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DESPERTANDO RESPONSABILIDADE SOCIAL ATRAVÉS DE TEMAS CONTROVERSOS

Alcindo Mariano De Souza, Auta Stella De Medeiros Germano

Evento
Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
Edição
XII
Ano
2010
Data
28/10/2010
Linha de pesquisa
Ciências, Tecnologia, Sociedade E Ambiente E O Ensino De Física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## DESPERTANDO RESPONSABILIDADE SOCIAL ATRAVÉS DE TEMAS CONTROVERSOS

## SOCIAL RESPONSIBILITY Y TRHOUGH CONTROVERSIAL SUBJECTS

Alcindo Mariano de Souza 1 , Auta Stella Germano de Medeiros 2

1 Instituto Maria Auxiliadora, alcindoms@hotmail.com

2 Universidade Federal do Rio Grande do Norte/SEDIS , autastella@yahoo.com.br

## Resumo

Nesse trabalho apresentamos uma pesquisa em torno de uma intervenção didática que visou contribuir com o que entendemos ser um dos papéis centrais do ensino da Física, a formação para a cidadania . Procuramos, com a intervenção em questão , despertar r o interesse de alunos do Ensino Médio de uma escola particular de Natal -RN por questões de relevância social, e estimular, ao mesmo tempo, posturas ou atitudes de responsabilidade social, potencializando nos alunos maior motivação para informarem-se e participarem de decisões políticas e sociais mais amplas . Utilizando como principal referencial teórico a ênfase curricular Ciência, Tecnologia e Sociedade, nossa intervenção didática adotou como tema para discussão em classe a implantação de usinas termonucleares no Nordeste do país, ação que faz parte do plano atual do governo federal, de expansão da produção de energia elétrica no país. Considerando o contexto escolar em que nos inseríamos, o desenvolvimento da temática deveria propiciar, simultaneamente, o desenvolvimento do conteúdo curricular de Física Nuclear. Após a apresentação da questão controversa da instalação das usinas nucleares como opção para produção de energia elétrica, utilizamos metodologia similar ao jogo de papéis, em que os alunos assumiram papéis de grupos sociais diversos , que trabalharam, durante algum tempo, na construção e troca de informações a serem utilizadas por toda a classe, numa audiência pública , e posteriormente em plebiscito , ambos simulados . Ressaltamos, das análises realizadas até o momento, a constatação de que embora o envolvimento por parte de muitos dos alunos não tenha acontecido, com eles enxergando as atividades como parte de um trabalho a ser realizado para o professor, r, evidenciamos também alunos que tomaram o problema para si, emitindo opiniões próprias e demonstrando a preocupação com a solução para a questão.

Palavras -chaves: Cidadania, CTS e Ensino de Física , Energia Nuclear .

## Summary

This work presents an investigation about a didatic intervention which aimed to contribute to what we think to be one of the central roles in Physics education, training for the citizenship. We seek, with the intervention in question, awakening the interest of high school students of a private school Natal-RN for questions of social relevance, and to encourage, at the same time, postures or attitudes of social responsibility, potentiating pupils greater motivation to inform themselves and participate in political and broader social decisions. Taking into account the curricular

emphasis on Science, Technology and Society, our intervention used as subject for discussion in class the installation of thermonuclear r power plants in the Northeast geographical region of Brasil, an action that is part of the federal Government's current plan of expansion of the production of electric power in the country. Considering our school context, thematic development should simultaneously y provide curricular development related to the Nuclear Physics usual content . After the presentation of the controversial issue of the installation of nuclear power plants as an option for the production of electrical power, we use a similar role play methodology, in which students assumed the roles of different social groups, who worked for some time, building and exchanging information to be used by the whole class, at a public hearing, and later a plebiscite, both simulated. From parcial analyses, we emphasize that although the involvement of many students with the question did not happen, they y seeing activities as part of a work to be performed for the teacher, we also have found students who took the problem as theirs, by issuing their own opinions and demonstrating the concern with the solution to the question.

