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JOVENS E EXPECTATIVAS DE ESTUDOS EM NÍVEL SUPERIOR: ELEMENTOS PARA RESSIGNIFICAR A FÍSICA NO ENSINO MÉDIO

Adriano Rodrigues Da Luz, Tânia Maria F. Braga Garcia

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XXIII
Ano
2019
Data
31/01/2019
Linha de pesquisa
Equidade, Inclusão, Estudos Culturais E O Ensino De Física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## JOVENS E EXPECTATIVAS DE ESTUDOS EM NÍVEL SUPERIOR: ELEMENTOS PARA RESSIGNIFICAR A FÍSICA NO ENSINO MÉDIO

## Adriano Rodrigues da Luz 1 , Tânia Maria F. Braga Garcia 2

1 UFPR, Física/NPPD/CNPq, adriano25100@hotmail.com 2 UFPR/PPGE/NPPD/CNPq, tanbraga@gmail.com

## Resumo

Apresenta resultados de pesquisa cujo objetivo é analisar relações entre elementos da experiência social de jovens alunos, suas expectativas de continuidade de estudos na universidade e possibilidades de ressignificar a Física, enquanto disciplina escolar. Apoia-se em autores que estudam os temas da juventude e da escolarização, além de pesquisadores em Ensino de Física. Considerando a expansão de oferta do Ensino Médio nas últimas décadas, seria esperado que a escolarização da população jovem tivesse crescido, contudo os índices oficiais indicam que um alto número de jovens em idade escolar está fora das escolas e, também, que a expansão de matrículas no Ensino Superior ainda é excessivamente baixa no país, apesar dos programas federais de incentivo e democratização do acesso, como o sistema de cotas e o PROUNI/SISU. Assim, justifica-se a investigação para aproximar-se de jovens alunos de Ensino Médio, ouvir e compreender sociologicamente seus pontos de vista sobre suas experiências sociais, em especial sobre a continuidade de estudos, e apontar contribuições desses dados para a ressignificação dos conhecimentos escolares de Física, enquanto uma disciplina que é considerada difícil e pouco interessante para os jovens. Foi aplicado questionário em duas escolas da rede pública de ensino, com questões fechadas e abertas, respondido por 183 alunos do Ensino Médio. A análise dos dados reafirmou a presença de baixa expectativa de continuidade de estudos, evidenciou a relação de metade dos jovens com as atividades de trabalho e com intenções de possibilidade de emprego. Metade dos alunos desconhece as formas de acesso às universidades brasileiras e a gratuidade nas instituições públicas, apontando a necessidade de propor caminhos para relacionar a Física com essas experiências sociais e culturais e, assim, ressignificar a disciplina no Ensino Médio.

Palavras-chave : Jovens e Ensino Médio. Experiência social dos alunos.

Física

## Introdução

Um dos desafios das últimas décadas tem sido compreender as relações entre os jovens, suas experiências sociais e os conhecimentos escolares. Do ponto de vista sociológico, alguns estudos são relevantes para situar as diferentes condições de ser jovem na vida contemporânea, especialmente no Brasil.

De acordo com dados do IBGE há um número maior para matriculados no Ensino Fundamental do que no Ensino Médio, o que indica que nem todos os matriculados no primeiro terminam essa etapa do ensino e dão continuidade aos estudos no segundo (IBGE, 2016). Se isso ocorre nas etapas iniciais da educação básica, o mesmo acontece para o Ensino Superior, de maneira mais explícita. Para além de serem indicadores que apontam a desvalorização da escola na sociedade, sugerem atenção consequências para os jovens.

Chamando a atenção para o aspecto mais dramático dessa situação, Peregrino (2010) afirma que a interrupção da escolarização, do Ensino Fundamental

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para o Médio, condena as pessoas a uma subescolarização e a um provável futuro precário. Trata-se, então, de uma questão que pode explicar a origem de muitos problemas existentes no país e, especialmente, aponta causas da desigualdade e exclusão social que gera tantas dificuldades à população brasileira, principalmente para as classes sociais menos favorecidas.

