OS TRÊS MOMENTOS PEDAGÓGICOS COMO ORGANIZADOR DE UMA ATIVIDADE SOBRE O EFEITO ESTUFA: ANÁLISE DE UMA EXPERIÊNCIA DE ESTÁGIO SUPERVISIONADO
Thais Gonçalves Alexandre, Juliana Raw, Flávia Polati, Valéria Dias
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXIII
- Ano
- 2019
- Data
- 29/01/2019
- Linha de pesquisa
- Formação, Práticas E Desenvolvimento Profissional Docente
- Tipo
- Pôster
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Texto completo
## OS TRÊS MOMENTOS PEDAGÓGICOS COMO ORGANIZADOR DE UMA ATIVIDADE SOBRE O EFEITO ESTUFA: ANÁLISE DE UMA EXPERIÊNCIA DE ESTÁGIO SUPERVISIONADO
Thais Gonçalves Alexandre 1 , Juliana Raw 2 , Flávia Polati³, Valéria Dias 4
1 IFUSP/Licenciatura em Física/thais.alexandre@usp.br
2 IFUSP/Departamento de Física Geral/juliana.raw@usp.br
3 IFUSP/Programa de Pós-Graduação Interunidades/flavia.polati.ferreira@usp.br
4 IFUSP/Departamento de Física Aplicada/vsdias@if.usp.br
## Resumo
Apresentamos o relato de uma atividade de regência no estágio supervisionado vinculado à disciplina Práticas de Ensino de Física do curso Licenciatura em Física da Universidade de São Paulo. A atividade, organizada por meio dos três momentos pedagógicos freirianos, teve como tema o efeito estufa e foi desenvolvida por duas licenciandas dando seguimento ao planejamento da professora supervisora de estágio que ensinava sobre a física do calor para alunos do primeiro ano do ensino médio em uma escola federal. Foram utilizados duas reportagens midiáticas e um questionário no momento inicial de problematização, foi dada uma aula expositiva e promovido um debate entre céticos e aquecimentistas com análise e produção de textos que serviram como momento de organização e aplicação do conhecimento. Os resultados obtidos, do ponto de vista das estagiárias, mostram que o apoio obtido com a parceria efetiva entre a professora responsável pela disciplina e a professora da educação básica (para planejamento, aplicação e reflexão sobre as atividades de estágio) proporcionaram a construção de conhecimentos unindo teoria e prática docente, evidenciando a importância do diálogo entre a universidade e a escola de educação básica para a formação de novos professores.
Palavras-chave : Três momentos pedagógicos, efeito estufa, estágio supervisionado, formação de professores, parceria universidade-escola.
## Introdução
Neste trabalho é apresentado o relato de uma experiência desenvolvida no contexto do estágio supervisionado atrelado à disciplina Práticas de Ensino de Física do curso de licenciatura em Física do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (IFUSP) realizada por duas licenciandas. O objetivo é explorar a importância de um estágio supervisionado para a formação docente do ponto de vista do professor em formação. Pretende-se também discutir o impacto do trabalho conjunto entre universidade e escola, mostrando que há a necessidade de uma responsabilidade compartilhada entre estes dois ambientes para a formação de um professor.
A experiência foi desenvolvida junto a três turmas de alunos do 1º ano do Ensino Médio, no Instituto Federal de São Paulo, em 2017, e o tema central foi o Efeito Estufa. Esse tema já estava previsto no planejamento da professora supervisora, e assim a proposta deu sequência nas aulas regulares das turmas.
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27 de janeiro a 01 de fevereiro de 2019
Procurou-se abordar os aspectos físicos envolvidos no efeito estufa, além de discutir a relação que há entre esse fenômeno e as discussões que envolvem o aquecimento global. Dessa maneira, foi oferecido aos alunos não apenas a aquisição de novos conhecimentos, mas também a possibilidade de desenvolver um senso crítico com relação às informações que eles obtêm na mídia.
