correa e Simões (2015),

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e Araujo, Verdeaux e Cardoso (2017), Pessoa et al. (2017) e a dissertação de Zanatti (2014). Em Barros e Ovigli (2014) os autores relatam um curso de extensão que aplicaram junto a professores de diversas áreas. O curso perpassou as variadas áreas da Astronomia, mas teve o enfoque especial nos conhecimentos astronômicos de outras culturas (Egípcios, Gregos, Iorubás e Tupis-Guaranis). Também com relação à formação de professores, Correa e Simões (2015) fazem um levantamento de outros trabalhos nos quais a Astronomia Cultural foi trabalhada na formação de professores para posteriormente defender o uso da abordagem CTS aliada ao tema AC.

Não sendo um curso de formação, mas atuando em um encontro de formação, Pessoa et al. (2017) mostra uma intervenção feita através de uma apresentação em um encontro formação de professores. Após uma pesquisa bibliográfica feita em busca do conhecimento astronómico dos Dogons, os pesquisadores levaram ao encontro o debate de lei 11.645/08 através do saber astronómico deste povo. Vale ressaltar que este trabalho é o único encontrado sobre a astronomia africana, sendo que todos os outros versaram sobre a astronomia indígena. Ainda em trabalhos com professores, a dissertação de Zanatti (2014) parte de uma analise documental para a construção de um gibi a ser utilizado em sala de aula aliado a uma sequência didática sobre temas de astronomia indígena e africana. A autora levou suas construções à prática através de um curso de formação de professores desenvolvido por ela.

Em trabalhos com alunos, temos o de Araujo, Verdeaux e Cardoso (2017) no qual os autores relatam a experiência de aplicar uma sequência de aulas com alunos de 1° ano do ensino médio sobre a astronomia indígena, com foco nas constelações, se utilizando do livro desenvolvido na dissertação de Araújo (2015) citada acima. E para finalizar a categoria, o artigo de Jafelice (2015), importante pesquisador da área, argumenta em defesa do ensino da Astronomia Cultural e da abordagem Antropológica no ensino regular. Apesar de não relatar uma experiência inédita de aplicação de alguma proposta didática, o autor cita inúmeras atividades que possibilitam o trabalho em diferentes níveis do ensino da Astronomia Cultural pelo viés da abordagem Antropológica, criando assim um excelente repertório de atividades para professores interessados no tema.

## Não Formal

Aqui temos três trabalhos que fizeram suas atividades em um ambiente não formal de ensino. Na dissertação de Soares (2017) o autor pesquisou, junto a planetários em Belo Horizonte e Medellín, como se dá a apropriação por parte dos professores dos conhecimentos da Astronomia Cultural, que foram apresentados em minicursos ou sessões dos planetários os quais versavam sobre conhecimentos astronômicos das etnias Guarani e Tayrona. Outro trabalho foi o de Domingos et al. (2017). Neste, apesar da astronomia cultural não aparecer como objeto central, os autores desenvolveram cursos e palestras para o público em geral dentro do campus de Caraguatatuba do IFSP. Nestas palestras, através do software Stellarium, os autores reservaram uma parte de suas atividades ao debate do como se deu os agrupamento estelares e as possibilidades criadas por outras culturas.

E por último temos em Janjacomo e Coelho (2016) uma pesquisa que analisou os saberes mobilizados na Sala itinerante de Astronomia Indígena - um subprojeto do posto em prática em escolas estaduais de Vitória - ES por alunos do

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PIBID da Universidade Federal do Espírito Santo. Nesta sala itinerante os mediadores ensinavam saberes da astronomia indígena brasileira e neste trabalho os autores fizeram entrevistas com três bolsistas para saber quais conhecimentos e como estes eram transmitidos.

## Análise Documental

Esta categoria, criada por nós, surgiu de trabalhos que possuem um outro olhar para a Astronomia Cultural. Aqui temos autores que se preocuparam em fazer uma pesquisa documental relacionada a Astronomia Cultural. Abrimos esta categoria com o artigo de Albuquerque et al (2011), citado algumas vezes neste trabalho. A pesquisa bibliográfica feita pelos autores resumiu a primeira década dos anos 2000 de publicações sobre Astronomia Cultural, que pode servir para um aproximação inicial a pesquisadores da área.

Em Rodrigues e Leite (2012) vemos uma ótima analise dos Livros Didáticos aprovados pelo PNLD da época. O trabalho buscou a Astronomia Cultural nestes livros e como era feita a abordagem da Astronomia Cultural. Já em Rodrigues e Leite (2016) as autoras investigaram as mudanças nos números de publicações, nas abordagens dos livros didáticos e no caderno do estado de São Paulo nos quatro anos posteriores à criação da Lei de 2008 que torna obrigatório o ensino da história e cultura indígena e africana nas escolas.

## Considerações Finais

Nossa pesquisa nos levou a 17 trabalhos que dispõem a Astronomia Cultural como tema central. Fazendo uma análise mais qualitativa das publicações, o gráfico abaixo mostra a evolução dos números de publicações desde o ano 2000 até os dias de hoje:

Gráfico 1 : Publicações por ano

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Podemos ver que a Astronomia cultural tem sido abordada pelo menos uma vez por ano por algum pesquisador na atual década, excetuando 2013, e que os 17 trabalhos publicados nos 7 anos desta década, com sua maior parte concentrada nos últimos 4 anos, já superam toda a primeira década deste século, o que mostra o crescimento da área de pesquisa. Neste trabalho não buscamos indícios do porquê deste aumento, mas a criação da Lei 11.645/08 pode ser uma forte influência deste motivo, tendo em vista que muitos artigos a citaram.

Imaginamos que o presente trabalho criou um repertório de publicações recentes da AC que pode auxiliar e contribuir com pesquisadores interessados na área da Astronomia Cultural, tal qual ajudou o nosso início de pesquisa visando a construção de uma formação crítica a partir da aprendizagem da Física

## Referências

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