Do ponto de vista da Física - disciplina dos currículos do Ensino Médio defende-se a ideia de que temas deste campo podem ser estimuladores de atitudes investigativas e de interesse pela ciência e por seu estudo. Considerando que os jovens estão imersos em experiências relacionadas a elementos científicos e tecnológicos da vida contemporânea, pode-se supor que eles sejam capazes de provocar interesse, estimular a curiosidade e influenciar escolhas futuras, seja na continuidade dos estudos, seja na definição de atividades profissionais.

Ao mesmo tempo, sabe-se que há forte consenso na cultura escolar quanto às dificuldades que os jovens do Ensino Médio têm para compreender a Física; e os professores também referem suas dificuldades em ensinar esta disciplina. No campo do Ensino de Física, pesquisas sobre diferentes temas realizam estudos sobre metodologias de ensino, materiais didáticos, formação de professores, buscando apontar alternativas para a organização das aulas e, assim, diminuir a dificuldade escolar nesse conhecimento específico.

Esses elementos justificam a realização da pesquisa que focalizou os jovens e sua experiência social para, a partir de suas respostas, indicar questões e possibilidades para ressignificar a Física enquanto disciplina escolar. Foi desenvolvida uma pesquisa empírica de natureza exploratória em duas escolas públicas em uma capital de Estado da região Sul, cujos resultados serão relatados neste texto.

## Referências teóricas

Os estudos sobre jovens e juventude apontam as dificuldades de definir de forma precisa esses conceitos. Em relação ao termo juventude, Pereira (2012) afirma que ele deve ser pensado em torno de condições de gênero, raça, classe social, moradia e pertencimento religioso, mas enfatiza, principalmente, o contexto histórico, observando que o jovem integra uma geração específica que se relaciona com outras gerações, que, muitas vezes, não é a sua. As juventudes mostram-se diferentes umas das outras, mas ainda assim possuem elementos em comum, e um desses elementos é a escola. Os alunos chegam às escolas públicas com suas diferenças, diversidades e valores que construíram ao longo do tempo em outros ambientes, convivendo com pessoas que já diferem entre si, apresentando características, práticas sociais e universos simbólicos próprios. Nesse sentido, uma pergunta que aparece na discussão do tema sobre juventudes é: Quem é esse jovem?

Especialistas defendem a ideia de que não se pode falar no jovem atual, mas sim nas maneiras de vivenciar a juventude na atualidade. Pereira (2012) afirma que atentar para os aspectos de diferenciação pode ser crucial para discutir as políticas públicas relacionadas à escola e, também, problematizar as especificidades do papel da instituição escolar no mundo moderno.

No contexto brasileiro, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) reconhece que a população jovem do país pressiona a economia para

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criação de novos postos de trabalho e constitui público alvo de uma gama de estratégias intencionais voltadas exclusivamente para eles, como marketing, mídia, indústria de consumo e lazer. Ainda, quanto à escolaridade, aponta-se que há uma grande defasagem entre a idade e o grau de escolaridade atingido, principalmente entre os jovens na faixa de 15 a 17 anos. Além disso, a distribuição da desigualdade também se revela quando se afirma que, no Nordeste do país, entre os jovens de 18 a 29 anos, apenas cerca de 18,4% têm acesso ao ensino superior, enquanto no Sudeste são cerca de 48,5%. Também se informa que, medidas como o Programa Universidade para Todos (Prouni) e o Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) foram avanços de caráter compensatório, mas o enfrentamento dessa desigualdade depende da formação do jovem na educação básica.

Outra questão que acompanha as mudanças sociais e, consequentemente, a vida dos jovens, é a tecnologia e sua democratização. Até aproximadamente os anos 2000, a população brasileira convivia com o que se costuma chamar de analfabetismo digital. Enquanto um terço (33%) dos europeus já acessava a internet, apenas 9% dos brasileiros possuía computadores, apenas 4% desses acessavam à internet, na maior parte nos locais de trabalho e locais públicos (CASTRO e ABRAMOVAY, 2002). Atualmente a situação é significativamente diferente, e a esmagadora maioria dos jovens possui acesso às tecnologias como computadores e celulares, estes últimos sempre conectados à internet.

