REFLEXÕES SOBRE O PAPEL DAS TECNOLOGIAS DE INFORMAÇÃO E COMUNICAÇÃO NA FORMAÇÃO E PRÁTICA PROFISSIONAL DE PROFESSORES DE FÍSICA
Awdry Feisser Miquelin, Arandi Ginane Bezerra Jr, Nestor Cortez Saavedra Filho
- Evento
- Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
- Edição
- XII
- Ano
- 2010
- Data
- 28/10/2010
- Linha de pesquisa
- Tecnologias Da Informação E Comunicação E O Ensino De Física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## REFLEXÕES SOBRE O PAPEL DAS TECNOLOGIAS DE INFORMAÇÃO E COMUNICAÇÃO NA FORMAÇÃO E PRÁTICA PROFISSIONAL DE PROFESSORES DE FÍSICA
## REFLEXIONS ON THE ROLE OF INFORMATION AND COMMUNICATION TECHNOLOGIES IN EDUCATION AND PROFESSIONAL PRACTICE OF PHYSICS TEACHERS
## Awdry Feisser Miquelin 1 , Arandi Ginane Bezerra Jr 2 , Nestor Cortez Saavedra Filho 3
1 UTFPR – Campus Curitiba/DAFIS/awdry@utfpr.edu.br
2 UTFPR – Campus Curitiba/DAFIS/arandi@utfpr . edu.br
3 UTFPR – Campus Curitiba/DAFIS/nestorsf@utfpr.edu.br
## Resumo
Este artigo é resultado da interpolação de dados de uma pesquisa de doutorado , já concluída, e dados obtidos em projetos de pesquisa que desenvolvemos com acadêmicos de Licenciatura em Física e Engenharia da Computação. Partindo de um questionário aplicado a professores de Física de escolas públicas do Estado do Paraná, obtivemos indícios de uma problemática associada às Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC): a falta de conhecimento e a prática pouco reflexiva com respeito às mesmas. A partir desse estudo, propomos uma reflexão teórica em torno da relação entre a mediação das TIC no Ensino de Física. Para a análise , nos apoiamos em autores como Postman e Vicente , que discutem a natureza da aplicabilidade das tecnologias mediante a humanidade. Então , discutimos como temos norteado nossas ações no curso de Licenciatura em Física da UTFPR , no sentido de promover a racionalidade crítica em torno do fazer pedagógico do professor, da natureza das TIC e sua mediação com o Ensino de Física. Questões centrais em relação às TIC , tais como: o que ensinar em Física , o que precisa mudar na formação inicial , e como trabalhar com professores em exercício moveram nossas iniciativas investigativas. Destacamos a importância do trabalho com tecnologias livres, bem como a interação com profissionais da área de computação para o desenvolvimento de práticas integradas. Concluímos que a intensificação de investigações e experiências com as TIC se faz necessária em nosso cenário educativo e que estas são demandas para as etapas formativas dos professores de Física que irão atuar nas Escolas Básicas como um aprendizado centrado no conhecimento e sua hibridização em três culturas.
Palavras -chave: Tecnologias de Informação e Comunicação, Ensino de Física, Formação de Professores
## Abstract
This article is the result of data interpolation from a doctoral research thesis already completed, and data obtained in research projects developed with undergraduate students in Physics and Computer Engineering. Based on data obtained from a questionnaire applied to Physics teachers at public schools in the state of Parana, we obtained evidence regarding some of the problems related to Information and Communication Technologies (ICT): the lack of knowledge and the lack of a reflective practice associated to ICT. We then propose a theoretical reflection on the relationship between ICT mediation in Physics Teaching. Our r analysis relies on authors such as Postman and Vicente that discuss the nature of the technology applicability by mankind. We comment on our r ongoing work with Physics undergraduates at UTFPR, aiming at promoting critical thinking and critical analysis among students , in addition to discussing both the nature of ICT and its use in Physics Teaching . We considered some central issues in relation to ICT , e.g . what to teach in Physics classes? What needs to change in the initial education , and how to extend this approach to working teachers. Our study points towards the investigation and reflection on the use of f free technologies , and the interaction with computer engineering professionals towards the development of integrated ICT practices. We conclude that the intensification of research and experimentation with ICT is needed in our educational setting and that these demands are important t steps for teacher's formation in Physics, especially the ones who (will) work in Elementary Schools. In this sense, their learning process should focus on fundamental knowledge and its hybridization in three cultures.
