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REFLEXÕES SOBRE A ORIGEM DO UNIVERSO NAS PERSPECTIVAS OCIDENTAL E INDÍGENA - CONSTRUINDO NOVAS NARRATIVAS ATRAVÉS DE UMA PROPOSTA DE ENSINO DECOLONIAL

Michelle Kênia Soares De Sena, Vivian Costa Ferreira, Beatriz Augusta Novais De Oliveira

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XXIII
Ano
2019
Data
29/01/2019
Linha de pesquisa
Equidade, Inclusão, Estudos Culturais E O Ensino De Física
Tipo
Pôster

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Texto completo

## REFLEXÕES SOBRE A ORIGEM DO UNIVERSO NAS PERSPECTIVAS OCIDENTAL E INDÍGENA - CONSTRUINDO NOVAS NARRATIVAS ATRAVÉS DE UMA PROPOSTA DE ENSINO DECOLONIAL

*Michelle Kênia Soares de Sena 1 , Vivian Costa Ferreira 1 , Beatriz Augusta Novais de Oliveira 1

1 Licenciandas do Instituto de Física da Universidade de São Paulo, michelle.sena@usp.br, vivian.ferreira@usp.br, beatriz.augusta.oliveira@usp.br

## Resumo

Este trabalho pretende apresentar o processo de elaboração aplicação e avaliação de uma intervenção didática de cunho problematizador/crítico que teve como público alvo cerca de 33 alunos do ensino médio da rede pública estadual da cidade de São Paulo. A construção da proposta tomou como norte uma gestão escolar democrática e mais participativa por parte dos alunos, advinda do processo de ocupação da escola em 2015. Fomos influenciadas pelo espírito de ruptura instaurado pelos estudantes e tínhamos enquanto licenciandas - assim como os secundaristas - uma inquietação, uma necessidade por respostas não óbvias e de construir novas narrativas. A partir dessa perspectiva, desenvolvemos uma proposta didática que se aproveitasse desse espírito crítico para questionar o modo de pensar a ciência e a sociedade, refletir sobre a ciência hegemônica ocidental e trazer uma perspectiva de respeito à outros saberes. Partimos da compreensão de que a ciência deve ser tratada como uma tradição entre muitas (FEYERABEND, 2010), ou seja, o conhecimento produzido por diferentes culturas merece tanto respeito e valor quanto a produzida pelas instituições ocidentais. As atividades de aprendizagem foram planejadas para um período de duas aulas em sequência e aplicadas em uma turma do terceiro ano do ensino médio. A proposta constituiu-se em atividades - em grupos e individuais - que questionaram as concepções iniciais sobre ciência que os estudantes tinham, provocando questionamentos e tencionando reflexões. Desse modo, a partir dos dados coletados ao longo das aulas, antes e após a nossa intervenção, procuramos avaliar o impacto das provocações e questionamentos por parte dos alunos a respeito dos préconceitos, julgamentos e concepções que eles tinham tanto da ciência quando da cultura de diferentes povos.

Palavras-chave : PIBID; etnoastronomia; educação decolonial.

## Introdução

O presente artigo trata da aplicação e avaliação de uma proposta didática feita por bolsistas do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (PIBID), numa parceria entre o Instituto de Física da Universidade de São Paulo e a Escola Estadual Dona Ana Rosa de Araújo, ambas localizadas na zona oeste de São Paulo. A elaboração e aplicação da proposta foram feitas pelo grupo de estudantes do instituto de Física, pelo professor da unidade escolar e pela professora coordenadora do projeto.

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A Escola Estadual Dona Rosa de Araújo, no ano de 2015, passou por um longo período de ocupação, onde cerca de duzentas escolas estavam ocupadas no estado de São Paulo, em luta contra um projeto do governo de reorganização escolar. No caso desta instituição, as/os secundaristas obtiveram alguns resultados, como uma gestão escolar mais democrática, que proporcionou maior participação de alunas e alunos no planejamento escolar e no uso de espaços dentro da escola, com a instauração de salas ambiente.

