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Uma disciplina introdutória para os cursos de Licenciatura em Física centrada no combate à evasão

Sandro Luiz Giongo, Kaluti Rossi De Martini Moraes, Leonardo Albuquerque Heidemann

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XXIII
Ano
2019
Data
30/01/2019
Linha de pesquisa
Currículo E Ensino De Física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## UMA DISCIPLINA INTRODUTÓRIA PARA OS CURSOS DE LICENCIATURA EM FÍSICA CENTRADA NO COMBATE À EVASÃO

## Sandro Luiz Giongo 1 , Kaluti Rossi de Martini Moraes , Leonardo Albuquerque 2 Heidemann 3

1 Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Curso de Licenciatura em Física, sandrogiongo@gmail.com

## Resumo

A evasão em cursos superiores é uma questão que assola a realidade da maior parte das Universidades, tanto internacionalmente quanto em âmbito nacional. Nos cursos de Física, em particular, os índices de evasão são altíssimos, apesar de haver uma enorme demanda por professores dessa área no país. Inserido nesse contexto, o Instituto de Física da Universidade Federal do Rio Grande do Sul implementou a disciplina 'Introdução à Física' no primeiro semestre de 2018 no curso de Licenciatura em Física, procurando promover a persistência de seus estudantes na instituição. Toda a disciplina foi planejada e implementada fundamentada no modelo de integração do estudante de Vincent Tinto (1975, 2017). Portanto, tomou-se a persistência dos estudantes como uma manifestação da sua motivação em relação ao curso de Licenciatura em Física. Buscou-se propor situações aos estudantes que fomentassem melhoras nos construtos que, segundo Tinto, influenciam diretamente a motivação deles, quais sejam, as suas percepções sobre: i. as suas capacidades de obter sucesso em situações ou tarefas específicas que são enfrentadas no curso; ii. o seu pertencimento como membro de uma comunidade que valoriza sua participação na instituição; e iii. o valor e/ou relevância dos estudos previstos no currículo do seu curso. Baseando-se em resultados expostos na literatura de ensino de Física, optou-se por, então, ao longo do semestre, propor aos estudantes atividades investigativas com experimentação e modelagem computacional, tarefas de leitura e debates sobre questões conceituais, preconizando o uso de metodologias ativas de ensino. Neste trabalho, relatamos algumas dessas metodologias, destacando a lógica que as vincula com expectativas de diminuição da evasão dos estudantes no curso.

Palavras-chave : evasão; metodologias ativas; Licenciatura em Física Introdução

O problema da evasão seguramente acompanha a realidade da maioria das instituições de Ensino Superior, tanto no contexto brasileiro quanto internacional. O caso dos estudantes que iniciam, mas não terminam seus cursos de graduação implica no grande desperdício de recursos de diversas naturezas. No Brasil, em especial nas universidades públicas, há o agravante causado pelo modelo de investimento em educação adotado, onde se preconiza o Ensino Superior. Em 2017, por exemplo, foram investidos aproximadamente 68% dos recursos destinados à educação pela União no Ensino Superior, quando as despesas são analisadas por

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subáreas associadas à educação 1 . Portanto, este problema da evasão discente constitui um objeto de investigação de relevância para pesquisadores de diversas universidades, principalmente mediado pela preocupação inerente ao alto investimento público.

Os cursos de Física são aqueles que apresentam as maiores taxas de evasão no contexto do Ensino Superior do Brasil, calculadas com base nos dados do Inep de 2001 a 2005, entretanto ainda há poucos estudos sistemáticos sobre o tema da evasão no Brasil (SILVA FILHO, 2007). Este perfil de escassez é extensível ao caso dos cursos de Física, evidenciado pela revisão bibliográfica do trabalho realizado no Instituto de Física da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (IF/UFRGS) (LIMA JUNIOR, 2013). Nesse estudo, é proposta, a partir de uma investigação sobre o processo de evasão nos cursos do IF/UFRGS, uma agenda de objetivos centrada no combate à evasão nos cursos de graduação. Dentre esses objetivos, podemos destacar o estabelecimento de estratégias para assegurar que os alunos que ingressam com maiores deficiências nos cursos recebam mais recursos, de modo que a experiência deles se deva mais à dedicação enquanto estudante e menos ao capital cultural acumulado até o ingresso. O pesquisador também recomenda que os recursos do IF/UFRGS sejam distribuídos de maneira mais equilibrada entre os cursos de bacharelado e licenciatura, em especial no que tange à oferta de disciplinas.

