CONTRIBUIÇÕES DO CORDEL À ABORDAGEM DA HISTÓRIA DA CIÊNCIA NO ENSINO DE FÍSICA
Josenildo Maria De Lima
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXIII
- Ano
- 2019
- Data
- 29/01/2019
- Linha de pesquisa
- Cultura E Arte No Ensino De Física
- Tipo
- Comunicação
Abrir o PDF original ↗ Baixar referência .bib Ver todos do SNEF 2019
Texto completo
## CONTRIBUIÇÕES DO CORDEL À ABORDAGEM DA HISTÓRIA DA CIÊNCIA NO ENSINO DE FÍSICA
## Josenildo Maria de Lima 1
1 UEPB/PROEAD/PROGEP, josenildo\_ml@yahoo.com.br
## Resumo
O presente trabalho apresenta uma proposta de Ensino de Física voltada para debater questões de História da Ciência contadas em versos da Literatura de Cordel, nele apresentaremos a evolução do conceito de modelos atômicos, por meio do folheto A Química em Cordel: A evolução dos modelos atômicos (2017) e um pouco da História de Giordano Bruno, através do folheto A História do Filósofo Giordano Bruno e a Santa Inquisição (2017). Propomos uma sequência didática baseada nos folhetos de cordel para serem trabalhadas nas aulas de Física da Educação Básica, serão adotados dois folhetos de cordel que contam fatos da história da ciência de duas maneiras diferentes, no primeiro será apresentado a evolução de um conceito científico e no segundo a biografia de um cientista, no final do artigo defenderemos que a arte popular e o ensino de ciências podem gerar pontes para tornar as aulas de Física mais atraentes e motivadoras. Apresentamos uma sequência didática para ser adotada por professores da educação básica que queiram trabalhar com a Literatura de Cordel nas aulas de Física. Esperamos fomentar o debate em torno de uma proposta de ensino de ciências adotando a poesia popular com abordagem sobre questões de História da Ciência que contribua para a renovação dos métodos adotados atualmente em sala de aula.
Palavras-chave : História da Ciência, Modelos Atômicos, Giordano Bruno, Literatura de Cordel. Ensino de Física.
Dos desafios da educação científica brasileira à proposição do uso da Literatura de Cordel para a abordagem da História da Ciência no Ensino de Física.
De acordo com o Indicador de Adequação, Censo da Educação Básica 2016, a disciplina de Física apresentou dentre as demais disciplinas de Ciências da Natureza o pior resultado. Apenas 41,4% das aulas eram ministradas por professores com a formação mais adequada1. Em seguida, Química com 60,6 % das aulas ministradas por professores com a formação mais adequada, Matemática, com 74,1 % de adequação, e, finalmente, Biologia apresentou o maior índice de adequação na formação dos docentes do Ensino Médio em 2016, correspondente a 79,4%.
Esses dados levantam algumas questões sobre o processo de formação inicial nos cursos superiores de Física. Será o curso de Licenciatura em Física muito complexo e os estudantes não estão concluindo a graduação? Os graduandos estão abandonando o curso de Física para fazerem outra graduação? Será que os professores, após se formarem, estão exercendo outras profissões fora dos muros das escolas? Portanto, a maioria dos docentes não têm a formação adequada para lecionar física, e mesmo assim, necessita motivar os estudantes para o aprendizado da Física na educação básica.
\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_
Como forma de propor soluções para esses problemas educacionais, as Universidades vêm realizando estudos voltados às novas estratégias para ensinar ciências. Há programas de Pós-Graduação empenhados em desenvolver pesquisas cujo objetivo é melhorar os processos de ensino e de aprendizagem para os estudantes da educação básica e superior, além de investir na área de formação continuada de professores para a educação básica.
