FÍSICA, ARTE E ENSINO: UMA REVISÃO BIBLIOGRÁFICA NA REVISTA BRASILEIRA DE ENSINO DE FÍSICA
Milene Dutra Da Silva
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXIII
- Ano
- 2019
- Data
- 30/01/2019
- Linha de pesquisa
- Cultura E Arte No Ensino De Física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## FÍSICA, ARTE E ENSINO: UMA REVISÃO BIBLIOGRÁFICA NA REVISTA BRASILEIRA DE ENSINO DE FÍSICA
## Milene Dutra da Silva
1 Universidade Federal do Paraná/Licenciatura em Física, milenedutra13@gmail.com
## Resumo
Foi realizada uma revisão bibliográfica na Revista Brasileira de Ensino de Física publicada pela Sociedade Brasileira de Física, do primeiro volume (1979) ao quadragésimo (2018). Em cerca de um mil e quinhentos artigos foram buscados os que apresentavam alguma aderência da relação entre Ciência e Arte com o processo de ensino aprendizagem de Física. O resultado (vinte e um artigos) demonstra que é muito pequena a frequência de publicações desse assunto na revista, o que sugere que esta estratégia de ensino é pouco valorizada. Demonstra também que as publicações nessa área de pesquisa costumam ser iniciativas individuais ou pontuais, salvo exceções, e apontam para uma ausência de referencial teórico que embase a compreensão das relações entre Física, Arte e ensino nos seus aspectos epistemológicos, metodológicos e psicopedagógicos da ciência. Paradoxalmente, em quase todos os mais de cento e cinquenta números da revista, diversos autores e editores reiteram sua preocupação com a formação de professores e com os rumos que a disciplina de Física no Ensino Médio e no Ensino Universitário vem tomando nos últimos anos. O desinteresse dos alunos, a evasão de graduandos e principalmente, o atendimento aos documentos oficiais que determinaram a premência de um encaminhamento contextualizado e convergente do ensino com a dinâmica da sociedade contemporânea, sugerem a necessidade de se propor que novas relações e diversas linguagens somem esforços no enfrentamento desses desafios.
Palavras-chave : Ensino de Física, Arte, RBEF
## Revisão Bibliográfica na RBEF
Entre todas as áreas de conhecimento humano as Ciências representam um dos segmentos mais organizados e sistematizados, intrinsicamente ligado a processos analíticos na sua produção e de uma linguagem própria para seu registro, intercomunicação e posterior divulgação. Essas características determinaram ao longo do tempo, o que se compreende hoje como essência do conhecimento científico, particularmente ligado à ideia de clareza, objetividade, precisão e, simultaneamente, a um mundo hermético, exigente e complexo.
Os reflexos destes aspectos estão presentes no ensino de Física, desde a organização dos currículos escolares até as metodologias utilizadas no processo de ensino aprendizagem dessa Ciência. Alguns desses aspectos são apontados como dificuldades para o ensino de Física, tais como a excessiva matematização das questões e a abstração da linguagem envolvida, presentes em sala de aula.
Nos últimos cinquenta anos, muitos foram os enfoques teóricos que se propuseram a dar conta de sistematizar maneiras de se ensinar ciência de forma a oportunizar aos estudantes a compreensão de que seus temas estão presentes no cotidiano e que dialogam continuamente com as demandas do mundo natural e socialmente construído.
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Dentre esses enfoques, o que relaciona a Ciência com a Arte tem se mostrado como um caminho com o qual a escola teria muito a ganhar. A intersecção entre duas áreas aparentemente distintas contribui para ampliação da visão de mundo do indivíduo em formação e possibilita uma compreensão mais alargada da cultura humana historicamente construída.
'A escola se imbui da missão de transmitir às novas gerações valores, atitudes, conhecimentos e demais elementos da cultura humana. Nessa tarefa, muitas vezes relega a criatividade e a imaginação ao aspecto meramente motivacional das atividades, atribuindo ao lúdico unicamente a capacidade de entreter. Em geral, separam-se as atividades de raciocínio daquelas imaginativas, como se tratassem de áreas desconexas do pensamento. Por um duplo preconceito, não atribuem ao raciocínio a possibilidade de criar, nem à imaginação de organizar e moldar representações sobre o mundo' (PIETROCOLA, 2017)
Como parte de uma pesquisa maior que se desenvolve no âmbito de estabelecer um marco teórico epistemológico e psicopedagógico para essa área de pesquisa, apresenta-se aqui uma revisão bibliográfica dos artigos publicados na Revista Brasileira do Ensino de Física (RBEF) que tenham como objetivo divulgar pesquisas que envolvam a Arte e a Ciência sejam estas teóricas, empíricas e/ou envolvendo a sala de aula. A escolha por essa publicação se justifica pela relevância que a mesma tem frente às tendências em pesquisa na área de Ensino de Física.
A RBEF é de responsabilidade da Sociedade Brasileira de Física (SBF) e vem sendo publicada desde 1979, sem interrupção, com o objetivo de promover e divulgar conhecimentos relacionados com o ensino de Física, nos seus mais diversos aspectos.