Keywywords: Citizenship, STS and Physics Education, Nuclear Energy

## Introdução

O atual contexto social nos direciona a um desafio primordial, que é um ensino de Física onde os conteúdos devam estar vinculados a questões sociais (CAVALCANTE, 1999), políticas, éticas, à construção de valores e à capacidade de contínuo aprendizado. Todavia, o pouco interesse de nossos alunos por questões sociais é notório , em sala de aula , e buscar uma mudança nessa postura tornou-se uma de nossas principais motivações para desenvolver a pesquisa a que esse trabalho se refere. Assim , procuramos elaborar e analisar o desenvolvimento de uma proposta de intervenção didática onde o ensino da Física esteja contextualizado por questões sociais relevantes e , ao mesmo tempo , onde possamos potencializar nos alunos uma postura de maior responsabilidade social . Ainda nessa perspectiva, procuramos focalizar a formação de um cidadão pleno, que seja capaz de atuar na sociedade unindo interesses pessoais e coletivos, com uma participação ativa em processos de decisão da gestão pública, contribuindo para uma sociedade realmente democrática. Essa pesquisa teve como um de seus instrumentos principais uma proposta de intervenção aplicada em três turmas do Ensino Médio.

A proposta de intervenção foi aplicada em uma escola particular na cidade de Natal -RN, em três turmas da 2ª série do Ensino Médio do turno matutino. Em sua grande maioria os alunos da escola são de classe média a alta, dentro da faixa etária regular r e, a manter-se a realidade de turmas anteriores, praticamente todos ingressarão no Ensino Superior, seja numa universidade pública ou privada. Suas carreiras acadêmicas não se encerrarão na conclusão do ensino básico, como ocorre para a maioria da população em nosso país. Em virtude disso, sabemos, salvo alguns trabalhos isolados, a escola particular dentro do Ensino Médio, acaba envolta por um foco curricular r quase que totalmente voltado para o vestibular, não sendo diferente para o ensino da Física. Entendemos que a escola com esse foco acaba deixando as discussões relacionadas às questões sociais, ambientais, políticas e econômicas , para outras etapas do ensino, ou para outras instituições de formação, que não a escola. No entanto, é necessário que nossos alunos, ainda no

Ensino Médio, possam desenvolver uma visão mais crítica e reflexiva , através de um ensino que procure fornecer r não apenas subsídios em conhecimentos e informações , mas competências que permitam argumentar, opinar, decidir, questionar, e, particularmente, que sejam estimulados à conscientização e à sensibilidade para com os problemas sociais e ambientais que vivenciam .

Ressaltamos a importância de tal formação se fazer presente na escola particular, visto que os alunos que a freqüentam poderão ter um grande poder de decisão, futuramente, em virtude da classe social a que pertencem. Alguns serão políticos, pela influência de suas famílias na comunidade, outros empresários, agentes formadores de opinião, enfim, pessoas que se destacarão devido à repercussão social que seus cargos ou funções poderão ter. Assim, temos grande preocupação quando tentamos discutir em sala de aula problemas de relevância social e os vemos indiferentes a isso. A experiência de um dos autores desse trabalho, em sala de aula , leva à constatação de que o interesse dos alunos é extremamente baixo; mudam os alunos, mas permanece a indiferença. Os alunos , de forma generalizada, passam a impressão de que tais problemas não os atingem, como se vivessem em um mundo à parte. Isso preocupa, pois em uma realidade que os favorece socialmente, estes futuros cidadãos manterão, muito provavelmente, as mesmas condições sociais em que vivem, no entanto , mesmo que tenham a oportunidade de contribuir na solução de problemas sociais, poderão não fazê-lo. Desejamos que a escola possa influenciar positivamente esses alunos e que as aulas de Física também contribuam para mudanças de postura, fugindo ao objetivo exclusivo, da preparação para o vestibular e adentrando em ênfases que possam nos auxiliar a formar seres humanos melhores. Entendemos que tal formação não depende apenas da escola ou do ensino de Física, mas acreditamos que o ensino de Física deve fazer parte disso, deixando de ser desenvolvido de forma socialmente acrítica .

