ALCANÇANDO A PREDISPOSIÇÃO DOS ESTUDANTES NAS AULAS DE FÍSICA ATRAVÉS DAS HISTÓRIAS EM QUADRINHOS
Khennya Maria Gonçalves De Araújo, Laylson Alves Vieira, Francisco Augusto Silva Nobre, Ewerton Moraes Luna
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXIII
- Ano
- 2019
- Data
- 30/01/2019
- Linha de pesquisa
- Materiais, Métodos E Estratégias De Ensino De Física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## ALCANÇANDO A PREDISPOSIÇÃO DOS ESTUDANTES NAS AULAS DE FÍSICA ATRAVÉS DAS HISTÓRIAS EM QUADRINHOS
## Khennya Maria Gonçalves de Araújo 1 , Laylson Alves Vieira 2 , Ewerton Moraes Luna 3, Francisco Augusto Silva Nobre 4
- 1 Universidade Regional do Cariri/Departamento de Física, khennyaaraujo@gmail.com
- 2 Universidade Regional do Cariri/Departamento de Física, laylsonalves1234@hotmail.com
- 3 Núcleo de Pesquisa em Ensino de Física, ewertonm.luna@gmail.com
- 4 Universidade Regional do Cariri/Departamento de Física, augusto.nobre@urca.br
## Resumo
Na tentativa de acentuar a predisposição dos alunos para aprender conteúdos de física e desviar as aulas das práticas tradicionais de ensino, que por muitas vezes distancia o conteúdo abordado da realidade dos discentes. As histórias em quadrinhos apresentam-se como uma ferramenta com potencial para a abordagem de conteúdos de Física nas salas de aula. Este trabalho realizado em uma turma de 2º ano do Ensino Médio da Escola de Ensino Profissionalizante Governador Virgílio Távora, localizada na cidade do Crato-CE, investiga a produção de Histórias em quadrinhos (HQ's) como instrumentos que propiciem o ensino/aprendizagem para o ensino de Física. Tomamos como base um produto educacional, produzido pelos pesquisadores, dividido em 2 partes 'Guia rápido de como montar histórias em quadrinhos' e 'Uma sequência didática para o ensino de cosmologia'. A intervenção pedagógica foi dividida em 2 encontros, de 100 minutos cada, seguindo a sequência didática, apresentando o conteúdo de cosmologia, envolvendo discussões, apresentação da primeira parte do produto e culminando na produção de quadrinhos pelos alunos. observamos que as HQ's possibilitam que os estudantes possam apresentar de forma criativa argumentos que não estariam dispostos a apresentarem em aulas tradicionais. Também concluímos que as HQ's reduzem o grau de abstração das aulas, tendo em vista que os estudantes as utilizaram para contextualizar os conteúdos ensinados, além de criar o hábito da pesquisa em outros materiais didáticos para poderem desenvolver o enredo das histórias.
Palavras-chave : Histórias em Quadrinhos, Ensino de Física, Produto educacional.
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## Introdução
As histórias em quadrinhos (HQs), representaram durante muito tempo um meio de lazer para crianças e adolescentes. As narrativas de aventuras contadas por esse meio midiático nem sempre tiveram aceitação nas instituições acadêmicas, sendo algumas vezes vista como uma má influência para a formação dos seus leitores. Um bom exemplo dessa investida contra as HQs é o livro Seduction of the innocent (WERTHAM, 1954), do psiquiatra alemão Fredric Wertham, que aponta diversos casos sobre a má influência dos quadrinhos na formação de crianças e adolescentes, com ênfase em histórias sobrenaturais.
No entanto, existem fatores que evidenciam os quadrinhos como um auxílio para o ensino, segundo Rama e Vergueiro (2008) podemos ressaltar alguns pontos:
- a) O material é recebido de forma entusiasmada de modo que propicia uma participação mais ativa dos alunos;
- b) A interligação entre texto/imagem amplia a compreensão de conceitos;
- c) Os quadrinhos podem abranger os mais variados assuntos possíveis para discussão em sala de aula;
- d) Eles enriquecem e estimulam a leitura e o vocabulário dos estudantes, pela sua linguagem de fácil entendimento;
Nesse sentido, com a busca de novas ferramentas para o ensino das disciplinas na sala de aula, foi visto nas HQs uma possibilidade de utilizá-las como recursos para abordar disciplinas que antes eram tidas pelos alunos como enfadonhas, devido ao grau de abstração do que está sendo ensinado ou devido a metodologia utilizada pelos professores, que nem sempre favorece o conteúdo e as necessidades individuais dos alunos.