Levando em consideração o ambiente de participação e criticidade que se instaurou entre as/os estudantes, e que vem sendo mantido pelo professor em sala de aula desde então, decidimos por planejar e aplicar uma sequência que questionasse o modo de pensar a ciência e trouxesse uma perspectiva de respeito à outras culturas. Partindo do planejamento construído pelo professor e pelos estudantes, optamos por trabalhar com as turmas de 3º ano, sendo que, no período de aplicação da proposta, o tema abordado seria cosmologia.

Com isso, partimos da compreensão de que a ciência deve ser tratada como uma tradição entre muitas (FEYERABEND, 2010), ou seja, o conhecimento produzido por culturas diferentes da nossa, merece tanto respeito e valor quanto a produzida pelas instituições ocidentais. Para tanto, vemos que é necessário levantar o questionamento da produção científica atual, a fim de mostrar que o progresso científico, muitas vezes relacionado com o sucesso e superioridade da ciência hegemônica ocidental, teve um custo muito alto para a nossa sociedade.

'Muitos dos chamados 'problemas do Terceiro Mundo', tais como a fome, as doenças e a pobreza, parecem ter sido causados - e não amenizados - pelo avanço constante da Civilização Ocidental. O impacto espiritual da tendência é menos óbvio, mas não menos doloroso.' (FEYERABEND, 2010)

Consideramos ser necessário questionar essa superioridade, pois enxergamos que ela é usada como justificativa para que a chamada 'sociedade civilizada', aquela pautada em princípios eurocêntricos, exerça sua dominação sobre outras culturas, dominação essa carregada de violência e preconceitos. O conjunto de aulas planejado buscou questionar tais preconceitos e trazer uma perspectiva de respeito e visibilidade. Optamos, assim, levando em consideração o tema que iríamos abordar, questionar o modo como a cultura indígena é vista e apresentar recursos que possibilitem visibilidade e respeito à uma cultura que desde a colonização vem sendo violentamente aniquilada e inferiorizada perante o resto da sociedade.

'O mundo colonial é um mundo maniqueísta. Não basta ao colono limitar fisicamente, com o auxílio de sua polícia e de sua gendarmaria, o espaço do colonizado. Como que para ilustrar o caráter totalitário da exploração colonial, o colono faz do colonizado uma espécie de quinta essência do mal (...) O indígena é declarado impermeável à ética; ausente de valores e, também, a negação dos valores. É, ousemos confessá-lo, o inimigo dos valores. Neste sentido, é um mal absoluto. Elemento corrosivo que destrói tudo o que dele se aproxima, elemento deformador, que desfigura tudo que se refere à estética ou a moral, depositário de forças maléficas, instrumento inconsciente e irrecuperável de forças cegas.' (FANON, 1961).

Muitas das consequências dos avanços científicos em nossa sociedade trouxeram destruição e miséria para parte da população mundial, tornando

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questionável a noção de civilidade que temos de nossa própria cultura. Por acreditar em um ensino crítico, tomamos como referência uma educação decolonial, que encara a educação como ferramenta de emancipação e descolonização das mentes que foram forçadas a se enquadrar no sistema hegemônico eurocêntrico, assim como define Walsh:

'Um trabalho que procura desafiar e derrubar as estruturas sociais, políticas e epistêmicas da colonialidade - estruturas até agora permanentes -que mantêm padrões de poder enraizados na racialização, no conhecimento eurocêntrico e na inferiorização de alguns seres como menos humanos. É a isso que me refiro quando falo da de-colonialidade.' (WALSH, 2009).

