O movimento Deutsche Physik e o ensino de Física na Alemanha nazista
Felipe Lopez, José Luis Ortega, Cristiano Mattos
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXIII
- Ano
- 2019
- Data
- 31/01/2019
- Linha de pesquisa
- História, Filosofia E Sociologia Das Ciências E O Ensino De Física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## O movimento Deutsche Physik e o ensino de Física na Alemanha nazista
## Felipe Lopez 1 , José Luis Ortega 2 , Cristiano Mattos 3
1 Programa de Pós-Graduação Interunidades em Ensino de Ciências, USP, fsanches@if.usp.br 2 Programa de Pós-Graduação Interunidades em Ensino de Ciências, USP, ortega@if.usp.br 3 Instituto de Física, USP, mattos@if.usp.br
## Resumo
Durante sua campanha eleitoral, Adolf Hitler propôs realizar mudanças profundas na educação da Alemanha. Esse discurso, alinhado com outras promessas, fez sua popularidade crescer entre os professores e ganhar o apoio de diversos estratos sociais, transformou as escolas em ferramentas de produção e transmissão de uma nova cultura baseada nas ideologias do Partido Nazista. Mais marcas desse direcionamento podem ser encontradas no novo currículo escolar, especificamente o voltado para as ciências, que fora dividido entre currículo masculino, sinteticamente caracterizado como Ciência da Guerra, no qual se aprendia sobre tópicos de logística, armas químicas, lançamento de mísseis e bombas, como se proteger de ataques; e o currículo feminino, baseado em uma ciência voltada ao uso doméstico, como a química e biologia dos alimentos, a física dos eletrodomésticos etc. Em suma, conflitos históricos do Nazismo permitem-nos evidenciar relações entre as esferas educacionais e política, e estabelecer determinações nos produtos da atividade educacional, em particular no ensino de ciências. A sociedade científica também foi comprometida durante o período em que os nazistas estiveram no poder. Nesse estudo, buscamos entender os princípios do movimento denominado Deutsche Physik e como ajudou a modificar o estudo e ensino de Física durante o período pré-guerra na Alemanha nazista.
Palavras-chave : currículo, ensino de ciências, nazismo.
## Introdução
O movimento denominado Física Alemã ( Deutsche Physik ) foi criado em meados da década de 1930 por dois renomados físicos alemães e ganhadores do prêmio Nobel, Phillipp Lenard (1862-1947) e Johannes Stark (1874-1957). Apesar do movimento ter sido fundado na década de 1930, o desenvolvimento do pensamento de que judeus não deveriam realizar pesquisas, uma vez que seu sangue impuro não permitia que eles buscassem a verdade, pode remontar do início da década de 1920. Com a detecção do desvio da luz em 1919, a popularidade de Einstein cresceu inclusive no meio popular, o que ofuscou a premiação do Nobel de Stark no mesmo ano. Anos mais tarde, Einstein ficaria ainda mais popular com o seu Nobel pela explicação do efeito fotoelétrico e ganharia ainda mais prestígio nos círculos acadêmicos e Lenard chegaria a escrever uma carta de descontentamento para a comissão do Prêmio Nobel (BEYERCHEN, 1977; HENTSCHEL, 1996).
Também segundo Hentschel (1996), os avanços da mecânica quântica, na década de 1920, não agradavam a Lenard e Stark. A participação de físicos teóricos ligados à essas pesquisas, como Planck, Born, Heisenberg, Einstein, etc. em comitês decisivos para as pesquisas em universidades, preocupava cada vez mais
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os fundadores do movimento, que chegaram a se desassociar da academia, rejeitando a Sociedade Alemã de Física por permitir que tais cientistas pudessem pertencer a esse grupo.
Quando os nazistas tomaram o poder, os antimodernistas tomaram as posições que pertenciam aos seus inimigos. Lenard e Stark se tornaram conselheiros do mais alto nível e tinham acesso pessoal ao Hitler (BEYERCHEN, 1977; HENTSCHEL, 1996).
