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O GOALBALL COMO MOBILIZADOR DA APRENDIZAGEM DE ALGUNS FENÔMENOS E CONCEITOS DA MECÂNICA NO ENSINO DE FÍSICA PARA ALUNOS COM E SEM DEFICIÊNCIA VISUAL DE UMA ESCOLA PÚBLICA

Willdson Robson Silva Do Nascimento, Eder Pires De Camargo, Eanes Dos Santos Correia, Veleida Anahi Da Silva, Charles Graziênio Batista Neves

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XXIII
Ano
2019
Data
29/01/2019
Linha de pesquisa
Materiais, Métodos E Estratégias De Ensino De Física
Tipo
Pôster

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Texto completo

## O GOALBALL COMO MOBILIZADOR DA APRENDIZAGEM DE ALGUNS FENÔMENOS E CONCEITOS DA MECÂNICA NO ENSINO DE FÍSICA PARA ALUNOS COM E SEM DEFICIÊNCIA VISUAL DE UMA ESCOLA PÚBLICA.

Willdson Robson Silva do Nascimento 1* , Eder Pires de Camargo , Eanes dos 2 Santos Correia , Veleida Anahi da Silva ; Charles Graziênio Batista Neves 3 4 5

1 Universidade Estadual Paulista 'Júlio de Mesquita Filho'- UNESP, Campus Bauru -SP/ Faculdade de Ciências

willdsonnascimento@gmail.com

2 Universidade Estadual Paulista 'Júlio de Mesquita Filho'- UNESP, Campus Ilha Solteira - SP/ Faculdade de Engenharia de Ilha Solteira

## camargoep@dfq.feis.unesp.br

3 Universidade Federal de Sergipe - UFS, Campus São Cristovão - Programa de Pós-Graduação em Educação - PPGED

## eanescorreia1@gmail.com

4 Universidade Federal de Sergipe - UFS, Campus São Cristovão - Programa de Pós-Graduação em Educação - PPGED

vcharlot@terra.com.br;

5 Faculdade Estácio Sergipe, Especialista em Educação Especial e Libras

charlesgrazienio@gmail.com

## Resumo

O estudo sobre o movimento na Física realizado com os alunos do ensino médio, geralmente, apresenta-se desconexo do contexto social. Propomos aqui, uma possibilidade de ensino contextualizado, oferecendo os recursos necessários para que os estudantes do 3 ano do ensino médio com e sem deficiência visual de uma escola pública do estado de Sergipe, encontrem sentido, prazer e que se envolvam na sua atividade intelectual. Nessa abordagem, temos como objetivo o planejamento de uma aula de Física a partir do Goalball, fundamentada numa atividade esportiva como uma possibilidade mobilizadora para a abordagem dos seguintes fenômenos e conceitos da Mecânica: repouso, referencial, movimento e trajetória. Para alcançarmos o que foi proposto, fundamentamo-nos no referencial teórico da Relação com o Saber do filósofo Bernard Charlot. A pesquisa se caracterizou como sendo qualitativa descritiva. Os dados foram coletados por meio de aplicação de uma entrevista semiestruturada. Os resultados demonstram que os estudantes, após conhecerem e participarem de um treino oficial do esporte com a seleção sergipana de Goalball, composta por atletas com deficiência visual, pesquisarem sobre esse esporte e participarem de uma aula planejada, se envolveram na atividade proposta, além de construírem seu próprio sentido de aprender os fenômenos e conceitos físicos expostos.

Palavras-chave : Ensino de Física. Goalball . Mecânica. Relação com o Saber.

## Introdução

Interpretar as leis básicas que regem os movimentos é o tema de praticamente todo o primeiro ano do ensino médio da Educação Básica, mas suas aplicações se estendem na Física ensinada durante todo esse nível escolar. Desta forma, o estudo do movimento se encontra numa subdivisão da física clássica - a

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mecânica. Esse é o ramo da física que apresenta o estudo e a análise do movimento e do repouso dos corpos. Assim, os conteúdos da mecânica são extensos, passando pela cinemática, dinâmica, estática, até a gravitação, hidrostática, etc., cabendo ao professor elaborar estratégias e metodologias que possam reforçar um ensino de física atraente, com sentido, contextualizado e atual ( RICARDO, 2010), além de acessível a todos e a todas dentro de sala de aula. Nessa perspectiva, o esporte pode ser uma ponte metodológica no processo de ensino e aprendizagem dos conteúdos da Mecânica.

