APRESENTAÇÃO INTERDISCIPLINAR DE UM RELÓGIO SOLAR NUM ESPAÇO NÃO FORMAL DE ENSINO
Guilherme Bellon Brito, Aldieris Braz Amorim Caprini
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXIII
- Ano
- 2019
- Data
- 29/01/2019
- Linha de pesquisa
- Divulgação Científica, Educação Não Formal E Informal
- Tipo
- Pôster
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Texto completo
## APRESENTAÇÃO INTERDISCIPLINAR DE UM RELÓGIO SOLAR NUM ESPAÇO NÃO FORMAL DE ENSINO
## Guilherme Bellon Brito¹, Aldieris Braz Amorim Caprini²
1 Instituto Federal do Espírito Santo - IFES, guilherme\_brito@live.com 2 Instituto Federal do Espírito Santo - IFES, acaprini@ifes.edu.br
## Resumo
Este trabalho é resultado de um projeto de extensão realizado por estudantes do curso de Licenciatura em Física do Instituto Federal do Espírito Santo - campus Cariacica em parceria com a Prefeitura Municipal de Vitória-ES em alguns dos espaços não formais de ensino mantidos pela prefeitura. Nestes espaços, os futuros professores atuaram como mediadores de ciência, atendendo ao público geral, recebendo grupos agendados, principalmente escolas de nível básico, trabalhando os principais temas da Física e áreas afins, promovendo a divulgação científica nesses espaços e realizando outras atividades, como é o caso da Apresentação Interdisciplinar do Relógio Solar.
A partir da vivência através dos equipamentos da Praça da Ciência de Vitória, questiona-se de qual maneira essa vivência contribui para o processo de ensino-aprendizagem. Entretanto, quando esse questionamento é feito em relação a um espaço não formal de ensino como o apresentado, tudo converge para que o mediador sensibilize o "aprendiz" a ter uma visão mais holística dos experimentos, das situações e do mundo, contribuindo para a formação um indivíduo mais crítico de sua realidade e que consiga superar as barreiras da fragmentação do conhecimento que se enfrenta na maioria dos sistemas formais de ensino. Assim, o presente trabalho relata as experiências e concepções na elaboração e execução desta apresentação interdisciplinar.
Palavras-chave : interdisciplinaridade, espaço não formal, ensino de ciências.
## Introdução
Diante da necessidade de aprimoramento da formação inicial de professores, a coordenadoria do curso de Licenciatura em Física do Instituto Federal do Espírito Santo (IFES) -campus Cariacica reuniu esforços com a Prefeitura Municipal de Vitória-ES numa parceria para realização do projeto de extensão 'Ensinando e Aprendendo nos Espaços Não Formais: Escola da Ciência -Física e Praça da Ciência de Vitória' entre agosto de 2016 e julho de 2017. Este projeto teve por finalidade, proporcionar aos futuros professores de Física a experiência de vivência em espaços não formais de ensino, onde os mesmos atuavam como mediadores de ciência no atendimento ao público e para grupos agendados (principalmente escolas de nível básico), realizando apresentações científicas sobre o espaço e os equipamentos/experimentos desses espaços.
Os espaços disponibilizados pela Prefeitura de Vitória são extremamente ricos de experimentos em que se pode trabalhar diversos conhecimentos científicos.
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Neste trabalho destacamos a Praça da Ciência de Vitória (Praça), que é um espaço aberto ao público durante todo o ano e completamente ao ar livre, com visitação anual média de 35 mil pessoas. A Praça conta com cerca de 16 equipamentos em seu acervo permanente em que os visitantes podem, como costumamos dizer, experimentar a ciência, em especial, a Física. Disso, podemos questionar se essa vivência contribui efetivamente para a assimilação e/ou reforço de conhecimentos.
## Espaços Não Formais de Ensino e a Interdisciplinaridade
Os espaços não formais de ensino são ambientes em que o conhecimento é transmitido, assimilado e construído de forma não linear e não hierárquica, diferente de como ocorre na educação formal. Entretanto, na educação não formal há sempre a intencionalidade de se ensinar algo por parte daquele que se identifica como mediador do conhecimento, diferenciando-se da educação informal, que é quando o conhecimento é transmitido, assimilado e construído de forma não intencional, tanto do emissor quanto do ouvinte (GOHN, 2009; MARANDINO, 2003; SMITH, 2001).