A primeira contribuição de Lenard para o desenvolvimento da Física Alemã, ou Física Ariana, ou ainda Física Nórdica, foi o seu livro Grandes Pesquisadores Naturais, de 1929, que continham grandes heróis que contribuíram para o desenvolvimento da ciência. As fotos desses grandes cientistas sempre apareciam pelo livro para que o leitor pudesse discernir suas características nórdicas. Apesar de alguns desses pesquisadores, como Heinrich Hertz, fossem metade judeus, Lenard explicava que eles somente haviam conseguido chegar à verdade devido à presença do sangue nórdico que corria em suas veias (BEYERCHEN, 1977).
A segunda contribuição de Lenard, segundo Beyerchen (1977) foi a publicação de seu livro Deutsche Physik , em 1936. Que continha a seguinte declaração em sua introdução:
''Física Alemã?' perguntarão. Eu poderia ter dito também Física Ariana ou Física dos nativos Nórdicos, física dos fundadores da realidade, daqueles que buscam a verdade, daqueles que fundaram a pesquisa da natureza'. (BEYERCHEN, 1977, p. 125, tradução nossa).
No título completo, Física Alemã em Quatro Volumes (LENARD, 1936), publicado pela primeira vez em 1933, estão especificados os conteúdos que são considerados como Física Alemã. A divisão da obra foi feita da seguinte forma: Volume 1 - Mecânica; Volume 2 - Acústica; Volume 3 - Termodinâmica e Eletromagnetismo; e Volume 4 - Eletromagnetismo.
Sendo um livro publicado em 1933, podemos perceber a falta de conteúdos contemporâneos, justamente aqueles que Lenard e os participantes de seu movimento não consideravam como verdadeira Física. É importante ressaltar que não só os cientistas judeus ou meio judeus eram perseguidos por esse movimento. Heisenberg, por acreditar, defender e pesquisar sobre a mecânica quântica e a relatividade, era considerado um Judeu Branco, ou seja, um inimigo do movimento e, portanto, da Alemanha (BEYERCHEN, 1977; HENTSCHEL, 1996).
A maioria das pessoas que participavam desse movimento estavam de alguma forma relacionadas a Lenard ou Stark, sendo seus discípulos e estudantes. Os demais cientistas que compunham a academia da época continuavam acreditando que a ciência transgredia as barreiras de raça e país. Contudo, algumas outras pessoas foram influenciadas pelos trabalhos de Lenard, como o professor de Física, Dr. Erich Günther que publicaria em 1936 o livro amplamente utilizado nos cursos de física, chamado 'Física Militar. Um guia para professores', que será explorado mais adiante (BEYERCHEN, 1977; HENTSCHEL, 1996).
O ensino de ciências durante o período pré-guerra foi utilizado para propagar os ideais do Partido Nazista para as crianças como forma de criação de soldados e moldar suas mentes e comportamentos desde a participação compulsória em grupos de estudos como a Juventude Hitlerista e a Liga das Garotas Alemãs, até com a
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formação e participação dos professores na Liga Nacional dos Professores Nacionais-Socialistas (LOPEZ, 2016; BRANDT & MIALHE, 2013).
Na mesma linha Bagdonas (2015), pretendemos mostrar como as ideologias podem influenciar a pesquisa e o ensino de uma disciplina. Neste trabalho, buscamos entender e levantar reflexões sobre a ideologia do Partido Nazista no período entre 1933 (ascensão do partido nazista ao poder) e o início da Segunda Guerra Mundial, em 1939; bem como os impactos dessa ideologia e do movimento Deutsche Physik dentro do ensino de Física.
