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CONTRIBUIÇÕES FEMININAS NO DESENVOLVIMENTO DA FÍSICA: UMA PESQUISA EM PERIÓDICOS DA ÁREA DE ENSINO

Raquel Aparecida De Carvalho, André Coelho Da Silva, Tairine De Carvalho Cabral

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XXIII
Ano
2019
Data
31/01/2019
Linha de pesquisa
Equidade, Inclusão, Estudos Culturais E O Ensino De Física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## CONTRIBUIÇÕES FEMININAS NO DESENVOLVIMENTO DA FÍSICA: UMA PESQUISA EM PERIÓDICOS DA ÁREA DE ENSINO

## Raquel Aparecida de Carvalho 1 , André Coelho da Silva 2 , Tairine de Carvalho Cabral 3 ,

1 Instituto Federal de São Paulo (IFSP), campus Itapetininga, raquelaccosmo@gmail.com

2 IFSP, campus Itapetininga, andrecoelho@ifsp.edu.br

3 IFSP, campus Itapetininga, tairinec.cabral@outlook.com

## Resumo

A Física e a Ciência como um todo historicamente têm sido vistas como campos masculinos. Trata-se de uma visão condicionada e naturalizada por diversos elementos, entre eles, o silenciamento sobre as contribuições femininas para a construção de conhecimento nessas áreas. Nesse sentido, partimos do pressuposto de que uma das formas de contribuir para que meninas tenham atitudes/sentimentos mais positivos em relação ao estudo da física é oferecendo exemplos de mulheres que tenham contribuído no desenvolvimento dos conhecimentos associados a essa disciplina. O objetivo deste trabalho é compreender se e como as contribuições femininas para o desenvolvimento da física têm sido abordadas em artigos publicados por periódicos brasileiros da área de ensino de física/ciências. Para isso, realizamos buscas em oito dos mais conceituados periódicos brasileiros da área, inserindo nos sistemas de busca de cada um deles as seguintes palavras: mulher, Noether, Herschel, Châtelet, Hipacia, Curie, Meitner, Mayer, Germain, Somerville, Kovaleskaia, Cannon, Burnell e Fleming. A efetivação desses procedimentos nos levou a encontrar apenas três trabalhos que abordam contribuições de mulheres na física, dois deles publicados no Caderno Brasileiro de Ensino de Física e um deles publicado na Revista Brasileira de Ensino de Física. Além disso, dois deles dizem respeito à Lise Meitner e um deles à Marie Curie. Ainda que tenhamos consultado apenas oito periódicos, acreditamos ser possível afirmar que o reduzido número de trabalhos encontrados sugere que a divulgação de contribuições de mulheres para o desenvolvimento da física bem como a proposição/análise de sequências didáticas que as abordem não têm sido alvo primordial de pesquisadores da área. Trata-se de uma lacuna que, ao nosso ver, dificulta a superação de sentidos que associam a física ao sexo masculino.

Palavras-chave : mulheres; física; revisão bibliográfica.

## Introdução

A física costuma ser vista como 'coisa de menino' - algo que parece ser consequência, entre outros aspectos, da forma pela qual ela costuma ser trabalhada na escola (foco no formalismo matemático - e a matemática também costuma ser vista como 'coisa de menino') e das imagens que culturalmente associamos aos cientistas: homens brancos e magros que usam óculos, jaleco branco e que não penteiam o cabelo (CUNHA; GIORDAN, 2009; TOMAZI et al ., 2009; FAGIONATORUFFINO; PIERSON, 2013). De fato, segundo o Relatório Síntese do Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (ENADE), do total de concluintes em física no Brasil (bacharelado e licenciatura) que realizaram o exame em 2014, apenas 30% eram mulheres (BRASIL, 2016).

Estudos relacionados a essa temática - tais como Kosminsky e Giordan (2002), Reis e Galvão (2006), Reis, Rodrigues e Santos (2006), Goldschmidt,

Goldschmidt Júnior e Loreto (2014), Martinez (2016), Silva, Santos e Rôça (2016) -, têm investigado, entre outras coisas, quais são os elementos que compõem a imagem de cientista, de que maneira ela é culturalmente forjada e propagada e porque ela costuma remeter apenas a cientistas do sexo masculino.

