E AGORA, QUE TODOS TEM LIVRO DIDÁTICO DE FÍSICA? O PONTO DE VISTA DOS ALUNOS
Eder Francisco Da Silva, Tânia Maria F. Braga Garcia, Nilson Marcos Dias Garcia
- Evento
- Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
- Edição
- XII
- Ano
- 2010
- Data
- 27/10/2010
- Linha de pesquisa
- Didática, Currículo E Inovação Educacional No Ensino De Física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## E AGORA, QUE TODOS TEM LIVRO DIDÁTICO DE FÍSICA? O PONTO DE VISTA DOS ALUNOS
## AND NOW, THAT EVERY STUDENT HAS A PHYSICS TEXTBOOK? THE POINT OF VIEW OF STUDENTS
## Eder Francisco da Silva 1 , Tânia Maria F. Braga Garcia 2 , Nilson Marcos Dias Garcia 3
1 UFPR - PPGE, ederfrancisco.dasilva@gmail.com
2 UFPR - PPGE/NPPD , taniabraga@pq.cnpq.br
3 UTFPR – DAFIS/PPGTE e UFPR - PPGE , nilson@utfpr.edu.br
## Resumo
Investigação de natureza qualitativa que discute a presença e utilização do livro didático de Física, após sua distribuição pelo PNLEM em escolas públicas. Elaborada com o objetivo de analisar o que pensam alunos do Ensino Médio sobre o uso do livro didático de Física , os instrumentos foram aplicados durante o ano de 2009, quando os livros didáticos de Física chegaram gratuitamente às escolas brasileiras como ação derivada de uma política pública iniciada em 2004 , buscando estabelecer uma comparação entre a situação anterior, na qual o quadro negro e o caderno eram os principais suportes de registro das anotações de aula, e a situação atual, em que o livro didático se insere como mais um elemento a compor o ambiente da sala de aula. Tal pesquisa a respeito do livro didático se justifica pois, embora haja um número significativo de pesquisas sobre eles, muitas delas o tem tomado como objeto de estudo para analisar questões relativas à exatidão de seu conteúdo , à forma e apresentação, sem se aprofundar no estudo das relações que professores e alunos estabelecem com esse artefato da cultura escolar . Considerando -se o alto investimento de recursos públicos nos Programas Nacionais, principalmente o Programa Nacional do Livro Didático para o Ensino Médio (PNLEM), que em 2009 distribuiu aos alunos um livro de Física , j justificase a necessidade de ampliar as possibilidades de ouvir os alunos em relação ao uso do livro didático. Os resultados da investigação que abordou fundamentalmente a relação dos alunos com os conteúdos de Física presentes nos livros didáticos , desenvolvida em escolas da Região Metropolitana de Curitiba, Paraná, mostram pouca utilização desse artefato nas aulas e em casa e apontam dificuldades, por parte dos alunos, de incorporar os assuntos escolares de Física apresentados nos livros didáticos .
Palavras -chave: Livros Didáticos de Física; Didática da Física; Didática; Manuais escolares .
## Abstract
This investigation discusses the presence and usage of physics textbooks, after their distribution by the PNLEM in public schools. Elaborated aiming to analyze what the high school students think about physics textbooks,
its qualitative research tools were applied during the year of 2009, year in which the distribution of physics textbooks was started, attempting to establish a comparison between its previous situation, in which the blackboard and notebook were the main instruments to take notes in class, and the current situation, in which the textbook is inserted as one more element to compound the classroom environment. Such research about textbooks is justified because even though there are a significant number of researches about the topic, many of them take as the study object the analysis of questions related to the exactitude of its contents, their format and presentation, without deepening the study of the relationships that teachers and students establish with this artifact of f school culture. Considering the large public resources investment in the National Programs, especially the National Program of Textbooks for High School (PNLEM, in Portuguese), which in 2009 distributed to students one physics textbook, the need to enlarge the investigations to hear the students in relation to the textbook usage is justified. The results of the investigation, which approaches fundamentally the relationship between students and the physics contents presented in the textbooks, was developed in schools of the metropolitan areas of Curitiba, Paraná, and shows, beyond the small usage of textbooks in the classrooms and at home, a difficulty, from the students, to incorporate the school contents of physics presented in the textbooks.
Keywords: Physics textbooks; physics didactics; didactics; textbooks.