No caso da Praça , por exemplo, caracterizado como um espaço de ensino não formal, os grupos (escolas do ensino básico) que agendam visitação escolhem roteiros de apresentação, em que o mediador de ciência da Praça trabalhará com o grupo temas específicos selecionados pelos professor(es) regente(s) a partir dos equipamentos que cada roteiro contempla. Dessa forma, explicita-se a intencionalidade do ensino deixando de lado certos pontos que caracterizam a educação formal, a começar pelo ambiente, ferramentas e abordagens de estudo. Assim, um roteiro que visa trabalhar Astronomia, terá equipamentos como o Sistema Solar em Escala, Refletor Parabólico, Relógio Solar etc. Entretanto, alguns desses equipamentos também podem ser contemplados por outros roteiros, como o roteiro de Energias que também envolve Refletor Parabólico ou de Mecânica, quando falamos dos movimentos de rotação dos planetas no Sistema Solar em Escala.
Podemos ver, enfim, conforme afirma Olga Pombo (2004 aput THIESEN, 2008), que a ciência exige um olhar transversal, que perpassa por diferentes campos do conhecimento para que tenhamos uma visão mais holística das coisas; desde um equipamento de divulgação científica às tecnologias atuais mais avançadas. Thiesen (2008) afirma ainda que
'[...] quanto mais interdisciplinar for o trabalho docente, quanto maiores forem as relações conceituais estabelecidas entre as diferentes ciências, quanto mais problematizantes, estimuladores, desafiantes e dialéticos forem os métodos de ensino, maior será a possibilidade de apreensão do mundo pelos sujeitos que aprendem.'
Assim, realizar abordagens interdisciplinares pode ser visto como uma necessidade das sociedades contemporâneas, em que temos diferentes relações e dinâmicas do que há 10, 20 anos atrás. Os espaços não formais de ensino mostram-se como facilitadores desta abordagem, pela sua própria concepção de ensino não seriado e/ou hierarquizado.
## Metodologia
Ao longo do projeto de extensão do Ifes na Praça, inúmeras atividades foram desenvolvidas pelos mediadores de ciência e, entre elas, tivemos as apresentações interdisciplinares do Relógio Solar. O Relógio Solar da Praça da Ciência é do tipo
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equatorial, em que seu maior ponto indica o Sul geográfico e o marcador das horas é paralelo à linha do Equador.
Figura 01: Relógio Solar da Praça da Ciência de Vitória
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Essas apresentações ocorreram no período de férias escolares, em que a Praça recebe maior média diária de visitação. O público presente durante as apresentações foi de faixa etária diversificada, variando do infanto-juvenil ao público adulto. A atividade proposta visa abordar 10 áreas do conhecimento, mostrando como essas podem se relacionar ao Relógio Solar e sensibilizar o público a enxergar este equipamento de diferentes formas, o que pode ser expandido também para tudo aquilo que está presente no cotidiano. Tendo esse objetivo, não houve um grande aprofundamento em cada área abordada, focando na relação entre esses conhecimentos e na relação desses conhecimentos com o Relógio Solar. As áreas relacionadas nesta apresentação foram: Biologia, Filosofia, Física, Geografia, História, Linguagem, Matemática, Tecnologia, Química e Sociologia.
Sempre de forma dialogada, agregando à apresentação as falas do público em relação às áreas propostas, iniciamos a apresentação fazendo alguns questionamentos filosóficos como "O que é o tempo?", 'O que significa 'medir o tempo'?' e 'Como nós dependemos dessas marcação? Ou será que não dependemos dela?'. A cada questionamento o público se mostrava atento e reflexivo e, estimulados pelo mediador, respondiam segundo suas perspectivas. Os mais jovens com toda a inocência e os mais experientes com bastante cautela. Embalados por esses questionamentos, refizemos o último questionamento trazendo a discussão dentro da visão sociológica, do tipo "o quão dependente do tempo é a nossa sociedade?", dando exemplos cotidianos de marcação de horários, determinação de períodos para execução de certas atividades. Neste momento, alguns pais/avós comentavam com seus filhos/netos sobre 'o tempo de estudar', 'o tempo de assistir desenho, de brincar', o que começou gerar maior envolvimento entre os participantes e o mediador. Comentamos também que o "tempo" passou por mudanças de concepção com o passar dos séculos, mudando de acordo com cada sociedade.