## Metodologia
Esta pesquisa tem o caráter de uma investigação qualitativa de cunho histórico. A partir do levantamento, duas referências se tornaram centrais no estudo. A primeira foi o trabalho da historiadora Lisa Pine (2010) que serviram de referência na elaboração deste trabalho. E a segunda referência o texto de Erika Mann (1938), baseado na sua experiência da vivência pessoal na escola nazista, cujo objetivo era alertar o resto do mundo sobre os malefícios que aquele tipo de educação estava fazendo aos jovens. Outra fonte secundária utilizada foi Blackburn (1985), que nos permitiu cruzar as informações obtidas com as de outras fontes, validando os dados obtidos. Além disso, como pano de fundo, utilizamos textos de historiadores como Hobsbawm (2005) e Carr (2001), de caráter mais geral, Shirer (1963) e Lutz (1922), mais centrados no processo de ascensão de Hitler. Os livros de Beyerchen (1977) e Hentschel (1996) foram utilizados como referências maiores sobre a situação da comunidade acadêmica de Física durante o período analisado.
Outra fonte utilizada são os documentos históricos trazidos nos oito volumes do livro Nazi Conspiracy and Agression publicado pelo Gabinete do Chefe do Conselho dos Estados Unidos para o Julgamento da Criminalidade no Eixo que possui mais de quatro mil documentos traduzidos na íntegra ou parcialmente, utilizados pela acusação jurídica nos Julgamentos de Nuremberg contra a liderança militar, política e econômica da Alemanha Nazista. Tais documentos podem ser encontrados digitalmente na Biblioteca do Congresso dos EUA (LC/USA, 2016).
Para ajudar a responder as nossas perguntas, utilizamos o referencial teórico-metodológico de Michel de Certeau (1982). Tal autor, nos instiga a refletir não somente sobre a situação social do momento histórico que estamos analisando, mas também sobre a situação atual dos pesquisadores. Estamos falando de um lugar social em particular, que nos permite e nos impede de dizer certas coisas, bem como as pessoas envolvidas no processo histórico que trazemos nesse trabalho. Ao analisarmos os documentos, temos que estar cientes que a história sobre os fatos ali presentes pode ser contada de diversos pontos de vista e, concordando com as ideias do materialismo dialético, Certeau (1982) também afirma que não podemos analisar os documentos de forma imparcial, sem contaminar a análise com nossas convicções.
## Princípios da educação nazista
As bases do que se tornaria a educação nazista começam a ser formadas no livro Minha Luta escrito por Hitler (1925), quando estava preso. No texto, Hitler atribui muitos dos problemas existentes na Alemanha a um sistema de ensino falho que, segundo ele, estimulava o medo de assumir responsabilidades, possuía um
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foco exclusivamente limitado à produção de conhecimento puro e não a habilidades práticas. Dessa forma, para Hitler, o ensino resultava em uma falta de devoção aos ideais nacionais, formava cidadãos que simplesmente eram apreciados pelas outras nações, pois poderiam ser usados por seus conhecimentos. Após diversas críticas aos problemas do sistema educacional vigente, Hitler propõe que uma 'visão de mundo' (Weltanschauung) definitiva e uniformemente aceita, não só resolveria os problemas da educação, mas de toda a sociedade alemã. A importância da educação nazista não se apoiava somente sobre a escola, os meios de comunicação tinham um papel fundamental na doutrinação da sociedade, 'pois a imprensa continua o trabalho da educação mesmo na vida adulta' (HITLER, 1925, p. 202). Hitler defendia que o governo deveria filtrar as informações midiáticas para garantir que as pessoas não fossem manipuladas. O conhecimento privilegiado, na educação nazista, era o saber relacionado ao condicionamento físico e o conhecimento racial, como revelado nas palavras de Hitler:
Instrução formal nas ciências deve ser considerada última em importância. Por conseguinte, o Estado que é baseado na ideia racial deve começar com o princípio que uma pessoa cuja educação formal em ciências é relativamente pequena, mas é fisicamente sã e robusta, de um caráter firme e honesto, pronta e hábil a tomar decisões e dotada de força de vontade, é um membro mais útil da comunidade nacional do que fracos que são sábios e refinados. Uma nação composta de homens instruídos que são fisicamente fracos, hesitantes sobre decisões de vontade, e timidamente pacifistas, não é capaz de assegurar sua própria existência nessa Terra. (HITLER, 1925, p.337).