Esses trabalhos indicam que entre os fatores que contribuem para a formação da imagem de que a física e a ciência como um todo são 'coisas de menino' está a natureza das contextualizações costumeiramente realizadas em sala de aula - contextualização entendida aqui como um recurso que objetiva incorporar aos conteúdos de ensino vivências do cotidiano dos estudantes (WHARTA; ALÁRIO, 2005). Nesse sentido, muitas vezes os livros didáticos e/ou os professores de física utilizam como elementos de contextualização apenas aqueles que culturalmente estão mais associados ao 'universo masculino' -o futebol, as corridas de automóveis, o multímetro etc. Embora defendamos que um dos papeis da educação escolar seja desmitificar a ideia de que há 'coisas de menino' e 'coisas de menina' evidenciando que essa distinção não é natural, mas sim culturalmente produzida -, entendemos que se trata de um trabalho contínuo de problematização que deve perpassar o âmbito da educação escolar - em todas as disciplinas - e o âmbito da educação familiar. Em outras palavras: uma das possíveis formas de se contrapor à representação de que física é 'coisa de menino' é investir em sua contextualização por meio de elementos que historicamente vêm sendo mais associados ao 'universo feminino'.

No que se refere à escolha de uma profissão pelos jovens, de acordo com Menezes (2017), estudos têm evidenciado que a opção de mulheres por carreiras científicas é favorecida quando elas são influenciadas por fatores como: pais e professores que conversam sobre assuntos científicos; conhecimento de exemplos de cientistas mulheres que obtiveram grande reconhecimento em suas carreiras; e confiança na igualdade intelectual. Segundo a autora, dados do PISA (Program for International Student Assessment), realizado por estudantes com cerca de 15 anos de idade, indicam que o desempenho em matemática e em ciências de meninas e de meninos brasileiros tem se mostrado equivalente. Já dados recentes do ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio) - em geral, realizado a partir dos 17 anos de idade - apontam diferença entre os desempenhos de meninos e meninas: estas têm desempenho pior na média e também em todas as questões de matemática e de ciências quando analisadas individualmente. Esses apontamentos indicam que durante o ensino médio as estudantes brasileiras perdem afinidade com disciplinas como física, química e matemática, o que resulta em piores desempenhos no ENEM.

Neste trabalho, investimos na ideia de que uma das maneiras de fomentar a afinidade de meninas pela física é oferecendo exemplos de mulheres que possuem reconhecida importância no desenvolvimento dessa disciplina. Ressaltamos que tal estratégia não visa primordialmente incentivar as meninas a se tornarem físicas profissionais, pois pensamos que elas podem e devem se engajar em quaisquer profissões que queiram - e não somente como pesquisadoras ou professoras de física. O que objetivamos, sobretudo, é pensar alternativas para fomentar junto às estudantes do ensino médio a concepção de que a física possibilita a compreensão rigorosa de fenômenos naturais e artificiais, inclusive aqueles relacionados a situações que vivenciam em seus cotidianos. Dessa forma, procuramos tornar a física mais atraente para as meninas, contribuindo para a formação cultural das estudantes e atuando em prol da desnaturalização de sentidos como os de que 'menina não gosta de física' e de que 'física é coisa de menino'.

Tendo em vista esses apontamentos, neste trabalho temos como objetivo compreender se e como as contribuições femininas para o desenvolvimento da física têm sido abordadas em artigos publicados por periódicos brasileiros da área de ensino de física/ciências.

Na seção seguinte explicitaremos a metodologia empreendida para alcançarmos o objetivo proposto.

## Metodologia

A fim de encontrarmos trabalhos que abordam contribuições efetuadas por mulheres no desenvolvimento da física, realizamos buscas em alguns dos mais conceituados periódicos brasileiros da área de ensino de física/ciências, conforme indicado na Tabela 1, a seguir:

Tabela 01: Periódicos consultados

Vale explicitar que a segunda coluna da tabela indica a classificação obtida por cada um dos periódicos consultados no Qualis Periódicos - Área de Ensino Quadriênio 2013-2016. Trata-se de uma avaliação realizada pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). Nela, A1, A2 e B1 são, nessa ordem, as melhores classificações. Logo, podemos considerar que realizamos buscas em periódicos reconhecidamente prestigiados no Brasil.