Uma linha de pesquisa atuante com produção de trabalhos reconhecidos pela comunidade acadêmica e escolar, no ensino de ciências, de História, Filosofia e a Cultura Científica (HFC). A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) apresenta algumas competências gerais para os anos finais do Ensino Fundamental alinhadas com a HFC. Uma delas é 'Compreender as Ciências da Natureza como empreendimento humano, e o conhecimento científico como provisório, cultural e histórico.' (BRASIL,2017)
Questões de História e Filosofia da Ciência são essenciais para desenvolver as competências previstas pela BNCC de Ciências para os alunos no Ensino Fundamental (até o 9º ano). Percebemos também, a questão da valorização das manifestações culturais como uma das competências para ser desenvolvida nessas séries finais do Ensino Fundamental. Será possível unir manifestações culturais locais com questões históricas e filosóficas envolvendo a Ciência, de modo a contribuir para o desenvolvimento dessas competências nos estudantes do Ensino Fundamental? Acreditamos ser possível, por meio das produções artísticas e culturais capazes de incentivar o debate sobre questões científicas, históricas e filosóficas. Propomos o uso da Literatura de Cordel para ensinar a história da ciência e da tecnologia, com o objetivo de formar cidadãos mais críticos e engajados na melhoria da sua própria localidade.
Matthews (1995), fornece argumentos a favor da inclusão da História e da Filosofia da Ciência nos programas de formação de professores de Ciências e defende uma reaproximação entre estes e os historiadores, filósofos e sociólogos. Aqui, acrescentamos a importância dos artistas como agentes capazes de contribuir para o ensino de ciências. A partir da poesia popular pedagógica, conhecida como literatura de cordel, podemos tornar os debates sobre história, filosofia e sociologia da ciência (HFS) mais instigantes para os estudantes dos anos finais do Ensino Fundamental e o primeiro ano do Ensino Médio. Para Matthews (1995), a HFS da Ciência ao ser inserida corretamente no Ensino de Ciências pode humanizá-lo, e as aulas tendem a ficar mais atrativas aos alunos.
Em Martins (2007), notamos a existência de um pensamento consensual sobre incorporar elementos de História e Filosofia da Ciência (HFC) para melhorar o ensino e aprendizagem nas aulas de ciências, tanto na Educação Básica, quanto na Educação Superior. Quanto as principais dificuldades enfrentadas por professores em formação inicial e/ou continuada. Esse autor apresenta fortes razões para defender a presença da HFC nas salas de aula dos diversos níveis de ensino. No entanto, aponta algumas dificuldades ao adotar a HFC para fins didáticos. Uma delas é a falta de material didático adequado. A outra se refere a difícil compreensão na leitura e interpretação dos textos por parte dos alunos.
Considerando nossa experiência na área de ensino de física, defendemos os folhetos de cordel com aspectos didáticos que são caracterizados pelos enredos dos folhetos capazes de ensinar um novo conhecimento ao leitor-ouvinte, como instrumento pertinente para enfrentar essas duas dificuldades, pois os textos em
\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_
cordel são de fácil entendimento, por serem escritos em uma linguagem popular, comportando elementos próximos à oralidade, em versos rimados e metrificados que abordam temas de todas as áreas do conhecimento.
De acordo com Martins (1990), as possibilidades de adoção da História da Ciência no ensino de ciências configuram um campo de discussão muito rico, que já possui longo percurso na educação brasileira. Desde 1990, o autor já defendia a adoção dessa perspectiva. Um aspecto positivo para adotar a História da Ciência no processo de Ensino de Ciências defendido por Martins, R. A. (1990), é o didático, pois a HC pode ser usada como instrumento capaz de contextualizar o caráter técnico de cada disciplina, apresentando inclusive, os conteúdos sociais, políticos, humanos e culturais que influenciaram na consolidação de uma teoria científica aceita pela comunidade acadêmica. Tais conteúdos incluem: a biografia dos cientistas, as propostas alternativas à teoria ou a lei mais aceita na época, controvérsias científicas em torno de determinado fenômeno, e também as dificuldades enfrentadas no processo de fazer ciência, na aceitação de novas interpretações, sobre temas definidos como corretos.
E se a História da Ciência for transposta para o universo da literatura de cordel, abordando a biografia de cientistas, filósofos e demais personalidades envolvidas em questões científicas? Como em A História do Filósofo Giordano Bruno e a Santa Inquisição, um cordel integrante do livro Cordelistas Contemporâneos publicado em 2017, seguem algumas estrofes do folheto mencionado.
Meu povo se aproxime, Pois agora vou contar Uma história verídica Que acabei de estudar, Acredito que com rimas Posso bem versificar.