- O esporte se tornou um fenômeno sócio cultural de grande importância para o século XX e de grande representatividade na sociedade, pois ele tem o poder de motivar milhões de pessoas a deixarem seus afazeres pessoais para torcer e vibrar pelo seu time ou atleta preferido (OLIVEIRA et al, 2013). Nesse contexto, o que se pretende fazer é usufruir da esfera simbólica construída por esse fenômeno, que dita hábitos, atitudes, constrói heróis e valores, possibilitando desta forma, diferentes perspectivas para as pessoas, desde a diversão, lazer, melhoria da saúde até conteúdo de processos educacionais. É nesse último significado frente à vida dos indivíduos que se pretende focar.
- O Goalball é um esporte criado exclusivamente para pessoas com deficiência visual, compreendido como uma importante atividade desportiva de inserção e reconhecimento das múltiplas diferenças existente no cenário mundial, podendo resultar em benefícios aos aspectos psicológicos, sociais, qualidade de vida, além de contribuir com a maior mobilidade e autonomia da pessoa com deficiência visual (OLIVEIRA et al, 2013).

Neste trabalho, utilizamos o Goalball como uma ferramenta para auxiliar os alunos com e sem deficiência visual nas aulas de Física, de modo que, seu objetivo é apresentar esse esporte, a partir do planejamento de uma aula como uma possibilidade mobilizadora para a abordagem de alguns fenômenos e conceitos físicos da Mecânica.

Como instrumento para a constituição dos dados, utilizamos a entrevista semiestruturada (FLICK, 2009). O processo de análise dos mesmos foi realizado segundo o referencial de análise descritiva (GIL, 2008) e sob a interpretação do Balanço do saber (CHARLOT, 2009).

## Goalball : o que é?

- O Goalball é uma modalidade esportiva criada exclusivamente para pessoas cegas ou com baixa visão, além de ser hoje uma das vinte e três modalidades esportivas paralímpicas de verão, segundo o Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB) (2015). Inclusive, foi uma das modalidades de destaque no XV Jogos Paralímpicos de Verão Rio 2016. Ele é disputado por equipes de dois times com três jogadores podendo ter até três atletas reservas. Pode competir na mesma equipe atletas das classes B1(cego), B2 e B3 (pessoas com baixa visão), segundo as normas de classificação da Federação Internacional de Esportes para Cegos (IBSA, em inglês). Todo jogador deve, obrigatoriamente, utilizar venda oftalmológica durante as partidas, de modo que um atleta com visão parcial não obtenha qualquer vantagem, além dos óculos de proteção. O esporte é disputado nas categorias masculina e feminina.

Em conformidade com a informação acima, durante o jogo os atletas têm a função de arremessar e defender. A bola arremessada deve tocar em determinadas

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áreas da quadra para que o lance seja considerado válido (CBDV, 2015). Isso significa que, quando um atleta arremessar a bola, ela tem que tocar os seis primeiros metros (área de orientação com três metros + área de lançamento com três metros) e também na área neutra (seis metros), obrigatoriamente. A seguir, figura 1, tem-se o modelo de quadra para que a explicação anterior faça sentido.

Figura 1: Modelo da quadra do Goalball

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Descrição da figura 1:RETÂNGULO que representa a quadra de Goalball, disposto na horizontal, dividido em seis pequenas áreas, sendo que as duas áreas da esquerda estão em branco, representando a área de orientação e lançamento respectivamente; as duas áreas da direita, representam a área de lançamento e orientação, respectivamente; e as duas áreas do meio, representam as áreas neutras, destacadas em azul. As laterais da figura estão em verde, contendo na parte de baixo o comprimento que cada área possui, 3 metros.