Um argumento forte na implantação de um ensino mais contextualizado na escola particular é a crescente pressão social para que a escola adote , efetivamente , os direcionamentos dos atuais documentos para a Educação, a Lei de Diretrizes e Bases (LDB) , os Parâmetros Curriculares Nacionais em sua edição complementar (PCN+) e as Orientações Curriculares Nacionais (OCN). Essa pressão também acaba vindo do Estado e foi reforçada com a seleção de vagas para ingresso , em muitas universidades, através do cadastro único, baseado no desempenho do ENEM. Os PCN+ e as OCN estão ainda longe de serem aplicados por muitas escolas e, embora haja um esforço para isso, fazem-se muito mais presentes na escola pública. Entendemos a carência da escola pública em muitos aspectos e a urgência de sua melhoria, mas nos preocupamos com que o foco numa sociedade mais democrática possa se fazer mais presente também na escola particular. Assim, no contexto desta, é interessante ressaltar que hoje, atender às diretrizes oficiais também permite um ensino voltado para a cidadania, contextualizado, explorando habilidades e competências relevantes para tal .

## O Ensino da Física Nuclear

Uma intenção particular de nossa pesquisa e que converge com um destaque feito por muitos pesquisadores na área do ensino de Física, diz respeito à inserção de tópicos de Física Moderna e Contemporânea (FMC) no Ensino Médio . A demanda por r um ensino de Física contextualizado e que trate de questões do nosso

cotidiano, tem sido uma das justificativas para se alertar sobre a inserção de conteúdos da FMC no Ensino Médio, pois seus conceitos estão muito presentes na compreensão e na fundamentação de grande parte dos artefatos tecnológicos e em virtude disso, acabam gerando mais interesse por parte dos alunos (OSTERMANN, MOREIRA - 2000) . Entendemos que dentre muitos conteúdos da Física Moderna que favorecem uma investigação na perspectiva que defendemos está a Física Nuclear, podendo ser relacionada com questões sociais e ambientais relevantes envolvendo aspectos políticos, científicos, culturais e econômicos. É o caso da discussão sobre a obtenção de energia elétrica a partir de fontes nucleares . Quando analisamos o cenário nacional e internacional, vemos que temas relacionados à Física Nuclear, como sua aplicação na medicina e na datação radioativa e, particularmente, na indústria bélica, apresentam-se com clara relevância , evidenciados , inclusive, através dos meios de comunicação.

Dos conteúdos conceituais ressaltados em nossa proposta de intervenção , destacamos os processos de fissão e fusão nuclear, a relação massa-energia para essas reações, o decaimento radioativo, a interação das radiações ionizantes com os seres vivos bem como os efeitos biológicos dessa interação.

## A ênfase curricular r Ciência, Tecnologia e Sociedade

A sociedade está cada vez mais repleta de artefatos tecnológicos, sendo nossos hábitos, costumes, necessidades e profissões, influenciados diretamente por avanços científicos e tecnológicos. Estes avanços podem trazer benefícios, mas também problemas, como na implantação de tecnologias que prejudicam o meio ambiente, no desenvolvimento de hábitos consumistas ou de armas, na consolidação dos conceitos de desenvolvimento humano e social baseados unicamente nos avanços tecnológicos , e na falsa crença de que a Ciência e a Tecnologia (C&T) são a solução para todos os problemas . Por isso entendemos que entre as ênfases curriculares que favorecem uma perspectiva mais contextualizada para o Ensino de Física e focalizam a motivação para o desenvolvimento de maior responsabilidade social, por parte dos alunos, destaca-se aquela voltada para as relações entre Ciência, Tecnologia e Sociedade (CTS).