Keywords: Information and Communication Technologies, Physics Teaching , Teacher's Education .
## Introdução
As instituições de Ensino Básico, em particular as Escolas Públicas do estado do Paraná, vem, nos últimos anos, recebendo investimentos maciços por parte dos governos , que as tem equipado com Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) - por exemplo, com o estabelecimento de projetos como o Rede Tecnológica Educativa Paraná Digital e com a intensificação dos computadores ligados em Intranet e Internet .
As ferramentas tecnológicas estão cada vez mais presentes e disponíveis como recursos para os Professores de Física desenvolverem seu trabalho docente objetivando potencializar r e enriquecer r a relação de ensino-aprendizagem. O acesso a essas ferramentas também foi aumentado para os estudantes que vivem em um ambiente cercado de visitas a diferentes sites de interesse como Twitter r e Orkut .
Com esta realidade firmada no seio escolar, desenvolvemos uma pesquisa que objetivou , primeiro , levantar algumas percepções dos professores das Escolas Públicas em como as TIC permearam sua formação acadêmica e como elas permeiam , de fato , sua prática docente, ou seja, o dia-a-dia das instituições escolares .
Agregado a isto , procuramos investigar como os professores encaram estas tecnologias frente a sua mediação pedagógica, o conhecimento físico e o conhecimento dos processos de funcionamento e fabricação destas mesmas tecnologias.
Partindo de referenciais teóricos como Postman (1994), Snow (1995) e Vicente (2005) , e cotejando com os dados de pesquisa , desenvolvemos uma racionalidade em torno do papel destas tecnologias no Ensino de Física, intercalando isso às dimensões do conhecimento necessárias ao desenvolvimento de professores em exercício e professores em formação.
Assim , apresentamos nossas percepções acerca da formação de professores mediante este quadro atual de ensino , muito mais imerso nas TIC do que, por exemplo, há dez anos e discutimos algumas de nossas iniciativas com respeito ao curso de Licenciatura em Física ao qual estamos vinculados, visando a aproximar o trabalho docente de uma mediação racional e crítica, a partir r destas ferramentas , nas aulas de Física.
## Professores do Paraná: Percepções sobre Ensino de Física e as TIC
Para investigar as percepções dos professores de Física das Escolas 1 Públicas do Paraná, escolhemos elaborar um questionário 1 , baseado em questões abertas e escala de Likert , concentrando as questões em três elementos: TIC, prática educacional e escola. O questionário é composto de vinte e cinco questões, sendo dezessete em escala de Likekert t e oito perguntas abertas (MIQUELIN, 2009) .
Este questionário foi disponibilizado através de um site na Internet t e quarenta professores de Física do quadro próprio do magistério do Estado do Paraná foram convidados , através de e -mail , a respondê-lo. Destes , dezenove responderam o questionário, fornecendo uma taxa de retorno de 47,5%. Na figura 1 , abaixo , é apresentada uma parte do Layout t do questionário. As respostas dos professores às questões em Likert t foram organizadas em tabelas e em gráficos em forma de pizza , como mostrado na mesma figura 1 (à direita). As questões abertas foram apresentadas em forma de tabelas (MIQUELIN, 2009) .
FIGURA 1: À esquerda: exemplo de tela mostrando a página de resolução do questionário. À direita: comando de estatísticas demonstrando um gráfico de respostas para a questão 1.
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Resumindo a metodologia empregada, para melhor organização e análise de dados, utilizamos a análise quantitativa com obtenção de Ranking Médio (RM), para
as questões em escala de Likert t e análise interpretativa direta para as questões abertas. A obtenção do RM da pontuação atribuída às respostas foi realizada relacionando a freqüência das respostas dos respondentes que fizeram tal atribuição. Os valores maiores que 3 são considerados como discordantes e os menores que 3, como concordantes, considerando uma escala total de 5 pontos. O valor exatamente 3 é considerado "indiferente" ou "sem opinião", sendo o "ponto neutro", equivalente aos casos em que os respondentes deixaram em branco. Cada questão , então , apresentava a opção de uma escolha entre cinco alternativas. A freqüência dos sujeitos era tomada analisando o número de respostas dos participantes para cada uma das questões . Para o cálculo do RM utilizou -se o método de análise de escala apresentado por Malhotra (MALHOTRA, 2001) .