A Revista Brasileira de Ensino de Física - RBEF - é uma publicação de acesso livre da Sociedade Brasileira de Ensino de Física (SBF) voltada à melhoria do ensino de Física em todos os níveis de escolarização. Através da publicação de artigos de alta qualidade, revisados por pares, a revista busca promover e divulgar a Física e ciências correlatas, contribuindo para a educação científica da sociedade como um todo. Ela publica artigos sobre aspectos teóricos e experimentais da Física, materiais e métodos instrucionais, desenvolvimento de currículo, pesquisa em ensino, história e filosofia da Física, política educacional e outros temas pertinentes e de interesse da comunidade engajada no ensino e pesquisa em Física (SBF, 2017).
Foram revistos cerca de um mil e quinhentos artigos, organizados em quarenta volumes, aproximadamente cento e cinquenta números trimestrais. São quatro volumes por ano, ao longo de trinta e oito anos (1979-2018).
A revisão se iniciou pela ferramenta de busca da revista, utilizando-se para tanto as palavras chave: ciência e arte, ensino de física. O retorno foi insignificante, o que gerou uma forma mais criteriosa de busca, agora sendo acessadas todas as revistas (desde 1979 até 2018) e de uma a uma feita a leitura dos títulos. Todos os artigos, cujos títulos remetiam a ciência e arte ou ao ensino de física (através de recursos pedagógicos que poderiam estar ligados ao objeto de pesquisa) tiveram seus resumos lidos.
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A leitura dos resumos possibilitou uma classificação entre os autores que se utilizaram da arte ou de seus instrumentos apenas como recurso e outros que estabeleceram relações entre a arte e a ciência no ensino, dos quais foi feita a leitura completa do artigo.
Os resultados da busca por publicações que envolvam temas que se aproximem das relações entre Arte e Ciência estão resumidos no QUADRO 1, no qual estão identificados 27 trabalhos. Desses, 21 relacionados com arte (dentre os quais 2 se aprofundam na relação arte-ciência-ensino), 3 com esportes e 3 com linguagens. A inclusão dos 3 que se referem ao esporte se justifica porque nesses, o esporte foi utilizado apenas como recurso bem como as manifestações artísticas nos outros 19.
Quadro 1: Artigos que relacionam ciência (Física) e recursos ou manifestações da Arte presentes na RBEF de 1979 até o volume 40 de jan.2018.
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Na quarta coluna (que se refere ao marco teórico) se pretendeu apontar qual a base teórica que foi utilizada pelo autor do artigo em questão, no que diz respeito à relação do seu tema com o ensino; especialmente marcos teóricos da epistemologia da ciência, da metodologia do ensino de Física ou próprios da educação em ciências. Em nenhum momento está se afirmando que as pesquisas citadas não tiveram seus fundamentos teóricos, apenas está se buscando compreender quais autores são utilizados, para além dos clássicos e próprios da Física (livros didáticos para ensino superior); investiga-se em que teorias ou autores cada pesquisador se aprofundou para compreender as relações do seu objeto de pesquisa com a educação e mais propriamente com a sala de aula.
## Algumas Considerações acerca dos Resultados Obtidos
Considerando-se o grande número de publicações da revista (cerca de um mil e quinhentos), e que essa busca foi feita desde a sua inauguração em 1979, os artigos encontrados foram poucos (vinte e um). Acerca desta constatação podem-se fazer algumas inferências:
- - uma suposição é a de que o perfil da revista, apesar de ser uma revista de ensino, seja bastante conservador, uma vez que é de responsabilidade da SBF; priorizando dessa forma, artigos que envolvam temas próprios da Física e, portanto, menos interdisciplinares;
- - uma constatação é que nos anos de 2000 a 2005, os artigos muito frequentemente versam sobre a inserção do computador nas escolas e na própria Universidade. Era um tema considerado prioritário por muitos pesquisadores que viam nessa ferramenta uma modificação imperativa e definitiva no ensino, sendo desta forma privilegiado como tema de discussão;
- - outro período que se apresenta como uma grande lacuna é o de 1985 até 1997. São doze anos sem que os termos ligados à ideia de criatividade tenham sido tocados. Coincidentemente, foram tempos em que o país saía de uma longa ditadura e reiniciava seu processo de abertura política, que teve repercussão em todos os âmbitos da vida nacional.
- É impossível deixar de perceber que dentre os artigos apontados nessa revisão, o assunto mais abordado foi a relação da música com a acústica (sete entre vinte e um trabalhos). Muitos deles mesmo incluindo um instrumento musical mantêm-se bastante rígidos quanto à sua metodologia, ou seja, a música foi uma ferramenta motivadora para o estudo de algum tópico de Acústica.