No caso da disciplina de Física, o estilo de aula composto pela sequência: explicação do professor, questões problemas para os alunos, explicação do professor. Essa tornou-se uma maneira eficaz de não garantir a predisposição do estudante para aprender, e consequentemente fazer que os mesmos não compreendam que o conteúdo visto em sala de aula está presente no dia-a-dia.
Dessa forma é possível observar o apontamento de Pereira, Olenka e Oliveria (2016), ao realizarem uma experiência didática alicerçada na aplicação diversificada de tirinhas para ensinar física. As autoras afirmaram que muitos alunos se mostram passivos em aulas de ciências mediantes, exclusivamente, metodologias tradicionais.
Nessas perspectiva, a leitura e a produção de quadrinhos pode ser uma ferramenta para recuperar a predisposição dos estudantes, pois como salienta Testoni e Abib (2003, p. 2)
'do ponto de vista do leitor/estudante a leitura da HQ torna-se uma atividade muitas vezes relaxante, comportamento explicado pelo mecanismo psicológico da catarse, ou seja, o despojamento das tensões cotidianas em virtude da realização de uma atividade lúdica'.
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Como também, o uso das HQs pode evidenciar aspectos dos conteúdos que não estão presentes em aulas com metodologias tradicionais, tais como, discussões de cunho histórico, sociológico, ou apresentando relações entre conceitos e o cotidiano dos estudantes.
Temos como objetivo investigar a construção de HQs pelos alunos como instrumento de ensino/aprendizagem da disciplina de Física. E para isso foi realizado uma sequência didática alicerçada na teoria da aprendizagem significativa de David. P. Ausubel. Para Moreira (1982), A teoria de Ausubel aponta que a aprendizagem significativa, é um processo que ocorre mediante a relação entre uma nova informação e os aspectos relevantes da estrutura cognitiva do indivíduo.
Assim, para que uma intervenção seja organizada de modo a possibilitar a aprendizagem significativa, é necessário compreender os conhecimentos que os estudantes já possuem, e utilizá-los a favor da aquisição de novos conhecimentos. Assim, a nossa proposta pretende incentivar a tomada de posição dos alunos, para que possam discutir sobre temas de Cosmologia.
## Produto educacional
O material utilizado neste trabalho consiste em um livreto dividido em duas partes, 'Guia rápido de como montar Histórias em Quadrinhos' e 'Uma sequência didática para o ensino de cosmologia' (ARAÚJO, VIEIRA, 2018) (Figura 1), voltado para alunos e professores respectivamente. Pretendemos por meio dele unir história da ciência e produção de HQ.
A primeira parte mostra de forma bem simples, o que é uma HQ e quais etapas devem ser seguidas para construí-las, descrevendo ponto a ponto características próprias da linguagem dos quadrinhos.
A segunda parte consiste na sequência didática e o detalhamento da mesma, voltada para o conteúdo de cosmologia.
Figura 01: Capa do produto educacional
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## Metodologia
A intervenção pedagógica foi realizada com a proposta de produzir HQs abordando alguns conceitos introdutórios sobre Cosmologia, seguindo uma sequência didática construída pelos pesquisadores, dividida de acordo com o esquema da Figura 2. A intervenção ocorreu na Escola de Ensino Profissionalizante Governador Virgílio Távora (E.E.P. Virgílio Távora), situada na cidade do Crato-CE, em uma turma de 2º ano do Ensino Médio, dividida em 2 encontros, cada um de 100 min.
Figura 02: Sequência didática
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## Discussão
## Encontro 1:
Iniciamos a aula instigando os alunos perguntando: O que vocês entendem por Cosmologia? E o Cosmo? Dois alunos, já eram familiarizados com os termos responderam: 'A cosmologia é a ciência que estuda o universo' e 'o cosmo é o universo'. Partindo dessa discussão, apresentamos os termos, transmitindo aos alunos que a cosmologia é a ciência que estuda a estrutura do universo, sua composição e as várias etapas de seu processo de evolução. Em seguida, apresentamos como a estrutura do universo era organizada mostrando as galáxias e suas principais formas (elíptica, em forma de espiral e irregulares) e também explicando a definição de enxame de galáxias.