## Introdução
A produção e distribuição de livros e de material escolar para os alunos das escolas brasileiras constituem -se em práticas que tem acontecido desde o segundo quarto do século passado e devem ser examinadas como resultado de uma política pública que tem como objetivo a universalização da distribuição de livros escolares para os alunos de escolas públicas. Essa política ficou mais clara a partir da década de 1980, quando, na continuidade dos programas de distribuição de livros didáticos, foi criado o Programa Nacional do Livro Didático (PNLD) - que teve início naquela década e se mantém até hoje com essa denominação - e iniciou-se a distribuição regular de livros para alunos do ensino fundamental, de 1ª. à 8ª séries. Depois de uma década de experiência, especialmente a partir da divulgação dos Parâmetros Curriculares Nacionais, os livros passaram a ser avaliados dentro de um programa - sem equivalente em outros países - que define critérios aos quais as Editoras devem atender para incluir seus títulos nos Guias de orientação de escolha pelos professores.
Na continuidade e ampliação dessa política, em 2004 foi instituído, pelo Governo Federal, o Programa Nacional do Livro para o Ensino Médio (PNLEM), contemplando, inicialmente, as disciplinas de Matemática e Língua Portuguesa, através da compra de 1,3 milhão de livros dessas disciplinas. As demais disciplinas que compõem tradicionalmente os currículos escolares foram sendo gradativamente atendidas, sendo a Física incluída na última etapa, e seus livros escolhidos através do modelo já existente de avaliação, aquisição e 1 distribuição do PNLD, para serem distribuídos em 2009 . 1
Dessa forma, com o recebimento pelas escolas públicas brasileiras de Ensino Médio de livros escolares de Física, entende-se que poderão ocorrer alterações em práticas escolares fortemente questionadas nos documentos curriculares oficiais e nos manuais de orientação aos professores, bem como pelos pesquisadores do Ensino de Física tais como a cópia de pontos, esquemas, definições e exercícios, bastante frequentes nas aulas dessa disciplina .
Um outro aspecto a ser considerado é que, como os livros aprovados para distribuição foram aqueles que se mostraram adequados e conformes aos critérios de avaliação das equipes de especialistas indicadas pelo Governo Federal, pode-se supor que seus conteúdos e métodos foram produzidos respeitando inúmeros quesitos como a ausência de erros conceituais, a coerência metodológica, a incorporação dos avanços teóricos no campo do ensino de Física, e, assim, pode-se inferir que, em princípio, tais manuais são recursos didáticos de boa qualidade.
Pode -se supor, ainda, que com a disponibilização de textos explicativos, de listas de exercícios e problemas estruturados a partir dos temas e assuntos, professores e alunos encontrem alternativas para produzir aulas com outros elementos além daqueles que constituem, hoje, o espaço das aulas de Física. Do ponto de vista do ensino e da aprendizagem, a presença dos livros deve corresponder a algumas transformações, que só poderão ser avaliadas ao longo do tempo.
Por outro lado, como as pesquisas educacionais evidenciam, pouco ainda se conhece sobre o uso de livros didáticos nas salas de aula, e não apenas no Brasil (CHOPPIN , 2004; VALLS, 2008) . Trabalhos avaliativos feitos por pesquisadores e grupos internacionais que investigam o tema (JOHNSEN, 2001; FERNÁNDEZ REIRIS, 2005) tem indicado que ainda se estuda mais o livro didático do que o uso que professores e alunos fazem dele. Nesse sentido, justificam-se investigações, tais como esta que será aqui relatada, que se proponham a ouvir os alunos em relação ao uso que fazem do livro didático, em particular o Livro de Física.
## O uso dos livros didáticos como tema de pesquisas
Trabalhos avaliativos sobre o livro didático de Ciências apontam temáticas e tendências nas pesquisas realizadas por diferentes autores. Em artigo sobre o tema , Ferreira e Selles (2004) identificaram a predominância de pesquisas que examinam o conteúdo dos livros didáticos, sob diferentes perspectivas. Com relação especificamente ao livro didático de Física, as autoras concluem sobre a existência de várias formas de abordagem do objeto, mas apontam a concentração absoluta dos estudos em torno de questões relativas ao conteúdo, entre as quais os erros conceituais, a estruturação na forma de apresentação, os assuntos ou temas tratados, e outros estudos que estabelecem comparação com idéias alternativas espontâneas ou de senso comum, a presença de analogias, uso de elementos do cotidiano, entre outras.
universalização de livros didáticos para alunos do ensino médio das escolas públicas. Em 2008, para distribuição aos alunos em 2009, foram investidos cerca de R$ 417 milhões na aquisição de títulos de biologia, português, matemática, geografia, física e na reposição de livros de química e história, adquiridos em anos anteriores. (BRASIL/MEC, 2008).