A escola não era o único lugar local de aprendizagem. Hitler (1925) acreditava que alunos deviam participar de atividades extraescolares de treinamento físico, as quais não deveriam somente focar na melhoria do condicionamento físico, mas ser uma preparação para o alistamento no exército. Para isso, foram utilizados grupos já organizados como o grupo Juventude Hitlerista e a Liga das Garotas Alemãs, todos constituídos de jovens entre 15 a 18 anos. Para Hitler a educação dos diferentes sexos se baseava em 'uma ênfase em treinamento físico; antiintelectualismo; e o significado de raça' (PINE, 2010, p.47). Segundo Mann (1938), as crianças eram o grupo mais afetado pelas mudanças propostas pela ditadura, pois um adulto ainda poderia ter sua vida relativamente normal, desde que fosse adepto ao Partido. Já a criança é 'uma criança nazista e nada mais', pois 'frequenta uma escola nazista; participa de uma organização da juventude nazista; os filmes que ele é permitido assistir são filmes nazistas. Toda sua vida, sem nenhuma restrição, pertence ao Estado Nazista.' (MANN, 1938, p.19). Hitler (1925) defende mudanças na Alemanha com relação à educação, apontando que a educação feminina deveria ser focada no treinamento físico, contudo o objetivo final era o de mostrar que as garotas se tornariam mães e que, além das armas, deveriam estar preparadas para carregar seus filhos.
## A escola nazista
Como ilustra o filme de Holland (1990), os alunos não só viviam em constante vigilância dos professores, mas também os próprios professores eram observados pelos alunos. Obrigados a participar da Juventude Hitlerista, os jovens eram incentivados a delatar seus professores caso ensinassem algo distinto dos preceitos nazistas (EVANS, 2016). Mann (1938, p. 54) testemunha a vivência de uma 'escala de valores, em ordem de importância' dos tópicos escolares
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determinados por Hitler: (i) Tendências hereditárias; quadro geral de raças; (ii) O caráter; (iii) A constituição física ou 'corpo'; (iv) Conhecimento. Esse 'conhecimento' não se referia ao conhecimento científico da época. A ciência passou a ser referida especificamente como Ciência das Armas (Wehrwissenschaft) (MANN, 1938). Por exemplo, todas as áreas das ciências naturais tratavam temas que se relacionavam com armas e com guerras. A disciplina de Física, em particular, foi transformada em propriedade do nazismo, cujo nome passou a ser o de 'Física das Armas' (Wehrphysik) (PINE, 2010; MANN, 1938). A militarização da Ciência, apenas refletia o que acontecia na própria ciência, como ficou explícito com a Física. Nem tudo produzido na atividade científica da pesquisa em Física seria considerado pertencente a essa 'nova' Física. A Física Alemã se tornou um movimento muito amplo entre os cientistas alemães, muitos deles não consideravam corretas as ideias de Einstein sobre a Relatividade, tratando apenas como charlatanismo (BRANDT & MIALHE, 2013). Assim, as ideias de parte dos cientistas do início do século XX, não apareciam nos quatro volumes escritos pelo já prêmio Nobel Phillip Lenard (LENARD, 1936). Na física o currículo feminino foi alterado, apesar de ensinar tópicos como mecânica, termodinâmica, ótica e eletricidade - como o currículo masculino -, o foco era nas relações práticas da física com aparatos domésticos e com a saúde. A química sempre contextualizada nos alimentos e a biologia focada no ensino sobre o instinto maternal, o papel de mãe e esposa e o de primeiros-socorros. A genética e estudos raciais também estavam incluídos, assim como no currículo masculino, na perspectiva da distinção racial.
