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CRENÇAS DE DOCENTES UNIVERSITÁRIOS SOBRE A NATUREZA DA CIÊNCIA: VALIDAÇÃO DE UM PROTOCOLO DE ENTREVISTA

Gabriela Kaiana Ferreira, José Francisco Custódio

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XXIII
Ano
2019
Data
30/01/2019
Linha de pesquisa
História, Filosofia E Sociologia Das Ciências E O Ensino De Física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## CRENÇAS DE DOCENTES UNIVERSITÁRIOS SOBRE A NATUREZA DA CIÊNCIA: VALIDAÇÃO DE UM PROTOCOLO DE ENTREVISTA

## Gabriela Kaiana Ferreira 1 , José Francisco Custódio 2

1 Universidade Federal do Paraná/Setor de Ciências da Terra/Centro de Estudos do Mar, gabriela.ferreira@ufpr.br

2 Universidade Federal de Santa Catarina/Departamento de Física/Programa de Pós-Graduação em Educação Científica e Tecnológica, j.custodio@ufsc.br

## Resumo

Neste trabalho temos o objetivo de apresentar a construção, aplicação e avaliação de um instrumento de coleta de dados para identificar e mapear crenças epistemológicas compartilhadas por físicos, docentes universitários, que atuam em cursos de Licenciatura em Física (LF). A partir da revisão de literatura, em periódicos e outras publicações nacionais e internacionais, sobre o tema da natureza das ciências e das crenças epistemológicas de professores desenvolvemos um instrumento de coleta de dados, composto de 20 questões, divididas em cinco blocos com objetivos bem definidos, os quais: I. Formação e atuação profissional (geral); II. Crenças; III. Conhecimento sobre Legislação; IV. Formação e atuação profissional (específica); V. Projeto Pedagógico do Curso de LF. Estas questões abertas foram discutidas com um grupo especialistas e, após, aplicadas no formato de entrevista semiestruturada com um docente universitário que atua na formação de professores de Física em uma instituição de ensino superior (IES) pública federal a fim de realizar a validação semântica (de significado) das questões do protocolo. O resultado desta primeira entrevista nos permitiu realizar modificações importantes neste instrumento, para que na próxima fase da investigação possamos aplicá-lo com um número maior de docentes universitários que atuam em cursos de LF e assim verificar a viabilidade de utilizálo como um indicador adequado para mapear as crenças de físicos, docentes universitários, que atuam na formação de professores de física em cursos de LF.

Palavras-chave : Natureza da Ciência; Crenças de Professores; Formação de Professores.

## Introdução

Discutir aspectos da atividade científica é fundamental na formação inicial e continuada de professores. Isso se sustenta com as evidências apontadas por alguns estudos de que a concepção epistemológica adotada pelos professores define, em grande medida, suas posturas enquanto docentes, especialmente em relação ao processo de aprender e conhecer. Posicionamentos permeados por concepções inadequadas implicam na reprodução de modelos sobre a construção do conhecimento científico socialmente aceito de uma ciência empírico-indutivista, aproblemática, a-histórica, acumulativa de crescimento linear, indutivista, elitista, descontextualizada e socialmente neutra (GIL-PÉREZ et al ., 2001).

Entre as justificativas para a aceitação e reprodução desse tipo de concepção pelos professores, Gil-Pérez et al . (2001) mencionam a falta de incentivo e de reflexão crítica sobre a natureza da ciência nos cursos de formação inicial e a experiência de uma formação restrita à transmissão passiva de conhecimentos rígidos e imutáveis, prática frequente nas disciplinas específicas dos cursos das áreas de ciências e tecnologias. Se, portanto, ambas justificativas têm origem na

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formação desse profissional, faz-se necessário questionar: Quais crenças sobre a natureza da ciência são compartilhadas nos cursos de formação de professores de Física? Quais as crenças sobre natureza da ciência são compartilhadas pelos formadores de professores de Física (físicos que são docentes universitários)? Como as crenças sobre natureza das ciências influenciam a ação docente dos físicos que são formadores de professores de Física?

Neste trabalho tivemos como objetivo construir um instrumento que possibilitasse realizar um mapeamento das crenças epistemológicas compartilhadas por físicos formadores de professores de Física, como estas crenças influenciam a ação docente, e, a partir disso, analisar as imagens sobre natureza das ciências que estes formadores acreditam compartilhar nas relações que estabelecem com os licenciandos e com o conhecimento nas disciplinas que lecionam nos cursos de LF.