Vale destacar que, a bola oficial deste esporte tem tamanho semelhante à de basquetebol e possui guizos dentro dela e, na parte de fora, orifícios que potencializam o barulho, para que os jogadores a localizem através da audição. A bola pode ser arremessada pelos jogadores de três formas: frontal, com giratória e por debaixo das pernas. As partidas são disputadas em dois tempos de 12 minutos, com três de intervalo. Quando uma equipe abre dez gols de vantagem, o confronto é encerrado imediatamente.

É importante destacar que o esporte Goalball foi escolhido por ser uma modalidade exclusivamente criada para pessoas com deficiências visuais, e o desígnio era contribuir para um ambiente que rompesse barreiras culturais, buscando apresentar aos professores de física propostas de um ensino plural em que os alunos com e sem deficiência visual pudessem desfrutar de uma aula que possibilitasse o desenvolvimento dos seus conhecimentos.

## Mobilização x Motivação

Faz-se necessário, neste trabalho, diferenciarmos o conceito de motivação e mobilização na perspectiva da Noção de Relação com o Saber para que o nosso objetivo se configure de forma indubitável. A mobilização é interpretada, aqui, como sendo a causa de uma relação interna íntima entre o sujeito e o aprender. É uma ação que coloca esse mesmo sujeito na direção do afetar e ser afetado pela relação de mediação entre um discurso enunciado do seu interior para fora, diferentemente de um discurso que se enuncia de fora para o seu interior (motivação), que remete ao fato de perceber apenas a enunciação de fora para o seu interior, ou seja, um discurso que chega ao aluno sem nenhuma relação múltipla com ele mesmo, com o outro, com o mundo e com o objeto (MORANGON, 2009).

A mobilização é um distanciamento do mundo da falta de significado; é um movimento que aproxima o sujeito de uma atividade consciente do seu objetivo. Charlot (2000, p. 55) chama atenção para o fato de que mobilizar-se 'é pôr-se em

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movimento'. É por isso que o autor dá preferência para o termo mobilização ao invés de motivação.

A motivação é defendida por Ryan e Deci (2000), na Teoria da Avaliação Cognitiva, uma subteoria que integra a proposição da Teoria da Autodeterminação. Na perspectiva da teoria da avaliação cognitiva existem dois tipos de motivações: intrínseca e extrínseca. Na extrínseca a pessoa é afetada por condições externas; uma situação em que a pessoa não se satisfaz com a ação por si só (APPEL-SILVA; WENDT; ARGIMON, 2010); uma atividade realizada para alcançar um objetivo externo, introduzido por outra pessoa, para obter recompensas e reconhecimentos, tendo em vista as pressões colocadas sobre ela (RYAN; DECI, 2000). Já na intrínseca a pessoa se move em ações motivadas internamente sem que haja uma recompensa externa imediata (RYAN; DECI, 2000); a escolha de uma atividade pela sua própria causa e/ou a busca por um prazer em realizar (GUIMARAES; BZUNECK 2004).

É importante destacar que: aquilo a que os autores acima chamam de motivação extrínseca é, de fato, uma motivação para Charlot (2000) por se tratar de alguém motivado por algo que vem de fora, sem um sentido, significado, faltando um desejo interno, para os alunos e as alunas. E o que Deci e Ryan (2000) chamam de motivação intrínseca é a mobilização, para Charlot (2000), uma ação que coloca o sujeito em movimento internamente, primeiramente, para em outro momento externalizar, encontrando um sentido, um desejo e um significado para o seu aprender. A seguir, descrevemos os passos da pesquisa.

## Metodologia

A pesquisa se caracteriza como sendo qualitativa descritiva. Segundo Gil (2008) a finalidade da análise descritiva é expor um estudo minuciosamente descritivo sobre uma determinada população ou fenômenos, além de possibilitar descrever uma situação em detalhes, percebendo o que está ocorrendo. A mesma utilizou, como instrumento de constituição de dados, a entrevista semiestruturada, apoiada na concepção de Flick (2009) e o Balanço do Saber na concepção de Charlot (2009).

