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MULHERES NA FÍSICA NA PERSPECTIVA DE LICENCIANDOS E DOCENTES EM FÍSICA DO BRASIL: UM OLHAR SOBRE A EXCLUSÃO HORIZONTAL

Rúbia De Fátima Antunes Martins Fernandes, Leonardo André Testoni, Flaviston Ferreira Pires

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XXIII
Ano
2019
Data
30/01/2019
Linha de pesquisa
Ética, Afeto E Diversidade Em Ensino De Física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## MULHERES NA FÍSICA NA PERSPECTIVA DE LICENCIANDOS E DOCENTES EM FÍSICA DO BRASIL: UM OLHAR SOBRE A EXCLUSÃO HORIZONTAL

Rúbia de Fátima Antunes Martins Fernandes 1 , Leonardo André Testoni 2 , Flaviston Ferreira Pires 3

- 1 Universidade Federal de São Paulo/Programa de Pós-Graduação em Ensino de Ciências e Matemática/rubia.fernandes@unifesp.br
- 2 Universidade Federal de São Paulo/Programa de Pós-Graduação em Ensino de Ciências e Matemática/leonardo.testoni@unifesp.br
- 3 Universidade Federal de São Paulo/Programa de Pós-Graduação em Ensino de Ciências e Matemática/ton.fpires@hotmail.com

## Resumo

Embora a participação feminina tenha crescido em muitas áreas da ciência, na física ela ainda continua sendo bastante escassa. Por meio dos estudos sobre ciência e gênero têm sido possível focar no estudo das barreiras institucionais, com proibições explícitas de ingresso de mulheres em ambientes científicos, e ideológicas, com teorias e estereótipos sustentando a inferioridade intelectual das mulheres, que ainda afastam as mulheres das ciências. Neste sentido, este trabalho apresenta dados parciais de uma dissertação de mestrado e visa analisar a existência, ou não, de exclusão horizontal das mulheres na física nas percepções de, inicialmente, 185 licenciandos e docentes de física de todas as regiões do Brasil, no que diz respeito às áreas científicas consideradas como femininas e aos prestígios atribuídos a elas. Procuramos, também, elucidar algumas possibilidades para a física parecer excluir tão veementemente as mulheres, o que parece estar relacionado com o fato da física ser uma ciência considerada como hard. Acreditamos que este tipo de pesquisa seja importante com (futuros) professores, uma vez que estes poderão propagar seus discursos de forma direta ou indireta em salas de aulas, podendo contribuir com a manutenção das dinâmicas estabelecidas entre os gêneros, de forma a perpetuar o padrão androcêntrico das ciências.

Palavras-chave : mulheres na física; exclusão horizontal; gênero e ciência

## Introdução

Em muitas áreas do conhecimento, a participação feminina tem crescido nas últimas décadas, sendo que, em alguns casos, tem ultrapassado a participação masculina (SAITOVITCH, LIMA e BARBOSA, 2015). Este, no entanto, não parece ser o panorama presente em algumas áreas científicas, como a física. Essa emergente atuação da mulher em ambientes onde a presença masculina era notadamente dominante, tais como os ambientes científicos, faz surgir espaço para discussões e estudos que abordem as relações entre gênero e ciência.

Os estudos sociais sobre as relações entre gênero e ciência se originam, principalmente, no movimento feminista nos Estados Unidos e Europa (CARTAXO, 2012). Segundo Lopes (2006), a expressão gender and science (gênero e ciência) foi utilizada pela primeira vez em 1978, como título de um artigo da física Evelyn Fox Keller, que se tornou um marco para contextualizar a emergência desta relação.

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Para Schiebinger (2001), mencionar este termo mostra a intenção de entender como se dão as relações de poder entre os sexos na ciência.