## Crenças de Professores sobre Natureza da Ciência

A literatura da área da educação científica discute e revelam inúmeras evidências a favor da hipótese que as crenças orientam as práticas dos professores (STIPEK et al ., 2001; BRYAN, 2003; BONNEY et al ., 2005; GÓMEZ-CHACÓN; OP'T EYNDE; DE CORTE, 2006; OGAN-BEKIROGLU; AKKOÇ, 2009; ALONSO; MAS; TALAVERA, 2010). Isto se deve essencialmente à confiança na ideia de que as crenças dos professores orientam as decisões que tomam e ações que executam em sala de aula, as quais interferem diretamente na aprendizagem dos alunos. Reforçando esta sugestão, Pajares (1992) indica que as crenças são os melhores preditores do comportamento dos professores, pois afetam suas percepções, julgamentos e desempenho em sala de aula. Em resumo, elas jogam um importante papel na organização do conhecimento e informação, e na definição e compreensão do comportamento. As crenças são extremamente resistentes a mudança, persistindo até mesmo após os cursos de formação inicial, e isto tem grande impacto nas ações em sala de aula. Dificilmente um professor irá modificar sua forma de ensinar sem a consciência das crenças que possui sobre educação. Além disso, quanto mais precocemente a crença for incorporada no sistema de crenças, mais resistente à mudança ela será (PAJARES, 1992).

Assim sendo, partimos da ideia que identificar as crenças dos professores sobre a natureza da ciência de físicos formadores de professores de Física e como influenciam sua ação docente contribuirá para uma caracterização mais adequada da influência dessas crenças na formação dos licenciandos, bem como na proposição de elementos que auxiliem na construção de uma visão atualizada/renovada/informada da natureza da ciência junto a formadores de professores e futuros professores. Acreditamos que qualquer que seja a mudança no estilo de ensino dos professores, se assim for o desejado, é importante o diagnóstico e conscientização das crenças que estes professores possuem.

Os estudos sobre crenças de professores nos fornecem um panorama adequado para compreender o papel das crenças dos docentes e como influenciam suas práticas. Em especial, nos instigam a investigar como caracterizar um conjunto de crenças epistemológicas - crenças sobre o conhecimento e sobre o conhecer compartilhado por professores de Física. As crenças epistemológicas pessoais são extremamente importantes devido ao impacto que têm sobre as escolhas que os professores fazem em sua prática pedagógica, podendo servir como preditores

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adequados para uma melhor compreensão da natureza das ciências, pois revelam a importância que o professor atribui ao seu ensino.

Nesse sentido Hulling (2014) desenvolveu uma pesquisa em que buscou analisar a relação entre crenças epistemológicas pessoais, as compreensões sobre a natureza das ciências dos professores e a valorização sobre o ensino da natureza das ciências com professores de ciências da educação básica. Para tanto utilizou questionários e entrevistas e acompanhamento de atividades em sala de aula em um contexto em que o ensino sobre natureza da ciência era obrigatório. O autor apresenta como resultados o fato de que um alto nível de compreensão sobre a natureza das ciências não garante altos níveis de crenças epistemológicas pessoais. Apesar de que todos os 28 professores tenham destacado a importância sobre o ensino da natureza da ciência, ainda que estivesse centrado no que eles conheciam sobre e pelo tema, em detrimento do que é compreendido por grande parte da comunidade científica. Outro resultado interessante foi a percepção de que maiores níveis de crenças epistemológicas pessoais indicam e direcionam a qualidade do tipo de instrução/ensino para formas/estratégias mais construtivistas. Professores que demonstram práticas de ensino mais construtivistas percebem menos obstáculos em sua prática quando comparados aos seus colegas. No entanto, mesmo aqueles que possuíam uma visão da natureza das ciências mais próxima a de um construtivista desenvolviam conhecimentos e estratégias de ensino de forma limitada.

