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O DESEMPENHO DOS LICENCIANDOS EM FÍSICA NO ENADE: O IMPACTO DO TRABALHO

Lucas Gualberto Pereira, André Machado Rodrigues

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XXIII
Ano
2019
Data
29/01/2019
Linha de pesquisa
Formação, Práticas E Desenvolvimento Profissional Docente
Tipo
Pôster

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Texto completo

## O DESEMPENHO DOS LICENCIANDOS EM FÍSICA NO ENADE: O IMPACTO DO TRABALHO

## Lucas Gualberto¹, André Rodrigues²

1 Instituto de Física da Universidade de São Paulo, lucas.gualberto.pereira@usp.br

2 Instituto de Física da Universidade de São Paulo, rodrigues.am83@gmail.com

## Resumo

Conciliar a vida universitária com o trabalho não é uma tarefa simples e pode ter consequências em diversos aspectos da vida dos estudantes. O papel do trabalho e seus impactos na vida universitária aparecem na literatura especializada de maneira ambivalente, pois se por um lado, o trabalho ocupa tempo de estudo e pode sobrecarregá-lo, por outro lado, ele pode ajudar a antecipar diversas experiências da vida profissional e contribuir para um enriquecimento da formação. É necessário olhar melhor para a formação de professores e o que significa ser um bom professor de Física. Para fomentar essa discussão, esse trabalho visa discutir os efeitos e impactos do trabalho no desempenho no Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade) dos estudantes no curso de Licenciatura em Física. Há um impacto significativo no desempenho na prova? O trabalho durante o curso de graduação realmente atrapalha o desempenho acadêmico dos estudantes? Para isso foi utilizado um modelo de regressão multinível para aferir qual o real impacto do trabalho frente às demais variáveis explicativas de diferentes níveis no desempenho na prova. Esse estudo concluiu que efetivamente o trabalho tem um impacto no desempenho dos licenciados em Física na prova do Enade, embora ele não seja o principal fator explicativo.

Palavras-chave : Desempenho, trabalho, Enade, modelo multinível.

## Introdução

Com o processo de democratização do ensino em qualquer que seja seu nível, as universidades brasileiras ao longo das últimas décadas vem sofrendo mudanças para atender estas demandas, como expansão do número de universidades no setor público e no privado, aumento no número de matrículas e adequação para receber uma clientela mais diversificada (VARGAS; PAULA, 2013; BARROS, 2015; CALDERÓN, 2000; AFONSO; RAMOS; GARCIA, 2012; CARDOSO; SAMPAIO, 1994).

Este processo permitiu a entrada de classes populares nas universidades, fazendo com que se tenham novos perfis de estudantes, como o trabalhadorestudante e o estudante-trabalhador (VARGAS; PAULA, 2013). As autoras trazem dados apresentados pelo Ministério da Educação - MEC - através do Exame Nacional de Cursos, conhecido como Provão, realizado em 2003, na qual 70% dos alunos exerciam algum tipo de profissão e que para 80% dos alunos concluintes em 2003 e 2004 'a aquisição de formação profissional é a principal contribuição do curso, ou seja, eles vêm para a educação superior em busca de uma profissão'.

O estudo de Cardoso e Sampaio (1994) consiste em uma análise feita com 2.263 estudantes universitários de diversos cursos e áreas de graduação, com o objetivo de verificar diferenças entre aqueles estudantes que trabalham frente aos que não trabalham. Além disso, realizam uma comparação com o trabalho de Rabello (1973) que também faz um estudo sobre o perfil dos estudantes

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universitários no Brasil. Esse trabalho nos permite ver o perfil dos estudantes universitários desde a década de 70 mostrado por Rabello até a década de 90 com o trabalho de Cardoso e Sampaio. Nessa visão em perspectiva, podemos perguntar se hoje em dia esses resultados se mantêm iguais, e como isso se reflete nas licenciaturas, em especial na Física.