Seguindo nessa linha, abordamos um pouco da história do Relógio Solar, comentando sobre registos de marcação da sombra em XXIII A.C. na China e 1500 A.C. no Egito. Assim, destacamos que o Relógio Solar da Praça é o resultado de uma evolução de projetos que foram alterados desde as primeiras marcações das horas.
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Destacamos também que a evolução do Relógio Solar deu-se a partir de necessidades geográficas, por exemplo. Disso começamos a expor o funcionamento do Relógio Solar, a peculiaridade de marcar a real hora local, variando de acordo como posicionamento terrestre em relação ao Sol e a inclinação do eixo terrestre, principalmente. Para que houvesse maior interação, pedimos que os participantes se aproximassem do Relógio Solar e vissem/tocassem as marcações de tempo e a sombra do gnomon (haste que possibilita a projeção da sombra para marcação do tempo).
Ao tocar no assunto das variações em relação a marcação do tempo, dialogamos sobre a questão da informação e da linguagem que há por trás de cada um dos códigos presentes no marcador do Relógio Solar. Iniciamos esse diálogo perguntando: 'Como nos comunicamos? O que utilizamos para enviar uma mensagem?' Nesse momento mostramos no Relógio Solar que horas este estava marcando, o que aquela marcação nos trazia de informação etc. Foi possível, inclusive, comentar sobre tipos de comunicação que funcionam a base de intervalos de tempo.
Não poderíamos deixar de falar também sobre a existência de toda uma matemática envolvida no Relógio Solar e perguntamos se havia alguma matemática no Relógio Solar. Logo após a pergunta, o público infantil respondeu quase que majoritariamente que 'não tem matemática no Relógio da Praça'. Então decidimos dar um destaque para a 'matemática por trás das coisas' no cotidiano, como nas tecnologias que utilizamos, nas construções, no posicionamento do relógio, ajuste das estruturas de suporte do relógio, inclinação do gnomon etc. Um adulto comentou, inclusive, que nunca tinha refletido sobre a existência de uma matemática por trás do relógio, mesmo já tendo visitado a Praça em outros momentos. Assim, questionamos se agora ele e os demais conseguiam ver essa relação da matemática com o Relógio Solar e estes se mostraram mais confiantes em dizer que sim.
Neste momento mudamos o olhar perguntando as possíveis causas que levaram o homem a medir o tempo e porque utilizar o sol. Destacamos que, mesmo sem ter provas que a Terra gira em torno do Sol, as sociedades tinham noção que a presença do sol era algo constante e separava o 'dia' da 'noite'. Assim, utilizar a sombra de objetos foi provavelmente a forma mais natural. E partimos para a biologia, questionando da mesma forma como foi feito com a matemática Obviamente que, dos mais novos, a resposta não veio de forma espontânea, mas discutimos que o sol tem importância para a marcação do tempo e que este é essencial para existência da vida como a conhecemos atualmente, então a biologia também tem uma dependência do sol assim como a marcação das horas. Comentamos brevemente que a química, semelhante a biologia, depende do sol para que hajam algumas reações, alguns fenômenos, em especial a reação química que ocorre na pele humana na produção de vitamina D, assim essa ciência também tem alguma relação com o Relógio Solar.
Por fim, destacamos para o público que tudo isso que foi dialogado serviu para que hoje tivéssemos inúmeras outras tecnologias, novas formas de medição e até novas relações sociais. Enfatizamos que o Relógio Solar é uma construção de vários conhecimentos, não somente Física ou Astronomia, mas todos juntos; assim como todas as coisas que estão no nosso cotidiano, como carros, casas ou uma simples caneta.
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## Conclusões
A abordagem interdisciplinar certamente contribui para uma visão holística daquele que inicia seu contato com o conhecimento como também reforça concepções e conceitos daquele que atua como mediador do conhecimento e daqueles que pararam de estudar há certo tempo, como vimos no relato apresentado durante a apresentação. Vemos que, ao elaborar essa apresentação, muitos links foram criados e muitos outros poderiam ser destacados entre os conhecimentos abordados e destes com o Relógio Solar. Além disso, muitas outras sequências de apresentação poderiam ter sido trabalhadas. Neste caso, acreditamos que cada mediador/professor deve encontrar sua forma de apropriar-se desses conteúdos e que possibilite uma melhor assimilação de outras pessoas. A exemplo disso, a sequência utilizada na apresentação interdisciplinar do Relógio Solar foi a que melhor se adequou ao mediador que realizou esse momento de troca e ao público participante. (Vide Apêndice I).