Inspirados nos instrumentos propostos por Hulling (2014) - e outros como Wood e Kardash (2002), Herman et al . (2013) e Liang et al . (2008) - para mapeamento de crenças epistemológicas dos professores e sobre o ensino da natureza da ciência para a educação básica, buscamos construir um instrumento que possibilitasse uma caracterização com relação a maneira como os docentes universitários que atuam nos cursos de LF pensam como pensam, fazem o que fazem e implementam suas aulas nos cursos de formação de professores.

O contexto da docência universitária e da formação de professores, neste caso dos docentes universitários que atuam no cursos de Licenciatura em Física, é particularmente interessante tendo em vista que em muitos casos, as concepções e as compreensões destes docentes -sobre educação escolar, ensino e aprendizagem, o papel do professor, entre outras - se referem exclusivamente à sua própria história de vida escolar e acadêmica ao longo de sua trajetória formativa. Muitas das significações dadas às atividades docentes e sentidos aos atos de ensinar e aprender são construídas mesmo antes destes se tornarem professor, tudo isso decorrente da experiência com a vida escolar, constituindo-se um sistema de crenças e valores. Mesmo após formados, não raro, os modelos e estratégias de ensino que estes professores reproduzem nas aulas se assemelham ou fazem referência aos desenvolvidos pelos seus professores, do ensino básico e/ou do superior, que lecionaram as disciplinas com conteúdo referente à área específica do saber da Física nas fases escolares e acadêmicas anteriores (DELIZOICOV, 2012).

## Instrumento: Protocolo de entrevista

Nas investigações sobre crenças epistemológicas pessoais sugere-se a utilização de instrumentos de investigação declarativos, entre os quais estão a realização de entrevistas semiestruturadas e qualitativas em que se solicita aos

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participantes que descrevam suas crenças epistemológicas, pois 'quando pretendemos indagar sobre a epistemologia pessoal de um indivíduo, faz-se perguntas sobre suas opiniões sobre o conhecimento' (TAFRESHI; RANCINE, 2015, p.10). Embasados nos referenciais teóricos sobre Natureza da Ciência e de Crenças de Professores, e inspirados pelos instrumentos utilizados no trabalho desenvolvido por Hulling (2014), desenvolvemos um protocolo de entrevista. Este protocolo é composto por 20 questões e está organizado em cinco blocos, os quais: I. Formação e atuação profissional (geral); II. Crenças; III. Conhecimento sobre Legislação; IV. Formação e atuação profissional (específica); V. Projeto Pedagógico do Curso de Licenciatura em Física. Cada bloco foi organizado com base em objetivos bem definidos e o segundo bloco, que se refere às crenças, é subdividido em quatro elementos de crenças dos professores, são elas: a. crenças dos professores sobre a prática de pesquisa; b. crenças dos professores sobre os estudantes; c. crenças dos professores sobre a natureza da ciência; d. crenças dos professores sobre o ensino da natureza da ciência e sobre sua prática pedagógica (Anexo 01).

## Validação e Aplicação do protocolo

A fim de garantir a confiabilidade, credibilidade e validade dos dados das entrevistas, as questões do protocolo foram cuidadosamente elaboradas, tendo sempre em vista os aportes teóricos. Complementarmente, as questões passaram por validação semântica (de significado) a fim de eliminar interpretações dúbias das questões e aproximá-las da linguagem dos respondentes. A validação semântica consistiu na avaliação de cada uma das questões por um grupo de quatro especialistas, pesquisadores da área de ensino de ciências, que desenvolvem investigações sobre natureza da ciência e crenças de professores. Após esta avaliação, o protocolo, bem como o projeto ao qual pertence, foi submetido à análise do Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos (CEPSH) da Universidade Federal de Santa Catarina. Após aprovação do CEPSH, o protocolo foi aplicado no formato de entrevista semiestruturada com um docente universitário que atua na formação de professores de Física em uma IES pública federal a fim de concretizar a validação semântica das questões do protocolo. A aplicação e análise da entrevista e das questões serão apresentados na sequência.

## Resultados e análise da entrevista

Tendo em vista o objetivo de construir um instrumento que possibilitasse realizar um mapeamento das crenças epistemológicas compartilhadas por físicos formadores de professores de Física, apresentaremos a análise das questões que se referem ao segundo bloco do questionário (crenças).