Analisando -se trabalhos apresentados em dois eventos recentes no campo do ensino de Física, no Brasil, pode-se constatar que essa tendência permanece. No XI Encontro de Pesquisadores em Ensino de Física (XI EPEF) de 2008, estão registrados dez trabalhos sobre os livros didáticos de Física e apenas um estuda as relações entre professores e os livros. Os demais tomam o livro como objeto para examinar os conteúdos e formas de abordagem dos 2 temas 2 . No XVIII Simpósio Nacional de Ensino de Física (XVIII SNEF) de 2009, foram apresentados 9 trabalhos sobre livros didáticos e apenas um deles busca conhecer elementos relacionados ao uso desse recurso no cotidiano escolar. 3
Com tais argumentos, justifica-se a pertinência de um projeto de pesquisa denominado "O uso do livro didático no cotidiano escolar" 4 , em torno do qual se articulam investigações - algumas já concluídas e outras em andamento -sobre os manuais escolares de Didática, os livros didáticos de História, de Ciências e de Física, nos diferentes níveis de ensino, entre as quais a pesquisa relatada neste texto.
Dentre os estudos referidos, alguns focalizam as relações que professores e alunos estabelecem com esse artefato da cultura escolar, no uso que fazem dele nas atividades cotidianas, seja para o planejamento, seja para o desenvolvimento das aulas. Estudos empíricos com essa segunda abordagem, nos quais se procura compreender elementos das relações entre professores de Ensino Médio e de alunos da Licenciatura com os livros didáticos de Física, podem ser localizados no âmbito da Didática Geral e da Didática Específica.
Para o desenvolvimento desses estudos, conforme argumenta Garcia (2009), optou-se pela abordagem qualitativa, "sustentada no pressuposto da existência de uma estrutura objetiva que organiza o mundo social, que pode ser conhecida e explicada de maneira científica, em processos de produção e sistematização do conhecimento." A essa concepção se associa a idéia de que "os sujeitos - agentes sociais - cumprem um papel relevante na apreensão e na produção do mundo social e, que, portanto, podem ser tomados como sujeitos que, por suas ações, transformam esse mundo."
Uma das pesquisas realizadas objetivou compreender o significado atribuído pelos docentes ao seu trabalho com o livro didático (GARCIA, GARCIA e PIVOVAR, 2007). Foram realizadas entrevistas e questionários com um grupo de professores de Física que atuam no Ensino Médio, durante o ano de 2007 e início de 2008, selecionados aleatoriamente dentro de um grupo que mantém alguma relação com a Universidade. No estudo realizado apenas dois professores referiram-se à presença do livro didático em sua formação no ensino médio, em algumas disciplinas e em alguma série do curso. Para eles,
os estudos foram feitos com apoio em algum texto ou apostila, e referem-se às práticas de estudar com os cadernos de anotações, copiadas de registros feitos pelos professores no quadro de giz. Estas práticas se incorporam ao repertório de estratégias para "dar aulas de Física" no Ensino Médio, conforme relatam pesquisadores, alunos em formação e professores ao descreverem suas rotinas de trabalho.
Quanto às formas de uso, a maioria dos sujeitos participantes referiuse ao planejamento de aulas como atividade em que os livros didáticos estão presentes. Neles, os professores afirmam buscar referências, exercícios e experimentos para o trabalho com os alunos e alguns usam os livros também para estudar, definindo um outro tipo de relação com esse recurso: tem funções no seu ensino, mas também na sua aprendizagem.
Em outro estudo, realizado com alunos de Licenciatura em Física - - que se preparam para atuar como professores no Ensino Médio - aplicou-se um instrumento na forma de questionário que incluiu uma primeira parte para verificar a presença do livro didático no processo de escolarização dos alunos, bem como seu grau de conhecimento sobre os programas de avaliação e distribuição de livros pelo Governo Federal; e uma segunda parte com questões fechadas, para levantar sua opinião em relação a afirmações sobre o papel do livro para alunos e professores.