No que segue, optamos por não apresentar todas as perguntas e respostas, mas, de acordo com nosso interesse investigativo, estabelecemos alguns recortes sempre a partir das respostas obtidas através do questionário - - que nortearão as reflexões do presente trabalho.
Em uma das questões formuladas -a primeira do questionário -, os professores foram chamados a opinar sobre a afirmação de que as TIC contribuem para a melhoria das práticas educacionais em Ensino de Física nas Escolas Básicas. O conjunto de respostas demonstrou uma tendência de grande concordância com tal afirmação. Este dado provavelmente indica que os investimentos nessas tecnologias, promovidos pelo Estado do Paraná nestes últimos anos, vem trazendo uma onda de otimismo entre os professores que veem sua realidade de sala de aula aumentada pelo uso de pendrives , TVs pendrive , data shows s e computadores ligados em rede de alta velocidade, hoje comuns em todas as escolas.
Logo em seguida, na segunda questão , os professores foram arguidos se a formação inicial e continuada dos professores de Física precisaria ser integrada com a mediação das TIC nas práticas educativas. O grupo de respostas demonstrou novamente grande concordância com esta colocação, evidenciando que estes mesmos professores compreendem a existência de uma forte relação na formação do professor no uso das TIC e a prática de Ensino de Física.
Porém , apesar do otimismo em relação às TIC e a percepção da necessidade de aprendizado das mesmas durante as etapas de formação do professor, quando questionados sobre a freqüência de experiências educativas envolvendo TIC em sua formação, a maioria dos professores respondeu que nunca as teve, e grande parte demonstrou que o aprendizado mediado pelas mesmas aconteceu raramente.
Como complemento a esta questão, na questão dezessete, foi pedido aos professores que responderam terem tido experiências que envolveram as TIC que as descrevessem. As respostas dos professores foram tabeladas e comparadas com as questões anteriores, para análise e elaboração de estratégias de ação . É interessante notar que grande parte dos professores não respondeu à questão dezessete e os que responderam mostram em suas respostas apenas indícios de iniciativas e experiências tímidas, sem mediações claras entre as TIC e o Ensino de Física. Isto demonstra claramente a existência de um descompasso quando se trata de uma formação adequada envolvendo as TIC como recurso didático.
Os dados obtidos indicam, por um lado, que mesmo com a presença rara ou inexistente do componente das TIC em suas formações, os professores de Física em exercício compreendem a necessidade de um trabalho diferencial e potencial em relação a essas tecnologias. Nesse sentido , é preciso investimento intelectual e
estrutural , desde a base de formação dos professores , e a continuidade disso após seu egresso da universidade, ou seja, existe grande relevância em questionar, investigar e desenvolver estratégias para potencializar o papel das TIC no Ensino de Física nas Escolas Básicas.
Com o questionário, acreditamos também termos obtido resultados que reforçam a existência de um otimismo por parte dos professores , relacionando a qualidade de Ensino às TIC, o que também evidencia uma percepção de que a habilidade tecnológica tem muita importância, na concepção dos professores, justificando as propostas de trabalhos híbridos tecno-educacionais. Em decorrência disso, detectamos também a preocupação dos professores quanto à formação profissional do professor de Física mediante o trabalho pedagógico utilizando novas tecnologias.
Partindo dos dados gerados pelo questionário e de sua análise, colocamos as seguintes inquietações: O que é preciso compreender sobre o papel das TIC nas interações existentes no Ensino de Física? Qual é o papel das TIC na formação de professores de Física? Quais iniciativas podemos tomar para potencializar o trabalho com TIC nas diferentes etapas formativas dos professores de Física?
## Percepções existentes entre a Tecnologia e o Ensino de Física
Procurando compreender o papel das TIC como tecnologias no Ensino de Física , nos propusemos, primeiramente, a construir uma discussão à luz de autores que já estruturaram discussões similares envolvendo tecnologia e humanidade.
