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ENCONTROS ENTRE DUAS CULTURAS: ARTICULAÇÕES ENTRE FÍSICA, LITERATURA, TEATRO...

Mônica Elizabete Caldiera Deyllot, Neusa Raquel De Oliveira, João Zanetic

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XXIII
Ano
2019
Data
30/01/2019
Linha de pesquisa
Cultura E Arte No Ensino De Física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## ENCONTROS ENTRE DUAS CULTURAS: ARTICULAÇÕES ENTRE FÍSICA, LITERATURA, TEATRO...

## Mônica Elizabete Caldeira Deyllot 1 , Neusa Raquel de Oliveira 2 , João Zanetic 3

- 1 IFUSP/Doutoranda do PIEC/CEFET-Maracanã, monica.deyllot@usp.br
- 2 IFUSP/Doutoranda do PIEC, neusaraquelsantos@gmail.com
- 3 Universidade de São Paulo/Instituto de Física/PIEC, zanetic@if.usp.br

## Resumo

Tendo os autores já flertado com a aproximação entre as culturas científica e artística, o artigo tem um viés de reencontro no qual o texto escrito (como o literário, o de divulgação e o teatral) é companheiro da construção de conceitos científicos e, o jogo teatral apresenta-se como uma forma de interação e de busca coletiva por soluções.

Propõe-se um trabalho que explore a ponte entre as duas culturas, não apenas como um passeio ilustrativo de utilização das ideias da ciência dentro de textos literários, ou então da utilização de textos literários para a divulgação de conceitos da ciência, mas na perspectiva das articulações.

Nesse aspecto as articulações são separadas em três pilares: a articulação direta, ou articulação de primeiro nível; a articulação estrutural, ou articulação de segundo nível; e, por fim, a articulação mobilizadora.

No texto são apresentados os enfoques de cada uma das articulações e é apontado o modo com que foram trabalhados.

Palavras-chave : Ensino de Física, Literatura, Teatro.

## Reencontros

Os reencontros foram motivados pelo retorno à pesquisa em ensino de física de dois dos autores, buscando ampliar as discussões em torno da física como cultura. Os autores que já compartilharam a caminhada em busca de um ensino mais significativo, mais convidativo e mais libertário.

Reencontro entre ideias e convicções: os três defendem a ponte entre as duas culturas, a cultura científica e a cultura dita tradicional das letras e das artes. João Zanetic abriu o guarda-chuva da aproximação entre Física e a Cultura, no qual abriga suas orientandas, em seu doutorado Física Também é Cultura! de 1989. Mônica E.C.Deyllot começou a explorar a ponte entre as duas culturas em seu mestrado Ler palavras, conceitos e o mundo: o desafio de entrelaçar duas culturas em um convite à Física, de 2005. Neusa R. Oliveira buscou desmitificar a figura do cientista, aproximando mais os alunos das discussões científicas, incluindo-os no

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processo como pessoas que acertam e erram (assim como os pesquisadores) através dos jogos teatrais, caminho explorado em sua dissertação de mestrado sob o título A presença do teatro no ensino de física, de 2004.

Busca-se ampliar o alcance de um ensino da física num aspecto mais cultural da prática científica, mais significativo e mais libertador, com foco nas articulações entre as duas culturas, articulações que acreditamos, podem enriquecer as atividades de ensino-aprendizagem em sala de aula. Essas articulações serão divididas em três pilares/níveis, que serão apresentadas / compartilhadas / trabalhadas / exploradas no trabalho.

## As Articulações

Podemos pensar em vários 'níveis' de articulação entre a Física e a Literatura, ou dizendo de modo mais amplo, entre a Ciência e os textos escritos. Em nosso trabalho enfocaremos três pilares articuladores, a saber:

- - A articulação direta, ou articulação de primeiro nível: aqui nos deparamos com a leitura transdisciplinar; com o imbricar de uma área na outra.
- - A articulação estrutural, ou articulação de segundo nível: neste ponto buscamos explorar a aproximação entre as estruturas da busca de compreensão científica e da busca de compreensão textual.
- - A articulação mobilizadora, ou articulação para ação: a partir de um texto (ou de uma problematização) envolto em ciência, e do uso de atividades / jogos teatrais envolver participativamente o estudante num grupo humano com acertos e erros.