Cardoso e Sampaio (1994) ainda apontam que não podemos limitar a dizer que os motivos de os estudantes trabalharem estejam ligados somente a razões socioeconômicos. Na maioria dos casos, os estudantes mesmos trabalhando não ganham total autonomia frente a família e a tão desejada independência financeira. Segundo as autoras, estes estudantes trabalham, não por necessidade, mas sim porque querem. Cabe aqui o questionamento se esses achados continuam válidos ainda hoje. Parece que para os cursos de licenciaturas isso não continua sendo válido, pois os cursos recebem estudantes das classes populares e de renda muito mais baixa, quando comparado com outros cursos como, por exemplo, engenharia (LOUZANO et al., 2010). Esse aspecto impacta diretamente na necessidade ou não de trabalho ao longo do curso de graduação. Por fim, Cardoso e Sampaio (1994) apontam que o trabalho desenvolvido pelos estudantes ao longo da graduação muitas vezes não tem relação com curso e acaba atrapalhando o desempenho dos estudantes.

Abrantes (2012) em seu estudo revela que para os estudantes o trabalho aparece como uma relação dicotômica, pois estar inserido no mercado de trabalho possibilita suprir suas necessidades e ter uma vida melhor, entretanto conciliar estudo e trabalho não é uma tarefa fácil, pois eles mesmos apontam que o trabalho dificulta os estudos e por isso seus rendimentos no curso não são tão bons. As implicações do trabalho ao longo do curso de graduação e seus efeitos no rendimento acadêmico dos licenciandos ainda é um fator pouco discutido na literatura nacional. Na literatura internacional, há inconsistência e até contradições consideráveis sobre o impacto do trabalho na experiência do estudante, como mostra Riggert et al. (2006) em seu trabalho de revisão da literatura, na qual alguns estudos mostram que o emprego estudantil afetou negativamente o desempenho acadêmico enquanto que outros estudos concluíram que o impacto do trabalho era neutro ou benéfico, a mesma contradição aparece entre empregos no campus, onde alguns estudos dizem que o trabalho no campus aproxima mais o aluno da faculdade, enquanto outros estudos apontam relação negativa.

Vivemos um intenso debate acadêmico nacional sobre a formação de professores para a educação Básica e temos um consenso de que existe déficit de professores, principalmente em algumas áreas e regiões, as políticas implementadas são inadequadas para a formação destes e o investimento é insuficiente, além do grande impacto que estes têm no processo de desenvolver uma educação de qualidade (KUENZER, 2012). A autora Kuenzer (2012) nos traz um quadro da situação do professorado na educação básica e mostra através dos dados do INEP de 2009 que apenas 25,7% dos professores que lecionam Física no ensino médio são formados na área.

Dados de 2013 mostram que há um déficit de 170.000 docentes de Matemática, Física e Química; que 408.000 docentes estão matriculados em curso de graduação, mas só 6.700 em cursos na área de Física e astronomia; e destes, aproximadamente metade está cursando licenciatura a distância (KUENZER, 2012, p.636).

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Apesar de o déficit ser alto e a tendência seja de aumentar, a autora argumenta que apenas a ampliação de oferta dos cursos de licenciaturas não garante o atendimento das necessidades da Educação Básica, visto que a maioria dos licenciados formados não atuam como docentes. Um dos fatores para isso acontecer é que muitos estudantes optam por tirar a licenciatura como complemento do Bacharel devido a proporcionar um trabalho caso o bacharel não proporcione. Porém talvez a maior justificativa para os licenciandos não trabalharem como docentes se deve a baixa valorização da carreira e o pouco reconhecimento social além de 'baixos salários, precárias condições de trabalho, precário nível de profissionalização, alunos cada vez menos comprometidos, baixo reconhecimento, alto nível de estresse e crescente intensificação das tarefas' (KUENZER, 2012, p.637).