Segundo o Guia de Tecnologias Educacionais (GTE) do MEC:
Embora se considere importante o uso de uma tecnologia, vale lembrar que esse uso se torna desprovido de sentido se não estiver aliado a uma perspectiva educacional comprometida com o desenvolvimento humano, com a formação de cidadãos, com a gestão democrática, com o respeito à profissão do professor e com a qualidade social da educação.
Sabe -se que o emprego deste ou daquele recurso tecnológico de forma isolada não é garantia de melhoria da qualidade da educação. A conjunção de diversos fatores e a inserção da tecnologia no processo pedagógico da escola e do sistema é que favorecem um processo de ensino-aprendizagem de qualidade. (BRASIL, 2008, p.17)
O Guia serve de eixo para uma análise inicial, pois destaca que o trabalho em Ensino de Física usando as TIC não pode surgir apenas de maneira espontânea ou isolada e que existe uma rede de múltiplas dimensões de conhecimento que necessita atenção. E esperar que uma mediação crítica e de qualidade apareça de modo estruturado nas aulas de Física nas Escolas Básicas seria algo altamente infrutífero, como destacam as respostas que obtivemos dos professores , que não tiveram este componente trabalhado em suas formações .
Assim, entendemos que relegar ou não problematizar esta rede de múltiplas interações propondo o uso das TIC, ou apresentar as TIC sem um aprofundamento teórico -crítico elaborado, é assumir que os professores estarão sendo colocados apenas como usuários de uma prática educacional com tecnologia presente, mas que não difere em nada da prática educacional tradicional sem a sua presença.
Falando sobre o computador, Postman (1994) reforça esta idéia:
Por causa do que os computadores fazem em geral, eles dão uma ênfase descomedida aos processos técnicos da comunicação, e oferecem muito pouco no que diz respeito à substância. Com exceção da luz elétrica, nunca
houve uma tecnologia que melhor exemplificasse o aforismo de Marshall McLuhan, "o meio é a mensagem". O computador quase é todo processo. Não há, por exemplo, "grandes computadores" como há grandes escritores, pintores e músicos. Há "grandes programas" e "grandes programadores", mas sua grandeza reside em sua ingenuidade em simular uma função humana ou em criar novas possibilidades de cálculo, velocidade e volume. (POSTMAN, 1994, p.124)
Estendendo o pensamento do autor , podemos concluir que não é coerente a crença em que a melhoria do ensino reside na presença efetiva das TIC nas aulas de Física, o que contrasta com o otimismo demonstrado pelos professores nas respostas ao questionário que elaboramos .
Parafraseando Postman (1994) na citação acima, não existem grandes tecnologias para a educação. Essas , assim como o giz , são ferramentas que podem dinamizar o trabalho. O que é significativo, no entanto, é que podem existir r grandes professores de Física que , em sua função humana de ensino-aprendizado , podem operar diferentes ferramentas com a maestria que um escultor manipula um martelo e um punção para transformar pedras em obras de arte.
Porém, é fundamental despertar o entendimento de que isso envolve conhecimento em relação à Física, Ensino e Tecnologia, três diferentes dimensões que , na mediação do professore em sala de aula , se transformam em um híbrido. A falta de conhecimento sobre os mesmos coloca o professor em uma situação desprivilegiada. Por isso , Postman (1994) afirma que:
toda tecnologia tanto é um fardo como uma bênção, não é uma coisa nem outra, mas sim isto e aquilo . (POSTMAN, 1994, p. 14)
A afirmação do autor relaciona as tecnologias emergentes como desencadeadoras de processos que serão benéficos ou prejudiciais para a humanidade , relacionados a aspectos sociais, culturais e políticos.
Podemos aqui também colocar as palavras de Vicente (2005), quando diz:
Não importa para onde olhemos, seja situações rotineiras ou para sistemas complexos, vemos tecnologias que ultrapassam a nossa capacidade de controle. (VICENTE, 2005, p.39)
Visualizamos que o problema reside no fato de uma parcela significativa de professores de Física não possuir subsídios para posicionarem-se criticamente, analisando essas dimensões impactantes. Caso apenas detectem benefícios que tecnologias novas podem trazer, sendo incapazes de visualizar seus prejuízos e mesmo suas limitações, estes se enquadrarão na categoria de tecnófilos -termo cunhado por Postman -, deslumbrados pela tecnologia, mas pouco capazes de utilizar estes recursos de forma autônoma e crítica. Por isso a problematização e mediação das TIC nas etapas de formação destes sujeitos requer uma atenção redobrada.