## A articulação direta

Parece-nos muito transparente a ideia de aproximação entre Física e Literatura uma vez que

Um físico experimenta situações materiais, cujas propriedades ele não conhece inteiramente; um poeta procura encontrar seu caminho mediante situações humanas que não compreende completamente. Os dois aprendem ao experimentar, e ambos experimentam situações que precisam imaginar previamente. Como disse o poeta William Blake, 'o que agora está provado foi antes só imaginado'. (BRONOWSKI, p.40) 1

Como Bronowski, pensamos que a imaginação é a matéria primeira de toda a construção de modelos teóricos e ela também é o combustível para as criações literárias. Esse perfil acaba por aproximar naturalmente a Física da Literatura.

E ainda podemos dizer que a conversa entre os dois universos só traz enriquecimento para as duas culturas, pois por meio da ponte construída

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entre os dois são transportados elementos que podem fazer surgir os cientistas com veia literária e/ou os escritores com veia científica. (DEYLLOT, ZANETIC. 2005. p.107)

Dentre os cientistas com veia literária destacamos Galileu Galilei que escreveu, o seu 'Diálogo', escrito em 1632 quando se confrontava com o paradigma aristotélico.

Dentre os escritores com veia-científica podemos destacar não apenas os de ficção como Isaac Asimov ou Carl Segan, mas também poetas como Pablo Neruda ao descrever o anoitecer em seu Últimos Sonetos ; ou ainda Fernando Pessoa quando fala da Ciência em uma mescla de admiração e rejeição.

Dentro da literatura romancista destacamos que, um bom romancista acaba por retratar o mundo do seu tempo (ou de outrora), trazendo em sua obra elementos políticos, econômicos, geográficos, históricos mas também científicos, como Monteiro Lobato em Viagem ao Céu, Edgar Allan Poe com seu ensaio Eureka, O escritor Fiodor Dostoiévsky em Irmãos Karamasov ou ainda Machado de Assis, que apresenta em seu conto Idéias do Canário uma seqüência divertida de mudança de visão de mundo.

E não paramos por aí, usar imagens da ciência na construção de texto pode trazer resultados fantásticos como As Cosmicômicas de Ítalo Calvino, ou ainda o texto Pas de Deux de Alan Lightman que descreve de modo belo e preciso o movimento de uma bailarina.

Nessa linha, nosso trabalho utilizará de textos diversos, no formato oficina, para explorar as possibilidades de utilização em sala de aula, numa perspectiva de caminhar sobre a ponte entre Física e Literatura.

## A articulação estrutural

Neste nível da articulação entre Física e Literatura, exploraremos a estrutura da ponte entre as duas culturas, focaremos nossos olhares para as características primordiais e necessárias para a compreensão de um texto escrito; assim como das características também primordiais e essenciais para a construção da Ciência/Física e mesmo do ensino de Ciências/Física.

Elencando essas características temos: compreensão global e local; o mapeamento de funções; a procura por signos relevantes; a problematização / complicação; o levantamento de hipóteses; e , por fim, a conclusão.

Para fazer a exploração e o paralelo de cada uma dessas características, em uma e noutra cultura, usaremos o texto Trontéia, de Ângela Cortez e Cyntia Fischer, e, proporemos uma atividade provocativa de reflexão sobre essas características.

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## A articulação para ação

Apostamos em um ensino que ofereça condições para que o aluno, de forma emancipatória, se enriqueça culturalmente ao participar das aulas de física. Como afirma Zanetic (1989):

A física também é cultura. A física também tem seu romance intrincado e misterioso. Isto não significa a substituição da física escolar 'formulista' por uma física 'romanceada'. O que desejo é fornecer substância cultural para esses cálculos, para que essas fórmulas ganhem realidade científica e que se compreenda a interligação da física com a vida intelectual e social em geral. (ZANETIC, 1989, p. VI)

.

Neste sentido, o teatro pode fornecer a substância cultural para os conteúdos da física. Como também levar o indivíduo a pensar e agir criticamente de forma autônoma perante o conhecimento e a realidade que o cerca.

Embora essas ideias sejam bem aceitas pelos professores, parece-nos que lhes faltam estratégias apropriadas para colocá-las em prática na escola. Este trabalho que estamos propondo vem de encontro a essa necessidade, oferecendo uma possibilidade de trabalhar o conteúdo da ciência na sala de aula, através de uma atividade lúdica, que proporciona o engajamento entre os alunos, uma ponte entre o saber científico e o saber sócio-cultural e pode ajudar na sustentação da motivação dos estudantes de ciências.

