Pular para o conteúdo
Buscador da Pesquisa em Ensino de Física Busca em texto completo · v0.3.0

UMA PESQUISA EXPLORATÓRIA SOBRE A PERCEPÇÃO SOCIAL DO USO DE FONTES ALTERNATIVAS DE ENERGIA NUMA ESCOLA TÉCNICA DE NÍVEL MÉDIO

Clarice Parreira Senra, Marco Braga,

Evento
Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
Edição
XII
Ano
2010
Data
28/10/2010
Linha de pesquisa
Ciências, Tecnologia, Sociedade E Ambiente E O Ensino De Física
Tipo
Comunicação

Abrir o PDF original ↗ Baixar referência .bib Ver todos do EPEF 2010

Texto completo

## UMA PESQUISA EXPLORATÓRIA SOBRE A PERCEPÇÃO SOCIAL DO USO DE FONTES A ALTERNATIVAS DE ENERGIA NUMA ESCOLA TÉCNICA DE NÍVEL MÉDIO

## AN EXPLORATORY RESEARCH ON THE SOCIAL PERCEPTION OF THE USE OF A ALTERNATIVE SOURCES OF ENERGY IN A TECHNIQUE FOR THE MIDDLE SCHOOL

## Marco Braga¹, Clarice Parreira Senra²

1 CEFET/RJ – Programa de Pós-Graduação em Ensino de Ciências e Matemática; bragatek@cefet-rj.br

2 CEFET/RJ – Programa de Pós-Graduação em Ensino de Ciências e Matemática, claricesenra@yahoo.com.br

## Resumo

O presente trabalho apresenta a análise de uma pesquisa exploratória que visa diagnosticar o conhecimento dos alunos sobre os temas como aquecimento global, efeito estufa, energia limpa, funcionamento de um aquecedor solar e as implicações das novas tecnologias na sociedade. A pesquisa insere-se num projeto maior de constituição de grupos de investigação (células), formados por alunos de Ensino Médio, cujo objetivo é resolver um problema técnico-científico concreto. Nesse contexto, os alunos deverão envolver-se com questões de cunho CTS ao longo da realização de seus trabalhos de investigação. O problema atribuído aos alunos dessa pesquisa é a busca de soluções de aquecimento de água com tecnologia de baixo custo para comunidades carentes. O problema envolve, portanto, diversas questões relativas a aquecimento global, reciclagem, processamento do lixo, assim como ao conceito de sustentabilidade. Em 2010 foram formadas três células de aproximadamente 9 alunos, que vem discutindo essa problemática com vistas à construção de um coletor solar de baixo custo. O ponto de partida foi a problematização sobre as fontes alternativas de energia. A partir dos resultados obtidos verificou-se uma não compreensão de conceitos como efeito estufa e aquecimento global. Apesar de muito difundidos pela imprensa, os estudantes tem um baixo nível de reflexão sobre o tema. Além disso, sabem da importância da energia solar, mas não diferenciam os aquecedores solares de água das células fotovoltaicas para produção de energia elétrica. Como terceiro item, têm uma visão ingênua sobre a natureza da ciência e suas relações com a tecnologia, acreditando que tudo é feito para o "bem" da humanidade. Os pesquisadores pretendem com esse projeto verificar como os alunos aprendem a partir de seu envolvimento com problemas concretos, analisados sob o enfoque CTS. Os resultados dessa pesquisa exploratória servirão para orientar as discussões desenvolvidas em cada célula durante a realização do projeto.

Palavras-chave: CTS, Natureza da Ciência, Ensino de física.

## Abstract

This paper presents the analysis of a research project that aims to diagnose students' knowledge on topics like global warming, greenhouse gases, clean energy, operation of a solar heater and the implications of new technologies in society. The research is part of a larger project to set up research groups (cells), formed by high school students, whose goal is to solve a specific scientific-technical problem. In this context, students will shall to involve themselves with issues of CTS imprint along the realization of their research. The problem assigned to students that research is the search for solutions for heating water with low-cost technology for poor communities. The problem therefore involves several issues concerning the global warming, recycling, processing waste, as well as the concept of sustainability. In 2010 formed three cells of approximately nine students, who have discussed this issue with a view to build a low cost solar collector. The starting point was the questioning about alternative energy sources. From the results obtained there was a lack of understanding of concepts such as the greenhouse effect and global warming. Despite the widespread press, students have a low level of reflection on the subject. Also, know the importance of solar energy do not differentiate the most solar water heaters to solar cells for electricity production. As a third item, has a naive view about the nature of science and its relationship with technology, believing that everything is done for "good" of mankind. The researchers want to see how this project students learn from their involvement with practical problems CTS. The results of this research will serve to guide the discussions held in each cell during the course of the project.