Schienbinger (2001) aponta a existência de poucos estudos de gênero na física, sendo que estes seguiam linhas diversas de investigação. Dentre estes, podemos dar destaque para Evelyn Fox Keller e Helen Longino que, em 1996, publicaram uma coletânea de clássicos em gênero e ciência, com o apontamento de que as ciências físicas eram uma das áreas que necessitava de atenção nesse sentido. Sandra Harding, por sua vez, questionou o prestígio dado à física como ciência-modelo. Sharon Traweek e outras físicas destacaram a cultura que tende a silenciar as mulheres. A física Karen Barad identificou um estilo pedagógico na física que ensina os estudantes a dar valor a diversão e irresponsabilidade acima de significado e compreensão. Outros, por sua vez, enfatizaram como os vínculos militares dos físicos têm afastado as mulheres. Outra análise feita foi sobre a mentalidade de que a física é uma ciência 'neutra'.

Os estudos que versam sobre ciência e gênero têm se dedicado a uma ampla variedade de questões, porém o foco tem sido especialmente estudar as barreiras institucionais (proibições explícitas de ingresso de mulheres em ambientes científicos) e ideológicas (teorias e estereótipos sustentando a inferioridade intelectual das mulheres, bem como sua relação com o afastamento delas nas ciências) (SANZ GONZÁLEZ, 2005).

Embora as barreiras institucionais não sejam mais os maiores problemas para as mulheres, as ideológicas, por sua vez, ainda o são até hoje. Para Dagnino (2008), isso se deve, em parte, pela forma pela qual as instituições são organizadas e à manutenção das relações de poder e de produção/reprodução do conhecimento contemporâneo. O reflexo disto se dá nas instituições justamente porque são nelas em que as relações entre homens e mulheres ocorrem.

A exclusão das mulheres na ciência pode ser mapeada de duas maneiras: i) horizontal ou territorial, que divide áreas do conhecimento caracterizadas como femininas ou masculinas nas ciências, em que é possível perceber o maior número de mulheres em áreas construídas como de menor prestígio; e ii) vertical ou hierárquica, que exclui as mulheres do topo da carreira científica. Para Harding (1996, p. 56) 'a segregação vertical e a horizontal se combinam para garantir a perpetuação desta situação'. Este trabalho, por sua vez, tem como foco elucidar algumas reflexões sobre a seguinte pergunta: a partir de percepções de licenciandos e docentes em física, há algum nível de exclusão horizontal de mulheres na física?

Dessa forma, analisar a inclusão, atuação e ascensão das mulheres na ciência implica em questionar a cultura hegemônica da ciência, uma vez que esta é centrada em valores masculinos. Assim, é necessário compreender o quanto este padrão androcêntrico restringe a participação das cientistas.

## Metodologia

Este trabalho apresenta dados parciais de uma dissertação de mestrado e visa analisar a existência, ou não, de exclusão horizontal nas percepções de licenciandos e docentes de física, no que diz respeito às áreas consideradas pelos participantes como femininas e a relação com o prestígio atribuído às áreas da ciência. Focaremos, no entanto, sobre as percepções referentes à área de física.

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Nesse sentido, os dados apresentados foram coletados por meio de um questionário fechado com perguntas objetivas, que visou obter informações sobre o perfil, formação, áreas consideradas como femininas e relações de prestígio entre as áreas do conhecimento.

- O público-alvo da pesquisa foi escolhido com base em sua formação (licenciatura física ou ciências-física) ou atuação (docentes de física com ou sem licenciatura), com percursos acadêmicos distintos, de licenciandos a pós-doutores.
- O questionário foi elaborado para ser respondido de forma online , a fim de possibilitar a participação de pessoas de todo o Brasil. O envio dos questionários foi feito por correio eletrônico para os coordenadores de cursos de graduação (licenciatura em física ou licenciatura em ciências com possibilidade de habilitação em física) ou de pós-graduação (mestrado e doutorado) em ensino de ciências (com uma área de ensino de física) de instituições de ensino superior, públicas e privadas, de todos os estados brasileiros.
- A análise apresentada a seguir é pautada em análise estatística e no mapeamento de percepções excludentes horizontalmente quanto às mulheres na física por parte dos licenciandos e docentes de física participantes da pesquisa.

## Resultados e discussão

Referente aos dados analisados, obtivemos inicialmente 185 respostas, com respondentes de todas as regiões do Brasil, sendo 57 de mulheres e 128 homens.

- Quanto à formação, tivemos 58 licenciandos, 16 licenciados, 4 estudantes de pós-graduação (especialização), 2 pós-graduados (especialização), 52 mestrandos, 14 mestres, 14 doutorandos, 11 doutores e 14 pós-doutores.