Pois eu pretendo falar Sobre a vida de Giordano: Frei, filósofo e teólogo Lá do solo italiano, Que sofreu inquisição, Foi um ato desumano. [...]
Grande filósofo Giordano Na sua peregrinação Esteve em Roma e Suíça Levando a nova lição, A proposta de Copérnico Que causou revolução. [...]
Após ceifarem a vida Deste filósofo Nolano, O algoz foi procurar Toda a obra de Giordano, E os livros que foram achados Queimaram no mesmo ano. Lima (2017, p.243-245)
Esse cordel foi inspirado no livro Do infinito, do Mínimo e da inquisição em Giordano Bruno, escrito por Marcos César Danhoini Neves, publicado em 2004. Será que poderíamos obter contribuições significativas em sala de aula se possuíssemos um material didático e paradidático adequado, capaz de unir a literatura de cordel com a História e Filosofia da Ciência?
Percebemos, tanto em Martins (2007) quanto em Martins (1990), uma aproximação entre o estudo da História da Ciência, compreendendo a evolução dos conceitos, leis e teorias ao longo da história da humanidade e as concepções sobre a Natureza da Ciência as quais envolvem questões filosóficas, culturais e epistemológicas acerca da noção de Ciência.
\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_
Para compreendermos a NdC, buscamos algumas definições utilizadas por Moura (2014), o qual formula um conceito de Natureza da Ciência (NdC), a partir de estudos nacionais e internacionais produzidos durante o período de três décadas, defendendo que a compreensão da NdC é fundamental para a formação de alunos e professores mais críticos conscientes de suas realidades.
Moura (2014), apresenta os cinco aspectos mais consensuais da NdC. Desses, destacaremos dois: a ciência como mutável, dinâmica e tendo como objetivo buscar explicar fenômenos naturais e a sua construção influenciada pelos contextos social, cultural, político, etc. Considerando dois aspectos da NdC, percorremos o caminho para investigar a construção da ciência, através do estudo da História e das influências internas e externas presentes nesse processo.
## A Literatura, os folhetos de Cordel e o Ensino de Ciências
Na atualidade, muitas são as pesquisas que estudam a relação entre a Literatura e o Ensino de Ciências, tanto no texto erudito quanto no texto popular. Groto e Martins (2015), investigaram o uso da Literatura de Monteiro Lobato no ensino de ciências por uma abordagem interdisciplinar, baseando-se em duas obras literárias daquele autor voltadas para o público infantil.
Para Groto e Martins (2015, p.220), 'os textos literários podem ser utilizados, também na problematização das visões de ciências que veiculam, inserindo questões sobre a natureza da ciência nos mais diversos níveis de ensino'. Conforme esses autores, a melhor opção para trabalharmos obras literárias nas aulas de ciências é em parceria com os professores de Língua Portuguesa, portanto, de maneira interdisciplinar, pois ocorre um enriquecimento dos diálogos entre as turmas e os professores. Assim, uma educação baseada no diálogo é o caminho para uma compreensão dos conhecimentos científicos pelos estudantes, ocorrendo a formação de um cidadão mais crítico e reflexivo, nutrido na pedagogia de Paulo Freire (1996) com toda a abordagem do diálogo em sua forma de compreender o mundo, apresentando-nos a educação como prática de liberdade.
Ainda segundo Groto e Martins (2015), existe uma viabilidade em trabalhar Literatura e História da Ciência nas aulas de ciências para chegarmos a resultados proveitosos. Sendo, assim percebemos que também é possível adotarmos a literatura de cordel contando fatos históricos, biografias de cientistas, aspectos controversos de teorias científicas, questões sobre a utilização da ciência na produção de bens em avanços tecnológicos de modo a produzir resultados positivos nas aulas de ciências.
No Brasil, possuímos um vasto acervo de poesia popular em versos, conhecida como Literatura de Cordel. Há inúmeras pesquisas cujo objeto de estudo é essa prática cultural oriunda da Europa que difundiu-se da região Nordeste para o restante do Brasil. No entanto, os enfoques dados a pesquisa vinculada a essa literatura, classificada no meio acadêmico como literatura popular, são voltadas as áreas das ciências humanas (Educação, História, Geografia, Letras, Antropologia). Atualmente, algumas pesquisas analisam o uso do cordel no ensino e na popularização das ciências, aproveitando-se de seu enraizamento na região nordeste, o que pode facilitar no processo de formação de leitores nordestinos e, com isso, favorecer a leitura de temas científicos.