Referindo -se à linguagem em si, Postman dá destaque a este aspecto das tecnologias:
as tecnologias radicais criam novas definições para velhos termos, e esse processo ocorre sem que tenhamos consciência dele... a tecnologia se apodera imperiosamente de nossa terminologia mais importante. Ela redefine liberdade, verdade, inteligência, fato, sabedoria, memória, história - todas as palavras com que vivemos. E ela não pára para nos contar. E nós não paramos para perguntar . (POSTMAN. 1994, p.17)
A mediação com as TIC, portanto , exige mais do que o surgimento de um trabalho educativo baseado apenas no aprendizado prático e intuitivo do professor de Física sobre uma tecnologia e sua prática pedagógica. Requer também o domínio mínimo de conhecimento científico sobre sua fabricação e funcionamento. Neste sentido, chama atenção o fascínio inicial que promovem as TIC, fascínio combinado a uma não -reflexão sobre seu processo de fabricação ou , até mesmo, sobre sua efetiva utilização. Isso parece ter se tornado senso comum: não há muito questionamento sobre a inserção de uma tecnologia em um ambiente e, na verdade , não existe preocupação em relação ao seu real funcionamento. Substitui-se todo esse processo de reflexão crítica por uma prática vazia que não possui conhecimento sobre si mesma, muito menos sabedoria.
Sendo assim, a falta desse conhecimento estabelece uma balança injusta de relações de poder à qual o professor de Física , neste quadro de ausência de conhecimento , fica inserido:
[...] aqueles que cultivam a competência no uso de uma tecnologia nova tornam -se um grupo de elite ao qual aqueles que não têm essa competência garantem autoridade e prestígio imerecidos, [...] aqueles que têm o controle do funcionamento de uma tecnologia particular acumulam poder e, de maneira inevitável, formam uma espécie de conspiração contra aqueles que não têm o conhecimento especializado, tornado disponível pela tecnologia. (POSTMAN, 1994. p.18-19)
## Esta reflexão é aprofundada por r Vicente (2005):
Poucas pessoas têm consciência da imensa magnitude e amplitude da ameaça colocada pelos sistemas tecnológicos complexos porque não aprenderam a ver o padrão que liga a nossa frustração diante de engenhocas eletrônicas excessivamente complexas às ameaças letais colocadas pelos erros médicos e acidentes nucleares. (VICENTE, 2005, p. 40)
Mediante este quadro, o agora professor de Física enfrenta um novo desafio, mais abrangente e diferente da formação anos atrás, quando seu desenvolvimento profissional era voltado , principalmente, para a problematização de duas formas de conhecimento: o da Física e o da Educação, visando a superar dicotomias existentes apenas entre estas "Duas Culturas", - aqui usamos a expressão elaborada por Snow (SNOW, 1995) . Vemos que a conectividade desta rede cognitiva ampliou-se , exigindo em sua constante (in)formação um conhecimento híbrido que envolve as relações com as TIC , talvez , sendo esta uma nova cultura que merece atenção.
A partir r da mediação híbrida entre estas três culturas em sua formação inicial e continuada , visualizamos que o professor de Física tornar-se-á um hábil educador que problematiza, analisa e procura conhecer a dimensão e impactos possíveis da entrada das TIC em sua prática de ensino.
## As TIC e a Formação dos Professores de Física: o que podemos desenvolver?
A figura 2 mostra, de forma esquemática, o que temos problematizado em nossas pesquisas em relação às TIC e a formação de professores de Física.
A questão, "qual Física precisamos ensinar (num trabalho com meios tecnológicos comunicativos)?", é pauta de uma discussão que vem sendo aprofundada há anos e que tem no GREF (Grupo de Reelaboração do Ensino de
Física) inaugurado, com maestria, o sentido visualizado por nós sobre como trabalhar Física nas escolas, incluindo o uso das tecnologias.