Como relatado por Garcia (2009), em um grupo de vinte e seis alunos, "embora dezoito informassem ter usado livros didáticos no Ensino Médio, treze não tiveram contato com livros de Física nessa etapa da sua escolarização. Apostilas foram materiais bastante citados pelos alunos, mas um número significativo de alunos (sete) indicou que as práticas de ensino eram caracterizadas pela exposição oral, apoiada no quadro de giz, com anotações para copiar no caderno. Também houve referências à prática do ditado do conteúdo pelo professor".
De forma geral, estes futuros professores têm opiniões positivas com relação à presença de livros didáticos nas salas de aula de Física: são necessários, importantes para apoiar professores com maiores dificuldades, úteis no planejamento de aulas. Apesar disso, a maior parte deles atribui a função de ensino muito mais ao professor do que aos livros, embora sejam fonte de estudo para o aluno. Mas chama a atenção o fato de que dezenove alunos não tinham informações sobre os programas de distribuição de livros às escolas públicas e, quando tinham, as informações eram inadequadas.
Tais resultados apontam a potencialidade de desenvolvimento de pesquisas que procurem se aproximar do que alunos e professores pensam e fazem com os livros didáticos de Física que estão sendo disponibilizados pelo Governo Federal . Com esse objetivo, foi realizada uma pesquisa com alunos do Ensino Médio, durante o ano de 2009, que será relatada a seguir.
## Alunos de Ensino Médio e o livro didático de Física
A pesquisa leva em consideração a importância que os sujeitos escolares tem na produção das aulas e, consequentemente, na produção do conhecimento que está em pauta na escola. Ela se propôs a investigar: a) como os alunos receberam os livros de Física; b) o que os alunos pensam a
respeito do livro didático que estão utilizando; c) elementos do conteúdo específico que os jovens destacam nos livros de Física; d) se e como este artrtefato da cultura escolar está modificando a relação dos jovens com os conteúdos de Física.
A investigação empírica foi desenvolvida em duas fases, durante o ano de 2009, primeiro ano em que os alunos receberam, por meio do PNLEM, livros de Física para uso em sala de aula. Na primeira fase os instrumentos foram aplicados aos alunos de duas turmas de terceira série do Ensino Médio, em duas escolas públicas de um município da Região Metropolitana de Curitiba, Paraná, ao início do ano letivo, levantando principalmente as expectativas dos alunos em relação ao uso do livro didático de Física. Na segunda fase, ao final do ano letivo de 2009, foram aplicados questionários aos alunos das três séries do Ensino Médio, para avaliar algumas condições de uso durante o ano.
## Expectativas e primeiras impressões
O primeiro instrumento, um questionário aplicado no primeiro bimestre de 2009, foi organizado em duas partes: na primeira, as questões privilegiaram informações sobre os alunos, para conhecer alguns elementos da cultura do grupo familiar; na segunda buscaram-se informações sobre a escolarização anterior dos alunos, sua relação com os livros didáticos de modo geral e especificamente com o livro de Física, incluindo duas questões abertas, para registro de suas primeiras impressões quanto ao livro e suas perspectivas de mudança em seu aprendizado.
Participaram dessa primeira parte 60 alunos, dos quais 56 sempre estudaram em escolas públicas desde as séries iniciais do Ensino Fundamental, 36 estudaram sempre na mesma escola e 14 em duas escolas. Resultado da universalização do PNLD e, mais recentemente, do PNLEM, constatou -se a presença de livros na escolarização da maior parte destes alunos. Entretanto, muitos deles informaram não ter usado livros em Matemática (30) e em Português (27), disciplinas que j já haviam sido atendidas no início do PNLEM.
Os resultados encontrados indicaram que, do ponto de vista de sua utilização, os livros não se constituíam em recurso privilegiado para os alunos participantes da pesquisa - - nem nas aulas, nem em casa. Além disso, os resultados indicaram que eles estavam sendo empregados para a realização de exercícios, atividades e trabalhos. Não foram apontadas atividades coletivas ou com caráter predominantemente investigativo que tivessem sido propostas ou desenvolvidas com o apoio do livro.
Outras respostas indicaram que, para a maior parte dos alunos (41), os livros didáticos interessam pouco ou nada, embora 24 indicassem que o que mais lhes agrada são os conteúdos e as figuras (11).