## Wehrphysik e a ênfase do ensino de Física
Quando os nazistas chegaram ao poder, uma série de mudanças curriculares aconteceram. As disciplinas de ciências foram colocadas como últimas em prioridade, já o treinamento e condicionamento físico era considerado disciplina essencial na formação dos estudantes (MANN, 1938; EUA, 1946; PINE, 2010). Com a mínima prioridade, poucas informações são encontradas sobre a situação do ensino de ciências no geral.
No entanto, Mann (1938) e Pine (2010) explicitam que, mesmo com prioridade mínima, o ensino de ciências passou a ter ênfase em defesas e ataques de guerra. O ensino de Química, focava no uso de bombas químicas e como se defender deles, essa mudança ficou conhecida entre os estudiosos como Química da Guerra. No caso da Física, o mesmo era verdade; contendo exercícios sobre balística, armas, aeronáutica, etc., a ênfase era totalmente dada aos princípios de guerra, baseado nos conhecimentos obtidos durante a Primeira Guerra Mundial, o movimento ficou conhecido como Wehrphysik ou Física da Guerra.
Apesar de não ter influenciado diretamente mudanças curriculares (BEYERCHEN, 1977), o livro de Lenard (1936) chamou a atenção dos professores de Física ligados ao Partido Nazista, como foi o caso do Dr. Erich Günther, autor do livro ' Wehrphysik : Um guia para professores'. De acordo com uma resenha feita por Heyer (1938), o livro traz problemas interessantes que se relacionam com o preparo militar com exemplos práticos e ilustrações que permitem o aprendizado de qualquer idade. O conteúdo do livro abrange temas como acústica focada em audição direcional; comunicação acústica, óptica e elétrica; aeronáutica; meteorologia; finalizando com temas sobre engenharia pioneira, uso de máscara de gases, células fotoelétricas, e fotografias em condições de névoa. Um exemplo trazido por Heyer
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em sua resenha de um exercício prático a ser feito em sala de aula pode ser visto a seguir:
'Um pequeno estojo de charuto cheio de areia é suspenso com quatro fios como um pêndulo paralelogramo. Você agora atira horizontalmente ao longo do nível de oscilação do pêndulo, na frente do estojo. A bala se aloja na areia do estojo e seu movimento é transferido para o pêndulo, que balança de uma certa forma. De acordo com a lei do momento, você obtém mv = (m+m1)v1, onde m é a massa da bala, m1 é a massa do pêndulo, v é a velocidade da bala e v1 é a velocidade do objeto oscilante quando a bala para nele. [...] Algumas figuras são fornecidas nas condições experimentais: Carabina de precisão alemã (22 curto, calibre 5.6 mm) com um cano de rifle; m = 1 g, m1 = 1000 g; comprimento do pêndulo = 100 cm, balanço lateral do do objeto oscilante a = 6 cm, fornece v a aproximadamente 200 m/s' (GÜNTHER apud HENTSCHEL, 1996, p. 169, tradução nossa)
Figura 01: Imagem do livro chamado Física da Guerra: um manual para professor (Wehrphysik: Ein Handbuch für Lehrer), tratando do tópico: máscara de gás.
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## Outro exemplo trazido por Mann (1938):
Um canhão da artilharia da costa está atirando em um navio que possui uma velocidade de 30 nós diagonalmente na direção de onde o canhão está apontado. Quão rápida é a aproximação? A velocidade média de um projétil pode ser tomada como 600 m/s. (GÜNTHER apud MANN, 1938, p. 96, tradução nossa)
De acordo com Günther, o estudo da Física não tinha somente o propósito de despertar a habilidade de usar armas, mas também a vontade de o fazer, e, além disso, de mostrar formas e meios técnicos para realizar a decisão de portar armas (PINE, 2010).