A vivência através deste equipamento e muitos outros disponíveis em espaços como a Praça da Ciência de Vitória mostra que é possível criar múltiplas relações com diferentes conhecimentos. Cada equipamento pode ser compreendido como um "ponto de interdisciplinaridade" e, como afirma Thiesen (2008), pode superar a visão fragmentada nos processos de produção e socialização do conhecimento. Algumas áreas do conhecimento que foram abordadas, foram apresentadas de forma tão intrínseca, como a própria Física, que nos mostram o quão dependente do principal transmissor um saber se torna, destacando a necessidade de capacitar os futuros professores para que atinjam o aprendizado independente dos contextos e das dificuldades enfrentadas (LIBÂNEO, 2013, p. 254).
De modo geral, o público atingiu níveis de interação e receptividade muito bons para a proposta interdisciplinar e dentro do esperado no contexto da Praça, enquanto que para professores e futuros professores, a experiência com projetos e formas interdisciplinares de trabalho colaboram para a atuação em sala de aula uma vez que ocorre também uma mudança e o aprimoramento do professor ao realizar essas ações; reforçando assim a ideia de formar professores capazes de atuar para além do conteúdo, contextualizando o que é estudado em sala de aula e possibilitando uma formação crítica e cidadã. (LIRA, 2016).
Por fim, destacamos que desenvolver atividades como essa pode ser algo desafiador e que requer bastante preparo. No nosso caso, foram quase 10 meses de projeto de extensão, conhecendo o espaço e os equipamentos para que fosse proposta uma apresentação interdisciplinar do relógio solar. Entretanto, o retorno se mostrou positivo para todos os envolvidos e trouxe grande contribuição para a divulgação cientifica e os espaços não formais.
## Agradecimentos
Agradecemos à Coordenação da Praça da Ciência de Vitória pelo suporte dado na elaboração da sequência utilizada na apresentação interdisciplinar do Relógio Solar e por todas as outras contribuições no período de realização do projeto de extensão "Ensinando e Aprendendo em Espaços Não Formais: Escola da Ciência - Física e Praça da Ciência de Vitória".
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## Referencias
GOHN, Maria da Glória. Educação Não-Formal, Educador (a) Social e Projetos Sociais de Inclusão Social . Rio de Janeiro, Meta Avaliação, v. 1, n. 1, p. 28-43, jan./abr., 2009.
LIBÂNEO, José Carlos. Didática . São Paulo: Cortez Editora, 2013.
LIRA, Bruno Carneiro. Práticas Pedagógicas Para o Século XXI: A sociointeração digital e o humanismo ético . Petrópolis: Vozes, 2016.
MARANDINO, Martha. et al . AEducação Não Formal e a Divulgação Científica: o Que Pensa Quem Faz? . In : ENCONTRO NACIONAL DE PESQUISA EM EDUCAÇÃO EM CIÊNCIAS, 4, 2003, Bauru. Anais eletrônicos: Apresentações Orais. Disponível em: <http://www.fep.if.usp.br/~profis/arquivos/ivenpec/Arquivos/ Orais/ORAL009.pdf>. Acesso em: 27 de março de 2017.
THIESEN, Juares Silva. Ainterdisciplinaridade como um movimento articulador no processo ensino-aprendizagem . Revista Brasileira de Educação, Rio de Janeiro, v. 13, n. 39, sep./dez. 2008.
SMITH, M. K. What Is Non-Formal Education? . 2001. The Encyclopaedia of Informal Education. Disponível em: <http://infed.org/mobi/what-is-non-formal-education/>. Aceso em: 06 de Abril de 2017.
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## APÊNDICE I
Figura 2: Esquema da sequência utilizada, bem como as áreas do conhecimento abordadas ao longo da apresentação interdisciplinar do Relógio Solar.
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Texto extraído automaticamente do PDF: podem existir erros de conversão, especialmente em fórmulas, tabelas e figuras.