Keywords: STS, Nature of Science, Physics teaching.

## Introdução:

Nos tempos atuais são numerosas e contínuas as descobertas e novidades no campo da Ciência e da Tecnologia. É necessário compreender e participar de forma mais efetiva da sociedade atual e para isso saber apenas manusear as novas tecnologias não é suficiente. Um conhecimento mais aprofundado da inserção das novas tecnologias na sociedade se faz necessário para que seja possível a todos os cidadãos uma participação consciente nas decisões políticas.

- O atual ensino de Ciências esta longe de possibilitar ao aluno uma participação de forma consciente nessas decisões. Apesar de já possuirmos uma grande quantidade de pesquisas na área, o ensino de Física real, ministrado na maioria das escolas, ainda se resume a um emaranhado de fórmulas.

Por outro lado, o sistema de avaliação adotado faz com que o aluno estude para fazer provas. Inverte-se o processo. Os exames deixam de ser uma verificação da aprendizagem para transformarem-se em objetivo. Toda a aprendizagem fica contaminada por essa inversão. O estudo acaba visando a solução de certo tipo de problemas, o que acarreta num adestramento em função das soluções esperadas.

Araújo e Abib (2003) analisam uma gama de artigos que abordam a utilização da experimentação como estratégia para o ensino de Física. Por meio dessa investigação verificou-se que a utilização adequada de diferentes metodologias experimentais, tendo a natureza de demonstração, verificação ou investigação, pode possibilitar a formação de um ambiente propicio ao aprendizado de diversos conceitos científicos. Porém, o que notamos na maioria dos manuais de

apoio ao professor ou livros didáticos ainda consiste de orientações "livro de receitas", ligadas ao ensino tradicional, restritas a demonstrações fechadas e a laboratórios de verificação e confirmação da teoria previamente definida, o que sem dúvida está muito distante das propostas atuais para um ensino de Física mais significativo e capaz de contribuir para o desenvolvimento crítico do aluno.

- O que temos na maioria das escolas que utilizam práticas de laboratório de Física são alunos que não conseguem compreender o fenômeno estudado, já que estas práticas são acompanhadas por um "receituário", com regras rígidas, o que impede a criatividade. Esse trabalho experimental tal como conduzido em muitas escolas é de concepção pobre, confuso e não produtivo (PRAIA, CACHAPUZ e GIL PÉREZ, 2002).
- O aluno termina o ensino médio sem se confrontar com problemas concretos e suas possíveis soluções. Como formar um cidadão pronto para participar dos acontecimentos atuais, se a realidade da sala de aula não permite que o aluno pense e reflita sobre situações reais?

Segundo Lima e Teixeira (2008), para ajudar a compreender o mundo do estudante, o ensino de ciências precisa debruçar-se sobre esse mundo, encontrar conectivos entre o interesse dos alunos, a proposta curricular e a prática pedagógica.

Procurando encontrar alternativas, pesquisadores passaram a investigar saídas para esses problemas a partir da aprendizagem por projetos de trabalho (HERNANDES & VENTURA, 1998).

Em 2007 foram criados dois grupos de investigação de 7 a 10 alunos, denominados "Células de Inovação". Esses grupos deveriam discutir questões concretas de seu cotidiano, envolvendo as relações entre Ciência, Tecnologia e Sociedade, pesquisar possíveis soluções e desenvolver projetos inovadores que tentassem solucionar esses problemas utilizando conhecimentos científicos e tecnológicos. Cada célula teve um orientador.

As células visam a compreensão de diversos aspectos do trabalho por projetos. Um desses focos passou a ser a questão da Natureza da Ciência (NdC) e a Natureza da Tecnologia (NdT). Partindo do pressuposto de que a compreensão sobre a ciência e a tecnologia não se dará apenas pelo discurso sobre seus processos de construção, procurou-se apresentar alguns elementos da NdC e NdT a partir de um trabalho concreto de investigação tecnológica no qual os alunos se encontrariam envolvidos. A construção do coletor será um processo onde diversas etapas serão cumpridas, como projeto, verificação da viabilidade econômica do projeto, investigação sobre impactos ambientais, construção de um protótipo, teste, construção do produto final e instalação. Dessa forma, pretende-se que o processo de trabalho das células permita uma reflexão dos alunos sobre importantes aspectos da NdT e de suas relações com o conhecimento científico.