Pesquisadores que trabalham com essa perspectiva, ressaltam o potencial da mesma para formar cidadãos mais participativos, mais responsáveis socialmente, democráticos e solidários, na medida em que ela busca a preparação para a tomada de decisões com relação às questões sociais que envolvem C&T e a formação de atitudes que favoreçam à população exercer influência nos processos decisórios, principalmente, aqueles concernentes à gestão pública. Por esse motivo, adotamos esses estudos como referência para a construção de nossa intervenção e pesquisa .

Na ênfase curricular r CTS o aluno é o centro , o alvo da proposta; conteúdos, temas e contextos devem estar em torno de sua realidade, seja o cotidiano, a mídia, os fenômenos naturais ou os equipamentos tecnológicos que utiliza. Essa "premissa" dos trabalhos em CTS é apresentada claramente, por Aikenhead (1998) e outros pesquisadores, afirmando-se que devem ser exploradas tanto as relações entre Ciência, Tecnologia e Sociedade, como as relações destes com o mundo do aluno, evitando a separação entre mundo do aluno e mundo da escola .

Ainda dentro da metodologia orientada por Aikenhead, sugere-se um percurso metodológico em que escolhe-se um tema ou problemática que surja da sociedade, isto é, um problema social ou questão social relevante, seja de âmbito

global, regional ou local e, a partir de então se faz relação com questões tecnológicas e científicas envolvidas . Diante da compreensão das relações e dos conceitos envolvidos, retorna-se à problemática inicial em seu contexto social, estimulando soluções ou posicionamentos.

## Questões Sócio -científicas

A intervenção didática escolhida para unir a ênfase CTS e o ensino da Física Nuclear foi baseada na temática de implantação das usinas termonucleares no Nordeste, um tema que pode ser reconhecido como uma questão sócio-científica controversa . Com base na metodologia CTS, em que um tema social gera todo o percurso metodológico, a integração de questões políticas, éticas, ambientais, econômicas e/ou culturais tem sido estimulada através da abordagem de situações controversas, problemas reais ou simulados que tratem de temas de relevância que encontrem posicionamentos diferentes, opostos até, em diversos setores da sociedade. Esses temas são levantados em forma de perguntas, que gerem discussão por não haver consenso em sua solução.

Questões sócio -científicas controversas, para as quais não há consenso na sociedade, ocorrem principalmente quando há riscos para saúde ou para o ambiente. Nesses casos, valores e influências , além do interesse público , podem interferir diretamente nas posições e decisões sobre as mesmas (KOLSTØ , 2001).

As questões sócio-científicas podem ser usadas, portanto, para debates ou discussões sobre problemas socialmente relevantes , que devem culminar em um processo de decisão, isto é, os alunos devem ser estimulados a um posicionamento frente aos temas, procurando construir opiniões e argumentações com base em informações e valores. Embora a tomada de decisão seja usualmente defendida como um ponto importante para intervenções didáticas com ênfase CTS, para alguns autores, o processo que leva o aluno a um posicionamento é mais importante do que a decisão em si (SADLER e FOWLER , 2006). Algumas críticas à ênfase CTS dizem respeito à busca de preparar r o aluno para a tomada de decisão, afirmando-se ser questionável essa capacitação dos jovens . Certamente, os alunos não saem do ensino básico prontos para participar de decisões sobre questões sócio-científicas (MILLAR, 2003), no entanto não se pode negar a necessidade da participação dos cidadãos em processos decisórios numa sociedade democrática e podemos colaborar nesse caminho , propiciando aos estudantes construção de habilidades próprias dos processos de decisão e expectativa de aprimoramento futuro, isto é, a aprendizagem da busca de informações, o exercício de julgar e criar critérios que possibilitem a construção de posicionamentos futuros mais sólidos e bem argumentados, mesmo em questões que exijam mais conhecimento. Santos e Mortimer (2009) também comentam sobre pesquisas que mostram melhorias no discurso dos alunos, o aumento na capacidade de pesquisa, a coerência de argumentação, atitude crítica e melhor compreensão das relações entre Ciência, Tecnologia e Sociedade, referindo-se ao trabalho com questões sócio-científicas.