Naturalmente, concretizar a agenda sugerida por Lima Junior demanda a realização de ações coletivas articuladas, contando com o apoio tanto de professores como de estudantes. No IF/UFRGS, a Resolução 2/2015 do Conselho Nacional de Educação (CNE) constituiu uma extraordinária oportunidade para a realização dessas ações nos cursos de licenciatura. A necessidade de adequá-los às normas estabelecidas nessa resolução proporcionou o fortalecimento de um Núcleo Docente Estruturante (NDE) na instituição que, fundamentado em consultas à comunidade universitária, elementos da literatura de pesquisa em ensino de Ciências, e de profundos estudos de viabilidade, construiu profundas modificações nas matrizes curriculares para os cursos de licenciatura do IF/UFRGS. Nesse trabalho, procuraram proporcionar um currículo que promova a construção de uma identidade própria para os cursos de licenciatura, valorizando-as e aproximando-as da escola básica. Neste contexto foi instituída uma disciplina inicial no currículo da Licenciatura em Física denominada de 'Introdução à Física'.

Entendida como uma disciplina para contribuir para que os estudantes ingressem nas disciplinas iniciais da Licenciatura em Física mais preparados, a 'Introdução à Física' é um componente fundamental do novo currículo para proporcionar uma diminuição nos índices de evasão do curso. Naturalmente emerge disso a seguinte questão: Como deve ser estruturada 'Introdução à Física'? Como planejar e conduzir uma disciplina que tem como objetivo preparar os estudantes para disciplinas básicas de Física, Matemática e Educação e contribuir para que eles persistam nesses cursos? Neste trabalho, relatamos uma proposta de disciplina introdutória para cursos de Licenciatura em Física que foi implementada pela primeira vez no primeiro semestre de 2018 no IF/UFRGS. O planejamento das atividades foi dirigido pelo modelo de evasão de Tinto (1975; 2017) e por resultados de pesquisas da área de ensino de Física. No que segue, apresentamos brevemente

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a fundamentação teórica do artigo, destacando o modelo de Tinto, para, em seguida, expormos sinteticamente os tipos de atividades desenvolvidas na disciplina.

## Fundamentação Teórica

A disciplina 'Introdução à Física' foi planejada com o objetivo primário de combate à evasão no curso de Licenciatura em Física. Para tal, nos apropriamos do modelo de integração do estudante de Vincent Tinto (1975; 2017), que é o principal teórico utilido em trabalhos que tratam do problema da evasão (BARDAGI & HUTZ, 05). Trata-se de um modelo organizacional, pois mobiliza aspectos pessoais, sociais e institucionais para explicar a evasão, e também sociológico, pois busca explicações para a evasão no contexto social do estudante e da instituição, desviando o foco único das questões psicológicas. Desse modo, denomina-se o modelo de Tinto como um modelo interacionista. É um pressuposto do modelo de integração do estudante que o indivíduo tem algum nível de comprometimento com a instituição no momento em que realiza o ingresso, assim como tem como meta a conclusão da graduação. Este comprometimento se consolida imerso no conjunto de relações entre os sistemas background familiar, escolarização anterior do indivíduo, assim como suas competências e habilidades. Entretanto, após o ingresso, Tinto defende que existe uma primazia dos conjuntos de relações que o indivíduo estabelece no ambiente universitário para influenciar a decisão do estudante em permanecer ou evadir do curso.

Segundo Tinto, a integração acadêmica e a integração social são aspectos fundamentais para a permanência do estudante. Para o autor, a integração acadêmica corresponde ao sentimento de estar integrado ao ambiente da Universidade no que diz respeito ao contexto do curso e suas demandas acadêmicas. Neste sentido, podemos apontar algumas contribuintes como: a percepção do desempenho acadêmico, bem como a autoestima relacionada a este desempenho; a percepção de desenvolvimento pessoal; gostar dos conteúdos do curso; a identificação com normas e valores do curso; a identificação com o papel do estudante. A integração social se refere ao fazer parte de um grupo e de se sentir bem no ambiente da Universidade. Segundo Tinto, esse eixo de integração se manifesta quando consideramos, por exemplo: os contatos do estudante com os colegas de curso; participação de atividades sociais (festas, esportes, eventos culturais etc.); os contatos informais do estudante com os professores ou com o pessoal de apoio dos cursos.