FIGURA 2: Diagrama do eixo da proposta de formação e trabalho no Ensino de Física usando meios tecnológicos comunicativos.
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Segundo o GREF (1999), a Física deve ser apresentada aos estudantes de maneira que, desde início, sejam claras sua relevância prática e sua universalidade. Coloca -se:
O caráter prático-transformador e o caráter teórico-universalista da Física não são traços antagônicos, mas, isto sim, dinamicamente complementares. Compreender este enfoque permitiu evitar tanto um tratamento "tecnicista" como o tratamento "formalista" e, procurando partir sempre que possível de elementos vivenciais e mesmo cotidianos, formulam-se os princípios gerais da Física com a consistência garantida pela percepção de sua utilidade e de sua universalidade. (GREF, 1999, p.15)
As TIC encontram -se , justamente , no centro destas colocações. Tecnologias como a TV Pendrive e os computadores ligados em rede e outras, que a cada dia fazem parte do cotidiano ou do imaginário dos estudantes e professores, estão embebidas de natureza tanto prático-aplicada quanto universal (SOUZA et al, 2010) .
Esse evento problematizador, portanto, é justificável e favorece a renovação do ensino. Porém, para isso é preciso navegar com muito afinco pela Física existente, admitindo seu potencial de mudanças no que diz respeito aos seus desdobramentos tecnológicos. Não basta apenas utilizar um filme obtido na Internet em uma aula utilizando TV Pendrive, quando não se compreende sequer o ato de fabricação e funcionamento dos aparatos nos quais a Física tem papel fundamental, isso em ressonância à proposta do GREF.
Não se trata de redescobrir a roda na proposta metodológica em Ensino de Física, pois vários trabalhos de investigação foram e tem sido implantados, inspirados pelo GREF, por diferentes pesquisadores em nosso país. O fato é que, nesta conjuntura tecnológica atual (retomamos o exemplo do estado do Paraná), os modelos tradicionais de ensino que não problematizam as tecnologias estão condenados ao insucesso .
Por isso, temos investigado também , em nossos projetos , a pergunta "o que precisa mudar na formação inicial de professores de Física?", visto que as possibilidades de contribuição das práticas escolares se tornam realidade a partir da organização do ensino disciplinar do corpo de conhecimentos dos professores.
É possível que alguns pesquisadores afirmem que os professores possuem subsídios para aprender sobre os meios tecnológicos comunicativos sozinhos. Assumimos esta como sendo uma questão relevante, ou seja, seria interessante pesquisar se os professores que trabalham nas escolas básicas conseguiriam dar conta desta formação, mas sem um apoio mais estruturado. O que compreendemos, pelos indícios de nossa investigação , e pela nossa vivência de escola básica e pública, é que isso não acontece.
Com a hibridização de conhecimentos ensejada pelas TIC, temos investigado não apenas formar professores para atuar na escola que conhecemos hoje , mas, sim, formar professores, também, para a escola que desconhecemos, que é aquela que vem adotando gradativamente - e cada vez mais - inovações tecnológicas, que fazem parte do cotidiano dos estudantes e , se relegadas à não-reflexão, tornam o professor cada vez mais distante de tópicos atuais que envolvem estes sujeitos.
Portanto, a indagação em torno do que fazer na e da formação de professores de Física, como sugerido, tende a criar e situar uma cultura de dinamizar o aprendizado tecnológico de nossos professores (sempre em formação) e , mais, partindo do conhecimento sobre Ensino de Física , buscar r criar , nos mesmos , algo que podemos chamar r de "proficiência tecnológica".
## Experiências nos cursos de Engenharia da Computação e Licenciatura em Física da UTFPR
De acordo com Castro (CASTRO, 2004), há uma distância entre a pesquisa científica e a prática do ensino nas salas de aula. Assim, é possível encontrar currículos e programas bastante atualizados, porém acompanhados de práticas didáticas obsoletas, em desacordo com o processo de fazer e de pensar científicos. Neste contexto, é importante refletir sobre o papel das tecnologias computacionais e suas implicações na educação científica e tecnológica, em particular na educação em Física, e ressaltar a necessidade de fomentar seu emprego consciente, a reflexão crítica e o acesso democrático ao conhecimento a elas associado em diversos níveis de ensino.