No início de 2010 foram formados três grupos (células), com o intuito de abordar temas como aquecimento global, destino do lixo, energias limpas com foco

na energia solar sobre uma perspectiva CTS. O problema central foi a construção de um aquecedor solar de baixo custo. 1

Entretanto, antes do início do projeto, procurou-se verificar a percepção dos alunos sobre o tema tratado. O presente trabalho visa analisar parte de uma investigação diagnóstica, apresentada aos alunos nos primeiros encontros de trabalho.

Por meio da proposição de algumas questões pretendeu-se analisar duas vertentes:

- 1) Visão Natureza da Ciência e Tecnologia - analisar como os alunos entendem o processo de construção do conhecimento cientifico e suas relações com a tecnologia, com foco da atividade que será desenvolvida.
- 2) Conceitos relacionados ao tema do projeto - diagnosticar que conhecimentos os alunos tem a respeito dos temas que serão abordados, para que esses possam ser aperfeiçoados ou até mesmo mudados.

## Natureza da Ciência, da Tecnologia e CTS:

Diversas pesquisas (GIL PÉREZ et al, 2001; PRAIA, GIL PÉREZ e VILCHES, 2007 )vem apontando para a necessidade de uma alfabetização científica a fim de que os cidadãos possam participar de forma consciente nas decisões relacionadas com temas que envolvem conhecimentos científicos e tecnológicos. Na Conferência Mundial sobre a Ciência para o século XXI, declara-se:

- O conhecimento em ciências e tecnologia é fundamento para o desenvolvimento, sendo base indispensável para o desenvolvimento econômico, social, cultural. [...] Hoje, mais do que nunca, é necessário fomentar e difundir a alfabetização científica em todas as culturas e em todos os setores da sociedade, [...] a fim de melhorar a participação dos cidadãos na adoção de decisões relativas á aplicação de novos conhecimentos. (DECLARAÇÂO DE BUDAPESTE, 1999)

Para que os alunos reflitam sobre as decisões em relação ao rumo da ciência é preciso criar ambientes e situações propícias, é necessário pensar sobre as novas tecnologias, analisar os problemas globais. Devemos insistir nessa participação para que o estudante possa refletir sobre as conseqüências que as novas tecnologias podem trazer para a sociedade. E para isso não é necessário ser um especialista em ciência e tecnologia, mas acima de tudo uma pessoa capaz de refletir sobre os riscos e consequências desses conhecimentos empregados na sociedade (PRAIA, GIL PÉREZ e VILCHES, 2007).

Nós, professores de Física, muitas vezes nos preocupamos em mostrar aos alunos como se dá o funcionamento de um determinado aparato. Esquecemos de pensar que toda tecnologia traz em bojo uma determinada concepção de sociedade. É de fundamental importância questionar: "como a tecnologia afeta nossa vida?" (ANGOTTI, BASTOS e MION, 2001).

A ciência e a tecnologia podem solucionar problemas e beneficiar muito a sociedade, mas é ingênuo pensar r que + ciência = + tecnologia = + bem - estar social

(BAZZO, LINSINGEN e PEREIRA, 2003). Essa visão é muito difundida pela mídia, pelo meio acadêmico, pela maioria das pessoas, mas que deve ser refletida nas aulas de Física e nas de ciências em geral.

- Um dos objetivos da alfabetização científica é a compreensão da NdC e da NdT. Estudos realizados ao longo da última década tendem a mostrar que muitos professores e alunos brasileiros apresentam visões ingênuas dos processos de construção da Ciência e Tecnologia (TEIXEIRA, EL-HANI e FREIRE JR, 2001) (SCHEID, FERRARI e DELIZOICOV, 2007). A inserção de aspectos epistemológicos no ensino de ciências é uma das metas atuais da educação, "compreender as ciências como construções humanas, entendendo como elas se desenvolvem por acumulação, continuidade ou ruptura de paradigmas, relacionando o desenvolvimento científico com a transformação da sociedade" (BRASIL, 2000, p.95). Entretanto, apenas o discurso sobre a ciência e a tecnologia não é suficiente para essa compreensão. Vivenciar um projeto de investigação, ainda que em caráter simplificado, poderá ajudar os alunos a vislumbrar questões que não se encontram nos textos sobre NdC e NdT (ASSIS, GUERRA e BRAGA, 2009).
- O desenvolvimento desse projeto visa, além de gerar debates sobre questões como aquecimento global, destino do lixo, fontes alternativas de energia, permitir uma vivência de trabalho em pequenos projetos tecnológicos. Espera-se poder perceber se o envolvimento dos alunos nesses projetos poderá contribuir para uma visão mais crítica das questões relativas à NdC e NdT. A pesquisa que será aqui apresentada é apenas um diagnóstico introdutório de algumas dessas questões.