Chamou também a atenção, naquele momento de início do ano letivo , o fato de que mais de 40 alunos concordaram com a afirmação apresentada a eles no instrumento de que " com livros, estudo mais e os resultados são melhores"; e que, na relação com o trabalho docente, 57 alunos concordaram com a idéia de que " para os professores, fica mais fácil trabalhar com o livro" ,
além da concordância - por parte de 40 alunos - com a afirmação de que a presença do livro modifica o trabalho do aluno positivamente .
A última parte da pesquisa buscou informações sobre as expectativas dos alunos com relação ao uso do livro durante o ano letivo. Perguntados sobre o que mais chamou a atenção quando começaram a usar o livro, figuras e esquemas foram elementos de destaque. Outros alunos indicaram que o que chamou sua atenção foram os conteúdos específicos apresentados no livro . Entretanto, ao lado da observação positiva de que o livro é completo, que traz todo o conteúdo necessário, também aparece a avaliação de que o livro é muito pesado, dificultando seu uso.
Finalmente, pode-se dizer que ao início do ano havia uma expectativa, por parte de 40 alunos, de que aprenderiam Física de forma diferente, especialmente por que ele permitiria compreender e aprofundar melhor os conteúdos. O papel do livro como auxílio, apoio, ajuda, foi frequente entre esses alunos, como também ficou enfatizado que, com o livro, poderiam complementar, estudar, ler mais e, em casa, acrescentar conhecimentos ao que foi visto em aula.
Em síntese, a expectativa apresentada pela maioria dos alunos na primeira fase da pesquisa era de que a presença desse artefato da cultura escolar nas aulas de Física seria positiva em relação às suas possibilidades de aprender. A pesquisa, em sua etapa seguinte, buscou apreender elementos da experiência de uso do livro que esses alunos tiveram, ao longo do ano letivo, para identificar e analisar os significados que construíram nessa relação.
## O p papel do livro didático na estruturação das atividades didáticas
A seguir, serão apresentados os resultados da aplicação do segundo instrumento, no final do ano de 2009, em três turmas, uma de primeiro, uma de segundo e uma de terceiro ano do Ensino Médio, em uma das escolas que já havia participado da primeira fase. Participaram 77 alunos e foram selecionados para análise, neste texto, elementos que permitem estabelecer relações entre o uso do livro texto e a apropriação de novos conhecimentos . 5
Um primeiro dado interessante foi a frequência com que o livro foi utilizado nas aulas de Física durante o ano de 2009 - o primeiro em que os livros desta disciplina foram distribuídos gratuitamente aos alunos do Ensino Médio. As respostas se concentraram entre as alternativas "Pouco" (41) e "Raramente" (24), em todas as turmas. Esses números representam cerca de 85% dos alunos que indicam que o livro didático de Física foi utilizado em poucas situações de sala de aula.
Pode -se afirmar, portanto, que para o desenvolvimento das aulas, na situação particular examinada empiricamente, a presença dos livros na escola não significou a incorporação deste artefato nas atividades de sala de aula como um recurso para a realização de atividades dos alunos. Como afirmou um aluno: " [usamos] Pouco por que nós só trazia o livro quando o professor mandasse, foi mais nesse mês de novembro e dezembro " .
E para que foram usados? Os alunos referem-se em sua grande maioria à realização de exercícios, ou atividades e trabalhos, repetindo-se a predominância das respostas dadas pelos alunos na primeira fase. Atividades de leitura foram referenciadas por poucos alunos. Também foram referenciadas atividades de "acompanhar a explicação do professor", sugerindo que enquanto o professor explica o assunto, os alunos teriam o livro em mãos para, de alguma forma, cotejar as informações que estão sendo apresentadas oralmente com aquelas que estão registradas no livro.
Em outra perspectiva, mas confirmando a baixa freqüência de uso dos livros neste caso, cerca de 29% dos alunos indicou que nunca os utilizou em casa, metade informou ter usado "Raramente " , enquanto que cerca de 12% dos alunos, a maior parte da primeira série, indicou ter usado "Muito" . Para os alunos que usaram os livros em casa, as opções referidas incluem estudar, ler, aprofundar os assuntos, entender melhor o conteúdo, todas elas indicativas de atividades que vão além da resolução de exercícios, que não foi excluída ao longo do ano, conforme apontam muitos alunos.