\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_
Defendemos a Literatura de Cordel como alternativa para abordagem de questões sobre a História e a Filosofia da Ciência em sala de aula, observando que o folheto de cordel pode ser utilizado como um importante instrumento pedagógico. Por tratar-se de uma leitura simples, apresenta-se como espaço privilegiado para o debate sobre quase todos os temas, desde a evolução de conceitos científicos, como está presente no folheto A Química em Cordel: A evolução dos modelos atômicos (2017), escrito em parceria com os professores de Química, Américo Falcone e Francisco Dantas, seguem algumas estrofes desse folheto.
Peço a vocês paciência Irei na química falar Essa ciência arretada Que tudo vai misturar Ela estuda o solo, a água Na composição do ar
Está em todo lugar Em tudo que é matéria Do reino dos animais Ou dentro da bactéria Compondo todo o universo É uma ciência séria
Átomos formam matéria E é nisso que ela atua Nós vamos ver esses átomos Segundo a evolução sua Começando pelos gregos O processo continua. [...] Depois o Bohr foi chegando Criou nova explicação Pois Rutherford esqueceu De fazer a amarração E o modelo planetário Tendia à destruição. Lima, Almeida e Dantas Filho
(2017, p.1-7)
Acreditamos que é um folheto para ser trabalhado com os estudantes do 9º ano do Ensino Fundamental e 1º ano do Ensino Médio para iniciar o debate sobre os principais modelos atômicos. Assim, cremos que a Literatura de Cordel pode auxiliar os professores a dinamizarem suas aulas e torná-las mais atraentes aos alunos, ao tratarem de questões históricas sobre temas científicos, ou levantar debates acerca de como a ciência é construída, propiciando a abordagem das concepções de NdC.
Outros trabalhos que visam uma aproximação entre a literatura e o ensino é O uso da literatura de cordel como texto auxiliar no ensino de ciências do Ensino Fundamental da educação básica: uma abordagem quantitativa, trata-se de uma pesquisa em nível de mestrado, de autoria de Silva Filho (2010), que associou a literatura de cordel ao ensino de ciências. Outro artigo que encontramos foi Estudando Transferência de Calor Utilizando Folhetos de Cordel Científicos de Silva e Colaboradores (2017). A pesquisa produziu sequências didáticas para abordar conceitos científicos em sala de aula. A Cultura dos Cordéis: Território(s) de tessitura de saberes, tese de Doutorado em Educação escrita por Araújo (2007), que é um trabalho mais amplo que aponta os cordéis como veículos pedagógicos no âmbito da educação. Por último, o artigo Representações da Ciência e da tecnologia na literatura de cordel, de Almeida e colaboradores (2016), faz uma análise sobre a visão de ciência presente em 50 folhetos investigados e apresenta um panorama da pesquisa envolvendo a aproximação entre a literatura de cordel e a ciência. Traçaremos diálogos com essas e as demais pesquisas que relacionem a Literatura de Cordel, a Educação e o ensino de ciências.
\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_
Os textos da Literatura de Cordel, conforme nos relata Araújo (2007b, p. 5), saíram 'das feiras às universidades, e de lá para as escolas, o poeta popular, através dos cordéis, leva informações sobre os acontecimentos que ocorrem na sociedade brasileira e fora dela, para transmiti-los ao público leitor-ouvinte'. Em vários momentos históricos, os cordelistas, através de seus textos, trabalharam como verdadeiros educadores populares discorrendo sobre os avanços da ciência e da tecnologia, fenômenos astronômicos, a corrida espacial, o meio ambiente, a biografia de cientistas, entre tantos outros temas, de acordo com Moreira e colaboradores (2005) e Lima e colaboradores (2013).