## A Pesquisa Exploratória:

As células (grupos de alunos) foram formadas por alunos de três turmas de 1ª série do Ensino Médio de uma escola técnica. Para escolha desses alunos foi apresentada às turmas uma proposta de trabalho, com questões sobre aquecimento global, destino do lixo, imagens comumente apresentadas pela mídia. Os alunos mostraram-se inquietos e curiosos pelas questões, que não foram respondidas, apenas lançadas. Ao final colocou-se a seguinte questão:

"Existe alguma fonte de energia que seja totalmente limpa?"

Durante o primeiro encontro, foram apresentadas imagens do coletor solar ecológico que se pretende desenvolver. Os alunos que se interessaram pelo assunto se inscreveram. De início pretendia-se montar uma única célula, com dez alunos. Porém, o interesse foi bem maior. Ao final, foram constituídas 3 células denominadas de A, B e C. A célula A foi composta por 8 alunos, todos do curso técnico de Mecânica. A célula B foi formada por 6 alunos, com 4 do curso técnico de Segurança do Trabalho e 2 do de Edificações. Por último, a célula C foi constituída por 12 alunos, todos do curso técnico de Eletrônica.

Em cada célula, procurou-se reunir alunos de uma mesma turma, já que essa seria a única possibilidade de convergência de horários para as reuniões.

Antes dessa "seleção", um dos pesquisadores procurou acompanhar as aulas de Física dessas três turmas, visando observar algumas de suas características e criar uma ambientação, para não parecer um elemento estranho quando o projeto tivesse seu início. O pesquisador notou que mesmo durante as

aulas, havia um grande interesse pelo tema. Portanto, não foi surpresa a grande aceitação em participar do projeto, que viria a ser verificada mais tarde.

- A pesquisa exploratória consistiu de um questionário semi-aberto aplicado com o intuito de criar uma referência para o desenvolvimento do projeto. Esse questionário foi aplicado nas três células, em horários extra-classe, combinados para realização dos trabalhos. Além de focar questões sobre NdC e NdT, ele visava diagnosticar as concepções dos alunos sobre os temas abordados, voltados mais para uma Física contextual. Nosso interesse não foi simplesmente averiguar conhecimentos físicos, mas sua relação com a sociedade e com o mundo a sua volta.
- Outro ponto que vale salientar é que os conteúdos físicos que estarão envolvidos no decorrer do trabalho não fazem parte do programa de Física do primeiro ano (Mecânica). Nesse caso as aulas não influenciarão diretamente no núcleo do processo de aprendizagem do projeto (Termodinâmica), já que este último só será estudado no segundo ano. Isso permitirá perceber melhor o impacto do projeto como ferramenta de aprendizagem.
- A primeira parte do questionário foi composta por 5 questões abertas que relacionavam ciência, tecnologia, o trabalho dos cientistas e engenheiros e suas implicações na sociedade. A segunda parte aborda questões sobre aquecimento global, fontes de energia, energia limpa e aquecedor solar.
- O presente trabalho dedicou-se a analisar a segunda parte do questionário, o que caracterizamos como parte B. Ele servirá de apoio para a elaboração do projeto de investigação que será desenvolvido nos próximos meses.

## Resultados:

- O objetivo das questões foi perceber o nível de compreensão dos alunos sobre temas científicos a partir de uma abordagem CTS. A parte B foi composta por 6 questões:
- 1- O que você entende sobre aquecimento global? Considera uma verdade ou um mito? Justifique
- 2- Existe relação entre efeito estufa e aquecimento global? Explique sua resposta.
- 3- Assinale as formas de energia que você considera "energias limpas":
- ( ) Termelétrica ( ) Hidrelétricas ( ) Solar Fotovoltaica ( ) Eólica
- ( ) Termonuclear ( ) Marés ( ) Biomassa ( ) Geotérmica
- Explique porque caracterizou cada uma delas dessa forma. Das fontes acima qual (quais) é (são) derivada (s) da energia fornecida pelo sol?
- 4A figura abaixo ( de um coletor) mostra o esquema de um Coletor Solar Térmico. Explique o que você sabe sobre seu funcionamento.