A sociedade atual é gerida por adultos que nasceram em gerações anteriores. Os jovens encontram uma sociedade com história e estrutura que não foram produzidas por eles. Fatores como a etnia, o gênero, a escolaridade e o trabalho dos pais, junto com outros elementos, influenciam o destino das pessoas desde o nascimento e fogem ao controle delas, enquanto construções do passado. Dessa forma, a própria sociedade dita ao jovem como o mundo funciona, quem ele é, qual é seu papel, os sonhos que pode ter. A sociedade acaba impondo os limites de forma implícita. Dayrell (2003) afirma que o que produz a cultura própria da pessoa é o nível do grupo social em que ela se identifica, e também a forma própria de vivenciar e interpretar as relações e contradições entre si e a sociedade.

Nesse sentido, o conceito de moratória social, apresentado por Pereira (2012) é interessante para estudar e entender algumas particularidades em relação às juventudes, em especial de classes sociais diferentes. A autora esclarece que '(...) a ideia de moratória, entendida como um período de suspensão de obrigações e responsabilidades, é defendida como elemento importante para permitir aos jovens fazer suas escolhas e experimentar o mundo. Esse período antes da maturidade biológica e social seria de maior permissividade, configurando, 'a moratória social do qual desfrutam alguns jovens privilegiados por pertencer a setores sociais mais favorecidos'. (PEREIRA, 2012, p. 01). É possível relacionar os fatores sociais sobre os quais os jovens não têm controle com as ideias de moratória social. Esses fatores afetam e estão intimamente relacionados com os privilégios que as crianças e os jovens podem ter durante sua vida. Pode-se dizer também que os fatores influenciam os desencantos, a percepção do distanciamento das instituições públicas, as incertezas sobre o futuro, a intolerância ao totalitarismo, a descrença em si mesmo e na política do país, em geral. Somando todos esses fatos, a preocupação dos jovens, nas camadas populares, acaba por centra-se em conseguir um emprego e em ter seu próprio dinheiro antes mesmo de terminar o Ensino Médio (PEREIRA, 2012).

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Diante dessas considerações, a escolarização se torna uma questão complexa. Segundo Garcia (1993), os jovens colocam a escolaridade em segundo plano, já que ela não está ligada diretamente com a questão de sobrevivência, e priorizam outras necessidades como a alimentação, saúde, habitação e certa independência financeira, necessidades que serão atendidas mais facilmente com uma renda mensal. Por outro lado, o mercado de trabalho está exigindo cada vez mais um grau maior de escolaridade, mesmo para funções em que esta pareceria não ser necessária. Sabe-se que as transformações vêm exigindo cada vez mais conhecimentos técnicos e específicos, geralmente ligados a algum tipo de formação profissional, em nível superior, tecnológico ou técnico.

Com base em tais referenciais, propôs-se pesquisa para ir ao encontro de jovens alunos de escolas públicas, com o objetivo de compreender elementos de sua experiência social e de suas expectativas de continuidade de estudos, apontando possibilidades para ressignificar a Física como uma disciplina escolar, dada sua importância enquanto ciência e na relação com as tecnologias, conforme sugerido nos documentos curriculares nacionais (BRASIL, 2000; 2006)

## Procedimentos metodológicos

Para os objetivos desta pesquisa, optou-se pela aplicação de questionário para fazer a aproximação com os alunos, sujeitos participantes, permitindo obter informações e opiniões deles sobre o tema em foco. Esse é um instrumento válido para estudos de natureza exploratória, embora sejam reconhecidos seus limites, não permitindo aprofundar significados para determinadas ações ou pontos de vista dos sujeitos (GHIGLIONE e MATALON, 2005). O questionário incluiu uma apresentação por escrito sobre as intenções de pesquisa para os alunos e um conjunto de questões com alternativas, com espaços para acréscimos de comentários, e com uma única questão dissertativa no fim. As questões fechadas e abertas abordaram temas sobre a vida pessoal dos alunos como trabalho remunerado; informações sobre os responsáveis; questões socioeconômicas; interesses sobre assuntos diários; relações com leitura; afazeres diários; as expectativas de continuação de estudos e informações sobre a universidade. Por meio desse instrumento, foi feita a coleta de informações que permitiram produzir dados sobre formas pelas quais os alunos vivem sua condição juvenil.