Quanto à atuação em sala de aula, 23 respondentes atuam no ensino fundamental II, 93 no ensino médio, 45 no ensino superior e 55 ainda não dão aulas. Aqui, houve a liberdade de escolher mais de uma opção, para o caso de professores que atuam em mais de um nível de ensino.

Ao serem solicitados a indicar o prestígio que atribuem para cada uma das áreas apresentadas, obtivemos as seguintes respostas.

Tabela 01: Relações de prestígio entre as áreas

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Dentre as áreas com maior atribuição de prestígio, foram destacadas física, ciências biomédicas e engenharias. Por outro lado, os menores prestígios foram apontados para as áreas de ciências humanas, ciências químicas e ciências biológicas, embora uma neutralidade de prestígio tenha sido superior para estas áreas, bem como prestígios mais altos também foram apontados. Essa relação entre os prestígios atribuídos e as áreas pode ser verificada na tabela 01 e gráfico 01, acima e abaixo, respectivamente.

Gráfico 01: Relações de prestígio entre as áreas. Elaboração própria

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Quando solicitados a indicar o quão femininas consideravam determinada área, apenas 179 dos 185 respondentes iniciais responderam, de forma que a neutralidade de prestígio prevaleceu em quase todas as áreas, com exceção das ciências humanas, que foram consideradas como bastante femininas, sendo que, anteriormente, esta foi a área que teve maior indicação de prestígio baixo. Em contrapartida, física e engenharia, duas das áreas com o prestígio tendo sido anteriormente considerado como alto, foram as mais consideradas como pouco femininas. A feminilidade atribuída às áreas pode ser verificada na tabela 02 o gráfico 02, ambos abaixo.

Tabela 02: Relações de feminilidade entre as áreas

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Gráfico 02: Relações de feminilidade entre as áreas. Elaboração própria

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De forma majoritária, não há, por parte dos licenciandos e/ou docentes em física que participaram da pesquisa, um olhar excludente sobre a participação da mulher na física, uma vez que grande neutralidade foi atribuída quanto à feminilidade das áreas apresentadas. No entanto, analisando de forma secundária e próxima à feminilidade neutra atribuída, há uma significativa pouca feminilidade sendo atribuída às áreas anteriormente conferidas como de alto prestígio (física e engenharia) e alta feminilidade sendo atribuída às áreas anteriormente denotadas como de pouco prestígio (ciências humanas e biológicas).

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Esse quadro pode nos indicar um certo grau de exclusão horizontal das mulheres na ciência, ou seja, a percepção de que são mais femininas as áreas com menor prestígio e menos femininas as áreas com maior prestígio.

Enfatizando, especificamente, o caso da física e apoiando-nos nas ideias defendidas por Schienbinger (2001), uma possível explicação para a relação de alto prestígio e de baixa atribuição de feminilidade à física é que a física é hard 1 , sendo que as ciências humanas e sociais, por exemplo, seriam soft 2 , sendo possível identificar três diferentes significados da suposta dureza da física:

- i) Epistemologicamente hard : como disciplina, é considerada matemática, produzindo resultados duros, firmes e robustos, baseadas em fatos reproduzíveis, enquanto as ciências soft seriam caracterizadas como mais liberais, com limites permeáveis e estrutura epistemológica aberta. As ciências hard são tidas como imparciais, distantes, abstratas, quantitativas, enquanto, por outro, as ciências soft seriam compassivas e qualitativas, se aproximando mais do cotidiano;
- ii) Ontologicamente hard : estudam coisas duras, inanimadas - matéria em movimento - enquanto as ciências soft estudariam organismos moles, animados como seres vivos e seus comportamentos;
- iii) Didaticamente hard : isso quer dizer que as ciências físicas seriam vistas como difíceis, exigindo um alto grau de pensamento abstrato, alta aptidão analítica, trabalho árduo e vasta dedicação, em oposição às ciências soft .

Nesse sentido, a ideia de dureza pode ser pensada como definidora de uma hierarquia das ciências. De acordo com isso, a dureza seria determinada pela forma como a ciência se baseia em leis fundamentais, capazes de descrever a realidade. Nesse contexto, a física estaria em primeiro lugar.