Buscando desenvolver as atividades de maneira problematizadora, utilizou-se como metodologia os três momentos pedagógicos que são baseados na educação problematizadora de Paulo Freire. Esses momentos são nomeados como, Problematização Inicial(PI), a Organização do Conhecimento(AC) e Aplicação do Conhecimento(AC). Na Problematização inicial, a intenção é levantar os conceitos que os estudantes já possuem, não os fornecer de imediato, mas incentivar o interesse pela obtenção de mais conhecimento sobre o assunto. A Organização do conhecimento é o momento em que o professor traz para os alunos as novas informações, para que juntamente com o conhecimento inicial o aluno consiga se aprofundar no assunto. Neste momento são estudadas as definições e conceitos sob o auxílio do professor e podem ser aplicadas atividades para que o aluno possa compreender os assuntos selecionados. Na Aplicação do conhecimento, o professor retoma os assuntos iniciais, e traz a conclusão para que o aluno possa sintetizar as ideias transmitidas. (DELIZOICOV; ANGOTTI; PERNAMBUCO, 2011; MUENCHEN, 2010; MUENCHEN; DELIZOICOV, 2012; FREIRE,1997).
A proposta implementada conteve atividades de pesquisas sobre materiais disponíveis nas grandes mídias e em publicações científicas sobre o efeito estufa e o aquecimento global, visando subsidiar a construção de argumentos para um debate entre Aquecimentistas e Céticos , desenvolvido em sala de aula. Para avaliar o que os estudantes aprenderam com as atividades, foi proposta a análise de uma notícia que falasse sobre aquecimento global ou efeito estufa.
## Metodologia
A proposta foi desenvolvida no contexto da disciplina de Práticas de Ensino de Física, responsável por 100 horas de estágio obrigatório e supervisionado, realizado durante um ano. Para a realização deste estágio duas licenciandas fizeram visitas regulares a escola a cada quinze dias. Dentre as atividades de estágios foram incluídas regências, viabilizadas por meio de parceria pré-estabelecida entre a professora supervisora da escola de ensino médio e a equipe da universidade, composta pela professora da disciplina e por monitores educadores.
As primeiras visitas do estágio permitiram às licenciandas estabelecer um vínculo inicial com as turmas e tomar conhecimento a respeito da dinâmica das aulas. Depois do período de observação, por meio de conversas com a professora responsável pelas turmas, definiu-se que dentre o conteúdo desenvolvido com os alunos durante o semestre (física do calor), a primeira atividade de regência das licenciandas teria o tema efeito estufa.
Dentro desse tema, objetivou-se construir com os alunos, não apenas o conhecimento da teoria envolvida no fenômeno, mas também um debate sobre o aquecimento global, visando mostrar que é necessário ser mais crítico com relação às informações recebidas cotidianamente através das grandes mídias. E para
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propiciar aos alunos um momento de aplicação desse conhecimento, foi proposta a análise de reportagens para que, após passarem pela experiência de organização do conhecimento com construção de novos conhecimentos teóricos, pudessem mostrar o que aprenderam.
Para a organização didático-pedagógica das atividades dessa proposta, optou-se pelos três momentos pedagógicos, visto que as licenciandas já haviam tido contato com esse método através das aulas da disciplina de vínculo. Além disso, tinha-se a intenção de propor o desenvolvimento de uma situação problematizadora, e essa metodologia mostrou-se oportuna.
Com a definição do tema e da metodologia as licenciandas passaram a estruturar as atividades em conjunto com a professora supervisora, apoiadas pela equipe da universidade. A seguir encontra-se um quadro com as divisões das atividades conforme os três momentos pedagógicos:
Quadro 01: Organização da atividade
É importante compreender que os três momentos não impõem teoricamente
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uma ordem cronológica, de forma que podem se constituir nas diferentes atividades de uma proposta com movimentos de idas e vindas.
## Desenvolvimento da proposta
A proposta foi desenvolvida em dois dias. No primeiro dia foi aplicada a atividade de PI, objetivando obter as informações que os alunos possuíam sobre o efeito estufa. A atividade se resumia em dois trechos de notícias retiradas de jornais, que tratavam o efeito estufa e suas consequências, seguidas de duas perguntas feitas sobre o fenômeno, ' Você já ouviu falar em aquecimento global? Você acredita que tal fenômeno pode influenciar o cotidiano? Quais possíveis causas você imagina que o aquecimento global possui? ' e a outra ' Você já ouviu falar em Efeito Estufa? Você o consideraria um efeito natural e/ou artificial? Prejudicial e/ou benéfico? ' .