## Resultados

O instrumento foi aplicado em duas escolas. A escola A está localizada em bairro na região sul, na periferia da cidade, a cerca de 20 km da região central; pode ser considerada de médio porte, oferta Ensino Fundamental e Médio nos turnos manhã, tarde e noite. As instalações são adequadas e há espaços para atividades diferenciadas, bem como atendimento a alunos com dificuldades para aprender. A escola B está localizada na região central da cidade; é considerada de grande porte, porte pelo número de alunos que atende nos cursos de Ensino Médio, e em outros níveis, funciona nos turnos da manhã, tarde e noite, conta com um grande número de professores e funcionários, a maioria de efetivos. Tem boas instalações físicas e ambientes para atividades diferenciadas, atende os alunos em suas diferentes necessidades, atividades complementares e apoio pedagógico.

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## Os jovens participantes da pesquisa e elementos do seu capital cultural

Na escola A, participaram 133 alunos divididos em três turmas do 3º ano do Ensino Médio do período diurno e duas turmas do 3º ano do período noturno. Na escola B foram cerca de 50 alunos do período noturno que se mostraram receptivos e interessados e dispostos a colaborar com a pesquisa. Em ambas as escolas, houve um equilíbrio entre o número de alunos e alunas, e um número menor de alunos que desejou não se identificar quanto ao gênero. Em ambas as escolas, a maioria de alunos se auto-identificou como branco ou como pardo. A maioria vive com os pais, em famílias com mais de quatro pessoas.

Para situar elementos relativos ao capital cultural (BOURDIEU, 1998), tomou-se como indicador a escolaridade dos pais, que pode ser entendido como elemento de distinção entre grupos e classes sociais, de acordo com os referenciais teóricos. Na escola da região central, a maioria dos pais tem Ensino Médio completo e Nível Superior, enquanto na escola periférica registrou-se uma maioria com o Ensino Fundamental incompleto, ou completo. Em ambas as escolas registrou-se que alguns nunca foram à escola.

Registrou-se um maior número de mães em situação de estudos incompletos nos diferentes níveis escolares. Na Escola B foram 56% de mães com ensino médio completo e superior, mas apenas 20% registram a continuidade de formação em Nível Superior. Na escola A, escolaridade das mães com ensino médio incompleto, completo e ensino superior é proporcionalmente maior que a dos pais na mesma escola: 12,7% das mães tem ensino superior, enquanto 8,2% dos pais registraram esse nível escolar. Ainda que pequena, a diferença corresponde também aos índices nacionais que mostram maior escolarização entre elas.

Ainda neste aspecto, os dados sobre as atividades profissionais de pais e mães dos jovens participantes podem contribuir para situar o capital cultural das famílias dos jovens. Na escola A trabalham como autônomos 30,8% dos pais e são assalariados em empresa 28,6%. Na escola B, 24,5% dos pais são autônomos e 49% são assalariados em empresa. As mães de ambas as escolas concentram sua atividades profissionais como autônomas, assalarias em empresas trabalhadoras domésticas remuneradas.

## Elementos das experiências sociais e culturais dos jovens

Nos limites deste texto, foram selecionados alguns elementos que compõem as experiências desses jovens alunos, sujeitos das escolas públicas onde se realizou a pesquisa. Houve um número elevado de alunos que indicou ter computadores e celulares, e praticamente todos disseram informaram fazer uso dos equipamentos para acessar a internet. Metade dos jovens, em ambas as escolas, informaram que vivem conectados e que realizam leituras nos computadores e celulares, o que poderia ser explorado também nas atividades escolares. A leitura de livros não é uma atividade comum à maioria deles, confirmando dados de pesquisas nacionais; mas há um número significativo de alunos que informou 'ler de tudo' ou ainda 'ler o que gosta', evidenciando possibilidades de trabalho escolar com a leitura em suportes impressos.

Os resultados evidenciam que as atividades relacionadas a jogos, filmes, música e redes sociais concentram maiores preferências dos jovens quando não estão na escola. Mas é fundamental destacar as atividades de trabalho que são

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rotineiras para grande parte dos alunos em ambas as escolas. Quando não estão na escola, o trabalho foi uma das atividades mais frequentes para 40,6% dos jovens da Escola A e para 34,7% dos jovens da escola B, sugerindo similaridade com as problemáticas apontadas pelos referenciais teóricos. A redução do tempo de estudo e a possibilidade de satisfazer necessidades - básicas ou criadas pelo consumo acabam for reforçar o desejo e o interesse de priorizar o trabalho para a maioria dos jovens, em ambas as escolas. Esse interesse no trabalho ocorre em detrimento do período de moratória social (Pereira, 2012) que poderia abrir expectativas de continuidade no ensino superior para os jovens das escolas públicas brasileiras. Os dados da pesquisa permitem algumas análises sobre esse ponto, como se mostra a seguir.