Temos fé de que o ensino de ciências deve situar o aluno em uma realidade científica mais ampla, na tentativa de desmitificar a visão que se tem do cientista. Não se trata apenas de se preocupar com novas metodologias, com formas de "facilitar" a aprendizagem dos conceitos físicos, mas levar ao aluno o conhecimento do 'fazer ciência', da compreensão dessa ciência como uma ferramenta útil para um diálogo com o mundo e com sua possível transformação.

Uma das possibilidades para tornar isso possível é introduzir ciência com um apelo cultural nas aulas, colocando em discussão com os alunos, questões do tipo: Como foram se construindo e se solidificando os paradigmas 2 da física? Como foram superados e substituídos? Quanto tempo é necessário para que uma revolução científica aconteça?

Acreditamos que essas ideias sejam úteis na formação escolar porque ajudam na desmitificação do cientista fantástico que dorme 'humano' e acorda 'gênio'.

Não resta dúvida de que ao longo da história os cientistas produziram novidades experimentais e teóricas, encontraram falhas e erros nas teorias que acabaram sendo suplantadas por novas e desvendaram mistérios da natureza. Mas isso tudo não justifica que se idealize e se priorize uma visão de ciência que não leve em consideração sua prática atual e suas contradições.

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Professores de ciências e alunos falam com ênfase: "Esta teoria funciona até que se prove ao contrário". Dificilmente ou nunca escutamos em sala de aula que o cientista é aquele que admira as teorias vigentes, que trabalha em função delas, que busca a todo custo comprovar sua veracidade e melhorá-las, como Kuhn (1994) expôs em sua análise epistemológica, que fala inclusive da crise dessas teorias e das revoluções científicas que fazem aflorar novas teorias.

Faz-se necessário despertar a reflexão do aluno sobre um universo físico e sobre um universo além do físico, com problemas sociais, culturais e éticos, dando a ele condições de interagir com esta realidade e tentar mudá-la e, para isso, acreditamos que o teatro possa oferecer contribuições.

A linguagem do teatro, através de peças que discutam o desenvolvimento de uma teoria física, que focalizem a discussão sobre ideias que não se tornaram teorias e os motivos que levaram outras a se tornarem teorias, pode possibilitar esse tipo de discussão, mesmo entre aqueles alunos que através da abordagem tradicional, sentem-se afastados dela.

Como fatores positivos na utilização das atividades teatrais nas aulas de física, ressaltamos o trabalho emocional, a imaginação como elemento útil na aprendizagem, o trabalho de ações e movimentos e a introdução de meios que favoreçam o diálogo e a discussão a respeito de temas importantes no ensino de física.

Para nós, a presença do teatro na escola é necessária e deve ter pelo menos dois objetivos: possibilitar à criança o conhecimento e o gosto pelo teatro, e desempenhar o papel de elemento didático. Entendemos que o teatro pode participar com muita eficácia da formação do estudante" (Lapenda, 1997, p. 155)

As atividades do teatro, como elementos didáticos, podem permitir a interação entre alunos, a relação do aluno consigo mesmo, a apropriação cognitiva do conteúdo presente no texto teatral e podem diminuir a distância entre a escola e as artes cênicas, já que:

- (...) este distanciamento entre a escola e as artes cênicas gera alguma consequência no que diz respeito à formação global dos alunos. Uma, e a mais óbvia, é o não desenvolvimento de uma forma de apreensão do mundo cifrada pela linguagem teatral. (Lapenda, 1997: 158)

Com isso o aluno tem uma formação fragmentada não desenvolvendo outras formas de expressar o que sabe, o que sente, o que entende e o que não entende. Segundo Lapenda (1997, p. 158): " Significa 'atrofiar' mecanismos perceptivos e sensibilidades potencializadas pelos mecanismos representativos da arte".

Ou seja, a ausência de atividades que despertem a reflexão e a interação entre alunos poderá ser a causa da insegurança ao se comunicar e, sem comunicação a aprendizagem dificilmente acontece. Aluno integrado no mundo da

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cultura amplia sua visão de mundo, enriquece seu vocabulário e isso pode trazer grande contribuição na aprendizagem.

