A Ficção Científica no Ensino de Física
Anelise Santos Da Silva, Mairon Melo Machado
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXIII
- Ano
- 2019
- Data
- 29/01/2019
- Linha de pesquisa
- Materiais, Métodos E Estratégias De Ensino De Física
- Tipo
- Pôster
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Texto completo
## A FICÇÃO CIENTÍFICA NO ENSINO DE FÍSICA
*Anelise Santos da Silva , Mairon Melo Machado 1 2
- 1 Instituto Federal Farroupilha - Campus São Borja, anelisesantos779@gmail.com
## Resumo
Fruto de um Trabalho de Conclusão do Curso de Licenciatura em Física, desenvolvido no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Farroupilha Campus São Borja, este é um projeto que promove a valorização da Ciência em sala de aula, através do uso da Ficção Científica. Por meio de estudo bibliográfico, elaboração de material didático e criação de um blog, a utilização da Ficção Científica é considerada como forma de recurso didático para o ensinoaprendizagem de Física. Diversas atividades são propostas para professores de Ciências, principalmente de Física, utilizarem os recursos livros, filmes, séries televisivas, desenhos animados e revistas em quadrinhos, entre outros, de forma a despertar o interesse dos jovens nesta área de estudo. Desta forma, foi possível constatar que os mais variados tipos de obras de Ficção Científica possuem um potencial bastante diversificado em relação a suas possibilidades didáticas.
Palavras-chave : ensino de física, ficção científica, materiais didáticos, iffar são borja
## 1 Introdução
A Ficção Científica, quando utilizada como subsídio no ensino de Física e aliada a outros gêneros cinematográficos como fantasia, ação, etc, pode facilitar o processo de aprendizagem desta e de outras disciplinas, oportunizando ao estudante uma forma diferente e atraente de compreender os saberes científicos. No momento em que o aluno começa a ter uma percepção de ciência mais próxima do seu cotidiano, ele passa a ter um interesse maior em aprendê-la.
Uma das ferramentas auxiliares para o ensino da Física utilizando a Ficção Científica é o Cinema. A Sétima Arte se tornou tão natural, e foi difundida de forma tão rápida, capaz de influenciar na vida cotidiana das pessoas devido as suas diversas formas de interação com a sociedade, sendo esta constituída por gêneros diversos, que abordam questões relevantes em diferentes meios de comunicação e, assim, dando visibilidade para várias temáticas do mundo atual.
De acordo com Cunha e Giordan (2008)
[...] A história do cinema pode ser contada a partir da busca do homem em reproduzir a imagem em movimento. Há 12 mil anos, o homem das cavernas já desenhava animais com oito patas na tentativa de representar o movimento. Muitos séculos se passaram até que o alemão Athanasius Kircher (século XVIII) inventasse a 'lanterna mágica' - uma caixa composta
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de uma fonte de luz e lentes que enviavam imagens fixas para tela -, invento considerado como verdadeiro precursor do cinema.
O ato de assistir a um filme engloba, por exemplo, conhecer lugares, identificar-se com personagens, deparar-se com opiniões e visões diferentes sobre determinados assuntos, surgimento de diversos sentimentos, entre outros. Nesta perspectiva, o Cinema constitui-se como um modo de expressão cultural.
Por sua vez, a Televisão está presente no dia a dia das pessoas devido ao fácil acesso que se tem a mesma, assim como a Internet, que na atualidade exerce grande influência, principalmente sobre o público jovem. Estes meios constituem-se como formas de difusão do conhecimento, que permitem a popularização de séries, propiciando a divulgação de temas relevantes, e algumas vezes polêmicos, permitindo sua ampla discussão.
Diante o exposto, é perceptível a importância da troca de informações e da aquisição rápida e variada de conhecimento que o Cinema, a Televisão e a Internet proporcionam ao cotidiano das pessoas, em especial aos jovens, os quais têm acesso às mais variadas informações através destes meios. Devido ao dinamismo destas mídias, percebe-se que os jovens têm mais interesse nelas do que em formas tradicionais de aprendizagem.