## Expectativas de estudos em nível superior

Em ambas as escolas, a grande maioria dos alunos respondeu que pretendia fazer alguma faculdade. Na escola A, foram 82% e na Escola B 89,8% que informaram ter a intenção de fazer alguma faculdade. Mas quando perguntados sobre o grau de certeza que tinham quanto a essa possibilidade, os dados evidenciaram diferença significativa entre as escolas: Na escola B, mais de 50% dos alunos informaram ter muita certeza de que iriam cursar a faculdade, enquanto que, na escola A, apenas 27,8% marcaram esse grau de certeza. Contudo, mais da metade dos dois grupos informou que apesar de seu interesse em fazer um curso superior, havia motivos que impediriam que isso acontecesse. Entre os motivos apontados para não continuar os estudos, os alunos de ambas as escolas apontaram falta de tempo, falta de dinheiro e falta de estudo.

## Análises e considerações finais

A maioria dos alunos mostrou algum grau de interesse sobre estudos, sobre fazer as lições e sobre dar continuidade aos estudos no ensino superior. Mesmo na escola A, localizada na região periférica da cidade, na qual, em geral, os pais têm menor grau de escolarização superior, os alunos mostraram-se interessados na continuidade dos estudos após o Ensino Médio. A maioria dos jovens tem grau alto de certeza de que irá cursar o ensino superior; mas apesar de afirmarem ter interesse e vontade, dizem que há fatores que poderiam dificultar ou impedir esse projeto, entre os quais a necessidade de trabalhar e as dificuldades financeiras.

Todos os alunos afirmaram ter acesso diário à internet, porém cerca da metade deles não evidenciou ter acessado informações sobre a Universidade e as formas de acesso de maneira autônoma, o que mostra que esse tipo de assunto não está presente usualmente no cotidiano familiar, nem no escolar. Muitos não acessam esses conhecimentos naturalmente, e uma das explicações pode estar relacionada à baixa escolarização em nível superior dos próprios pais. Considerando que são alunos do último ano do Ensino Médio, caberia a escola partilhar informações sobre a universidade e as formas de acesso - e isso desde o Ensino Fundamental. Ter acesso a essas informações poderia favorecer uma mudança no destino e nas escolhas de muitos alunos das redes públicas.

- O que esses resultados podem apontar para os professores de Física? Inicialmente, destaca-se que trabalhar com os jovens como se fossem passivos e desinteressados, o que ocorre em muitas aulas no modelo tradicional expositivo, é um equívoco e uma falha, com graves consequências para a interação com o

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conhecimento. Os jovens se mostram capazes de estudar, entender, ler, discutir, opinar, sentir e fazer, com qualidade, como um adulto faz. Dessa forma, levar em conta a opinião e necessidades deles pode ser uma maneira adequada para a construção de novas possibilidades de relação com o conhecimento da Física e com a vida social, ressignificando a disciplina e a escola na vida desses alunos.

Nesse sentido, uma alternativa possível para o professor de Física contribuir para que o jovem estabelecesse relações mais positivas com os conhecimentos científicos seria aliar o conteúdo do Ensino de Física com o contexto social contemporâneo e mostrar as possíveis relações da Física com as outras disciplinas. Essa estratégia poderia despertar curiosidade nos alunos e abrir espaço para o interesse nas áreas acadêmicas do Ensino Superior, além de produzir um novo significado da Física como disciplina escolar para os jovens. Apoiados pelas coordenações das escolas, professores de Física poderiam articular seu trabalho com outros professores para criar um contexto de ensino que ajudasse os jovens a superar a visão fragmentada produzida pela disicplinarização, como acontece em algumas escolas. Os PCNs apontam nessa direção e muitos professores de Física já abrem espaço para a História e Filosofia da Ciência e para a Física do cotidiano em suas aulas, o que certamente influencia positivamente a relação dos alunos com os conhecimentos científicos. Essas novas formas de aprender os conteúdos de Física têm sido cada vez mais incluídas em provas de larga escala como o Enem, que valoriza o entendimento de situações problema relacionadas ao cotidiano. São formas que atraem mais a atenção dos alunos, provocam questionamentos e estimulam a curiosidade em conhecer e estudar a natureza.