As informações trazidas até agora dizem respeito à educação masculina. As meninas possuíam um currículo especial, voltado para a formação de donas de casa, obedientes aos seus maridos e ao governo, que soubessem escolher um bom marido ariano e procriassem para a continuação de sua raça. Na área de Física, o conteúdo era voltado para o funcionamento de equipamentos domésticos, a termodinâmica, por exemplo, era contextualizada com o funcionamento de ferros de passar, geladeiras, fogões, etc. (MANN, 1938; PINE, 2010). Com essas mudanças, o número de mulheres nas universidades caiu durante os anos em que os nazistas
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permaneceram no poder, voltando a subir novamente somente devido à falta de candidatos durante o período de guerra (SHIRER, 1963; PINE, 2010).
## Conclusão
- O controle social por meio da escola é visível durante todo o período em que o Partido Nazista esteve no poder. O objetivo, como muitas vezes especificado por Hitler durante seus discursos, era o de dominar os jovens, pois estes seriam o futuro do país. A forma que se escolheu para fazer isso, era dominar os meios em que os jovens estavam tanto dentro quanto fora das escolas. Dentro das escolas, eles eram doutrinados por professores que, obrigatoriamente, deveriam fazer parte de um grupo comandado por pessoas do governo, caso contrário eram expulsos da escola ou não eram contratados. Fora da escola, os jovens eram obrigados a participar de atividades que faziam os ideais nazistas parecerem os únicos existentes e, como não tinham acesso a outras formas de pensamento, acreditavam que esse era realmente o único jeito que tinham para viver.
- O uso da Física especificamente como objeto de guerra, demonstra que a formação de soldados não era pensada exclusivamente por meio do intenso treinamento físico ao qual os jovens eram submetidos, mas também era preciso a formação de engenheiros e guerrilheiros capazes de dominar o conhecimento da física para criar armamentos, veículos e outros equipamentos para serem utilizados na Guerra.
Apesar do ensino feminino não ser voltado à guerra, também estava focado na mudança cultural de uma parcela da sociedade. Nesse caso, o interesse estava em educar as mulheres para que pudessem dar continuidade ao crescimento da nova geração de jovens que serviria aos mesmos propósitos que seus pais, se formarem soldados, engenheiros ou futuras mães e donas de casa.
No entanto, seja para a formação de soldados ou engenheiros, não somente a Física, mas as outras disciplinas também foram modificadas com a intenção de uma Guerra contínua, em uma mudança cultural que resultaria, em um futuro próximo, em adultos que só conheceriam um único destino: a batalha por seu país, por sua raça, dita pura, e o extermínio de todos os povos que eram considerados inferiores ou que se colocassem no seu caminho.
- O momento em que vivemos atualmente requer reflexões contínuas, intensivas e críticas sobre o que é ciência e como ela vem sendo utilizada dentro e fora das salas de aula. Nos livros didáticos e avaliações massivas atuais, é possível identificar exercícios e problemas que, em um primeiro momento, parecem tradicionais e inofensivos como, por exemplo, aqueles relacionados ao estudo de lançamentos oblíquos por meio do estudo de bombas, que expressam uma antiga tradição do uso da Física como instrumento de guerra. Apesar de ser uma contextualização, em nossa opinião inapropriada, normalmente é usada sem consciência imediata de professores e estudantes, perpetuando formas instrumentais da ciência no apoio a tragédia da dominação do humano pelo humano. Todas as ciências, assim como toda a produção do conhecimento humano, nascem embebidas em ideologias, as quais, intencionalmente ou não, raramente são explicitadas para os estudantes que, por sua vez, passam a naturalizar certos modos de pensar o papel da ciência no mundo. Assim, nosso estudo pretende que a história sirva como espelho sobre as formas com que estamos produzindo o presente e o futuro, e que nos forneça parâmetros para estabelecer relações críticas
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entre a ação de um estado autoritário, muitas vezes ilegítimo, sobre os processos educacionais populares e as possíveis formas de emancipação de um povo.
## Referências
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