## Crenças sobre sua prática de pesquisa

O docente considera que sua prática enquanto pesquisador pode influenciar na sua prática pedagógica para o ensino sobre o tema da natureza da ciência, bem como acredita que a qualidade da discussão desenvolvida em sala de aula sobre o tema está relacionada com a formação do pesquisador na área e o interesse pela discussão. Além disso, o docente julga que um professor de física, com formação em pesquisa na área de física, tem dificuldades de propor discussões sobre este tema. Relembramos que este docente, trabalha na linha de pesquisa em história e epistemologia da ciência, e ministra disciplinas que abordam estes conteúdos.

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## Crenças sobre os estudantes

Com relação às crenças sobre o aprendizado da natureza da ciência pelos estudantes, o docente considera importante que os alunos da graduação tenham conhecimento sobre o tema, justificando que o domínio sobre esse conhecimento e sua inserção nas aulas de física pode despertar nos estudantes da educação básica aumento de interesse pelas ciências e melhora no desempenho. Na fala deste docente:

A gente precisa trazer as pessoas para perto da ciência e não afastar. Eu acredito realmente que discutir sobre a natureza da ciência é motivador para os alunos, é uma possibilidade de você trazê-los para perto da física e despertar interesse e com interesse eu acredito que o desempenho pode ser melhor.

- O docente acredita que as dificuldades dos alunos de graduação na abordagem do tema da natureza da ciência estão associadas às leituras filosóficas que são realizadas nas disciplinas. Identifica que a origem dessa dificuldade, por parte dos alunos, pode ter relação com a desvalorização e pouca importância associada a esse tipo de discussão. Na fala deste docente:

(...) os alunos chegam nas disciplinas de história da ciência, chegam na disciplina de ensino de física com a ideia de que tudo que vem do ensino é balela. Então não só sobre a natureza da ciência, mas qualquer discussão que seja sobre docência, que não seja diretamente relacionada ao conteúdo tem essa barreira, preconceito de achar que não são conteúdos em si, e pode sempre deixar em segundo plano (...).

Durante as aulas, quando julga que os alunos de graduação não valorizam suficientemente a disciplina, o docente afirma utilizar o que chama de 'estratégias de controle' para que os alunos realizem as atividades. O docente atribui como resultado do trabalho realizado nas disciplinas que leciona o fato de que uma parcela significativa dos alunos do curso de graduação em que atua tem buscado supervisão e orientação para a realização de trabalhos de conclusão de curso, bem como participado de processos de seleção em programas de pós-graduação na área de ensino de física, especialmente na área de epistemologia da ciência.

## Crenças sobre a natureza da ciência, o ensino da natureza da ciência e sua prática pedagógica

Com relação à crença sobre seu desempenho/performance para o ensino da natureza da ciência, o docente se considera proficiente, isto é, possui uma crença de autoeficácia elevada para o ensino sobre o tema da natureza da ciência. No entanto, mesmo considerando que teve uma formação adequada reflete sobre as modificações de sua prática pedagógica ao longo de sua carreira profissional. Essa reflexão evidencia sua preocupação na busca por perspectivas renovadas sobre a interpretação da natureza da ciência, e de produzir e sistematizar em suas aulas, compreensões menos distorcidas sobre o que é ciência. Na fala deste docente:

Quando eu comecei a dar aula eu tinha essa resposta muito clara, pegava o texto do Gil-Pérez [Gil-Pérez et al. (2001)] e para mim aquilo era uma referência. Todo mundo na graduação precisa em algum momento entender aquelas sete características da natureza da ciência que vem lá do Lederman [LEDERMAN et al., 2002], e o que há de consensual sobre o que não é ciência e o que é ciência. E aí em 2014 eu fui para um evento de história da ciência e eu conversei com um pessoal da UFBA e conheci um trabalho do Matthews de 2012 sobre mudança de foco, sobre acabar um pouco com essa ideia de ensinar a natureza da ciência daquela maneira porque a gente acaba reproduzindo uma visão do que é 'ciência adequada', tentando problematizar a ciência. Também não é esse o caminho. Então, o que eu vejo como o mais problemático é tratar a natureza da ciência como um conteúdo e não como algo a ser pensado historicamente.

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Com relação ao que julga importante ser ensinado sobre natureza da ciência, isto é, à sua crença sobre o ensino da natureza da ciência e a influência em sua prática pedagógica, o docente afirma que opta por uma abordagem internalista da história da ciência, defendendo a importância de se conhecer profundamente a história da física, a partir da qual se faz interpretações filosóficas pertinentes aos períodos e contextos históricos.