É necessário olhar melhor para a formação de professores e o que significa ser um bom professor de Física. Para fomentar essa discussão, nesse trabalho será discutido os efeitos e impactos do trabalho no desempenho no Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade) dos estudantes no curso de Licenciatura em Física. Há um impacto significativo? O trabalho durante o curso de graduação realmente atrapalha o desempenho acadêmico?

## Metodologia

## Enade

O Enade é um dos indicadores de qualidade brasileiro inserido no Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (SINAES) cujo objetivo é avaliar as instituições de Ensino Superior (IES), os cursos e o desempenho dos alunos concluintes. A prova é realizada anualmente desde o ano de 2004, sendo obrigatória para a rede privada e federal de ensino superior e facultativo para as redes estaduais e municipais. Cada curso é avaliado de três em três anos, os cursos de licenciatura foram avaliados em 2005, 2008, 2011 e 2014. O instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP) organiza a prova e disponibiliza em seu site os microdados de cada aluno de forma anônima, relatórios sínteses contendo a prova, gabaritos e os questionários contextuais.

Para essa pesquisa foi utilizado os microdados do Enade de 2014, a prova possui o total de 40 questões - 35 são de múltipla escolha e 5 questões dissertativas -que visam averiguar as habilidades e competências que os estudantes adquiriram duram a graduação. Essas questões compõem 3 grupos: Formação geral, componente específico da Física e componente específico da Pedagogia. Além disso, foi utilizado os dados disponibilizados no questionário contextual respondido pelos estudantes, que tem por objetivo subsidiar a construção do perfil socioeconômico do estudante e obter uma apreciação quanto ao seu processo formativo.

Neste trabalho estamos querendo analisar o desempenho dos estudantes, para isso utilizaremos o score clássico fornecido através da nota geral do Enade, onde é calculado a partir da média ponderada entre as componentes formação geral e conhecimentos específicos, que representa respectivamente, 25% e 75% da nota geral. O componente da formação geral é composto por 10 questões, sendo que 8 são objetivas de múltipla escolha e 2 são discursivas, com pesos para objetivas e discursivas de 60% e 40%, respectivamente. Já o componente conhecimentos

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específicos é composto por 27 questões objetivas de múltipla escolha e 3 questões discursivas, com pesos para objetivas e discursivas de 85% e 15%, respectivamente.

## Variáveis do questionário

O questionário respondido pelos estudantes contém 81 questões de múltiplas escolhas, sendo que 68 questões são para todos os cursos e mais 13 questões para estudantes que cursam alguma licenciatura. Dentre todas questões, nos concentramos na questão: Qual alternativa a seguir melhor descreve sua situação de trabalho (exceto estágio e bolsas)? (a) Não estou trabalhando (b) Trabalho eventualmente (c) Trabalho até 20 horas semanais (d) Trabalho de 21 a 39 horas semanais (e) Trabalho 40 horas semanais ou mais.

Esta questão respondida pelos estudantes é a questão central da nossa pesquisa sobre o impacto do trabalho no desempenho dos estudantes no curso de licenciatura em Física, e por isso decidimos transformar essa questão em binária, agrupando as alternativas (b), (c), (d) e (e) em uma única alternativa, formando uma alternativa que chamaremos de Trabalha e engloba todo tipo de trabalho realizado pelos estudantes, exceto estágio e bolsas, e compararemos com os estudantes que não trabalham.

Assim como a variável Trabalha, as demais variáveis utilizadas nesta pesquisa foram transformadas em variáveis dummy pelo programa estatístico e 1 estão descritas abaixo:

Sexo: A variável sexo está dividida em dois grupos, sendo estes masculino e feminino.

Instituição: A variável instituição está dividida em várias categorias, com isso resolvemos transformá-la em binária - instituições pública e privada - para melhor tratamento dos dados.