Desde a proposição inicial do modelo de integração do estudante (TINTO, 1975) diversos estudos se apropriaram desse referencial teórico para enfrentar o problema da evasão. Neste intervalo de tempo, algumas críticas foram tecidas ao trabalho de Tinto (BRAXTON et al., 1997). Ressalta-se, dentre elas, questionamentos sobre a validade, enquanto construtos, da integração social e da integração acadêmica como bons preditores do sucesso do estudante. Destaca-se também que o modelo não considera dimensões psicológicas dos estudantes quanto ao sentimento de conexão com suas instituições. Frente a isso, Tinto propõe recentemente uma nova perspectiva para o seu modelo (TINTO, 2017). O autor defende que os estudantes não procuram serem retidos na instituição, mas sim persistir. Nesta nova perspectiva, a persistência de um estudante é a manifestação da sua motivação para dar continuidade aos seus estudos. Os estudantes têm diferentes relações entre suas metas e a própria motivação, portanto a persistência de cada um é afetada distintamente pelas experiências na instituição de ensino.

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Assim, são as experiências vividas na Universidade que influenciam no comprometimento do estudante através da motivação em concluir o curso. Neste contexto, temos um pressuposto primordial no modelo: a persistência do estudante na instituição de ensino é fundamentalmente uma expressão da sua motivação. O modelo de integração do estudante defende que o impacto das experiências em ambiente escolar na motivação do estudante pode ser entendida como o resultado da interação entre os objetivos , as crenças de autoeficácia , o senso de pertencimento e a percepção de currículo do estudante (TINTO, 2017). Objetivos aqui tratados na convergência com o compromisso do indivíduo em concluir a sua graduação.

Autoeficácia consiste na crença do indivíduo na sua capacidade de ser bemsucedido em uma situação específica ou ao desempenhar determinada tarefa (BANDURA, 1994 apud TINTO, 2017). No contexto do Tinto, as crenças de autoeficácia do estudante são tomadas de maneira generalizada. Entretanto, é importante ressaltar que, nesta ocasião, a referência que fazemos é ao conjunto das crenças de autoeficácia que se relacionam com as tarefas e situações que o estudante precisará enfrentar durante o curso de Licenciatura em Física. Dessa forma, cada uma dessas crenças é definida dentro do seu domínio de validade, sem comprometimento teórico do uso do construto. O autor destaca que essas crenças são aprendidas e não herdadas, são construídas na medida em que o estudante se percebe a partir das suas próprias experiências, bem como na interação com os outros, especialmente seus colegas.

Senso de pertencimento é o construto psicológico que pode ser entendido como a experiência de fazer parte e ter seu envolvimento valorizado nas suas relações. Cabe ressaltar que esse construto requer antecedentes necessários para que seja desenvolvido. Estes se fundamentam na relação de importância que o indivíduo confere para o senso de pertencimento, bem como na intenção subjacente em construir o mesmo. É o sentimento psicológico de ser aceito como membro de uma comunidade, se afastando do simples mensurar dos níveis de envolvimento do indivíduo com esta comunidade. Para Tinto, o resultado do senso de pertencimento no ambiente universitário é uma ligação que frequentemente é importante ao ancorar o indivíduo no coletivo frente aos desafios inerentes ao curso, por exemplo, na construção de relações colaborativas para lidar com as dificuldades acadêmicas.

Percepção de currículo relaciona, na perspectiva do estudante, a percepção do valor e da relevância dos estudos previstos no currículo do seu curso. Nessa dimensão, entra a percepção do estudante quanto à valorização da sua participação em aula, assim como a forma como a importância dada pelos professores para a sua aprendizagem nas disciplinas. Há diversos fatores que podem contribuir nesta percepção, por exemplo: a didática adotada pelo professor, impressão sobre a qualidade do planejamento das atividades de ensino, a consideração do estilo de aprendizagem do estudante e os métodos de ensino empregados nas disciplinas.