Os alunos receberam essa atividade e depois foram informados sobre as atividades previstas para a aula seguinte na qual fariam um debate sobre o aquecimento global. Os alunos foram alertados que deveriam se dividir em número igual para defender a posição de Aquecimentista, argumentando que o aquecimento global é um problema que é intensificado pela ação humana; ou a posição de Cético, defendendo que o aquecimento global é um processo natural e que não sofre interferência da ação humana.
A divisão dos grupos foi feita nesta primeira aula para que os alunos pudessem se preparar, ou seja, pudessem formular argumentos com uma base sólida para usarem no debate. Para subsidiar a construção de argumentos os alunos foram munidos de um roteiro e foram orientados pelas estagiárias e pela professora a pesquisarem argumentos sobre as causas do aquecimento global. A partir dessa pesquisa, eles deveriam fazer uma redação com aproximadamente 500 palavras, na qual deveriam se posicionar pessoalmente sobre os argumentos em prol ou contra o aquecimento global ser um fenômeno intensificado pela ação humana. Essa redação deveria ser entregue na aula seguinte, quando ocorreria o debate. Os alunos também foram instruídos a procurar fontes confiáveis, e usar essas referências no texto escrito e durante o debate. A princípio toda a atividade do debate foi enquadrada dentro da OC, visto que intencionava-se principalmente ensiná-los sobre a formulação de argumentos.
A segundo dia iniciou com uma aula teórica. Em um primeiro momento, foi retomado com os alunos o que eles responderam na atividade de PI, e assim foram introduzidos os conceitos físicos presentes no processo do efeito estufa, principalmente radiação e interação da radiação com a atmosfera, explicando os conceitos que os alunos demonstraram não conhecer. Visando fazer uma conexão com o debate, na segunda parte da explicação, falou-se sobre os gases estufa, suas concentrações e influências na temperatura do planeta. Feito isso deu-se início ao debate.
Os alunos tiveram 10 minutos para se reunirem com os colegas e formularem argumentos para o debate. Os alunos foram informados que um grupo começaria apresentando um argumento, tendo disponível 3 minutos de fala, depois o outro grupo apresentaria a resposta, havendo posteriormente a réplica e a tréplica, cada uma dessas com duração de três minutos. Assim houve o desenvolvimento do debate, com as estagiárias e a professora mediando a atividade e ajudando os
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alunos a desenvolverem seus argumentos de forma clara e embasada nas pesquisas que haviam feito.
Para finalizar a aplicação da proposta, foi feita uma conclusão juntamente com os alunos sobre o debate realizado, ressaltando que não importava muito o lado que foi defendido pelo aluno naquela discussão, mas sim a necessidade de ter conhecimento sólido para argumentar e sustentar uma posição, ou seja, saber argumentar a partir de fundamentos obtidos em fontes confiáveis.
## Análise e Discussão
As licenciandas observaram que todos os alunos apresentaram conhecimentos prévios sobre aquecimento global, possivelmente advindos da grande mídia, pois suas consequências foram largamente enumeradas, como aumento do nível do mar, desaparecimento de praias e ilhas, descongelamento das geleiras, ondas de calor e impactos na fauna e flora de locais vulneráveis. Porém, as causas do aquecimento global, assim como a identificação adicional do efeito estufa como um processo natural e necessário à vida foram mais raras na atividade de PI.
Com relação a postura dos alunos durante o debate, pôde-se observar que a princípio eles não estavam muito seguros sobre como organizar e apresentar os argumentos. Foi importante para as futuras professoras perceber que após a orientação que receberam os alunos passaram a ter melhor desenvoltura na atividade. Outro ponto interessante é que a princípio a atividade de debate foi planejada pelas licenciandas para o momento de OC, mas com o desenrolar das atividades na sala de aula, puderam observar que também seria possível identificar como AC, visto que os alunos mostraram o que entenderam sobre o efeito estufa, além de demonstrar que conseguiram entender como aplicar uma argumentação bem fundamentada dentro de um debate. Assim, as redações que tinham uma intenção de preparar os alunos para o debate, serviram também como instrumento de avaliação da atividade.