Deve -se destacar que o número de alunos que nunca usou ou usou raramente o livro em casa foi aproximadamente 80%, em todas as séries. Esse resultado deve ser explicado à luz de um conjunto de fatores, entre os quais o fato de que alunos que trabalham tem menos tempo disponível para realizar atividades de estudo em casa. É o que aponta particularmente um aluno de terceira série, quando pergunta: "Se o professor não usa na sala de aula, não é no meu intervalo de serviço que vou ler".
Pode -se pensar que a ideia tão fortemente veiculada de que os "professores seguem o livro" não deveria ser tomada de forma absoluta. Ou, em outras palavras, as formas pelas quais os livros são apropriados pelos professores em suas aulas ainda necessitam ser compreendidas e explicadas pela pesquisa, uma vez que são complexas e não se submetem a categorizações gerais que são muito frequentes na teoria educacional.
Apesar desses dados quantitativos revelarem pouca presença dos livros nas aulas e nas casas, deve-se ressaltar que os que usaram o livro didático durante o ano apontam contribuições positivas para seu aprendizado, como afirma um aluno de primeira série: "Particularmente eu achei que o livro está bem completo e, através do mesmo, e juntamente com o auxílio do professor , eu pude sim compreender muitos assuntos, principalmente coisas do cotidiano".
A compreensão de que os resultados dependem de um trabalho do professor com o livro também está expressa nesta resposta:
Na verdade nenhum livro é exatamente perfeito, sempre tem algo que falta, que o professor tem que complementar, ou seja, o livro deveria ter mais figuras, perguntas mais claras e textos mais claros, pois a maioria dos textos que raramente a gente utilizou, não deixa o assunto claro, acaba complicando mais o assunto, na maioria dos assuntos apenas desenhos e nenhuma observação, é onde dificultava o nosso entendimento e gerava dúvidas, pririncipalmente nas Leis de Newton, que havia ilustrações que o professor era obrigatoriamente necessário que desse uma explicação mais aprofundada, pois havia desenhos de difífícícil entendimento.(Aluno, resposta ao questionário aplicado)
## O conteúdo apresentado no livro didático de FíFísica
Com relação aos conhecimentos específicos associados pelos alunos ao uso dos livros, um primeiro conjunto de respostas pode ser extraído de uma pergunta que pedia para explicitar se houve influência exercida pelas figuras, desenhos e esquemas do livro no processo de compreensão dos assuntos de Física . Dos 77 alunos respondentes, 66 (85%), indicaram que Sim, houve influência desses aspectos do livro. Dos que afirmaram haver influência, 29 alunos (44%) indicaram que ela ocorreu muito frequentemente e outros 42% disseram que pouco frequentemente. Destaca-se o fato de que os alunos dos 1º. e 2º. anos foram os que mais reconheceram que essa influência ocorreu muito frequentemente (42% e 50%, respectivamente).
Perguntados sobre em quais assuntos essa influência foi mais significativa, percebeu-se que as respostas, de todas as séries, incidiram sobre os assuntos tradicionalmente desenvolvidos em cada uma delas. Assim, predominaram os assuntos relacionados com a Mecânica, Termodinâmica , Acústica e Eletricidade . Não houve manifestações no sentido de que o uso do livro facilitou o acesso a assuntos que poderiam ser considerados novos, no sentido da tradição curricular, conforme evidenciado nas seguintes repostas:
Nas Leis de Newton, que as figuras eram mais utilizadas, para entender melhor a Inércia e a relação entre força e movimento (aluno do 1º. Ano;
Nas tirinhas onde falava de força, movimento e também que um objeto em repouso tende a permanecer em repouso, e um objeto em movimento tende a permanecer em movimento (aluno do 1º. Ano)o)
Nas atividades eles ajudam bastante. ExEx: às vezes fazemos um exercício sem desenho é bem mais ruim para entender com o desenhos e esquemas ajuda mais (aluno do 1º. Ano)
Em desenhos mostra como são realizados as forças, o movimento, a velocidade na física foram mais significativos. E com desenhos foram mais explicativos (aluno do 2º. Ano) ElEletricidade - eletromagnetismo e campo elétrico, porque além do professor ter explicado para toda a classe , o livro ajuda a lembrar bastante , ou melhor, r, quando revemos o conteúdo relembramos boa parte (aluno do 3º. Ano)o) No conteúdo sobre carga elétrica ajudou muito o desenho (aluno do 3º. Ano)
A parte da resistência elétrica, já é complicado , e com desenhos ou esquemas fica mais fácil (aluno do 3º. Ano)o) .