Portanto, na intenção de dialogar com essa perspectiva da educação emancipadora, as aulas foram elaboradas de modo a causar reflexões sobre a percepção da origem e estrutura do universo, como admitimos conhecer hoje, segundo a ciência ocidental e, também, por outra cultura. Nomeamos uma dessas visões como ocidental científica, que é a forma tradicionalmente transmitida nas escolas da nossa cultura, e a visão da cosmologia indígena da etnia Mbyá. Desta forma nossos objetivos eram f ornecer elementos para que os alunos e alunas fossem capazes de refletir sobre respeito e tolerância diante de diferentes culturas e em sua própria cultura, com relação aos grupos sociais marginalizados, que fazem parte da nossa sociedade. Usamos como estratégia a reflexão sobre a construção de um conhecimento em uma sociedade, analisar nossa perspectiva eurocêntrica da ciência, pautada no etnocentrismo e expor uma outra possibilidade de entender os conhecimentos construídos, por intermédio da astronomia cultural.

## Desenvolvimento do conjunto de aulas

Para criação da intervenção didática, tivemos como limitante temático o planejamento anual realizado em conjunto com os estudantes, onde escolheram os conteúdos, sua organização e formas de avaliação. Portanto, de acordo com este planejamento, escolhemos trabalhar com as turmas do 3º ano do ensino médio, que no momento da aplicação da sequência didática desenvolveriam temas relacionados à cosmologia. De acordo com o perfil participativo na construção do planejamento didático dos estudantes, decidimos fazer um levantamento com a turma de quais assuntos relacionados à cosmologia se interessavam em conhecer mais, tendo como resultado grande interesse por origem do universo e buracos negros, assim escolhemos o tema origem do universo, por nos possibilitar trabalhar questões que vão além do conteúdo específico, e assim, nos permitir abordar assuntos em sala de aula que são necessários, mas que em muitos momentos considerados como secundários ou desnecessários por estudantes e professores.

Escolhemos a etnoastronomia, com o objetivo de levar uma reflexão sobre a percepção de origem e estrutura do universo de outra cultura, além de abordar como a cultura em que estamos inseridos aborda essa questão. Nomeamos uma dessas visões como ocidental científica, que é a forma tradicionalmente transmitida nas escolas da nossa cultura, e a visão da cosmologia indígena da etnia Mbyá.

A proposta foi dividida em duas aulas em sequência, na primeira aula realizamos uma atividade a ser feita em grupo pelos estudantes, onde deveriam descobrir se as frases apresentadas a eles fazem parte da cultura Guarani ou da Ocidental e justificar essas escolhas. O propósito era incentivá-los a duvidar das

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frases, questionar e refletir sobre cada uma delas a partir das concepções que eles já tinham sobre essas duas culturas. As frases foram criadas pelo grupo, com base nos estudos realizados através das bibliografias disponíveis sobre o Big Bang, e na tese de mestrado da antropóloga Flávia Melo da Cunha, que aborda a cosmologia indígena da etnia Mbyá residente no Brasil, especificamente no Sul do País.

A tese da antropóloga Flávia norteou nossa proposta didática e a fez se constituir da forma como foi apresentada, nos permitindo conhecer a cosmologia Guarani e a forma como essa sociedade vive, revelando aspectos sociais e culturais, fazendo com que fosse possível a criação da proposta didática em si, assim como as frases utilizadas para a primeira atividade. Nos estudos realizados sobre a cosmologia Guarani, percebemos que em alguns aspectos as cosmologias Guarani e Ocidental se conversam, tendo características e abordagens próximas, portanto, decidimos explorar essa proximidade ao criar as frases inspiradas nessas duas perspectivas da origem do universo.

Figura 1: Atividade realizada na primeira aula da sequência didática.

Na segunda aula usando como recurso uma apresentação em slides, dois vídeos e as respostas da atividade da primeira aula. Fizemos um panorama sobre a cosmologia na cultura Ocidental científica e na cultura Guarani. A turma já tinha conhecimento sobre os conteúdos sobre origem do universo na cultura ocidental, de acordo com o planejamento do professor, portanto não focamos na parte teórica sobre o Big Bang, somente na sua construção histórica e nos empenhamos na exposição da cosmologia Guarani, suas teorias sobre o surgimento do universo e a relação desse povo com sua cosmologia. Assim pudemos confrontar as relações dessas duas culturas com o planeta, natureza e sociedade.