Os únicos autores que apresentam propostas mais consistentes no sentido de compreender as relações entre arte e ciência são Gomes et al (2011) e Guerra et al (2007). Ambas são detalhadas a seguir:
Gomes, Di Giorgi e Raboni, do Programa de Pós Graduação em Ciência e Tecnologia de Materiais, Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho", desenvolvem a ideia de que 'na relação entre física e pintura encontram-se dimensões e aspectos históricos, socioculturais e técnicos' e, posteriormente, apresentam 'algumas considerações mais gerais sobre como essa relação poderia estar presente no ensino de física' (GOMES et al, 2011). Inicialmente os autores afirmam que as relações interdisciplinares são indicadas claramente nos PCN e nas avaliações institucionais como o ENEM e o ENADE; passam a discorrer sobre fatos da História que demarcam a evolução imbricada de ambas as áreas, depois apontam para exemplos nos quais o desenvolvimento científico possibilitou que
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novas técnicas de expressão e de verificação (de eventuais falsificações) fossem utilizadas por artistas e curadores.
Ao final, fundamentados teoricamente e reconhecendo que alterações na disciplina escolar Física são necessárias e, ao mesmo tempo, difíceis de serem implementadas sugerem que:
Por fim, cabe ressaltar que o estudo dessas relações, assim como o da física com outras dimensões da cultura, deveria ser mais enfatizado nos cursos que formam bacharéis e licenciados em física, com o objetivo de ampliar sua formação e até, eventualmente, o seu próprio horizonte profissional (GOMES et al , 2011).
A observação parece ainda mais importante atualmente, quando os horizontes profissionais e a formação inicial de professores de Física têm sido tão questionados.
Os professores A. Guerra, M. Braga e J.C. Reis são importantes autores quando se fala em História e Filosofia da Ciência no Brasil. São integrantes do Grupo Teknê e ativos na exploração de possibilidades de ensino que articulem outras áreas de conhecimento com a Física. No artigo em questão Teoria da relatividade restrita e geral no programa de mecânica do ensino médio: uma possível abordagem, os autores reconhecem que os PCN solicitam do professor um ensino de Física mais contextualizado e interdisciplinar, porém, da mesma forma afirmam que isso não vem ocorrendo.
O conteúdo envolvido é a inserção de tópicos de Física Moderna no E.M., que nessa proposta foi encaminhada em diversas etapas. Na primeira houve a utilização do filme O nome da Rosa dirigido por Jean-Jacques Annaud (1986), 'foi o caminho encontrado para envolver os alunos com o tema do nascimento da ciência moderna, e, assim, situar a obra e vida de Galileu Galilei' (GUERRA et al , 2007).
Após o filme e a discussão inicial com os estudantes sobre o estudo dos movimentos, os mesmos puderam ser confrontados com os questionamentos referentes às questões de tempo e espaço. 'Para fazer os alunos refletirem sobre as diferentes concepções de tempo e espaço construídas pelos homens ao longo da história [...] foram apresentadas imagens contendo afrescos e pinturas produzidas por artistas da Idade Média até o século XX'. Os estudantes puderam selecionar imagens com as quais gostariam de trabalhar e deles foi exigida a montagem de painéis a serem expostos para turma. Nessa metodologia, vários aspectos da cultura da virada do século XIX para o século XX puderam ser explorados, inclusive com experimentos demonstrativos (GUERRA et al, 2007)
Na sequência foi proposto um trabalho em grupos, divididos em sete temas. Essas pesquisas prepararam os estudantes para sistematização final feita pelo professor, sobre a Teoria da Relatividade.
Esses dois trabalhos retratam como as relações entre Arte e Ciência configuram-se numa abordagem complexa e dinâmica para um ensino de Física mais interessante para o estudante, mais amplo no que diz respeito à utilização de linguagens (além da matemática) e recursos, e mais criativo para todos os envolvidos. Não se trata de trazer alguns elementos da Arte como incentivo, mas sim, de propor em sala atividades didáticas que possibilitem o desenvolvimento de ações criativas e imaginativas, próprias das duas áreas de conhecimento
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interligadas e que oportunizem ao estudante compreender de forma integral o contexto sociocultural e tecnológico contemporâneo.
## Conclusão
Compreende-se que o desenvolvimento de unidades temáticas sob o enfoque histórico-filosófico com utilização da Arte como recurso didático exige um planejamento bastante cuidadoso. Além de ter claros os objetivos, o professor precisa dominar ambas as linguagens para poder transitar entre essas áreas de conhecimento; e fundamentalmente compreender em que aspectos do ensino a criatividade e a imaginação podem contribuir com a aprendizagem.
Fica também ressaltada nessa revisão a ausência de marcos teóricos próprios do ensino de Física ou da Educação, como referências para as pesquisas que envolvem a sala de aula. Ou seja, o desenvolvimento das atividades relatadas na grande parte dos artigos teve como base os conhecimentos de Física e de Arte envolvidos, porém não houve o apontamento dos autores que fundamentaram a metodologia de ensino e a práxis do professor.
Finalizando essa etapa de revisão bibliográfica que teve como objeto a RBEF, conclui-se que há muito a ser explorado teórica e empiricamente no que diz respeito às relações da Física com a Arte e o Ensino.
Mostra-se urgente a publicação de pesquisas que contribuam com os professores que, em sala de aula, demandam suporte teórico e materiais que auxiliem na difícil tarefa de ensinar atendendo aos PCN e às exigências contemporâneas, sejam dos estudantes ou da própria escola.
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