Experiência no magistério: Uma das maneiras de se averiguar que tipo de trabalho os estudantes dos cursos de licenciatura realizam é através da experiência na área, ou seja, no magistério. A questão que permite entender é: Você já tem experiência no magistério, qual a forma de contrato? Assinale a alternativa mais relevante para você. (a) Sim, em escola pública, como concursado (b) Sim, em escola pública, com contrato temporário (não concursado) (c) Sim, em escola privada comunitária como contratado (d) Sim, em escola privada confessional como contratado (e) Sim, em escola privada particular como contratado (f) Sim, em cursos livres (idiomas, informática, aulas particulares), como contratado (g) Sim, estágio remunerado (h) Sim, como voluntário (i) Não tenho experiência no magistério. Para melhor análise, as alternativas foram separadas em dois grupos, sendo aqueles que responderam sim, independente do tipo de experiência no magistério e os que responderam não.

Renda: De acordo com a literatura existem muitos trabalhos que apontam uma correlação entre escolarização e fator socioeconômico, sendo este o principal determinante do desempenho escolar (VARGAS; PAULA, 2013). No questionário a

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questão está descrita da seguinte maneira: Qual a renda total de sua família, incluindo seus rendimentos? (a) Até 1,5 salário mínimo (até R$ 1.086,00) (b) De 1,5 2 a 3 salários mínimos (R$ 1.086,00 a R$ 2.172,00) (c) De 3 a 4,5 salários mínimos (R$ 2.172,00 a R$ 3.258,00) (d) De 4,5 a 6 salários mínimos (R$ 3.258,00 a R$ 4.344,00) (e) De 6 a 10 salários mínimos (R$ 4.344,00 a R$ 7.240,00) (f) De 10 a 30 salários mínimos (R$ 7.240,00 a R$ 21.720,00) (g) Acima de 30 salários mínimos (mais de R$ 21.720,00). Optamos por agrupar as alternativas (e), (f) e (g) devido ao número baixo de famílias com mais de 6 salários mínimos, assim ficando com 5 grupos, sendo estes, até 1,5 salário mínimo (SM), entre 1,5 e 3 SM, entre 3 e 4,5 SM, entre 4,5 e 6 SM e os que têm mais de 6 SM como renda total familiar.

Escolaridade da mãe: Outro fator que aparece fortemente na literatura é a escolaridade da mãe (KALMIJN, 1994). A questão aparece da seguinte maneira: Até que etapa de escolarização sua mãe concluiu? (a) Nenhuma (b) Ensino Fundamental: 1ª ao 5ª ano (1ª a 4ª série) (c) Ensino Fundamental: 6ª ao 9ª ano (5ª a 8ª série) (d) Ensino Médio (e) Ensino Superior - Graduação (f) Pós-graduação. No nosso estudo dividimos em 3 grupos, sendo estes, nenhuma escolarização, possui escolarização básica, seja nível fundamental ou médio e escolarização nível superior, seja graduação ou pós.

Região: Para melhor compreensão do Brasil como um todo, utilizamos a variável região para verificar as particularidades de cada região, sendo esta dividida em Norte, Nordeste, Sul, Sudeste e Centro-Oeste.

Taxa de trabalho: é a porcentagem de estudantes que trabalha por instituição.

## Modelo multinível

Na área da educação, modelos de regressão são frequentemente utilizados com a finalidade de aferir a variável resposta - desempenho escolar - dadas as variáveis explicativas como, por exemplo, características dos alunos, instituições, professores. Essas variáveis explicativas são de diferentes níveis hierárquicos, pois o sistema educacional é organizado em níveis, estudantil, institucional, estadual, etc.

De acordo com Hox (1995), indivíduos são influenciados pelo contexto e grupos sociais ao qual estão inseridos, porém ao mesmo tempo esses grupos são influenciados pelos indivíduos que o compõe. Nessa perspectiva, na nossa pesquisa utilizaremos dois níveis, sendo variáveis relacionadas a nível individual -características do estudante - e a nível de grupo, institucional. Para isso utilizaremos o modelo multinível que tem a finalidade de aferir a variável resposta dada a interação entre elementos explicativos de diferentes níveis e evitar o erro do tipo I.