Do modelo de Tinto, adotamos, durante o planejamento e a condução da disciplina 'Introdução à Física', a concepção de que a persistência dos estudantes no curso de Licenciatura em Física é dirigida pelas suas crenças de autoeficácia, seus sensos de pertencimento e suas percepções sobre o currículo. Em função disso, assumimos que o objetivo primordial da disciplina era proporcionar aos estudantes situações que fomentassem melhoras nesses construtos no sentido de

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promover a persistência deles. Na próxima seção, apresentamos a abordagem metodológica adotada, destacando ações e atividades desenvolvidas na disciplina.

## Abordagem metodológica de ensino

As aulas da disciplina 'Introdução à Física' do primeiro semestre de 2018 iniciaram com uma discussão sobre as intenções dos alunos e um pequeno levantamento informal dos seus perfis utilizando o aplicativo Plickers 2 . Identificou-se que 17 dos 21 alunos ingressaram no curso com o objetivo de se tornarem professores de Física. Os outros quatro estudantes declararam não ter clareza ainda dos seus objetivos. Isso indica que a maioria dos estudantes da disciplina apresentava uma atitude positiva diante da importância atribuída à conclusão do curso, evidenciando que o modelo de Tinto poderia dirigir ações de combate à evasão neste contexto.

Já na primeira aula, o professor buscou justificar a importância da inserção da disciplina no novo currículo do curso. Foi esclarecido que o curso de licenciatura em Física possui um histórico de desvalorização dentro e fora da Universidade, o que acarreta muitas vezes na baixa procura pelo curso e em desmotivação ao longo da graduação. Atrelado a esse problema, o curso conta com uma das maiores taxas de evasão da Universidade, principalmente no curso noturno. Depois dessa contextualização, deixou-se claro que esta disciplina teria como principal objetivo combater a evasão do curso. Foram então elencados os objetivos específicos. Em suma, todos eles, que foram apresentados detalhadamente aos estudantes, tinham como propósito: i. dar oportunidade para que suas potenciais insuficiências formativas da Educação Básica pudessem ser amenizadas; ii. promover a construção de relações sociais colaborativas, favorecendo que eles se integrassem acadêmica e socialmente; iii. construir uma identificação deles com o trabalho docente, motivando-os para as disciplinas que cursarão durante o curso. Por fim, foi ressaltado que as metodologias de ensino implementadas na disciplina, que foram inspiradas em metodologias ativas vastamente difundidas na literatura, estariam intimamente relacionadas com os objetivos estabelecidos. Nas subseções seguintes, algumas dessas metodologias são expostas, assim como o potencial delas em ações de combate à evasão.

## Atividades investigativas

Ao longo do semestre, foram realizadas três atividades investigativas. Começava-se com um problema pouco dirigido buscando torná-lo relevante em função do seu caráter sociocientífico e/ou por estarem vinculados com o cotidiano dos alunos. Algumas perguntas relacionadas ao tema eram apresentadas e os alunos se reuniam em grupos a fim de realizar uma investigação com o objetivo de construir uma resposta para ao menos uma delas. Essa pesquisa era acompanhada pelo professor e por um monitor. O papel deles era o de acompanhar os grupos analisando suas propostas, dirimindo dúvidas e expondo sugestões. Ao final da atividade, os grupos apresentaram seus resultados para os colegas da turma. A liberdade de investigação e propostas apresentadas era tal que permitia diferentes exposições para um mesmo tema.

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Um dos principais diferenciais dessas atividades investigativas está na problematização realizada e na característica de possibilitar que diferentes pesquisas pudessem ser realizadas. Para exemplificar, relatamos a primeira delas, em que os estudantes, organizados em grupos, foram instigados a construir argumentos que dessem suporte ao princípio de independência de movimentos de Galileu. Essa investigação foi problematizada com um debate sobre relações entre pseudociências e a sociedade suscitado pelo vídeo 'A Ciência brasileira e a Síndrome de Cassandra' , culminando em uma discussão sobre os recentes 3 defensores de um modelo de Terra plana. Destacou-se que, alguns dos argumentos apresentados por esses defensores são semelhantes aos rebatidos por Galileu quando ele defendia o modelo geocentrista copernicano. Foi ressaltado então, a partir de reflexões sobre os argumentos da torre e do canhão explorados por Galileu (SILVEIRA & PEDUZZI, 2006), que ele se fundamentava em princípios, como de que o movimento de corpos pode ser decomposto em movimentos independentes em diferentes dimensões. Sendo um princípio, tal pressuposto não pode ser provado experimentalmente.