Ainda para a autora, muitos físicos concordariam que esta hierarquia seguiria também uma escala de inteligência, com a física sendo difícil, hard e analítica. Seus métodos analíticos e dita capacidade de reduzir fenômenos complexos a princípios simples foram colocados como o modelo que as outras ciências devem aspirar.

Nesse contexto, para Schienbinger (2001), a dureza das ciências - no que se refere ao que e como ela estuda, e o grau de dificuldade a ela atribuída - é correlata ao prestígio, aos financiamentos e inversamente proporcional ao número de mulheres na área. De forma inversa, quanto mais soft é a ciência, maior é a taxa de participação feminina, o que pode ser evidenciado pelas áreas mais consideradas como femininas, caso das ciências humanas e biológicas aqui.

O prestígio do qual a física desfruta está bastante relacionado, também, com seu sucesso na guerra. Para Schienbinger (2001), a Primeira Guerra Mundial foi a guerra dos químicos e a Segunda Guerra Mundial foi a dos físicos. Essa conexão entre a física e os militares, estabelecida na Segunda Guerra Mundial também nos ajuda a entender um pouco sobre a ausência das mulheres nessa área. Nessa época, início do século XX, as mulheres eram consideradas como frágeis demais para arcarem com "a tensão mental de estudo difícil" (KELLER, 1992, p. 44). Assim, devido às convenções culturais 3 , dificilmente as mulheres teriam sido consideradas

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como boas candidatas para a pesquisa militar, exceto quando deixadas em segundo plano, em funções vistas como inferiores e recebendo salários menores.

## Conclusão

Embora, de maneira geral, uma grande neutralidade tenha sido atribuída à física, quanto à feminilidade, de forma secundária é possível identificar uma significativa atribuição da física como sendo uma área pouco feminina e, ao mesmo tempo, a área com atribuição de maior prestígio.

Em consonância com as ideias de Schienbinger (2001), acreditamos que a baixa representação feminina na física (inclusive na nossa amostra, composta majoritariamente de homens) não seja por esta ser conceitualmente mais difícil, mas devido à 'sua imagem, cultura, associações e organização' (SCHIENBINGER, 2001, p. 310), historicamente prevalecidas.

Ao nosso ver, verificar as percepções sobre a exclusão horizontal das mulheres dentro das ciências mostra-se como importante quando consideramos um público de licenciandos e docentes em física, uma vez que, como professores ou futuros professores, poderão propagar suas percepções de forma direta ou indireta em salas de aula, podendo contribuir para manutenção das dinâmicas estabelecidas entre os gêneros e perpetuando o padrão androcêntrico das ciências.

## Referências

CARTAXO, S. M. C. Gênero e Ciência: um estudo sobre as mulheres na Física. 2012, 126f. Dissertação (Mestrado em Política Científica e Tecnologia) -Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2012.

DAGNINO, R. Neutralidade da ciência e determinismo tecnológico: um debate sobre a tecnociência . Campinas: Editora da UNICAMP, 2008.

HARDING, S. Ciencia y feminismo , Barcelona: Morata, 1996.

KELLER, E. F. Secrets of Life, Secrets of Death: Essays on Language, Gender and Science . New York: Routledge, 1992.

LOPES, M. M. Sobre convenções em torno de argumentos de autoridade. Cadernos Pagu , v. 27, p. 35-61, 2006.

SAITOVICH, E. M. B.; LIMA, B. S.; BARBOSA, M. C. Mulheres na Física: uma análise quantitativa. In.: SAITOVICH, E. M. B. et al. (Orgs.) Mulheres na Física: casos históricos, panorama e perspectivas . São Paulo, Editora Livraria da Física, 2015, pp.245-260.

SANZ GONZÁLEZ, V. Uma introduccion a lós estúdios sobre ciência y gênero. Argumentos de Razón Técnica , n.8, 2005.

SCHIENBINGER, L. O feminismo mudou a ciência? Bauru: EDUSC, 2001.

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Texto extraído automaticamente do PDF: podem existir erros de conversão, especialmente em fórmulas, tabelas e figuras.