Para Flick (2009), a entrevista semiestruturada permite ao pesquisador lidar de forma mais evidente com as conjecturas em relação ao agir, enunciar e à forma de manifestação do entrevistado durante a construção do diálogo. E na concepção de Charlot (2009), o Balanço do Saber pretende dar voz ao sujeito através de uma produção escrita acerca do objeto de pesquisa do pesquisador.

Para a constituição do corpus de análise, realizamos entrevistas semiestruturadas com dois estudantes com deficiência visual e dois videntes, todos do 3 ano do ensino médio. Transcrevemos suas falas na íntegra. Para preservarmos a identidade dos estudantes, os mesmos serão aqui nomeados de E1, E2, E3, E4, respectivamente, seguindo a ordem da realização das entrevistas. Assim, um dos critérios adotados para os estudantes participarem foi o de que estivessem no ensino médio, em qualquer série, e que a escola/turma apresentasse alunos com deficiência visual.

Nesse sentido, os estudantes E1 e E2 são cegos e os estudantes E3 e E4 não apresentavam nenhuma deficiência visual, segundo seus relatos.

Após ter identificado a escola e os alunos participantes, a pesquisa se desenvolveu em três etapas:

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Etapa 1 : Foi feito primeiramente uma análise a partir da observação da prática do esporte através dos treinos da seleção sergipana de Goalball , em que se procurou identificar os fenômenos e conceitos físicos abordados na prática desse esporte para uma abordagem didática na aula de física. Nesse contexto, as primeiras observações do treino levaram a conclusão que o Goalball proporciona dentro da Física os estudos sobre os seguintes fenômenos e conceitos: Repouso, trajetória, referencial, movimento uniforme e acelerado, velocidade, aceleração, inércia, massa, peso, impulso, centro de gravidade, gravidade, ondas sonoras, atrito, momento angular e linear, trabalho, energia, ricochete. Aqui, serão abordados os conceitos de Repouso, Trajetória, Referencial, força, peso, massa, gravidade e atrito.

Etapa 2 : Aproximação do esporte no contexto dos alunos. Aqui, levamos os alunos para a participação de um treino da seleção sergipana de Goalball .

- Etapa 3 : O planejamento da aula. Nessa etapa, elaboramos um plano de aula, envolvendo os alunos em situações a partir da prática com o Goalball .
- Etapa 4 : Aplicação do plano de aula. Nessa etapa, envolvemos os estudantes com e sem deficiência visual com o esporte na quadra da escola. E para isso, contamos com o apoio da equipe sergipana de Goalball , que disponibilizou seu material de treino, cordas, bola com guizo, fita adesiva, vendas e as hastes para montar as traves do gol.

## Resultados e discussões

- O planejamento da atividade didática envolvendo o Goalball visa desenvolver e construir os conceitos de trajetória, repouso, movimento e referencial com os estudantes a partir de situações do jogo. Assim, perguntou-se:

Situação 1: No momento em que você está se preparando para arremessar a bola para seu adversário, a bola em relação a você está em repouso ou em movimento? Por quê?

E1 responde: Ela está, ela está... eu ainda vou lançar, não é isso? Repouso.

E2: Repouso. Por que eu ainda vou lançar, eu não lancei ainda.

E3: É, É...acho que bem repouso, estou na dúvida.

E4: Eu acho que movimento, porque eu ainda vou pegar a bola.

Situação 2: No momento em que você está se preparando para arremessar a bola para o seu adversário, pode-se afirmar que você está em repouso ou em movimento em relação a ele? Por quê?

E1: Eu acho que eu tô em movimento, eu vou pegar a bola, enfim...

E2: Em movimento, pois eu ainda tô andando para arremessar ela.

E3: Em movimento, porque eu tô me movimentando pra poder lançar a bola para ela.

E4: Em movimento, porque vai lançar a bola.

Situação 3: Após a bola ser arremessada por você para seu adversário, ela seguirá uma trajetória, essa mesma bola em relação a você está em repouso ou movimento?

E1: Movimento, ele sai...