Analisando as respostas dos estudantes na primeira atividade construímos um dos eixos da aula seguinte. Utilizando a forma como pensavam sobre as cosmologias das culturas apresentadas, mostramos um panorama das respostas dos grupos, indicando que em todos os grupos houve respostas que inverteram as culturas - lembramos que a dúvida foi provocada intencionalmente e que o resultado obtido das respostas era o esperado, e que não houve exposição dos integrantes do grupo de determinadas respostas, para que não houvesse a discussão do certo e errado entre os estudantes, e sim um quadro de respostas gerais - demonstrando o

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quanto as frases poderiam ser facilmente atribuídas a uma cultura a qual não pertencia.

Dos vídeos expostos um foi criado por nós, sendo o outro retirado da plataforma de vídeos YouTube. Ambos os vídeos tinham a intenção de mostrar algumas situações e consequências provocadas pelo avanço científico e tecnológico obtido em nossa sociedade, a nossa relação com o lugar onde vivemos, a utilização desgovernada dos recursos disponibilizados pela natureza e outros aspectos característicos da cultura ocidental. Levamos o questionamento dos custos ambientais e sociais desses avanços, provocando uma reflexão sobre a suposta superioridade que a nossa cultura parece acreditar ter sobre outras.

Ainda na segunda aula, os estudantes realizaram uma atividade individual, que consistia em um texto indígena nheengatu, da Amazônia, sobre a origem do mundo, onde deveriam responder se o texto corresponde a verdade sobre a origem do universo. Essa provocação era necessária dentro da nossa proposta didática, já que queríamos incentivar que os estudantes refletissem sobre a forma como pensamos e enfrentamos as diferenças culturais. Com essa pergunta, pretendíamos medir, através de uma análise das respostas, se os conceitos apresentados sobre uma cultura que não a dos próprios alunos, pôde incentivá-los a repensar sobre a nossa hegemonia, e assim promover o sentimento de respeito e tolerância diante de diferentes culturas e em nossa própria cultura, com relação aos grupos sociais marginalizados, que fazem parte da nossa sociedade.

## Resultados

As respostas das atividades de sete grupos foram analisadas, e alguns critérios foram criados, a fim de avaliar a proposta didática. Na primeira atividade onde os estudantes deveriam analisar frases das duas culturas - nenhum dos grupos atribuiu todas as frases apresentadas á sua respectiva cultura. A frase B, que se refere á cultura Guarani, foi em todos os grupos, apontada como da cultura ocidental. As outras três frases foram mais vezes atribuídas a cultura de qual não era originalmente, ou seja, as frases foram em todos os grupos, invertidas de sua cultura de origem. Nas frases C e D, 57,1% e 71,4% dos grupos, respectivamente, indicaram como guarani, assim como a frase A, da cultura Guarani foi indicada como sendo da Ocidental por 71,4% dos grupos. Percebemos que, as frases que os grupos consideravam mais sofisticadas foram atribuídas á cultura Ocidental, as que eram consideradas simples, com termos simples ou relacionados a elementos da natureza eram atribuídas cultura Guarani. Abaixo seguem algumas passagens de destaque das respostas dos grupos:

Sobre a frase A (Guarani):

'Ocidental, pois a cultura Guarani torna-se desprovida da sabedoria de planos cósmicos ou camadas celestes, baseando-se apenas no que a natureza lhes oferece.' (Grupo 3)

## Sobre a frase B (Guarani):

'Ocidental cristã, pois no livro sagrado (Bíblia) está escrito que em um passe de mágica ou em um instante tudo se fez luz (ou seja, em um instante a luz surgiu e as demais coisas após).' (Grupo 4)