Cada vez mais me convenço da importância de você conhecer a fundo a história da ciência física, e a partir da história fazer as interpretações filosóficas sobre a natureza da ciência. Porque ela é muito variada, a história é muito ampla e aquela lista não se encaixa em todos os períodos, não se encaixa em todas as situações, e ela acaba se tornando uma visão distorcida em alguns momentos históricos.

Eu trabalhava antes isso muito como um conteúdo e hoje eu já não faço mais esse tipo de coisa. Eu já trabalho a natureza da ciência a partir da história, porque aí eu acho que ela ganha sentido na formação de professores de física. Talvez para o filósofo isso não faça sentido, talvez para o historiador isso não faça sentido, mas para o professor de física, é assim que eu entendo que tem que ser. A partir do objeto que é a ciência física, partir para interpretações filosóficas, para qualificar a nossa visão sobre o saber científico.

Como fatores que determinam sua decisão por ensinar sobre o tema da natureza da ciência, o docente elenca dois aspectos principais. O primeiro critério consiste nas demandas da educação básica, expressas nos documentos oficiais e norteadores como nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) e Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Como segundo critério, o docente reconhece a influência de sua crença de que conhecer sobre a natureza da ciência permite o desenvolvimento de compreensões mais refinadas sobre a construção da física e do trabalho de cientista, bem como sobre a importância que atribui aos conhecimentos de história e filosofia da ciência. O docente também acredita na potencialidade que os conhecimentos sobre natureza da ciência têm no estabelecimento de vínculos afetivos com o conhecimento científico. Na fala deste docente:

Eu realmente entendo que ensinar sobre história e filosofia da ciência, discutir a natureza da ciência, desmistifica a física. Eu acredito que tem potencial de fazer os alunos da educação básica criarem um vínculo afetivo maior com a física. Essa coisa da humanização da ciência, do cientista, acho que é uma certa forma de empoderar os alunos para que eles entendam que eles também podem vir pra isso porque não é um bicho de sete cabeças, a gente só precisa aprender a pensar cientificamente, que é uma coisa que tem que ser aprendida, que não é uma coisa que alguém nasceu sabendo. Então essa é uma motivação pessoal mesmo. Assim, eu acredito que por esse caminho a gente pode motivar as pessoas a seguir carreira científica, buscar a física, buscar a ciência de uma maneira geral, ou pelo menos respeitar.

O trecho acima revela também a crença do docente sobre a aprendizagem de ciências. Para ele, compreender as ciências não é algo inalcançável, acessível apenas aos 'gênios', crença muitas vezes compartilhada e propagada no ambiente escolar. A importância que este docente atribui ao ensino da natureza da ciência, também é sustentada pela possibilidade de que, a partir deste tipo de discussão, os alunos compreendam que conhecer sobre ciências, aprender ciências ou desenvolver um pensamento científico mais refinado é algo possível.

Com relação a qualidade de discussão sobre o tema da natureza da ciência em suas aulas, o docente avalia que depende das turmas e reforça que o maior obstáculo está associado à resistência dos alunos a estudarem temas que não sejam os conteúdos tradicionais de física. Além disso, o docente reforça que a desvalorização e pouca importância atribuída aos temas da área de ensino, relacionada à crença de que estas discussões são menos relevantes que aquelas sobre os temas mais tradicionais e que são propagadas na área de Física, obstaculizam o trabalho da área da pesquisa em ensino de ciência/física, bem como da natureza da ciência.

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O docente considera extremamente importante a articulação entre temas da natureza da ciência e temas de ensino, justificando com base na sua crença de que o entendimento da natureza da ciência implica numa melhora da prática pedagógica dos futuros professores. Na fala deste docente:

Porque eu sou uma ferrenha defensora de uma ideia idealista de que se as pessoas entenderem um pouco mais de epistemologia vão melhorar sua prática pedagógica. Eu sei que não é uma relação linear, eu sei que isso pode estar muito mais na minha cabeça do que na realidade, mas eu acredito que se você entende um pouco mais das questões de filosofia da ciência de uma maneira geral, você pode pensar sua prática pedagógica de maneira diferente. (...) Se eu entendo que o papel da experimentação é múltiplo, não precisa necessariamente ser comprobatório, então eu posso utilizar uma experimentação, por exemplo, para problematizar alguma coisa no início de uma sequência didática. Eu entendo que pensar o ensino de física tem tudo a ver com aquilo que você entende sobre a natureza da ciência. Se eu pensar o papel da reflexão histórica, e o que isso pode me trazer para compreender, por exemplo, a dinâmica da ciência, eu vou fazer uma regressão histórica com os meus alunos para eles entenderem alguma coisa melhor.