Figura 1 - Coletor solar

<!-- image -->

Fonte:http://www.entrepreneurstoolkit.org/images/3/36/Aquecimento-solar.jpg

- 5- A figura abaixo mostra uma placa de um coletor feito à base de garrafas "pet" e caixas de leite "longa vida". Observe que as caixas de leite estão pintadas de preto. Você sabe por quê?

Figura 2: Aquecedor solar ecológico

<!-- image -->

Fonte: http://www.petma.ufsc.br/joomla/images/stories/coletorsolar.jpg

- 6- As novas tecnologias poderão salvar r o planeta ou elas sempre trazem problemas que agravam ainda mais a situação?

A primeira categoria de análise foi a compreensão sobre o significado de dois termos bastante divulgados pela mídia ("aquecimento global" e "efeito estufa") e sobre como os alunos percebiam sua interrelação. As questões 1 e 2 procuraram tratar desse tema. A quase totalidade dos alunos (92% - 25 alunos) considerou o aquecimento global uma verdade inquestionável e que suas consequências são perceptíveis, como o aumento considerável da temperatura média do planeta. Não conheciam outra versão além daquela divulgada pelo "Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC)".

Todos afirmaram existir relação entre aquecimento global e efeito estufa 2 . Entretanto, apenas 40% compreendiam o efeito estufa como um fenômeno natural e essencial para a vida na terra e o aquecimento global como a intensificação desse fenômeno, provocado pelo aumento da concentração dos "gases na atmosfera". As respostas podem indicar que os temas são conhecidos, porém pouco discutidos e esclarecidos. As questões ambientais são sempre temas de jornais e revista, sendo o efeito estufa um dos temas mais abordados. Porém, essa popularização tem sido acompanhada por abordagens com grandes equívocos. "O grande poder de disseminação de informações pelos meios de comunicação acaba favorecendo a

cristalização de erros conceituais junto à população." (XAVIER e KERR, 2004). Uma porcentagem significativa, 22% desses alunos confundiram os conceitos: efeito estufa e aquecimento global e 15% relacionam o surgimento do aquecimento global a buraco na camada de ozônio. Apenas 2 alunos afirmaram não saber se existe relação entre os dois fenômenos.

- O aquecimento global é um tema atual, polêmico e conhecido devido a grande divulgação pela mídia. Esta acaba passando a imagem de um fenômeno catastrófico, fazendo com que muitas pessoas confundam alguns fenômenos, como é o caso do efeito estufa, que muitos consideram prejudicial à vida humana (XAVIER e KERR, 2004). As controvérsias sobre as causas e consequências do aquecimento global devem ser levadas para a sala de aula, assim como o esclarecimento dos conceitos envolvidos. Os resultados apontaram ainda que se deve apresentar aos alunos os interesses econômicos existentes por trás das posições envolvidas no debate sobre aquecimento global, sinalizando que a controvérsia existente hoje não se restringe apenas ao âmbito científico puro. Logo, essa discussão toca em questões importantes sobre a NdC e NdT.

A primeira parte da questão 3 se encontra na tabela abaixo.

Durante a aplicação do questionário os alunos ficaram inquietos, pois queriam esclarecimento sobre as respostas. Talvez pelo hábito de fazer provas, eles têm dificuldade de se confrontar com perguntas, pois sempre acham que serão avaliados e que isso poderá ter repercussão na promoção anual.

Houve discussões a respeito da energia nuclear, que, embora não polua a atmosfera, permanece envolta em controvérsias por causa do lixo nuclear gerado. Apenas 3 alunos classificaram-na como limpa. Pelas discussões e pelas respostas, percebe-se que eles notaram a importância de avaliar outros aspectos na classificação da energia limpa, e não só a emissão de gases poluentes.

Do total, 18 alunos (67%) caracterizaram como energia limpa aquelas que não agridem e não poluem o meio ambiente. Somente 4 alunos (15%) afirmaram ser energia limpa aquelas que são provenientes da natureza e 3 alunos não definiram claramente.

Essa é outra questão que envolve principalmente a NdT. A maioria das pessoas avalia os impactos da tecnologia de forma ingênua, a partir da dualidade boa/má. Não se tem idéia de que toda tecnologia possui um projeto de sociedade

em seu bojo (ORTEGA Y GASSET, 1991). Este será um ponto a ser melhor investigado durante o projeto.