Considerando nossa amostra, os alunos licenciandos em Física - são identificados pelo índice i - estão agrupados em instituições - identificados pelo índice j. A modelagem multínivel está representada na figura 1, na qual Yij representa a variável resposta do aluno i, pertencente a instituição j para p variáveis.

Figura 1: equação do modelo de regressão multinível, Fonte: Hox (1995)

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Na equação acima o intercepto e o coeficiente de inclinação são representados respectivamente por γ00 e γp0. O termo eij representa o residual do nível do indivíduo e o U0j o residual do grupo instituição. Xpij e Zqj representam as variáveis do nível do indivíduo e do grupo instituição, respectivamente. Por ultimo, Upj representa o termo randômico da equação, ou seja, os residuais das inclinações das variáveis explicativas de nível do indivíduo (HOX, 1995).

## Amostra

Na amostra foi considerado somente aqueles que realizaram a prova e responderam o questionário, totalizando 2.698 estudantes do curso de Licenciatura em Física em todo o Brasil. Na tabela 1 identificamos facilmente que a 67,0% dos estudantes trabalham, mostrando assim que mais da metade dos estudantes exercem algum tipo de trabalho.

Tabela 1: Descrição da amostra utilizada nesse trabalho

*Desvio Padrão da média

Outro dado que chama a atenção é que 88,4% dos estudantes estão ligados a instituições públicas, isso mostra que o curso tem baixa oferta no setor privado. Ainda na tabela 1, observa-se que mais da metade dos licenciados em Física possuem uma renda familiar total menor que 3 SM.

## Análise do modelo multinível

Os resultados para os modelos nulo e completo são apresentados na tabela 2. O resultado da média dos estudantes foi γ0,00 = 41,38, e as estimativas de efeito randômico mostraram variação estatisticamente significativa do desempenho entre alunos (σ² = 160,07) e em todas instituições (τ00 = 41,08). O coeficiente de correlação intra-classe (ICC) indicaram que 20,4% da variação da pontuação ocorreu devido a instituição.

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No modelo completo também apresentado na tabela 2, identificamos uma forte distinção de gênero, dado que o homem tem 3,19 pontos a mais na prova em relação a mulher, o que da aproximadamente 12% em relação ao intercepto. Outro fator que tem forte impacto no desempenho do estudante é a Renda familiar total, na qual se percebe que a progressão da renda tem forte relação com o desempenho do estudante na prova, como por exemplo, ter 6 SM lhe permite ter 6,21 pontos a mais que aquele que possui renda de no máximo 1,5 SM, o que da aproximadamente 23,4% em relação ao intercepto, evidenciando a disparidade apontada na literatura anteriormente. Porém se percebe no nosso modelo que o maior fator ligado ao desempenho está relacionado a região ao qual o estudante vive, onde por exemplo, morar na região Sudeste lhe permite ter um ganho de 9,18 pontos na prova em relação a morar na região Norte, o que dá aproximadamente 34,6%, evidenciando a disparidade entre regiões.

Tabela 2: Dados do modelo de regressão multinível

*p-value<0.05 **p-value<0.01 ***p-value<0.001

No modelo completo podemos identificar que o trabalho tem impacto no desempenho dos licenciandos em Física, embora se comparado com as demais variáveis citadas acima não seja o principal fator explicativo. Efetivamente, quem trabalha tem um desempenho menor de 2,35 pontos na prova, o que da aproximadamente 8,9%, mas se esse estudante tiver em uma instituição na qual a taxa de estudantes que trabalham seja alta, isso é amenizado em 1,6 pontos na prova. Isso pode evidenciar que a instituição que tem muitos estudantes que trabalham pode estar mais preparada para lidar com o aluno trabalhador.