No ensino de Física este problema se torna ainda maior, pelo fato de que aulas tradicionais são pouco atraentes para alunos que usam tecnologia durante a maior parte do tempo. Bittencout (2004) diz que 'O primeiro passo é o professor conhecer as preferências dos alunos e identificar as experiências deles como espectadores' (p. 375). Ou seja, é necessário estabelecer uma relação entre atividades do cotidiano e atividades de sala de aula.
A discussão acerca da mudança de paradigma das maneiras convencionais de ensino tem se desenvolvido nos últimos anos. Umas das possibilidades mais populares atualmente é a inserção das Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC's) e a utilização das Mídias à prática pedagógica, as quais possibilitam tornar a aprendizagem mais eficaz por meio da aproximação do professor com a realidade dos alunos, que exploram desde muito cedo o universo tecnológico.
São inúmeras e indispensáveis as possibilidades que a implementação de mídias tecnológicas no processo de ensino-aprendizagem proporciona, pois os alunos têm a sua disposição diversos aparatos interativos e diferentes mídias que trazem consigo informações de todos os tipos.
Desta forma, o presente trabalho propõe a utilização do gênero de Ficção Científica, presente em livros, filmes, séries televisivas, desenhos animados e revistas em quadrinhos, como recurso didático nas aulas de Física, com o objetivo de facilitar a aprendizagem e despertar o interesse dos alunos pelos conteúdos abordados de forma lúdica.
Utiliza-se uma análise bibliográfica sobre os estudos feitos com relação a temática da Ficção Científica, pois através desta metodologia, será possível despertar o interesse dos alunos pela Ciência por meio do uso de recursos que, a princípio, são vistos como produtos de entretenimento. Como por exemplo, a partir da franquia 'Star Wars', o poder de levitação de mestre Ioda, é possível abordar as ações dos campos eletromagnéticos; as viagens ultra rápidas da Millenium Falcon podem ser usadas para entender a Relatividade; as séries de CSI (Crime Scene Investigation) podem servir como base para discutir Química Forense, bem como
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cenas de acidentes de carro nestes mesmos seriados podem ser utilizadas para ensinar Leis de Newton.
## 2 Fundamentação Teórica
Isaac Asimov e Arthur C. Clarke foram considerados grandes escritores da Ficção Científica. A maioria de seus livros mais populares sobre Ciência explicam conceitos científicos de uma forma histórica, voltando no tempo o mais longe possível, quando a ciência ainda estava nos primeiros estágios.
Para Asimov (1979), a Ficção Científica é 'um instrumento em potencial, inspirador e útil, para o ensino', tanto que o mesmo elaborou uma coletânea chamada 'Para onde vamos?', com contos de Ficção Científica, escritos por diversos autores, os quais sugere para utilização como forma de ensino. Asimov faz comentários ao final de cada história - são dezessete ao todo -, abordando os pontos científicos apresentados em cada uma delas, a sua validade ou, algumas vezes, explica os erros cometidos. Ainda sugere questões e perguntas destinadas a despertar a curiosidade do leitor, e que se apresentam como possíveis formas de discutir sobre ciência.
De modo semelhante, Arthur C. Clarke teve seu conto Maelstron II (1980) analisado, do ponto de vista da Mecânica, por Martin-Diaz et. al (1992) e validado como uma estratégia motivadora para o ensino de Física e Química. Arthur possui diversas obras de divulgação científica e de Ficção Científica, principalmente livros e contos, mas também adaptações cinematográficas. Diante disto, a inserção da Literatura no ensino de Ciências se torna uma discussão plausível, pois se tem um rico arcabouço de obras literárias de Ficção Científica. Para Zanetic (2006, p. 43) 'o ensino de Física não pode prescindir da presença da história da Física, da Filosofia da Ciência e de sua ligação com outras áreas da cultura como a Literatura, Letras de Música, Cinema, Teatro, etc'. Este autor defende que, do meio literário, se deve aproveitar
não apenas os grandes escritores da literatura universal que em suas obras utilizam conceitos e métodos das ciências e da física em particular, os escritores com veia científica, como também várias obras escritas por cientistas com forte sabor literário, os cientistas com veia literária. (ZANETIC, 2006, p.43)
É possível perceber que a utilização destes recursos na sala de aula já vem sendo difundida há anos, e tem sido mais incentivada atualmente devido ao aspecto tecnológico da temática. As escolas, em maioria, possuem instalações de aparelhos de TV, vídeos, telas de projeção, etc, que propiciam o emprego desta metodologia.