Apesar da maioria não conhecer ou não entender o significado do termo "células fotovoltaicas", sabem que existe alguma forma de conversão da luz solar em eletricidade. Acreditam ser esta uma fonte de energia limpa. Não discutiram o custo de sua implantação. Além do desconhecimento em relação a esse tema, os alunos não conheciam energias geotérmicas, biomassa e energias provenientes das marés. Mesmo assim, classificaram-nas como limpas. Embora não pudesse ter sido verificado, acredita-se que isso é uma influência do jornalismo televisivo, que comenta, mas não explica.

Como o projeto que será desenvolvido versa sobre produção de calor por coletores solares, procurou-se investigar a compreensão dos alunos sobre essa forma de energia. No questionamento sobre as energias que consideram ser provenientes do Sol, 21 alunos (78%) classificaram a fotovoltaica, 11% as geotérmicas, 30% as termelétricas e apenas 1 aluno a termonuclear.

A maioria não fez qualquer menção à importância do Sol na origem de praticamente todas as outras fontes de energia. Nenhum aluno considerou a eólica e a hidrelétrica como derivadas da energia do Sol. Logo, poucos sabiam que é por meio da energia do Sol que se dá a evaporação, origem do ciclo das águas, que é fundamental para o funcionamento das hidrelétricas. Além disso, desconheciam que a radiação solar também é responsável pela circulação do ar. A maioria considerou o Sol responsável apenas pela conversão direta da luz solar em eletricidade.

Em relação ao aquecedor solar a resposta predominante, sendo dada por 13 alunos (48%), foi que o Sol aquece o coletor e esse calor é transferido até o reservatório térmico aquecendo assim a água. Observa-se na fala de um dos alunos: Aluno 2: "Os coletores solares captam o calor e o fornecem para o reservatório térmico.... fazendo com que a água, antes de sair, passe pelo reservatório e saia aquecida."

Durante a investigação, 3 alunos confundiram coletores solares com células fotovoltaicas. Um deles escreveu: Aluno 3: "Os coletores solares são colocados geralmente em cima dos telhados das casas, onde geralmente o calor é maior, e todo calor gerado vai para um conversor, onde a energia gerada é levada para toda a casa."

Essa questão gerou um fato digno de nota. Ao ser colocada a figura para ilustrar um aquecedor solar, a maioria tentou responder a partir de uma interpretação de seu funcionamento. Esse fato pode ter sido provocado pelo treinamento técnico que a maioria possui em termos de interpretação de projetos.

Percebeu-se que poucos realmente conheciam o funcionamento do aquecedor, sendo que 6 alunos tentaram explicar como ocorre o aquecimento da água, mas sem explicar o processo de convecção em si; Aluno 23: " a água sai de uma caixa d'água, passa pelo coletores solares que a aquecem, vai para o reservatório térmico..." Aluno 25: "Os coletores solares aquecem a água que esta a circular pelo encanamento..."

Esperava-se que algum aluno pudesse na explicação associar o funcionamento do coletor solar ao de uma estufa. Notou-se que eles se preocuparam com o esquema e esqueceram de pensar sobre o processo físico em si.

Com relação ao motivo de as caixas serem pintadas da cor preta, 25 alunos atribuíram a esse fato a absorção de mais energia, o que pareceu ser uma informação conhecida. Apenas 2 alunos não responderam a questão.

A última questão teve o intuito de fazer os alunos refletirem sobre as novas tecnologias. Em relação a essa questão, 48% dos alunos responderam que depende da forma que elas são usadas: Aluno 2: "Depende. Elas podem sim salvar o mundo, mas quando são usadas em sua totalidade para esse fim, o que acaba não acontecendo por pessoas utilizarem essas tecnologias para explorar e destruir o que ainda resta". Outros 37% acreditam que as novas tecnologias podem salvar o planeta, Aluno 24: "Se as novas tecnologias seguirem um padrão ecologicamente correto, ou serem produzidas diretamente com esse fundamento "salvar o planeta", pode sim salvá-lo."

Aqui mais uma vez surgem indícios da crença da neutralidade da tecnologia, ficando a avaliação maniqueísta de boa/má para as pessoas que as usam. Esse indício reforça a necessidade de que ao longo do trabalho se deverá trabalhar de forma mais contundente o projeto de sociedade que está por detrás de cada tecnologia.