Além da articulação entre temas da natureza da ciência e temas de ensino de física, o docente também considera fundamental a articulação entre temas da natureza da ciência e de conteúdos de Física, mas ressalta que tal articulação é muito improvável tendo em vista a formação dos professores que geralmente lecionam as disciplinas de Física geral e específicas nos cursos de LF. Para este docente:

Fundamental e muito improvável. Esbarramos da formação dos professores formadores, na cultura, tradição do ensino da física, no qual as disciplinas de física servem para trabalhar física, matemática. Eu acho que seria fundamental, mas não vejo sucesso nisso num curto prazo, porque precisa mudar uma mentalidade de toda uma geração de professores formados dentro da ideia de que é só para trabalhar a física matematicamente, formalmente e etc.

## Considerações finais

A análise da entrevista realizada nos permite perceber o reconhecimento do docente da influência de suas crenças epistemológicas em sua prática didáticopedagógica, especialmente nas relações que este estabelece com os licenciandos e com o conhecimento científico nas disciplinas que leciona nos cursos de LF. Como evidenciado nas falas do docente, mesmo que a natureza da ciência não seja conteúdo explícito de ensino, haverá sempre uma concepção epistemológica do professor, ainda que não consciente, permeando e orientando suas escolhas e percursos em sala de aula.

Além disso, as evidências encontradas neste trabalho apontam algumas diretrizes para investigações futuras. A próxima etapa desta investigação, consistirá em realizar entrevistas com um número maior de docentes universitários que atuam em cursos de LF de IES públicas, e assim verificar a viabilidade de utilizá-lo como um indicador adequado para mapear as crenças de físicos, docentes universitários, e aprofundar a compreensão de como estas discussões acontecem na formação de professores de física em cursos de LF.

## Referências

ALONSO, Á.V.; MAS, M.A.M.; Talavera. M. Actitudes y creencias sobre naturaleza de la ciencia y la tecnología en una muestra representativa de jóvenes estudiantes. Revista Electrónica Enseñanza de las Ciencias , v.9, n.2, p. 333352, 2010.

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BONNEY, C.R.; KLEMPER, T.M.; ZUSHO, A.; COPPOLA, B.P.; PINTRICH, P.R. Student learning in science classrooms: What role does motivation play?. In: ALSOP, S. (Ed.), Beyond Cartesian Dualism: Encountering Affect in the Teaching and Learning of Science , Dordrecht: Springer, 2005. p. 83-97.

BRYAN, L.A. Nestedness of Beliefs: Examining a Prospective Elementary Teacher's Belief System about Science Teaching and Learning. Journal of Research In Science Teaching , v.40, n.9, p. 835-868, 2003.

DELIZOICOV, D. Docência no ensino superior e a potencialização da pesquisa em Educação em Ciências. In: GARCIA, N.M.D et al. (org), A pesquisa em Ensino de Física e a sala de aula: articulações necessárias . SP: Livraria da Física, p.215-226, 2012.

GIL-PÉREZ, D.; MONTORO, I.F.; ALIS, J.C.; CACHAPUZ, A.; PRAIA, J. Para uma imagem não deformada do trabalho científico. Ciência & Educação , v.7, n.2, p.125-153, 2001.

GÓMEZ-CHACÓN, I.M.; OP'T EYNDE, P.; DE CORTE, E. Creencias de los estudiantes de matemáticas. La influencia del contexto de clase. Enseñanza de las Ciencias , v.24, n.3, p.309-324, 2006.

HULLING, M.D. The Effect of Teachers' Epistemological Beliefs on Practice. Graduate School Theses and Dissertations, University of South Florida, 2014.