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Entretanto, o aspecto tecnológico não garante a utilização adequada do recurso, mas a viabiliza de maneira eficiente. Por isso, a busca por novas possibilidades de ensino, visando uma educação melhor, é algo contínuo na esfera educacional. Muitas pesquisas são desenvolvidas neste âmbito, e a temática da utilização da Ficção Científica continua sendo bastante discutida. Como por exemplo, Piassi e Pietrocola (2006) desenvolveram estudos sobre a utilização da Ficção Científica em sala de aula através de um levantamento bibliográfico de autores que abordam as várias possibilidades do uso desta, como SOUTHWORTH, 1987; MARTIN-DIAZ , 1992; NAUMAN, 1994; FREUDENRICH, 2000; SHAW, 2000; BRAKE, 2003; DARK, 2005.
Tenório et al. (2014) relataram que as séries televisivas também se apresentam como possíveis recursos pedagógicos para abordar conteúdos de Ciências, mediante o emprego de episódios em sala de aula, a fim de criar uma ponte entre o aprendizado escolar e situações cotidianas.
Os filmes, séries, livros e histórias em quadrinhos de Super Heróis se encaixam nestas propostas de ensino, e são essencialmente produzidos dentro do gênero de Fantasia. No entanto, estas obras, normalmente, perpassam pelos vários gêneros existentes e, é claro, carregam elementos de Ficção Científica. Por exemplo, em seu livro intitulado 'The Physics of Superheroes', James Kakalios (2005) baseia-se no átomo, Homem de Ferro, X-Men, o Homem-Formiga e o Hulk, entre muitos outros, para cobrir temas tão diversos como Eletromagnetismo, Mecânica Quântica, Teoria das Cordas e Termodinâmica.
- O desafio de se trabalhar com este tipo de mídia, que para o público em geral, é encarado como entretenimento, é fazer com que o aluno desenvolva um 'olhar mais crítico, seletivo e exigente quanto às suas escolhas. Ainda, quanto à sua posição de espectador, formar uma opinião crítica e argumentada a respeito do que a mídia produz como um todo e como elemento específico da sua educação informal.' (CUNHA e GIORDAN, 2009).
- É claro que é levado em consideração que o papel original da Ficção Científica é 'brincar' com a Ciência. Porém, como relata Asimov (1979),
Em muitas histórias de ficção científica um princípio científico é deliberadamente destorcido, com a finalidade de tornar possível um determinado enredo. É uma realização que pode ser conseguida com perícia por um autor versado em ciência ou de modo canhestro por um outro menos versado na matéria. Em ambos os casos mesmo no último, a história pode ser útil. Uma lei da natureza que é ignorada ou distorcida, pode suscitar mais interesse, algumas vezes, do que uma lei da natureza que é explicada.
Ou seja, em muitas histórias de Ficção Científica, um conceito científico é distorcido, a fim de tornar possível o enredo da história. Algumas outras ainda são ficções versadas de ciências, por meio de teorias existentes e afins. Em ambos os casos, a história pode ser útil e inspirar um pouco de curiosidade.
## 3 Descrição do trabalho desenvolvido
Este trabalho foi realizado no Instituto Federal Farroupilha - Campus São Borja. Em um primeiro momento, foi feita uma pesquisa bibliográfica, que se constitui
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como forma de fornecer bagagem teórico-científica da temática, por meio de autores que defendem a utilização da Ficção Científica como ferramenta de ensino.
Segundo Piassi e Pietrocola (2006) a Ficção Científica é proposta por vários autores para o ensino de Física, e já utilizada por diversos professores. No entanto, 'ainda faltam estudos sistemáticos que fundamentam essa prática e permitam a análise de seus desdobramentos' (PIASSI, PIETROCOLA; 2006). Portanto, a pesquisa bibliográfica, neste contexto, evidenciou a pertinência para a escolha de se elaborar um material didático que indicasse o uso de séries, filmes, desenhos animados, livros, entre outros, para uso no ensino de tópicos de Física.