Do universo dos alunos pesquisados, 7,5% não responderam à pergunta 6 e 7,5% acreditam que a tecnologia não poderá salvar o planeta, mas eles não souberam dar boas justificativas para isso. Por mais que eles saibam das consequências, a visão de que as tecnologias têm o objetivo de facilitar a vida humana está muito presente nas respostas dadas. Esse mito faz com que a população aceite as novas tecnologias sem questioná-las.

- O trabalho elaborado com esse grupo de alunos será preparado com intuito de re-apresentar esses pontos e refletir sobre as implicações da ciência e da tecnologia na sociedade.

A partir dos resultados da parte B, podemos diagnosticar o que os alunos sabem a respeito dos temas, suas dúvidas e as confusões em relação os conceitos: aquecimento global, efeito estufa e buraco na camada de ozônio. Pode-se verificar que não existe muita clareza sobre quais formas de energia podem ser consideradas realmente limpas e dúvidas em relação ao que são algumas formas de energia. Esses assuntos serão discutidos esclarecidos e refletidos em encontros seguintes.

## Conclusão:

A análise dessa pesquisa preliminar permitiu averiguar o grau de conhecimento dos alunos sobre os temas envolvidos no trabalho, que posteriormente será desenvolvido. Obtivemos algumas evidências de que apesar do efeito estufa e do aquecimento global serem fatos conhecidos pela maioria dos estudantes, existe uma confusão com relação a esses conceitos. Esses temas estão comumente presentes nas notícias apresentadas nos meios de comunicação, porém a falta de explicações adequadas leva a formação de uma idéia distorcida desses temas. A abordagem das controvérsias que envolvem o aquecimento global e o efeito estufa deverá estar presente nos próximos encontros, a fim de um maior esclarecimento.

Com relação ao funcionamento do aquecedor solar percebemos que uma minoria realmente conhece seu funcionamento, e que apesar do grande número de aquecedores instalados em hotéis, pousadas e residências, os estudantes pouco sabem a respeito deles e muitos não os distinguem das células fotovoltaicas.

Notamos na questão 5 que a grande totalidade dos alunos pesquisados justificou corretamente o fato das caixas de leite serem pintadas da cor preta, ou seja, para uma maior absorção de energia.

Além de averiguar os conceitos envoltos no trabalho, nosso objeto foi também saber qual a visão dos alunos sobre as novas tecnologias e suas implicações na sociedade. Notamos que muitos refletiram sobre as conseqüências do emprego das novas tecnologias na sociedade, porém a visão clássica de que a ciência e a tecnologia contribuem sempre para o bem estar social foi muito presente nas respostas (BAZZO, LINSINGEN e PEREIRA, 2003).

Os dados dessa pesquisa preliminar servirão de apoio para o trabalho que está sendo realizado com esses 27 alunos. Destacaremos os seguintes pontos que serão abordados durante os debates iniciais da célula: "Aquecimento Global, suas causas e conseqüências"; "Energias alternativas"; "Existe realmente energia limpa?"; "Existe solução para o problema do lixo? O que os países tem feito?"; "As novas tecnologias poderão salvar o planeta?".

Os debates serão compostos por questões e informações atuais, o que é extremamente importante para a motivação do estudante, auxiliando-o na formação de uma visão global do tema, em seu desenvolvimento como cidadão e no aprimoramento de sua capacidade de diálogo e crítica (XAVIER e KERR, 2004).

Após trabalhar com os conceitos verificados nessa pesquisa, por meio de reportagens, vídeos, visitas a instituições que desenvolvem trabalhos de pesquisas relacionados a fontes de energias limpas, ou seja, após um contato real com o problema em questão, em que os alunos poderão expor suas dúvidas e opiniões. Os estudantes terão a oportunidade de construir um aquecedor solar ecológico, a partir desse momento o pesquisador observará mais de perto como os alunos se organizam, que fontes utilizam, como constroem o conhecimento frente à solução de um problema real. Nesse momento, os alunos se envolverão de forma direta na construção do conhecimento, necessitando assim de conhecimentos científicos e tecnológicos. Nessa etapa, espera-se que os alunos possam compreender o funcionamento do aquecedor r solar, sua relação com o efeito estufa, seus benefícios e suas limitações.

Nesse processo de busca de soluções, apesar de estarem trabalhando com algo já pronto e elaborado, espera-se que eles tragam inovações, que modifiquem ou até mesmo crie algo diferente e mais eficiente. Diferente do que acontece no ensino tradicional, nosso objetivo não será apresentar respostas prontas às questões ou a solução dos problemas encontrados, mas orientá-los a investigar, alimentando-lhes o prazer de descobrir pela pesquisa e pelo próprio esforço as respostas que procuram.