Partrtindo deste ponto de vista, a formação do professor de Física deve permitir a sua emancipação para que o mesmo também possa atuar como agente emancipatório dos seus estudantes. Neste aspecto, a utilização da tecnologia sem uma reflexão crítica acerca dos seus princípios e aplicações pode levar os professores à categoria de usuários leigos, ou seja, simplesmente operadores de "caixas pretas", o que não colabora, de forma alguma, com uma conduta críticoreflexiva por parte dos profissionais de educação (CELAYA YA e MARTÍNEZ, 2007) . De forma a suprir esta lacuna na formação dos professores de Física, procura-se, no curso de Licenciatura em Física da UTFPR, habituar os acadêmicos , desde os semestres iniciais , à utilização de TIC livres em suas atividades didáticas.
Neste sentido, a utilização do software educacional Modellus s (MODELLUS, 2010) , disponível no Portal do Professor e no Banco Internacional de Objetos Educacionais (os dois últimos , iniciativas do Ministério da Educação), tem como objetivo, além de habituar os acadêmicos à mediação das TIC, tornar r este aspecto de sua formação um aprendizado para a utilização das mesmas de forma crítica, criativa e inovadora. No contexto , estimula -se que os acadêmicos da Licenciatura em Física sejam capazes de:
- -Desenvolver r a competência de elaborar planos de aula que levem em consideração a mediação de TIC livres. Neste aspecto, o seu cadastro e utilização frequente do Portal do Professor tem se mostrado prática útil;
- -Elaborar ferramentas e experimentos baseados em TIC Livres, para que o processo de ensino-aprendizagem mediado por elas seja contextualizado levando em conta tanto suas habilidades bem como a formação emancipatória desejada para os seus alunos (RICHARD, 2008) .
Posto isto, tornou-se necessário encontrar, no ambiente da UTFPR , parceiros que pudessem colaborar com os professores e acadêmicos da Licenciatura em Física na utilização e elaboração de objetos educacionais baseados em TIC livres. Surgiu desta iniciativa uma interface emergente , envolvendo docentes e estudantes dos cursos de Engenharia da Computação e Licenciatura em Física da UTFPR , que versa sobre a produção e utilização de objetos educacionais, tendo como motivação central o Ensino de Física e a sua respectiva utilização no ambiente de sala de aula. Cabe destacar que o curso de Engenharia da Computação da UTFPR tem algumas particularidades em sua concepção que favorecem a interação com as demais áreas, como a ênfase na formação interdisciplinar e emancipatória. Parte fundamental deste processo são as disciplinas de Oficinas de Integração. Uma descrição sucinta da referida disciplina e de um dos objetos educacionais desenvolvidos podem ser encontrados em Bezerra-Jr et al l (BEZERRA-JR et al , 2009).
Basicamente, nestas disciplinas, os acadêmicos do curso de Engenharia da Computação devem desenvolver um sistema que integre hardware e software , ambos baseados em tecnologias livres, para utilização prática em algum assunto de seu interesse. Neste sentido, os interesses despertados pelos pesquisadores do Departamento de Física, referentes ao Ensino de Física, influenciam fortemente o andamento destas disciplinas da Engenharia e o intercâmbio é crescente.
Parte significativa dos trabalhos tem sido direcionada para o desenvolvimento de objetos educacionais para utilização em Ensino de Física. Estes objetos tem sido applets Java, que são animações ou simulações de sistemas físicos, experimentos assistidos por computador r (BRYAN, 2010) e tutoriais e experimentos virtuais na utilização de softwares livres como o já citado Modellus . Outro software utilizado que merece destaque é o Tracker r (TRACKER, 2010), que é um software que permite decompor quadro a quadro vídeos de movimentos gravados com o auxílio de uma máquina fotográfica digital ou webcam, para posterior análise dos aspectos físicos do mesmo.