E2: Movimento, ela tá indo, se movimentando.

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E3: Continua em movimento? Você já lançou certo? Movimento, pois foi lançada.

E4: Entra em movimento? Constante? Mas e o atrito professor?

Situação 4: Após a bola ser arremessada por você para seu adversário, ela seguirá uma trajetória, essa mesma bola em relação a seu adversário, encontra-se em repouso ou em movimento?

- E1: Movimento, porque ela tá seguindo uma trajetória, e como ela tá seguindo uma trajetória, ela está se movimentando.
- E2: Movimento, porque ela esta indo em direção a ele.
- E3: Movimento, porque ela está em trajetória, eu lancei ela.
- E4: Em repouso, porque ela estará com o adversário.

Situação 5: Após a bola ser arremessada por você para o seu adversário, o que ocorre com ela?

- E1: Em movimento, ela sai.
- E2: Continua em movimento?
- E3: Entra em movimento constante
- E4: Continua em movimento?

Situação 6: Após a bola ser arremessada por você para seu adversário, ela seguiu uma trajetória e chegou até as mãos dele. O seu adversário está com ela nas mãos se preparando para arremessá-la de volta. A bola em relação ao seu adversário se encontra em movimento ou repouso?

- E1: Repouso, porque ele ainda está se preparando para lançar.
- E2: Repouso, porque ele está se preparando para arremessar.
- E3: Repouso, porque tá parada na mão dele.
- E4: movimento, porque ele está se preparando para arremessar.

Podemos destacar na situação 6 alguns conceitos físicos interpretados pelos estudantes. Eles conseguiram identificar se o corpo tomado como referência (bola) em relação ao corpo do atleta está mudando sua posição no decorrer do tempo. Esse fato, tempo decorrido, é percebido pelos estudantes através do barulho do guizo, bem como, é através do som dos guizos da bola, referenciais não visuais, que os estudantes com e sem deficiência visual tiveram a noção para onde a bola foi arremessada- trajetória. O conceito de trajetória possui significado vinculado (CAMARGO, 2016). Para o autor, significados vinculados 'são aqueles cujas representações externa e mental não são exclusivamente dependentes do referencial sensorial utilizado originariamente para o seu registro de veiculação'. Assim, por exemplo, se uma trajetória retilínea é observada por meio de códigos visuais, sua observação pode se dar também por percepções não-visuais, como a auditiva ou a tátil. Ou seja, o som emitido pelos guizos, durante o deslocamento da bola, fornecem ao observador informações que lhes permitiram a construção de representações internas acerca desse conceito.

- É importante destacar a pergunta feita por E4 na terceira situação, questionando a respeito da força de atrito no movimento da bola. Esse fato demonstra que o estudante vai se organizando intelectualmente no seu processo de aprendizagem, ou seja, ele começa a demonstrar que está 'disposto à', aprender, conhecer, a se doar durante a atividade.

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Diante dessa afirmação, buscou-se oferecer outros caminhos, através de outra linguagem, explorando outros recursos sensoriais, para que tanto os alunos com deficiência visual E1 e E2 quanto os alunos E3 e E4 encontrassem um sentido, desejo e prazer em participar do que havíamos planejado. Charlot (2012) nos remete que só estuda quem encontra um sentido, desejo, prazer e realiza uma atividade intelectual para estudar. Portanto, é nesse envolvimento que vamos percebendo nas suas falas desde o primeiro encontro, os efeitos da mobilização no seu processo de aprendizagem.

## O Balanço do Saber: A experiência de cada um sobre aprender física através do Goalball :

- E1: A experiência foi única, pois mostra a capacidade das pessoas com deficiência visual interagir em outras atividades físicas. Aprendi sobre liderança e trabalho em equipe. Aprendi sobre, referencial, repouso, movimento, eu posso ser um referencial em relação a alguma coisa, e isso pode servir para dizer se uma bola pode estar em repouso ou movimento.
- E2: Aprendi sobre quando um objeto tá em movimento e repouso, agora, por exemplo, eu estou em repouso em relação ao senhor.
- E3: Uma parte que mais gostei foi quando tivemos que vendar os olhos, vivenciamos como é ser cego. E me fez lembrar de assuntos que já tinha esquecido, repouso, movimento, referencial, trajetória.