Sobre a frase C (Ocidental):

'Guarani porque por eles serem índios, utilizam elementos da natureza para justificarem algumas respostas.' (Grupo 5)

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Sobre a frase D (Ocidental):

'Guarani, justamente por eles se basearem nos elementos da natureza cogitando apenas a existência de algo a qual nem sabem se existe.' (Grupo 1)

Analisando as citações feitas pelos grupos, percebemos qual eram as concepções que tinham sobre as duas culturas representadas pelas frases, e como as palavras que utilizamos ao escrevê-las causou uma inversão na escolha feita pelos grupos. A forma como se representa os povos indígenas em livros didáticos, livros infantis e meios de comunicação, nos permitiu presumir que os estudantes iriam inferiorizar a cosmologia indígena e a enaltecer a cosmologia ocidental. Os resultados obtidos na primeira atividade, portanto, reafirmou a necessidade de se discutir essas questões no meio escolar, tendo em vista a grande propagação de estereótipos relacionados a culturas não ocidentais, reproduzidos pela turma.

Na segunda atividade os estudantes responderam de forma individual, se o texto indígena nheengatu, da Amazônia, sobre a origem do mundo, corresponde a verdade sobre a origem do universo. Obtivemos 33 respostas, e foi necessário criar uma estratégia para avaliar se o objetivo proposto inicialmente foi alcançado. Se a resposta expressou que a lenda indígena pode representar a verdade sobre a origem do universo, mesmo que a aluna ou aluno não tenha expressamente dito desta forma, consideramos que o objetivo foi alcançado. Se a resposta demonstrou respeito em relação ao texto apresentado e a outras formas de pensar e outras culturas; se questionava a verdade, colocando-a como algo relativo; consideramos que o objetivo foi alcançado. Consideramos que o objetivo não havia sido atingido caso a resposta expressasse que existe uma verdade absoluta, se referindo a cultura ocidental, e que qualquer coisa diferente dessa verdade deve ser descartada. Caso a resposta fosse muito subjetiva, indicando que o aluno não compreendeu suficientemente a pergunta, também consideramos como objetivo não alcançado.

Das 33 respostas obtidas, 64,5% delas foram julgadas como positivas em relação ao objetivo proposto, 29% delas foram julgadas como negativas e 6,5% não foi possível analisar, por falta de desenvolvimento ou má estruturação dessas respostas. Abaixo seguem algumas passagens de destaque das respostas retiradas da avaliação:

'Essa pergunta não faz sentido. A verdade é relativa. Há diversas culturas indígenas e cada uma tem sua crença, criada a partir da sua concepção de universo. Para nossa cultura isso é uma inverdade, já que por muito tempo estuda-se a origem do universo e de acordo com a tecnologia humana o mundo criou-se a partir de uma explosão. Eu acredito que a verdade sobre o mundo vai muito além da capacidade do ser humano de deduzir histórias.' Estudante 15

'Não sei, pois cada um tem sua teoria sobre a origem do universo.' Estudante 12

'Sim, nessa tribo indígena é verdade, cada tribo e cada sociedade tem seu modo de pensar e todos nós temos que respeitar.' Estudante 22

'Não, não faz sentido surgir algo do nada, como pisar na água e aparecer terra, as coisas evoluem e passam por processos de crescimento, mas cada um crê na sua imaginação.' Estudante 1

'Não, pois nunca ouvi sobre essa história, além de tudo minha fé não condiz com o que a cultura deles crêem.' Estudante 2