A questão sócio-científica que escolhemos para a proposta foi o projeto de expansão das usinas termonucleares no Brasil, um tema regional que traz uma problemática de relevância social. A previsão de mais usinas, especificamente no Nordeste do Brasil, seria o ponto central de discussão, através da pergunta "O Brasil deve instalar usinas termonucleares no Nordeste?". Consultando o Plano Nacional de Energia para 2030, documento elaborado pelo Ministério de Minas e Energia nos

anos de 2006 e 2007, percebe-se a intenção do aumento do fornecimento de energia elétrica a partir da energia termonuclear, com reatores nucleares baseados no processo de fissão nuclear. Esse plano não prevê , claramente , a quantidade de usinas a serem implantadas, nem onde seriam, porém deixa clara a intenção desse aumento. Quando o documento compara a previsão da demanda energética brasileira com a previsão de aumento do fornecimento de energia elétrica com base nas usinas hidroelétricas, procura mostrar que as usinas hidroelétricas não atenderiam às necessidades do país. A opção sugerida seriam usinas termonucleares com reatores de até 1500 MW, esses geradores seriam da chamada geração III+, em ciclo aberto.

Os argumentos principais, citados no documento, seriam a redução do efeito estufa e a possibilidade do Brasil ser auto-suficiente na produção do combustível nuclear. Quando percebemos em nosso país muitas outras possibilidades de energia elétrica, principalmente no Nordeste, como a energia eólica, solar, das marés, nos perguntamos se há uma real necessidade de usinas termonucleares em nossa região. Será que a sociedade deve ficar de fora dessa decisão?

Embora, a tecnologia de segurança tenha melhorado muito, os riscos de acidentes sempre irão existir, por mais que sejam minimizados. Além disso, é preciso avaliar a relação custo benefício da usina, pensando em todos os fatores, inclusive no tempo de vida útil, os locais de armazenamento dos dejetos radioativos e os custos para manter as instalações das usinas seguras após a sua desativação. A sociedade precisa refletir e participar da decisão sobre até que ponto vale a pena investir bilhões de dólares em usinas termonucleares e não bilhões de dólares em outras tecnologias para utilização de fontes de energia mais seguras e até renováveis. Os acidentes de Chernobil, Three Mile Island e os vazamentos em Angra II deixam clara a necessidade da participação da sociedade nesse processo de expansão do parque nuclear brasileiro, além do Brasil ter r experiências complicadas com a gestão e a continuidade de políticas públicas.

## Da Proposta de Intervenção e dos Resultados

Dentro do planejamento anual da disciplina de Física foram dedicados 14 tempos de aula para sua aplicação, sendo fruto de uma negociação com a escola para possibilitar a aplicação da proposta e torná-la viável dentro da escola particular. Embora desejássemos mais aulas, entendemos também a necessidade que a escola possui em manter seu compromisso com a grade curricular vigente.

A proposta de intervenção consistiu em um exercício de tomada de decisão, procurando fazer com que os alunos assumissem uma posição frente à questão social. Para isso foi adotado o exercício de jogo de papéis, onde os alunos aprofundaram e trocaram informações que seriam apresentadas na forma final numa audiência pública simulada e , posteriormente a ela, um plebiscito simulado, em classe, em que cada aluno votou a favor ou contra as usinas termonucleares.