E4: Então, achei algo muito bom, algo que mostra que os deficientes podem ter um esporte no qual eles se destacam e são livres para se jogar, sai daquela rotina de cuidados.

Nessas últimas falas, os estudantes expõe uma relação íntima construída com o Goalball , ao afirmarem a singularidade da experiência com ensino de física, quando se referem aos assuntos que aprenderam e lembraram com a aula e a relação com seus colegas, quando os alunos sem deficiência visual se colocaram no lugar dos colegas com deficiência visual, ou seja, percebendo o mundo em que o outro está inserido - alteridade. Assim, focando na ação dos estudantes, ou seja, na utilização do seu próprio corpo como um instrumento de agir e de ação, ação essa que para Charlot (2000) leva à mobilização, percebemos que os estudantes se colocaram a disposição da proposta, perguntaram, questionaram, tiveram dúvidas, foram pontuais nas aulas, além de criarem uma relação entre si.

## Conclusão

Planejamos uma aula com os estudantes através de uma atividade que pudesse incluí-los no seu processo de aprendizagem. Essa aula foi elaborada a partir de situações problemas de alguns fenômenos e conceitos físicos da Mecânica, repouso, referencial, movimento e trajetória relacionada com a prática do Goalball e com momentos de discussão.

Entendemos que para aprender o conhecimento precisa ser estruturado logicamente e o sujeito precisa querer aprender. Os estudantes (E1, E2, E3, e E4) se envolveram, e começaram a demonstrar que estavam no caminho certo, eles falaram e estruturaram respostas. Após as primeiras perguntas, fizeram questionamentos coerentes, refletiram sobre a sua própria aprendizagem quando afirmavam que não tinham entendido. Esse é o caminho da mobilização, o movimentar-se na busca pelo aprender.

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## Referências

APPEL-SILVA, M; WENDT, W. G; ARGIMON, I. I. L. A teoria da autodeterminação e as influências socioculturais sobre a identidade . vol.16, n.2, pp. 351-369, 2010. Disponível em: &lt; http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?pid=S167711682010000200008&amp;script=sci\_abst ract &gt;. Acesso em: 22 jan. 2018.

CHARLOT, B. Da relação com o saber : elementos para uma teoria. Trad. de MAGNE, B. Porto Alegre: Artmed, 2000.

CHARLOT, Bernard. A mobilização no exercício da profissão docente. [16 de Março, 2012]. Rio de Janeiro: Revista Contemporânea de Educação . Entrevista concedida ao I Colóquio Internacional de Formação Inicial e Continuada de Professores de Línguas Estrangeiras.

CHARLOT, B. A Relação com Saber nos Meios Populares : uma Investigação nos Liceus Profissionais de Subúrbio. Trad. Catarina Matos. Porto: Legis Editora, 2009.

CPB. Comitê Paralímpico Brasileiro . Disponível em: &lt; http://www.cpb.org.br/&gt; Acesso em: 05 de Jun. de 2018.

CBDV. Confederação Brasileira de Desportos de Deficientes Visuais . Disponível em : &lt; http://cbdv.org.br/&gt; Acesso em : 02 de Jun. de 2018.

CAMARGO, E.P. Inclusão e necessidade especial : compreendendo a identidade e diferença por meio do ensino de física e da deficiência visual. São Paulo: Editora Livraria da Física, 2016.

OLIVEIRA et al. O goalball como possibilidade de inclusão social de pessoas com deficiência visual. Revista Pensar e Prática , Goiânia, v. 16, n. 1, p. 165-182. 2013.

FLICK, Uwe. Desenho da pesquisa qualitativa 2009.

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GUIMARÃES, S. E. R.; BZUNECK, J. A. Propriedades psicométricas de uma medida de avaliação da motivação intrínseca e extrínseca: um estudo exploratório. Psico-USF , v. 7, n. 1, p. 01-08, 2002.

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