Como fatores problemáticos da utilização do teatro, ressaltamos aqueles apontados por Lapenda (1997), por exemplo, fazer dramatizações improvisadas que acabam frustrando os alunos, levando-os a não tentar novamente uma experiência teatral. A apresentação da atividade teatral desconectada do dia-a-dia da sala de aula, teatro só para diversão, sem vínculo com o conteúdo, sem preparação do aluno, só para tornar a aula diferente.

Assim, muitos professores acabam usando o teatro apenas como instrumento de fixação dos conteúdos didáticos, visto que a dramatização tornaria a aula mais dinâmica e supostamente mais interessante para o aluno. (Lapenda, 1997: 166)

Essa é uma consequência da forma equivocada de se enfatizar apenas a memorização de conteúdos e não o significado do conhecimento, seus limites, seu processo de construção, etc. Este tipo de equívoco, algumas vezes, também pode ocorrer com o enfoque cultural da ciência que muitas vezes é utilizada apenas para facilitar a memorização do conteúdo.

Nunes (2000, p. 40) sugeriu uma forma para lidar com textos em uma atividade teatral sem alterar sua essência:

(...) nossa proposta faz questão de conservar o discurso autoral (narração, descrição, comentário, reflexão, etc.), fundada na crença de que é possível descobrir nele uma teatralidade inerente e específica, capaz de render instigantes soluções de linguagem cênica.

A atividade teatral ao trabalhar a sensibilidade, a percepção, a intuição, as emoções pode permitir ao aluno fazer relações entre conteúdos, relações entre ciência e questões sociais, como também proporcionar a coragem para se arriscar, descobrir e enunciar a sua crítica, expor sua forma diferente de pensar, e o mais importante, levar à reflexão.

O teatro como atividade dinâmica tem como função instigar a resposta e contribuir para o acerto e benefício dessas situações. A dramatização reflete e forja nossas atitudes e valores como também ajuda-nos a modificá-los, a redimensionar os comportamentos culturais, podendo explorar relacionamentos desde as pessoas subjugadas à complexidade do sistema social e expostas a preconceitos e a injustiças, como cidadão. (Barcellos, 1997, p. 31)

Nosso objetivo é de desenvolver na sala de aula um ambiente favorável à aprendizagem, mais humano e menos individualista, onde as diferenças possam ser respeitadas.

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Através da lupa cultural da ciência, enfocaremos a atividade científica, procurando reproduzi-la na sala de aula com depoimentos, cartas e textos originais escritos por físicos. Pretendemos com isso fomentar a discussão da necessidade de desmitificar a função do cientista, o seu trabalho, o seu compromisso com o social e com o ser humano.

Por meio de atividades teatrais de Viola Spolin (2001), mostraremos como alguns textos podem ser trabalhados, onde a valorização do foco pode transformar o aluno enquanto pessoa levando-o a fazer parte de um grupo com acertos e erros.

## Referências

BARCELLOS, H. Além do círculo de giz. Brasília: Musi Med Editora, 1995.

BRONOWSKI, Jacob. O olho visionário: ensaios sobre arte, literatura e ciência.

DEYLLOT, Mônica Elizabete Caldeira; ZANETIC, João. Ler palavras, conceitos e o mundo,: o desafio de entrelaçar duas culturas em um convite à Física. Dissertação de mestrado. IFUSP:2005.

LAPENDA, C. D. Teatro: Recurso lúdico e pedagógico In: Aprender e ensinar com textos não escolares. Adilson Citelli (Coord.) Vol.3. São Paulo: Cortez Editora, 1997.

NUNES, L. A. Do livro para o palco: Formas de interação entre o épico literário e o teatral. In: O Percevejo n.9, ano 8, 2000.

OLIVEIRA, N. R.; ZANETIC, J. A presença do teatro no ensino de física (Dissertação de Mestrado) . São Paulo: IFUSP:2004.

SPOLIN, V. (2001). Jogos teatrais. O fichário. (I. D. KOUDELA, Trad.) São Paulo: Perspectiva.

ZANETIC, João. Física também é cultura!, tese de doutorado. FE/USP: 1989.

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Texto extraído automaticamente do PDF: podem existir erros de conversão, especialmente em fórmulas, tabelas e figuras.