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## Considerações finais

Ao realizar a análise dos dados das atividades, percebemos que em relação à primeira, os estudantes consideraram a cultura Guarani como desprovida de conhecimentos supostamente complexos sobre a origem do universo, assumindo assim, que as frases que estão estruturadas com uma escrita mais sofisticada e formal, são da cultura Ocidental, assim como demonstram algumas falas citadas nos resultados. Sobre a segunda atividade, que foi individual, conseguimos encontrar discursos que apontam uma mudança de comportamento por parte dos estudantes, já que 64,5% da turma se enquadrou no grupo que consideramos ter atingido o objetivo da proposta. A aproximação de uma cultura diferente da nossa, pode ter influenciado nas respostas da avaliação, onde a maioria dos estudantes mostraram respeito e tolerância em relação a cultura dos povos indígenas. Portanto, analisando as respostas dessa atividade nos moldes dos critérios estabelecidos, podemos considerar que grande parte da turma apresentou elementos em suas falas que nos permitiu considerar que atingiram o objetivo principal da proposta didática e considerar os resultados da mesma como favorável, servindo como incentivo para que futuras propostas sejam articuladas no mesmo sentido, promovendo reflexões através de uma educação que promova o respeito a diferenças culturais.

Essa proposta foi pensada e formulada no contexto particular de uma escola pública que passou por um processo de ocupação por estudantes secundaristas, onde aflorava a criticidade e nos influenciou enquanto estudantes de Licenciatura, a descobrir nosso papel como educadoras. Tínhamos - assim como os secundaristas uma inquietação, uma necessidade por respostas não óbvias e de construir novas narrativas. Continuamos com anseio por mudanças na percepção da escola em relação a estrutura do sistema-mundo atual; temos a esperança que a escola que exterioriza a criticidade e a não alienação existirá, mas não temos a ingenuidade de acreditar que ela virá sem a movimentação das pessoas inquietas, portanto, como professoras/educadoras, independente da área em que se encontra nossos estudos, acreditamos que devemos construir uma educação política, formadora e crítica, pois, 'quando o homem compreende sua realidade, pode levantar hipóteses sobre o desafio desta realidade e procurar soluções.' (FREIRE, 1979).

## Referências

MELLO, Flávia Cristina de. Aetcha nhanderukuery karai retarã: entre deuses e animais: xamanismo, parentesco e transformação entre os Chiripá e Mbyá Guarani. 2006. 150 f. Dissertação (Doutorado) - Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social, Centro de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2006.

MELLO, F., SOARES, J e KERBER, L. Astronomia e Educação Intercultural : Experiências no ensino de Astronomia e Ciências em escolas indígenas. In: Simpósio Nacional de Educação em Astronomia, 1., 2011, Rio de Janeiro.

MELLO, Flávia Cristina de. Astronomia e Cosmologia dos Guarani do Sul do Brasil . In: Ruggles C. (eds) Manual de Arqueoastronomia e Etnoastronomia. Springer, Nova Iorque, NY.

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FEYERABEND, Paul. Adeus à razão. Tradução de Vera Josceline. São Paulo: Editora Unesp, 2010.

FANON, Franz. Os condenados da Terra . Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira S.A, 1968.

WALSH, Catherine. Interculturalidade crítica e pedagogia decolonial: in-surgir, re-existir e re-viver . In. CANDAU, Vera Maria (Org.). Educação intercultural na América Latina: entre concepções, tensões e propostas. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2009. p. 12-43.

FREIRE, P. Pedagogia da autonomia : saberes necessários à prática educativa. 15ª ed. São Paulo: Paz e Terra, 2000.

MARTINS, Roberto de Andrade. O universo : Teorias sobre a sua origem e evolução. Disponível em: < http://www.ghtc.usp.br/Universo/cap01.html>. Acesso em: 20/07/2018.

BERTOLAMI, Orfeu. O Big Bang : a origem do Universo. Disponível em: <http://web.ist.utl.pt/orfeu.bertolami/BigBang\_2014.pdf >. Acesso em: 20/07/2018.

AFONSO, Germano Bruno. Astronomia indígena : Conhecimento dos indígenas da família tupi-guarani antecipou teorias do século XVII . Grupo de Estudos Pindorama . Disponível em: <http://www.pindorama.art.br/file/17046historiaguarani.pdf> . Acesso em: 20/07/2018.

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