Este material foi elaborado na forma de blog, pois os blogs podem servir como espaços digitais de intercâmbio, colaboração e integração. (Leite; Carneiro, 2009), e está disponível no endereço: https://ficfisica.wordpress.com/.
Figura 1. Página inicial do blog.
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Figura 2. Descrição do Blog
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Esta página tem o intuito de indicar o uso de séries, filmes, desenhos animados, livros e etc, a fim de fornecer subsídios nos quais professores poderão se apropriar para ensinar Física através da Ficção Científica. Posteriormente, este material será organizado na forma de apostila, pois '[...] o material didático - em especial, o livro e apostila -é um dos principais recursos utilizados, pelos professores, no seu trabalho diário de preparação de aulas [...]' (SANTOS et al. 2007, p. 112).
No blog, são apresentados filmes, cenas de filmes, de seriados, de desenhos animados, sugestões de livros e afins, que poderão ser trabalhados em sala de aula, nos quais é possível explorar alguns tópicos de Física. Por exemplo, indo na linha da utilização de filmes de Super Heróis, que os jovens tendem a conhecer com mais facilidade, temos as seguintes possibilidades:
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Thor: na mitologia nórdica e na ficção do cinema, Thor é o Deus do trovão. A partir dos poderes deste personagem, é possível trabalhar conteúdos de eletricidade, como formação de raios, para-raios, poder das pontas, descargas elétricas.
Figura 3. Thor usando seus poderes
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Magneto: personagem da Marvel Studios , este personagem tem poderes magnéticos e, assim, pode ser usado como analogia aos imãs no conteúdo de Magnetismo e Eletromagnetismo.
Figura 4. Magneto controlando o Homem de Ferro com seus poderes
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The Flash: conhecido no universo da DC Comics como velocista, com este personagem pode-se abordar conteúdos de Mecânica, como velocidade, Aceleração, Atrito, Força, e até mesmo pontos de Física Moderna, como Relatividade e Universos Paralelos.
Figura 5. Capitão frio impedindo o deslocamento do Flash
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Nos casos apresentados acima, para desenvolvimento em sala de aula pode-se fazer uso de trabalho de observações de filmes, episódios de séries ou histórias em quadrinhos que contenham estes personagens usando seus poderes, e a discussão acerca do conteúdo em questão pode ser mediado pelo professor a partir deste trabalho de observação.
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## 4 Conclusão
Muitos dos conteúdos desenvolvidos no Ensino Médio podem ser trabalhados de forma lúdica através da Ficção Científica. Discutir a utilização deste recurso no ensino de Física permite, a partir das diversas possibilidades voltadas à educação científica que a temática viabiliza, aprender sobre a ciência de forma geral, por meio da valorização da mesma através da divulgação científica e oferecendo conexões com o contexto social.
Através deste trabalho, propôs-se uma visão sistemática deste recurso, de modo a evidenciar o seu potencial quando aplicado a fins educacionais, e que vai muito além da função de simplesmente denotar e fazer correções em conceitos, teorias e afins.
Mediante a organização dos materiais didáticos propostos neste trabalho, o objetivo foi evidenciar que os mais variados tipos de obras de ficção científica possuem um potencial bastante diversificado em relação a suas possibilidades didáticas, e a partir disto espera-se que haja um maior incentivo na utilização da Ficção Científica em sala de aula.
## 5 Referências Bibliográficas
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BITTENCOURT, Circe Maria Fernandes. Ensino de História: fundamentos e métodos. São Paulo: Cortez Editora, 2004.
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GOMES-MALUF, Marcilene Cristina; SOUZA, Aguinaldo Robinson de. A Ficção Científica e o Ensino de Ciências: O Imaginário como formador do Real e do Racional. Revista Ciência e Educação v. 14, n. 2, p. 271-282, 2008.
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SANTOS, J. C. et al. Análise comparativa do conteúdo filo molluscaem livro didático e apostilas do ensino médio de Cascavel, Paraná. Ciência & Educação, Cascavel, Paraná.v. 13, n. 3, p. 311-322, 2007.
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