Solicitou-se, então, que os estudantes construíssem argumentos para defender a validade do princípio de independência de movimentos com liberdade para usar os recursos que julgarem pertinentes, como simulações computacionais, experimentos e demonstrações matemáticas. Ao longo de quatro aulas, os alunos realizaram investigações para suportar seus argumentos por meio de experimentos, analisando-os usando teorias e conceitos físicos e matemáticas. Nas apresentações finais, os grupos dispunham de apenas um pequeno quadro branco e canetões. O propósito era que eles explorassem a capacidade de síntese, expondo apenas os pontos chaves e conceitos mais importantes. Durante as apresentações, dúvidas e comentários eram incentivados pelo professor.

Durante todo esse processo de investigação, os estudantes vivem experiências que demandam debates na busca pela construção de soluções para os problemas propostos ou gerados durante a atividade, o que fomenta o estabelecimento de relações sociais colaborativas, possibilitando um aumento no senso de pertencimento dos estudantes na Universidade, e de experiências de sucesso na resolução de problemas, possibilitando um aumento nas suas crenças de autoeficácia para enfrentarem as situações das disciplinas de Física básica (SAWTELLE et al., 2012). O enfoque na história de Galileu possibilita ainda a construção de uma concepção epistemológica mais sofisticada por parte dos estudantes, ou seja, de uma perspectiva de Ciência como uma atividade essencialmente humana, o que, segundo estudos recentes (e. g., KAPUCU; BAHÇIVAN, 2015), estão positivamente associadas com as crenças de autoeficácia dos estudantes para resolverem problemas científicos e com as suas atitudes em relação à Ciência.

## Tarefas de leitura

As atividades investigativas eram problematizadas pelo professor a partir das dúvidas e dificuldades apresentadas pelos alunos. Para isso, era proposto que eles fizessem a leitura de um material didático fora da sala de aula e respondessem a três questões relacionadas a ele. Na atividade investigativa sobre a independência de movimentos, foi solicitado que os estudantes lessem algumas páginas do artigo Silveira e Peduzzi (2006) antes da primeira aula da investigação, em horário

3 Vídeo disponível em: https://youtu.be/F3kUeDlP3Io. Acesso em: 14/07/2018.

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extraclasse, e enviassem suas repostas às questões disponibilizadas na plataforma de ensino online utilizada na disciplina. Baseados na metodologia de Ensino sob Medida (ARAUJO & MAZUR, 2013), as respostas dos alunos eram transcritas na apresentação do professor. Buscava-se possibilitar que os estudantes percebessem que suas respostas estão sendo lidas e analisadas, fomentando a valorização da participação deles na disciplina, promovendo um aumento nas suas percepções de currículo. Além disso, esperava-se que, começando as atividades investigativas mais preparados, os estudantes se sentiriam mais capazes de enfrentar as tarefas demandadas, aumentando suas crenças de autoeficácia. A avaliação nestas tarefas era realizada em termos do empenho dos estudantes, e não em termos de acerto erro. Com isso, esperava-se estimular que eles argumentassem, sem receio de errar.