À questão "o seu livro de Física ajudou você a ter mais conhecimento além dos assuntos em sala de aula?", 37 alunos (48%) responderam que sim, enquanto que 40 (52%) disseram não. Entre os alunos que responderam sim, 8 (22%) admitiram que essa influência foi muito frequente, 23 (62%), pouco freqüente, e 8 alunos indicaram que essa influência ocorreu raramente.
Algumas respostas dos alunos indicam em quais conteúdos o livro contribuiu para que o aluno pudesse ir além do que foi trabalhado em sala de aula:
Movimento de naves espaciais. Movimento retilíneo (1º. Ano)o) Sobre relação força e a aceleração o peso e o equilíbrio estático as relações entre massa e força. O conhecimento é bem melhor com o livro (1º. Ano)o)
Massa e peso e de de um objeto caindo em queda livre (1º. Ano)o) Em como agir dentro de um veículo , por exemplo , quando se está em
O movimento retilíneo, gravidade, como a velocidade e a aceleração é uma grandeza vetorial no movimento retilíneo. Podemos entender isso, e com isso resolver exercícios diferentes do que já vimos ( 1º.
Não sei dizer exatamente em que, mas ajudou, adorei estudar sobre
movimento (1º. Ano) Ano) a temperatura (2º.Ano;
Sim, hoje em dia eu sei mexer com eletricidade sem levar choque e etc . (3(3º. Ano)o).
Uma última pergunta sobre a influência do livro de Física sobre o conhecimento do aluno perguntava a respeito da ajuda que os problemas e exercícios poderiam dar aos alunos. Nessa questão, 44 alunos (57%) responderam que eles ajudaram a ampliar seus conhecimentos, enquanto 31 (40%) indicaram que não. Dos alunos que responderam sim, 25% indicaram que essa influência era muito frequente, 52% que era pouco frequente e 20% que era rara. Considerando a importância atribuída tradicionalmente aos exercícios e problemas como atividades de ensino de Física, o fato de mais da metade do grupo indicar que essa influência era pouco frequente pode ser um indicativo de que a presença desses elementos nos livros, por si só não garante a sua relevância no aprendizado dos alunos
Também chama a atenção o fato de que parcela significativa de alunos dos 2º. ano (52%) e 3º. ano (47%) declarou que não houve nenhuma influência do livro nesse particular . Essa resposta pode ser relacionada ao modelo de uso predominante dos livros didáticos neste caso particular: os alunos não trazem o livro para trabalhos em aula e também, em sua maioria, não os utilizam em casa, seja para ler, seja para fazer atividades e exercícios. Mantém-se , portanto, apesar da presença dos livros nas escolas, a prática de organizar o ensino por meio de explicações, anotações no quadro e resolução de exercícios apresentados pelo professor, no caderno.
Dos alunos que responderam afirmativamente a essa questão, foram selecionadas algumas justificativas:
Ajudaram nas questões passadas em sala de aula (1º. Ano)
Sim. Porque quanto mais você pratica nos exercícios , mais você vai aprendendo. Foi nos primeiros capítulos ( 1º. Ano)o)
Nas leis de Newton, porque através dos exercícios e problemas, além da explicação do professor, r, claro, eu consegui entender bem melhor sobre inércia do que ano passado, tanto a de repouso como a de movimento, assim como está no capítulo 8, páginas 84 e 85; a pg . 85 também fala de força que eu entendi bastante também.(2(2º. Ano)
Alguns é fáfácil, mas outroros foram bem difíceis . Mas dando uma pesquisada no livro nas explicações fica fácil. O assunto que mais gostei e que foi mais significativo para mim foram as leis de Newton que foi usado na maioria dos exercícios, etc. (2(2º. Ano)o)
Sim, mas sem a ajuda do professor eu ainda não conseguiria resolver alguns exercícios (2(2º. Ano)
Se não fossem as atividades dos conteúdos que o professor explicou em sala de aula não teria praticado as fórmulas e não teria entendido (3(3º. Ano)
Em Em todos praticamente porque , como eu disisse , relendo os assuntos estudados em sala de aula relembramos uma parte da explicação , o
que ajuda na hora de fazer os exercícios. FaFazer os exercícios ajuda a descobrir se entendemos o assunto e se temos dúvidas (3(3º. Ano) A leitura do livro de Física faz com que aprendamos mais; os exercícios fazem com que relembremos a aula que tivemos e aprendemos a ter mais conhecimento. (3º Ano)
## Considerações finais
Alguns elementos relevantes podem ser ressaltados a partir da pesquisa. Um deles diz respeito ao fato de que por diferentes razões, algumas apontadas neste texto, os livros não são utilizados por alunos e professores nas aulas. As respostas apontam para o problema do peso e indicam a permanência , na cultura escolar , dos modelos didáticos em que é o professor que conduz o caminho para o conhecimento , muitas vezes prescindindo do uso do livro. Esses são alguns dos elementos que podem explicar as dificuldades existentes para incorporar o livro no conjunto de condições em que se dá o ensino e a aprendizagem na escola de Ensino Médio .