HERMAN, B.C.; CLOUGH, M.P.; OLSON, J.K. Teachers' nature of science implementation practices 2-5 years after having completed an intensive science education program. Science Education , v.97, n.2, p. 271-309, 2013.

LEDERMAN, N.G.; ABD-EL-KHALICK, F; BELL, R.; SCHWARTZ, R.S. Views of Nature of Science Questionnaire: Toward Valid and Meaningful Assessment of Learners' Conceptions of Nature of Science. Journal of Research in Science Teaching , v.39, n.6, 2002.

LIANG, L.L.; CHEN, S.; CHEN, X.; KAYA, O.N.; ADAMS, A.D.; MACKLIN, M.; EBENEZER, J. Assessing preservice elementary teachers' views on the nature of scientific knowledge: a dual-response instrument. Asia-Pacific Forum on Science Learning and Teaching , 2008.

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PAJARES, M.F. Teachers' beliefs and educational research: Cleaning up a messy construct. Review of Educational Research , v.62, n.3, p.307-332, 1992.

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## Anexo 01 - Protocolo de entrevista

Objetivo: identificar elementos da formação geral do docente universitário que possa auxiliar na caracterização das suas crenças e de sua cultura profissional e acadêmica.

- 1. Qual sua formação de graduação? Ano de início e conclusão?
- 2. Qual a formação de mestrado e doutorado? Instituições, ano de início e conclusão?
- 3. Qual linha de trabalho/pesquisa/investigação no mestrado e doutorado? Participou de algum outro projeto de pesquisa, extensão ou ensino durante sua formação de mestrado e doutorado? Comente sobre seu envolvimento em projetos.
- 4. Atua em qual instituição? Quais atividades desenvolve na instituição? Em quais disciplinas você atua? Quais as características destas disciplinas? Você considera que a formação recebida/adquirida é compatível com as atividades que desenvolve?

Objetivo: identificar e caracterizar as crenças sobre a natureza da ciência, o ensino da natureza da ciência, a importância atribuída à natureza da ciência, a motivação para ensinar sobre a natureza da ciência, sua prática de pesquisa, sua prática pedagógica, os estudantes de graduação

## ...sua prática de pesquisa (sua prática enquanto pesquisador)

- 5. Como você avalia/julga que sua prática enquanto pesquisador pode influenciar sua prática pedagógica para o ensino de ciências? (o que o respondente entende da relação entre carreira de pesquisador e de professor e a natureza da ciência)
- 6. Como você entende sua prática enquanto pesquisador? O que você faz enquanto pesquisador? (o que o respondente diz que faz tem relação com a crença declarada sobre natureza da ciência e se essa relação aparece em sua prática pedagógica de alguma maneira)

## ... os estudantes

- 7. Você considera/julga importante que seus alunos da graduação tenham conhecimento sobre o tema da natureza da ciência?
- 8. Que tipos de dificuldades/obstáculos seus alunos demonstram na abordagem deste tema?

## ... a natureza da ciência

- 9. O que você entende por natureza da ciência?
- 10. Quais temas/conteúdos específicos da natureza da ciência você considera/julga mais importantes? Justifique sua decisão ao atribuir maior importância a um ou outro tema.
- ... o ensino da natureza da ciência e sua prática pedagógica
- 11. Você ensina/trabalha sobre o tema da natureza da ciência nas suas aulas? Se sim, que tipo de discussão/tema/debate você costuma promover?
- 12. Quais fatores você julga que influenciam sua decisão por ensinar ou não sobre o tema da natureza da ciência? Quais os prós e contras em ensinar sobre natureza da ciência na graduação?
- 13. Como você avalia a qualidade da discussão sobre o tema da natureza da ciência nas suas aulas? Em que medida você se considera proficiente em ensinar sobre o tema da natureza da ciência?
- 14. Como você ensinaria/trabalharia sobre o tema da natureza da ciência na graduação? Você considera/julga importante a articulação entre temas da natureza da ciência e temas de Ensino de Física? Ou ainda a articulação entre temas da natureza da ciência e conteúdos de Física? Comente sobre como você proporia estas articulações em uma disciplina do curso de Licenciatura em Física, por exemplo.

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## I. Formação e atuação profissional (geral)

## II. Crenças sobre...

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Texto extraído automaticamente do PDF: podem existir erros de conversão, especialmente em fórmulas, tabelas e figuras.