Do ponto de vista das licenciandas foi de essencial importância o diálogo entre os ambientes escola e universidade, configurado nesta situação através do vínculo pré-estabelecido entre a professora da escola de educação básica e professora da universidade. Nesse caso, os canais de comunicação entre universidade e escola, criados e sustentados pelos professores e monitores, forneceram apoio às professoras em formação que reconheceram a importância de não serem as únicas pontes entre esses dois ambientes e haver uma 'comunicação entre entre os formadores universitários e o docente do estabelecimento que acolhem os estagiários' (AROEIRA,2014, p.117-119). Além disso, as licenciandas ressaltaram a abertura ao diálogo da professora da escola, que se dispôs a discutir todas as atividades propostas.
Portanto, as licenciandas se encontraram em uma situação em que se sentiram apoiadas o suficiente para viverem a liberdade e a segurança de exercitar ações da futura profissão, mostrando que é possível formar professores na contramão da ideia do professor vetor do conhecimento, ou seja, é possível formar um professor que não seja concebido como um consumidor de teorias ou como apenas transmissor de conhecimento.
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## Conclusão
A experiência de estágio relatada, do ponto de vista das estagiárias, pôde contribuir para a construção de saberes docentes, graças sobretudo a superação da distância entre o professor universitário e o professor da educação básica.
A possibilidade de exercitar a organização didático pedagógica da atividade de regência com os três momentos pedagógicos foi um grande aprendizado metodológico para as futuras professoras, visto que não possuíam conhecimentos concretos sobre planejamento de aula antes de cursar a disciplina. Com essa atividade aprenderam a valorizar os conhecimentos teóricos advindos das disciplinas, mas também compreenderam a importância dos conhecimentos práticos advindos da sala de aula: a relevância dos conhecimentos prévios dos alunos, das dificuldades que eles possuem perante uma atividade concreta, da necessidade de adaptar o planejamento inicial ao momento da aula.
Outro aprendizado importante foi de combate ao isolamento docente. A valorização da troca de ideias entre a dupla, com as professoras e com os monitores educadores atrelados a disciplina, proporcionou a autocrítica e o crescimento através da reflexão sobre os erros e imprevistos proporcionados pelas atividades.
Evidencia-se assim a importância de um estágio supervisionado em que o docente em formação é apoiado efetivamente pelas duas instituições com as quais ele se vincula, a importância do trabalho colaborativo, da parceria entre a universidade e a escola de educação básica para sustentação do processo de formação, que pressupõe o reconhecimento de todos os envolvidos como agentes de formação e em formação. Esperamos que esse trabalho contribua para o reconhecimento da escola de educação básica e do professor supervisor de estágio como co-formadores dos novos professores, valorizando os conhecimentos que são construídos na prática docente.
## Referências
AROEIRA, K. P. . Estágio supervisionado e possibilidades para uma formação com vínculos colaborativos entre a universidade e a escola.. In: Maria Isabel de Almeida; Selma Garrido Pimenta. (Org.). Estágios supervisionados na formação docente.. 1ed.São Paulo: Cortez, 2014, v. , p. 113-151.
DELIZOICOV, D; ANGOTTI J. A. P.; PERNAMBUCO, M. M. C. A. Ensino de Ciências: Fundamentos e Métodos. 4 ed. São Paulo: Cortez, 2011.
FRANCO, M. A. S. Didática e pedagogia: da teoria de ensino à teoria da formação. In: FRANCO, A. S.; PIMENTA, S. G. (Org.). Didática: embates contemporâneos. São Paulo: Loyola, 2010. p. 75-100.
FREIRE, P. Pedagogia da autonomia. São Paulo: Paz e Terra, 1997.
MUENCHEN, C.; DELIZOICOV, D. A construção de um processo didático-pedagógico dialógico: aspectos epistemológicos. Revista Ensaio: Belo Horizonte, v. 14,n. 3, p.199-215, 2012.
MUENCHEN, C. A disseminação dos três momentos pedagógicos: um estudo sobre práticas docentes na região de Santa Maria/RS. 2009. 272 p. Tese
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(Doutorado em Educação) - Centro de Educação, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis,2010.
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