Assim, os acadêmicos da Engenharia da Computação interagem com os alunos da Licenciatura em Física. Os primeiros desenvolvem objetos educacionais que, fazendo uso de TIC livres, permitem modelar situações físicas. Os segundos discutem a aplicação dos mesmos no ambiente de sala de aula. Este processo leva a um aprimoramento da formação do professor, já que ele se torna um sujeito ativo na elaboração e mediação de tais objetos, podendo, para isto, fazê-lo de forma a estar mais próximo da sua realidade no Ensino de Física , na região onde atua. Então é possível uma "customização", ou seja, uma adaptação de um mesmo objeto educacional a realidades distintas, o que é uma característica salutar na aplicação do mesmo, já que realidades distintas requerem mediações distintas por parte do professor, para que o novo conceito a ser construído pelos estudantes interaja com as suas concepções pré-existentes, colaborando, para isto, com uma aprendizagem significativa (MOREIRA, 2006).
## Conclusão
Partindo da nossa investigação a respeito das percepções dos professores de Física do Quadro Próprio do Magistério do Estado do Paraná , conseguimos analisar um panorama geral e contradições interessantes no que se refere à mediação das TIC na prática educacional. A partir daí , analisamos as dificuldades de planejar, criar e atuar em torno do conhecimento físico, educacional e tecnológico que surgem , principalmente, devido à falta da compreensão da complexidade e à falta de uma reflexão crítica em torno da mediação das TIC no Ensino de Física.
Propomos que , primeiro , é preciso conhecer a dimensão cognitiva e de relações estabelecida na natureza das TIC como tecnologias contemporâneas, algo expresso pelos autores que destacamos e , como nos arriscamos a afirmar, algo que , talvez , também mereça atenção como manifestação de uma terceira cultura , adaptando o raciocínio de Snow.
Percebendo isso , visualizamos a necessidade do compromisso , neste novo milênio , em intensificar as experiências e investigações envolvendo as TIC e o Ensino de Física nas diversas etapas de formação dos professores , permeando o conhecimento envolvido nas três culturas.
Concluímos , então , que isso pode ser feito, estrategicamente, a partir r de projetos e parcerias que envolvam os acadêmicos e professores no estudo, investigação e desenvolvimento de TIC que estejam diretamente ligadas aos planos de aula de Física e que remetam a uma reflexão crítica sobre o processo pedagógico então desencadeado.
## Referências
BRYAN, J. A. Investigating the conservation of mechanical energy using vídeo analysis: four cases. Physics Education, v.45, n. 1, p. 50-57, 2010.
CASTRO, A. D. Prefácio. In: CARVALHO, A. M. P. (org.). Ensino de Ciências. São Paulo: Thomson, 2004.
CELAYA, C.L.; MARTÍNEZ, S.L.D. USO DE SOFTWARE LIBRE Y DE INTERNET COMO HERRAMIENTAS DE APOYO PARA EL APRENDIZAJE. Revista Iberoamericana de Educacíon a Distancia, v. 10, n. 1, p . 83 -100, 2007
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BEZERRA -JR, A. G.; MERKLE, L. E.; SOUZA, E. S.; SPOLAORE, L. S.; RICETTI, R.; GIMÉNEZ -LUGO, G. A.; SAAVEDRA FILHO, N. C. Tecnologias Livres e Ensino de Física: uma Experiência na UTFPR. In: XVIII Simpósio Nacional de Ensino de Física , 2009, Vitória. A Anais do XVIII Simpósio Nacional de Ensino de Física SNEF, Vitória, 2009. Disponível em <http://www.sbf1.sbfisica.
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MALHOTRA, N. K. Marketing Research: An Applied Orientation . Upper Saddle River: Prentice Hall, 2001.
MIQUELIN, A. F. Contribuições dos meios tecnológicos comunicativos para o
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MOREIRA, M. A., Aprendizagem Significativa: da visão clássica à visão crítica. Anais do V Encontro Internacional sobre Aprendizagem Significativa. Madrid, Espanha, 2006.
PARANÁ, SEED. Projeto Rede Tecnológica Educativa Paraná Digital. Secretaria de Educação do Estado do Paraná, Curitiba, 2006. Disponível em <http://www.softwarelivre.sc.gov.br/down/PrtecParana.pdf> Acesso em: 12 de maio de 2010 .
PORTAL DO PROFESSOR, acessado via <http://portaldoprofessor.mec.gov.br/>. Acesso em: 12 maio de 2010.
POSTMAN, N. Tecnopólio: a rendição da cultura à tecnologia. Tradução de Reinaldo Guarany. São Paulo: Nobel, 1994.
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