Logo após começamos a fazer perguntas do tipo:
'Em que galáxia estamos?', 'De que é feito nosso universo?'.
Sobre a primeira pergunta, os alunos não hesitaram em responder que era a Via Láctea. Também apresentando seus pontos de vista sobre de que era formado, além de apresentar outra galáxia, a de Andrômeda. Com relação a segunda, as respostas foram variadas: Plasmas, buracos negros, energia escura e matéria escura, além de estrelas planetas. Podemos notar que eles já tinham noção sobre a
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composição do universo. Muitas perguntas surgiram a respeito desse tópico, inclusive algumas colocações sobre filmes e séries de super-heróis.
Subsequente a essa discussão, apresentamos um pouco de história da física, começando com a Astronomia na Grécia antiga, onde falamos sobre Aristóteles no qual defendia que o Universo seria composto por esferas concêntricas e cristalinas e os planetas estavam presos, percorrendo a trajetória em volta da Terra. Depois falamos sobre o modelo de universo de Ptolomeu (Geocentrismo) e sobre a revolução copernicana (Heliocentrismo). Diante dessa discussão aproveitamos para discutir sobre o processo de inquisição realizado para julgar o frade dominicano Giordano Bruno, que estava sobre a suspeita de heresia contra a igreja.
Várias perguntas surgiram no decorrer da intervenção, no qual vale ressaltar:
'Professor, por que a Terra não é plana?'.
Essa pergunta gerou algumas piadinhas por parte dos colegas, mas no final foi interessante, pois por mais que eles soubessem que a Terra não é plana, explicar isso de forma sucinta era um desafio para eles. A forma mais simplificada que achamos para explicar o assunto, foi a observação de um barco em alto mar que ao se afastar da praia some aos poucos, primeiro o casco da embarcação e só no fim a ponta da vela evidenciando a curvatura do planeta.
Também apresentamos o modelo cosmológico, Big Bang, onde explanamos alguns pontos sobre o surgimento do universo. Partindo dessa discussão, perguntamos se eles sabiam do que se trata o LHC (Large Hadron Collider). Poucos sabiam, o que não foi um espanto, pois a física que é ensinada em sala de aula ainda é a de séculos atrás, de modo que pouco se fala sobre as novidades científicas. Daí então explicamos um pouco da sua funcionalidade e pesquisas feitas nesse laboratório, a fim de explicar que os cientistas lá envolvidos querem criar situações similares ao Big Bang.
Como consequência desse momento, surgiram várias perguntas do tipo:
'Professor o que havia antes do BIG BANG? ', 'O universo é infinito ou é finito?', 'Existem outras teorias sobre o surgimento do universo?', 'Será que foi Deus mesmo que criou o universo?'.
No segundo momento da aula, apresentamos o produto educacional elaborado por nós pesquisadores, mostrando a ideia central do que é uma (HQ) e como construí-la. Feito isso, os alunos dividiram-se em grupos para que cada equipe pudesse criar uma história em quadrinhos, com o seu próprio estilo, a respeito do conteúdo abordado em sala de aula.
Encontro 2:
No início do segundo encontro, reservamos 30 minutos para os grupos terminarem a produção das HQ's, em seguida, deu-se início a apresentação das equipes com o intuito de que esposem para toda a turma suas o resultado de suas ideias, reflexões e pesquisas feitas.
- O primeiro grupo produziu uma história (Figura 3) que se passava em uma sala de aula na qual um dos alunos cochilou enquanto a professora discutia conteúdo de física. No sonho alguns pesquisadores famosos como, por exemplo,
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Einstein, Galileu, Copérnico e Aristóteles tentavam transmitir suas teorias como a teoria do heliocentrismo.
Figura 03: Produção da HQ do primeiro grupo
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Já o segundo grupo, (Figura 4) abordou sua história na casa de sua amiga, onde ela e mais duas colegas iriam se reunir para estudar física. Nesse estudo elas discutiram e argumentaram assuntos que iam de buracos negros à teoria do Big Bang.