Antes de iniciarmos o trabalho com a atividade propriamente dita, sentimos a necessidade de conhecer a percepção prévia dos alunos sobre o uso da energia nuclear . Em função disso, foi aplicado um questionário de sondagem, com três perguntas abertas, respondido de forma individual. Confirmando algumas pesquisas da literatura, um número significativo de alunos associam a energia nuclear às armas nucleares; dentre 108 que responderam esse questionário inicial, 61 afirmaram ser armas ou destruição a primeira coisa que lhes vem à cabeça quando

ouvem falar em energia nuclear. Do total , 86 alunos não achavam o uso da energia nuclear seguro, o que condiz com a associação inicial. Entretanto, quando perguntados sobre a implantação de usinas, os números mudam um pouco. São favoráveis às usinas nucleares 31 alunos e outros 22 dizem ser favoráveis com ressalvas; 41 alunos são contrários , e 17 não souberam opinar.

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Após esse questionário de sondagem, fizemos a apresentação da atividade , visando uma problematização e motivação inicial, para o nosso tema . Isso aconteceu com a reprodução em vídeo de uma reportagem exibida no Jornal da Globo, com o título "Desafio Nuclear" , através do que apresentamos o problema ou questão sócio-científica. Após o vídeo , os alunos foram questionados sobre o que haviam entendido , sobre a linguagem utilizada, as informações apresentadas, e surgiram ali algumas opiniões bem discretas, com os alunos participando ainda muito pouco da problematização. Eles receberam um texto sobre o tema da reportagem e também outro questionário com três questões abertas, agora sobre o que achavam da participação dos cidadãos no processo de decisão da implantação de novas usinas termonucleares no Nordeste.

Assim, foi possível dimensionar a idéia dos alunos sobre as decisões tecnocráticas, bem como verificar o valor que dão à opinião e decisão de especialistas. Praticamente metade dos alunos entende que a população deva participar da discussão sobre a implantação das usinas termonucleares; dos 105 alunos que responderam a esse questionário , 54 entendem que a população deve participar, contradizendo o resultado de outras pesquisas, em que, embora houvesse um reconhecimento de que a população devesse opinar , acreditava -se que a decisão deveria ficar nas mãos de especialistas. Esse mesmo questionário foi aplicado aproximadamente 5 meses depois, junto aos mesmos alunos. O tempo decorrido permitiu que os alunos deixassem de lado respostas que visassem cumprir com o que achavam que o professor esperava ver. Isso poderia tê-los influenciado durante a atividade. No entanto, o número de alunos que respondeu sobre a participação da população no processo de decisão aumentou, de aproximadamente 51% para 65%. Dessa forma cremos que, ao menos, houve uma maior consciência ou valorização da participação popular, no entanto, é muito difícil afirmar que isso gere alguma ação futura. Ainda assim, é preciso estimular o envolvimento dos alunos.

Moreira e Ostermann (2000) comentam tal envolvimento em questões relacionadas com a Física Moderna , e Santos (2001) argumenta que é a partir da discussão de temas reais e da tentativa de delinear soluções para os mesmos que

os alunos se envolvem de forma significativa e assumem um compromisso social (SANTOS , 2001) . Esse envolvimento do aluno é importante na medida em que os conteúdos atitudinais em relação à responsabilidade social dependem muito desse aspecto. O envolvimento do aluno acontece quando o problema social passa a ser encarado também como um problema pessoal, assim, buscamos despertar características cognitivas e emocionais e com este intuito as questões polêmicas podem trazer bons resultados.

Os fatores cognitivos e emocionais seriam dois dos três fatores na formação de atitudes dos alunos em sala de aula (TALIN, 2004; MASSANERO , VÀSQUEZ e ACEVEDO , 2003; POZO e GOMEZ CRESPO, 1998) . Um terceiro fator seria o comportamental. Como a mudança de postura está vinculada à mudança de atitude, julgamos importante a atenção a tais características. Kolsto (2000) comenta que o envolvimento é um fator primordial para a formação de cidadãos participantes de uma sociedade democrática. É preciso deixar claro que no início da atividade queríamos dar relevância ao problema, mostrando sua importância e a controvérsia relacionada a ele; com isso, o envolvimento do aluno já estava sendo buscado e essa preocupação prosseguiu durante toda a intervenção.