Partimos do pressuposto de que uma das formas de contribuir para que meninas tenham atitudes/sentimentos mais positivos em relação ao estudo da física é oferecendo exemplos de mulheres que tenham contribuído no desenvolvimento dos conhecimentos associados a essa disciplina. Paralelamente a isso, consideramos que periódicos da área de ensino de física/ciências se constituem como fontes de consulta para professores dos ensinos básico e superior e, nesse sentido, ao divulgarem trajetórias de mulheres na física e/ou sequências didáticas que as abordem, esses periódicos estão contribuindo junto à desnaturalização de ideias como a de que 'física é coisa de menino'.

Para a realização das buscas foram colocadas nos sistemas de busca de cada um dos periódicos listados anteriormente as seguintes palavras: mulher, Noether, Herschel, Châtelet, Hipacia, Curie, Meitner, Mayer, Germain, Somerville, Kovaleskaia, Cannon, Burnell e Fleming. Conforme pode ser notado, além da palavra 'mulher', utilizamos como palavras de busca os sobrenomes de outras

quatorze mulheres (Curie vale tanto para Marie Curie quanto para sua filha Irene Curie) - trata-se de cientistas das quais já havíamos levantado contribuições para a física em livros, especificamente em Martins (2012) e Rooney (2013).

Há que se registrar que as buscas tiveram como escopo o resumo dos artigos publicados pelos periódicos e que não as limitamos a um período específico de tempo, isto é, as buscas foram realizadas em todos os números publicados online até março de 2018.

## Resultados

A efetivação dos procedimentos indicados na seção anterior nos levou a encontrar apenas três artigos que abordam contribuições de mulheres na física, conforme Tabela 2, a seguir:

Tabela 02: Artigos encontrados

Vale pontuar ainda que o trabalho de Mizrahi (2005) é uma 'Carta ao Editor'. Nele, o autor aborda aspectos da vida e da obra de Lise Meitner, física austríaca com importantes contribuições para a física nuclear.

- Já Cordeiro e Peduzzi (2010) e Cordeiro e Peduzzi (2014), além de apresentarem algumas das contribuições de Marie Curie e Lise Meitner, respectivamente, discutiram e propuseram possibilidades para a abordagem didática dessas contribuições em aulas de física.

Das mulheres cujas contribuições foram abordadas por Martins (2012) e Rooney (2013), encontramos artigos associados a apenas duas, isto é, 14%. Em contrapartida, na Tabela 3, a seguir, registramos em que campos da Física as quatorze mulheres mencionadas pelos referidos autores tiveram suas contribuições de maior destaque:

Tabela 03: Síntese de contribuições de mulheres à Física

Por fim, há que se registrar que em apenas dois dos oito periódicos consultados - isto é, 25% - encontramos artigos que abordassem contribuições femininas para a física como as elencadas na tabela anterior.

## Considerações Finais e Perspectivas de Continuidade

Ainda que tenhamos consultado apenas oito periódicos, acreditamos que o reduzido número de trabalhos encontrados sugere que a divulgação de contribuições de mulheres para o desenvolvimento da física bem como a proposição/análise de sequências didáticas que as abordem não têm sido alvo primordial de pesquisadores da área. Trata-se de uma lacuna que, ao nosso ver, dificulta a superação de sentidos que associam a física e a ciência como um todo ao sexo masculino.

Enquanto perspectivas para a continuidade deste trabalho, iremos investigar se e como livros didáticos de física destinados ao ensino médio têm abordado contribuições femininas no escopo da física. Analisaremos e proporemos também de que forma as contribuições efetuadas pelas quatorze mulheres mencionadas neste trabalho - e, porventura, por outras que passemos a conhecer - podem ser trabalhadas na física do ensino médio.

## Referências

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