Embora para Hernádez e Ventura os projetos de trabalho possam ser uma alternativa ao ensino escolar, em nosso projeto sua função é de produzir complementaridade, não substituindo a prática da sala de aula. Pretende-se enriquecê-la, criando alternativas, projetos paralelos que estarão em constante diálogo com ela.

## Referências

ALANO, J. A. Manual sobre a construção e instalação do aquecedor solar com descartáveis. Disponível

em&lt;:http://josealcinoalano.vilabol.uol.com.br/manual/manual.pdf&gt;. Acesso em: 01 de maio 2010.

ANGOTTI, J. A. P.; BASTOS, F. P.; MION, R. A A. Educação em Física: Discutindo Ciência, Tecnologia e Sociedade. Ciência &amp; Educação. V. 7, n. 2, p. 183-197, 2001.

ARAÚJO, M. S. T.; ABIB, M. L. V. S. Atividades Experimentais no Ensino de Física: Diferentes Enfoques, Diferentes Finalidades. Revista Brasileira de Ensino de Física. V. 25, n. 2, p. 176 - 194, junho de 2003.

ASSIS, S. F.; GUERRA, A.; BRAGA, M. Aprendendo física em células de inovação: relatos de uma experiência em processo, Jan.2009. Disponível em &lt; http://www.sbf1.sbfisica.org.br/eventos/snef/xviii/sys/resumos/T0383-1.pdf&gt; Acesso em: 01 de maio 2010.

BAZZO, W. A.; LINSINGEN, I; PEREIRA, L. T. V.; Introdução aos estudos CTS( Ciência, Tecnologia e Sociedade) . Madrid: OEI, 2003.

BRASIL, Ministério da Educação - - Secretaria de Educação Básica. Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Médio, 2000.

DECLARAÇÃO DE BUDAPESTE. Marco general de acción de la declaración de Budapest, 1999. Disponível em: &lt;http://www.unesco.org/science/wcs/esp/ declaracion\_s.htm&gt;. Acesso em: 02 de maio 2010.

HERNÁNDES, F.; VENTURA, M. A A organização do currículo por projetos de trabalho. 5ª Ed. Porto Alegre: Artmed, 1998.

GIL-PÉREZ, D. et al. Para uma imagem não deformada do trabalho científico. Ciência &amp; Educação, V.7, n. 2, p. 125-153, 2001.

LIMA, A. R. F.; TEIXEIRA, F. M. Atividade Interdisciplinar no Ensino de Ciências. Tecnologia &amp; Cultura. Ano 10, n.12, p.7-16, jan/jun.2008.

ORTEGA Y GASSET, J. Meditação sobre a Técnica, Rio de Janeiro, Instituto Liberal, 1991.

PRAIA, J., GIL-PÉREZ, D.; VILCHES, A A. O papel da Natureza da Ciência na educação para a cidadania. Ciência &amp; Educação, v. 13, n. 2, p. 141-156, 2007.

PRAIA, J.,CACHAPUZ, A., GIL-PÉREZ, D. A hipótese e a experiência científica em educação em ciências: contributos para uma reorientação epistemológica. Ciência &amp; Educação, v. 8, n. 2, p. 253-262, 2002.

SCHEID, N. M. J.; FERRARI, N.; DELIZOICOV, D. Concepções sobre a Natureza da Ciência num curso de Ciências Biológicas: Imagens que dificultam a Educação Científica. Investigações em Ensino de Ciências, v. 12(2), p. 157-181, 2007.

TEIXEIRA, E.S.; EL-HANI, C. N.; FREIRE JR, O. Concepções de estudantes de Física sobre a Natureza da Ciência e sua transformação por uma abordagem contextual do Ensino de Ciências. Revista Brasileira de Pesquisa em Educação , Porto Alegre, v. 1, n. 3, p. 111-123, 2001.

XAVIER, M. E. R.; KERR, A. S. A análise do Efeito Estufa em textos paradidáticos e periódicos jornalísticos. Caderno Brasileiro de Ensino de Física, V. 21, n. 3, p. 325349, 2004.

## Trabalho apoiado pelo CNPq

Texto extraído automaticamente do PDF: podem existir erros de conversão, especialmente em fórmulas, tabelas e figuras.