Na retomada do projeto em sala de aula, os alunos são sugestionados sobre a participação do "cidadão comum" no processo de decisão das usinas termonucleares com base em suas opiniões anteriormente emitidas, através do questionário. Tentamos mostrar a complexidade da decisão, não no aspecto técnico, mas nas influências mútuas dos vários setores sociais. Dessa forma, a atividade sobre as usinas termonucleares teve continuidade .

Na proposta, os alunos são divididos em 10 grupos entre 3 e 5 componentes, cada grupo assumindo a postura de um setor social. O grupo deveria buscar informações que os ajudassem a se posicionar, favorável ou contrário à instalação de usinas termonucleares no Nordeste. Essa atividade é similar ao role play, conhecido como jogo de papéis, onde os alunos assumem papéis e incorporam suas opiniões e ações. Não é exatamente isso que ocorre em nossa proposta, visto que os papéis são usados para direcionar a natureza da pesquisa a ser feita por cada grupo , e para que os alunos conheçam a posição desses setores; entretanto, as opiniões ou as ações não são, obrigatoriamente, as mesmas dos setores sociais que o grupo representa. Assim várias visões sobre o tema e também influências diversas puderam ser compartilhadas por todos os alunos durante os momentos de encontro dos grupos e na audiência pública.

Esses papéis foram escolhidos pensando-se nos diversos contextos e problemáticas sociais, políticas, econômicas, científicas e técnicas envolvidas. Para a definição desses contextos agradecemos a ajude de colegas professores de outras disciplinas, como geografia, história, biologia, sociologia. Mesmo sem a participação direta no projeto, auxiliaram na delineação das relações estabelecidas. Foram escolhidos os seguintes setores sociais a serem representados na audiência pública: ambientalistas, cientistas, sociólogos, políticos, ministério público, engenheiros da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), empresários, economistas, jornalistas e historiadores. Procurou-se organizar os grupos em sala de aula, para que as escolhas fossem por interesse de cada um com a atuação profissional do setor social a ser representado e não pelos grupos sociais já formados em classe. Assim, os grupos foram formados no momento em que os papéis foram apresentados .

Os alunos deveriam perceber como cada setor social sofre as influências da instalação de uma usina termonuclear, como pressionam ou são pressionados no processo de decisão. A necessidade de representar diversos setores tanto auxilia na compreensão do processo de decisão como na consciência de que a participação desses setores acontece de fato.

Após a divisão dos alunos em grupos, cada grupo recebeu orientações gerais e específicas, através do que foi chamado "cartões de papéis", incluindo alguns sites para consulta pelo setor social representado. Para compartilhar as informações e organizar os argumentos a serem apresentados na audiência, os grupos receberam uma planilha com uma sugestão de organização, com espaço para as informações coletadas e os argumentos que seriam construídos com base nelas. Na sequência, duas aulas foram destinadas ao encontro dos grupos em classe, para tirarem dúvidas, com o apoio do professor e de colegas, sobre as informações e construção em curso, dos argumentos; nesses momentos, a consulta foi livre entre os grupos e o professor r observou cada grupo, provocando, em alguns casos, questionamentos para os alunos refletirem a respeito. Uma aula expositiva foi preparada para um encontro seguinte, com a turma. Sentiu-se a necessidade de expor conceitos científicos relacionados ao tema, com auxílio de simulações virtuais, conceitos como os de fissão, fusão, radiações ionizantes foram discutidos em sala .

As principais informações e argumentos apresentados pelos alunos estão representados na tabela a seguir.

Segundo alguns pesquisadores, o nível de informação influencia a opinião sobre o apoio às usinas termonucleares, porém, em nossa pesquisa essa constatação não foi clara. O número de alunos contra a implantação da usinas termonucleares aumentou após a audiência, mesmo tendo pouca mudança entre os argumentos iniciais e finais. Dentro da atividade da proposta os alunos organizaram os argumentos também durante o plebiscito, pois na cédula de votação, além de expressar seu posicionamento, os alunos deviam apresentar os principais argumentos que os levaram a sua decisão.