Sob o aspecto da cultura escolar, o livro tem sido tradicionalmente olhado como um recurso - como uma televisão, ou um quadro de giz. Isso aponta, apoiando-se nos resultados de estudos que vem sendo realizados no contexto dos projetos ao qual se articula a investigação aqui apresentada , para a necessidade de colocar em questão a natureza do livro didático e o seu uso na produção das aulas, evidenciando de que formas ele pode possibilitar, estimular, efetivar a relação dos alunos com o conhecimento. Nesse sentido, é interessante registrar que diferentes respostas de alunos de primeiro e terceiro anos, evidenciam que os primeiros, talvez por não terem interrompido seu acesso a livros didáticos ao terminar o Ensino Fundamental, mostram-se mais receptivos e favoráveis ao seu uso do que seus colegas de segundo e terceiro anos, os quais ficaram pelo menos um ano sem livro didático em suas atividades em sala de aula, o que pode ser um indicativo de perspectivas de mudança na relação dos alunos com os livros.
Nesse particular, destaca-se, entretanto, a predominância dos modelos didáticos centrados na explicação dos professores, que conduz a uma seleção de determinados elementos disponíveis nos livros, tais como os exercícios, os quais contribuem para um determinado tipo de aprendizado, mas excluem outros. A existência dessa seleção , que põe em evidência apenas determinados elementos constitutivos do livro , talvez possa ajudar a compreender o alto grau de desinteresse manifestado por muitos alunos em relação ao livro de Física. Mas há outras questões.
Considerando -se que as atividades predominantes, segundo os alunos, são os exercícios e atividades, pode-se supor que os textos e imagens disponíveis não estão sendo objeto de trabalho nas aulas. Ressalta-se que as imagens, valorizadas pelos alunos, não foram indicadas como objeto de leitura nas aulas. Associando -se às dificuldades de leitura por parte de alunos do Ensino Médio no país, reconhecidamente existentes conforme Leite e Garcia (2009), pode-se supor que os textos estejam sendo pouco lidos e, portanto, o livro esteja sendo reduzido a um suporte para exercícios e problemas os quais, sem esse recurso, estariam sendo copiados do quadro de giz.
Tem -se, então, uma situação que predispõe os alunos a um baixo aproveitamento dos livros, enquanto fonte de informação e de estudo, por meio da leitura. E, neste caso, para aproximar os alunos dos livros, torna-se imprescindível o papel orientador dos professores. Nesse sentido, os cursos de formação - que pouco espaço tem dado ao estudo dos livros didáticos - teriam um papel relevante ao discutir não só os conteúdos, mas também os usos dos livros de Física, preparando melhor os futuros professores para compreender como são constituídas as relações com este artefato da cultura escolar.
## Referências
BRASIL/MEC.http://www.fnde.gov.br .
CHOPPIN, Alain. História dos livros e das edições didáticas: sobre o estado da arte. Educação e Pesquisa, São Paulo, v. 30, n.3, p. 549- 566, set./dez. 2004.
FERREIRA, M. S.; SELLES, Sandra E. Análise de livros didáticos em Ciências: entre as ciências de referência e as finalidades sociais da escolarização. Educação em Foco, Juiz de Fora, v.8 n. I e II, p. 63-78, 2004.
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