## Instrução pelos colegas

Durante a implementação da metodologia de Instrução pelos Colegas (ARAUJO & MAZUR, 2013), eram apresentadas algumas questões conceituais qualitativas, usualmente de múltipla escolha, e solicitado aos estudantes que votassem na resposta que julgavam mais adequada. Essa votação, assim como no levantamento da primeira aula da disciplina, era feita com o aplicativo Plickers. Com base nessas respostas, mas ainda sem indicar qual é a correta, o professor tomava uma das seguintes três decisões: a. explicava a questão e reiniciava o processo de exposição dialogada e apresentação de questão conceitual para um novo tópico. Esse caso era escolhido se mais de 70% dos estudantes chegavam na resposta correta; b. Agrupava os alunos com respostas diferentes solicitando que tentassem convencer uns aos outros da adequação de suas respostas. Após alguns minutos, abria novamente o processo de votação e explicava a questão, reiniciando o processo. Essa opção era escolhida se o percentual de acertos obtidos na primeira votação estivesse entre 30% e 70%; c. revisitava o conceito explicado através de nova exposição dialogada sobre ele, colocando outra questão conceitual ao final da explanação e recomeçando o processo. Essa era a opção adotada se menos de 30% das respostas estivessem corretas. Com essa metodologia, buscava-se promover processos argumentativos entre os estudantes, possibilitando que eles desenvolvam suas habilidades para expor suas ideias com base em conhecimentos científicos. A literatura evidencia que esse método, assim como o Ensino sob Medida, favorecem a construção de crenças de autoeficácia mais positivas (OLIVEIRA, 2016). Gok (2012), por exemplo, argumenta que o sucesso da Instrução pelos Colegas para melhorar o senso de eficácia pessoal do indivíduo se deve, possivelmente, aos estudantes receberem constante feedback sobre o resultado de seus esforços nas atividades.

## Considerações finais

A disciplina 'Introdução à Física' foi elaborada e conduzida orientada pelo modelo de integração do estudante de Vincent Tinto, realizada pela primeira vez no primeiro semestre de 2018. Ao longo dos encontros, foram propostas atividades investigativas para os estudantes, bem como foram utilizadas algumas metodologias ativas de ensino em diversas ocasiões. Indo ao encontro do referencial teórico que norteou o trabalho na disciplina, os estudantes assistiram uma palestra proferida por um estudante do Programa de Pós-Graduação em Ensino de Física (IF/UFRGS). A palestra teve como temática o conceito de crença de autoeficácia, possibilitando que eles refletissem sobre a relevância da manutenção desse construto positivo para o

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sucesso das atividades que eles se envolvessem. A origem do próprio palestrante tem o potencial de contribuir para a percepção de currículo dos estudantes, pois evidencia que há um caminho possível para ser trilhado no âmbito da pesquisa em ensino, como também há valorização da própria instituição.

## Referências

ARAUJO, I. S.; MAZUR, E. Instrução pelos colegas e ensino sob medida: uma proposta para o engajamentodos alunos no processo de ensino-aprendizagem de Física. Caderno Brasileiro de Ensino de Física , v.30, n. 2, p. 362-384, 2013.

BARDAGI, M.; HUTZ, C. S. Evasão universitária e serviços de apoio ao estudante: uma breve revisão da literatura brasileira. Psicologia Revista. Revista da Faculdade de Ciências Humanas e da Saúde, v. 14, n. 2, p. 279-301, 2005.

BRAXTON, John M.; SHAW SULLIVAN, Anna V.; JOHNSON, Robert M. Appraising Tinto's theory of college student departure. Higher Education, New York, Agathon Press Incorporated. v. 12, p. 107-164, 1997.

GOK, T. The effects of peer instruction on student's conceptual learning and motivation. Asia-Pacific Forum on Science Learning and Teaching , v. 13, n. 1, p. 1-17, 2012.

KAPUCU, S.; BAHÇIVAN, E. High school students' scientific epistemological beliefs, self-efficacy in learning physics and attitudes toward physics: a structural equation model. Research in Science & Technological Education , v. 33, n. 2, p. 252-267, 2015.

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OLIVEIRA, T. E. Aprendizagem de Física, trabalho colanborativo e crenças de autoeficácia: um estudo de caso com o método Team-based Learning em uma disciplina introdutória de eletromagnetismo . Dissertação de mestrado (Ensino de Física). Instituto de Física, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2016.

SAWTELLE, V. et al. Identifying events that impact self-efficacy in physics learning.

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SILVA FILHO, R. L. L. et al. A evasão no ensino superior brasileiro. Cadernos de Pesquisa , v. 37, n. 132, p. 641-659, 2007

SILVEIRA, F. L.; PEDUZZI, L. O. Q. Três episódios de descoberta científica: da caricatura empirista a uma outra história. Caderno Brasileiro de Ensino de Física , v. 23, n. 1, p. 26-52, 2006.

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