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O plebiscito deu-se após a audiência púbica, onde cada grupo apresentou a visão do setor representado. Não havia necessidade de se ter uma posição definida, o objetivo foi sim, a partir das exposições e dos debates que os alunos formassem uma opinião expressa, posteriormente, através do plebiscito. Queremos destacar a importância de vincular a atividade a uma audiência pública, principalmente, por seu papel em nossa sociedade , como sendo um instrumento de participação efetiva, onde os cidadãos interessados podem expressar sua opinião e argumentos junto aos gestores ou reguladores da gestão e assim influenciar decisões e tomar ciência de questões relevantes para a nossa sociedade.

## Conclusões

Desde o início desta pesquisa , sempre tivemos uma preocupação em como analisar os resultados da intervenção proposta , em função da dificuldade em se pesquisar questões relacionadas aos conteúdos atitudinais. Tal experiência foi muito significativa para nosso trabalho em sala de aula e só veio ratificar a necessidade de termos, no ensino de Física, o tratamento de questões relevantes para a sociedade, locais, regionais ou globais. Vemos com mais clareza a necessidade de inserir no ensino de Física o mundo fora da escola, ou fazer com que a escola e a vida dos alunos estejam de fato entrelaçadas .

A atividade revelou um bom nível de aprendizagem por parte dos alunos, como verificado nos 5 problemas relacionados ao tema, que foram abordados na avaliação de Física para o trimestre em questão. Três problemas envolviam conceitos físicos e contextualizados com o tema da atividade de intervenção, relacionados à relação massa-energia, às reações de fissão e fusão e à interação entre a radiação ionizante e os seres vivos. E dois problemas relacionavam-se com questões sociais, solicitando-se, no caso, argumentos contrários e favoráveis à implantação das usinas termonucleares.

Entendemos, contudo, que a intervenção deva ser melhorada. Durante sua realização ficou claro que o envolvimento por parte de muitos dos alunos não aconteceu, pois ainda viam as atividades propostas como trabalho a ser realizado para o professor, r, para obterem nota . No entanto , houve aqueles que tomaram o problema para si, e desta forma apropriaram-se dele realmente , inclusive representando seu setor social de forma caracterizada e emitindo opiniões próprias, com preocupação sobre a solução para a questão. Alguns grupos enriqueceram a pesquisa com informações importantes, como por exemplo, comparando a

legislação brasileira, que é muito tímida na questão nuclear, com a de outros países mais maduros nesse tema, como a França. Em alguns momentos houve necessidade de mediação para intervir nos debates, embora devamos ter em mente que debates acirrados não são indicadores claros de envolvimento, pois os alunos podem competir entre si, ou mesmo divergir por influência dos colegas de sala.

Outra questão relevante foi a observação que fizemos da construção dos argumentos pelos alunos, e sua apresentação na audiência pública. Muitos mostraram muita dificuldade nessa construção, na interpretação de informações , que eram adotadas, por vezes, admitindo-se contradições entre elas . Apresentaram dificuldade em assimilar r informações científicas em seus argumentos. Essa dificuldade, contudo, evidencia a importância de atividades dessa natureza, pois percebemos o esforço dos alunos nessa construção e estruturação de argumentos. Durante a audiência pública alguns conseguiam estabelecer relações bem estruturadas e com claro propósito de convencimento.

Algumas entrevistas com os alunos que participaram dessa atividade foram feitas e estão sendo analisadas para verificar se houve alguma mudança no interesse sobre o tema , se consideram que a atividade teve alguma influencia nisso e investigar o nível de aprovação de atividades dessa natureza, por eles . Contudo, a partir da nossa observação em classe temos fortalecido uma convicção da contribuição que intervenções dessa natureza têm a dar, na efetivação de um ensino de Física para uma sociedade verdadeiramente democrática.

## REFERÊNCIAS

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