## Considerações finais

Esse estudo concluiu que efetivamente o trabalho tem um impacto no desempenho dos licenciados em Física na prova do Enade, embora ele não seja o principal fator explicativo. No entanto, cabe ressaltar que o Enade, em seus

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questionários, não obteve informações sobre a qualidade desse trabalho desenvolvido pelos estudantes, tendo só como fonte de uma possível especulação dessa qualidade do trabalho a pergunta se ele possui experiência no magistério.

Contudo, essa pesquisa permite ver como diferentes fatores impactam na qualidade do futuro professor de Física, na qual percebemos que os maiores contribuintes para isso são o fator socioeconômico e a região do país na qual estudam. Para garantir maior qualidade e equidade na formação de futuros professores de Física, precisamos se voltar para as politicas públicas, principalmente aquelas relacionadas a permanência estudantil, na qual as instituições possam estar preparadas para receber estes estudantes trabalhadores.

## Referências

ABRANTES, N. N. F. de. (2012). Trabalho e estudo: uma conciliação desafiante. IV Fórum Internacional de Pedagogia , Paraíba, V. 1, Campina Grande: REALIZE Editora.

AFONSO, M. da R., RAMOS, M. da G. G., GARCIA, T. E. M. Movimentos da Expansão do Ensino Superior na Universidade Brasileira. XXX CONGRESS OF THE LATIN AMERICAN STUDIES ASSOCIATION , California, 2012.

BARROS, A. da S. X., Expansão da educação superior no Brasil: Limites e possibilidades. Educação & Sociedade , Campinas, v. 36, n. 131, p. 361-390, 2015.

CALDERON, A. I. Universidades mercantis: a institucionalização do mercado universitário em questão. São Paulo Perspec ., São Paulo, v.14, n.1, p.61-72, mar. 2000. Disponível em <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci\_arttext&pid=S010288392000000100007&lng=pt&nrm=iso>. acessos em 27 jan. 2018. http://dx.doi.org/10.1590/S0102-88392000000100007.

CARDOSO, R. C. L., & SAMPAIO, H. Estudantes universitários e o trabalho. Revista Brasileira de Ciências Sociais , V.9, n.26, p.30-49, 1994.

HOX, J. J. Applied multilevel analysis . TT-Publikaties , Amsterdam, 1995.

KALMIJN, M., Mother's Occupational Status and Children's Schooling. American Sociological Review , Washington, v. 59, p. 257-275, 1994.

KUENZER, A. Z. TEMAS DE PEDAGOGIA - diálogos entre didática e currículo José Carlos Libâneo & Nilda Alves, São Paulo: Cortez, 2012. p.633-649

LOUZANO, P., ROCHA, V., MORICONI, G. M., & OLIVEIRA, R. P. de. Quem quer ser professor? Atratividade, seleção e formação do docente no Brasil. Estudos em Avaliação Educacional , V.21, n.47, p.543-568. 2010. https://doi.org/10.18222/eae214720102463.

RABELLO, O. Universidade e trabalho: perspectivas. Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais . Campinas: UNICAMP. 1973.

RIGGERT, S. C., BOYLE, M., PETROSKO, J. M., ASH, D., & RUDE-PARKINS, C. Student Employment and Higher Education: Empiricism and Contradiction. Review of Educational Research ,V.76 n.1, p. 63-92. 2006. https://doi.org/10.3102/0034654307600106.

VARGAS, H. M, PAULA, M de F. C de., A inclusão do estudante-trabalhador e do trabalhador-estudante na educação superior: desafio público a ser enfrentado.

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Revista da Avaliação da Educação Superior , Sorocaba, V. 18, n. 2, p. 459-485, 2013.

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Texto extraído automaticamente do PDF: podem existir erros de conversão, especialmente em fórmulas, tabelas e figuras.