Figura 04: Produção da HQ do segundo grupo
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A terceira história (Figura 5) foi interessante e ao mesmo tempo engraçada, pois se tratava de um grupo de cientistas que trabalhavam no acelerador de partículas e um acidente teletransportou um dos cientistas que viajou por lugares diferentes como planetas e outras galáxias. No fim o acelerador foi consertado e conseguiram trazê-lo de volta, e o mais engraçado é que tudo isso ocorreu na fração de minutos, porém para o cientista que viajou demorou muito tempo.
Figura 05: Produção da HQ do terceiro grupo
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- O último grupo tentou de uma maneira humorística argumentar por que a Terra é plana. A HQ relatava uma discussão entre duas crianças onde uma argumentava que a Terra não era plana e a outra que era. Por fim o único argumento que o personagem terraplanista achou foi a de um meme.
- O que podemos ressaltar tanto na produção quanto na apresentação dos grupos, foi a grande interação e dinâmica que houve entre os alunos e o fato de que fizeram pesquisas a respeito do assunto. Eles não tiveram dificuldade em apresentar suas histórias, exceto três ou quatro alunos que eram muito tímidos.
Segundo os alunos, a aula que propomos nesses dois encontros foi muito diferente da aula usual, pois não se tratava de um ensino tradicional. O que podemos ressaltar aqui a fala de um deles:
'A melhor coisa de ter trabalhos desse tipo dentro de Física, é o de a gente não trabalhar só com número e explorar muito mais a criatividade e a coletividade, porque como a gente sabe, existem diversos tipos de inteligências o que faz com que algumas se deem melhor com números e outros não.'
A seguinte fala expressa que é preciso cada vez mais buscar novas metodologias para a aplicação dos conteúdos para o ensino de Física, de forma que propicie um ambiente com uma maior interação e desperte o interesse não somente daqueles que tenham maior aptidão com números.
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## Conclusões
Partindo das observações realizadas durante as interações entre pesquisadores e alunos, foi possível observar que as histórias em quadrinhos possibilitam que os estudantes possam apresentar de forma criativa argumentos e ideias que, usualmente, os estudantes não se sentiriam motivados a apresentarem durante aulas com práticas tradicionais.
A intervenção também fortaleceu o argumento de que as histórias em quadrinhos possibilitam a redução do grau de abstração das aulas de Física, tendo em vista que os estudantes utilizaram as HQ's para contextualizar os conteúdos ensinados, além de criar o hábito da pesquisa em outros materiais didáticos para poderem desenvolver o enredo das histórias.
## Referências
ARAÚJO, Khennya Maria Gonçalves de; VIEIRA, Laylson Alves. Guia rápido de como montar Histórias em Quadrinhos : e uma sequência didática, 2018. Disponível em: https://nucleoens.wixsite.com/nucleo/pe2. Acesso em: 16/07/2018.
MOREIRA, Marco Antônio. Aprendizagem significativa: a teoria de David Ausubel . São Paulo, 1982.
PEREIRA, Moisés Lobo D'Almada Alves; OLENKA, Laudileni; OLIVEIRA, Paloma Emanuelle Duarte Fernandes. Física em ação através de tirinhas e histórias em quadrinhas. Caderno Brasileiro de Ensino de Física. v. 33, n.3, Florianópolis: p. 896-926, dez. 2016.
RAMA, A.; VERGUEIRO, W. Como usar as histórias em quadrinhos na sala de aula . Editora Contexto, 2008.
TESTONI, Leonardo André; ABIB, Maria Lúcia Vital dos Santos. A utilização de histórias em quadrinhos no ensino de Física. Atas do IV ENPEC (IV Encontro Nacional de Pesquisa em Educação em Ciências). Bauru, 2003. Disponível em: http://abrapecnet.org.br/enpec/iv-enpec/orais/ORAL025.pdf. Acesso em: 01/ 07/ 2018.
WERTHAM, Fredric. Seduction of the innocent . New York, Toronto: Rinehart & Company, Inc, 1954.
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Texto extraído automaticamente do PDF: podem existir erros de conversão, especialmente em fórmulas, tabelas e figuras.