No caso dos jovens que trabalham - cerca de 50% no caso em estudo - o professor de Física poderia relacionar os conteúdos com a atual Quarta Revolução Industrial, discutindo que a geopolítica atual e os interesses econômicos dos países de primeiro mundo e emergentes estão centrados em tecnopolos como o Vale do Silício nos Estados Unidos da América (EUA); Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) no Brasil, entre outros. O desenvolvimento econômico mundial poderia ser problematizado, evidenciando-se que o desenvolvimento está sendo baseado cada vez mais em áreas acadêmicas e que as empresas tecnológicas estão buscando trabalhadores com qualificação, para tipos de trabalho que exigem maiores níveis de conhecimento. Também poderia abrir espaço para mostrar e discutir as políticas governamentais do Brasil em relação à Ciência, Educação e Tecnologia, e a nova política de desenvolvimento mundial, principalmente para países emergentes como os BRICS, que visa e se baseia justamente no progresso tecnológico (intimamente ligado à educação), avaliando as medidas tomadas pelo Estado brasileiro nessas áreas e a forma com que essas medidas afetam os interesses da nação. Dessa forma, os conteúdos clássicos da disciplina poderiam ter maior significado a partir de sua inserção na vida cotidiana dos alunos e das relações que podem ter com o trabalho que eles, jovens das escolas públicas, desenvolvem.

Nesse sentido, as tecnologias oferecem possibilidades de trabalho nas aulas, por meio de textos, de exemplos, de experimentações e outras formas didáticas que são adequadas a uma aprendizagem mais significativa. É possível fazer os alunos entrarem em contato com conhecimentos da Física que estimulem interesses em campos específicos para seus estudos futuros, para a continuidade dos estudos apesar das dificuldades decorrentes das estruturas sociais em que estão inseridos. A escola vem perdendo espaço e valor perante as tecnologias e mídias sociais,

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como também diante das atividades de trabalho, atividades que valorizam e que ocupam seu tempo. Portanto, as características observadas a partir da pesquisa realizada evidenciam a necessidade de novos significados para o ensino de Física, mais próximos dos alunos e da realidade contemporânea, incluindo políticas e práticas de acesso à informação, para que os jovens possam aproveitar mais e melhor o tempo de moratória social a fim de poderem fazer escolhas mais conscientes, que perspectivem outras possibilidades para seus futuros.

## Referências

BOURDIEU, P. Escritos de Educação. NOGUEIRA, M. A., GOUVEIA, A. J. (org). Petrópolis, RJ: Vozes, 1998.

BRASIL. Ciências da natureza, matemática e suas tecnologias / Secretaria de Educação Básica. - Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Básica, 2006. (Orientações curriculares para o ensino médio; volume 2).

BRASIL. Parâmetros Curriculares Nacionais. Parte III - Ciências da Natureza, Matemática e suas Tecnologias. 2000. (Coordenador da Área: Luís Carlos de Menezes)

CASTRO, M. G., ABRAMOVAY, M. Jovens em Situação de Pobreza, Vulnerabilidades Sociais e Violências. Cad. Pesquisa, n. 116, p. 143-176, julho, 2002.

DAYRELL, J. O jovem como sujeito social. Rev. Bras. Educ. 2003, n. 24, p. 40-52.

GARCIA, R. M. S. & outros. Afinal, para que serve a escola? Representação feita por adultos alfabetizados e analfabetos. Paidéia, FFCLRP - USP, Rib. Preto, 4, 1993.

GHIGLIONE, R.; MATALON, B. O inquérito. Teoria e Prática. Oeiras, PO : Celta, 2005.

IBGE. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios. Síntese de Indicadores. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Rio de Janeiro, 2016.

PEREGRINO, M. Trajetórias desiguais: um estudo sobre os processos de escolarização pública de jovens pobres. Rio de Janeiro, Brasil: Garamond, 2010.

PEREIRA, A. B. Juventude, Juventudes. Teoria e Debate. 2012. Disponível em: http://www.teoriaedebate.org.br/materias/sociedade/juventudejuventudes?page=full. Acesso em: 28 fev. 2018.

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