Ao estudarmos a biografia de poetas, cantadores e repentistas, percebemos a influência da educação escolar nos fragmentos dos textos deles. Em Cantadores com quem cantei, Alves Sobrinho (2009, p.21), narra algumas de suas experiências de escolarização. Ao se referir a um dos seus professores diz que, 'Costumava ele nos incentivar à leitura do folheto popular, da poesia popular. Aos sábados havia argumento para, por este meio, ele observar o que havia ensinado na semana e consequentemente se nós tínhamos aprendido'. A partir do fragmento, percebemos o quanto a literatura de cordel foi responsável pela alfabetização no Nordeste. O relato data de 1929. Nesse contexto, o mestre-escola era considerado um homem de poucas letras, porém muito inteligente. Por ser um poeta popular, fazia uso dos folhetos para incentivar a leitura e escrita de seus estudantes.
Algumas contribuições literárias e didáticas viáveis são: o aproveitamento do texto literário do gênero poesia como recurso didático para a abordagem da História da Ciência; a aproximação do saber científico às práticas de oralidade possibilitando o entendimento do enredo apresentado de forma clara; a articulação entre cultura popular, conhecimentos tradicionais e científicos e a vivência da relação entre Ciência, Arte e Cultura.
Desse modo propomos uma sequência didática capaz de apresentar o conteúdo didático através da poesia do cordel, seguindo a cronologia apresentada:
- No primeiro momento o professor deve apresentar o folheto escolhido aos estudantes, fazendo uma leitura em voz alta de cada estrofe seguindo o ritmo próprio da poesia popular brasileira;
- No segundo momento o professor deve distribuir os folhetos aos estudantes e incentivar que a turma inteira leia o folheto juntos, pois o cordel didático é composto por 32 estrofes de seis ou sete versos cada e leva em média 8 minutos para ser lido, são textos de fácil compreensão e uma linguagem propicia para a leitura em voz alta;
- Após essas duas etapas o professor deve questionar os estudantes sobre os pontos principais presentes no cordel e criar vínculos entre os aspectos citados pelo poeta e os conteúdos apresentados no livro didático, além de discutir como ocorreu os avanços da ciência com relação ao assunto abordado no folheto;
- Depois de concluir esse momento da aula cujo objetivo é motivar os estudantes a conhecerem mais sobre os assuntos tratados no cordel, o professor deve apresentar um texto de outra fonte contendo o tema abordado e propor como desafio aos estudantes em grupo elaborarem uma ou duas estrofes de seis versos destacando um fato interessante que ele
\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_
compreendeu sobre o tema estudado para ser apresentado pelos estudantes na aula seguinte.
Defendemos que os folhetos da poesia popular são viáveis tanto para a atividade de popularização e discussão de temas científicos junto às comunidades extraescolares, quanto para o debate de questões de HC nas salas de aula da Educação Básica, em especial nos anos finais do Ensino Fundamental e para os estudantes do 1º ano do Ensino Médio. Por meio das manifestações culturais de um povo podemos apresentar-lhe qualquer tema, por mais complexo que seja o assunto abordado.
Esperamos fomentar o debate em torno de uma proposta de ensino de ciências com abordagem sobre questões de História e Filosofia da Ciência que contribua para a renovação dos métodos adotados atualmente em sala de aula. Defendemos que, a partir da inserção de temas de História e Filosofia da Ciência, por meio da Literatura de Cordel as aulas de ciências sejam mais cativantes e motivadoras desse modo, o ensino seja mais humanizado. Pois podem ser trabalhados de modo interdisciplinar, questões de cultura, arte e ciências.
## Referências
ALMEIDA, C; MASSARANI, L e MOREIRA, I. C. Representações da Ciência e da tecnologia na Literatura de Cordel. Revista Bakhtiniana, São Paulo, 11(3): 5-25, Set./Dez. 2016.
ALVES SOBRINHO, J. Cantadores com quem cantei. Campina Grande: Editora Bagagem, 2009.
ARAÚJO, P. C. A. A Cultura dos Cordéis: Território(s) de tessitura de saberes. Tese de Doutorado. Universidade Federal da Paraíba. João Pessoa, 2007a.
ARAÚJO, P. C. A. O olhar da educação na Literatura de Cordel. Revista Travessias. Nº 01, 2007b, p.1-13. Disponível em: http://e-revista.unioeste.br/index.php/travessias/article/view/2787, acesso em 21/05/2018 às 10:35h.
BRASIL. Ministério da Educação, Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Disponível em: http://basenacionalcomum.mec.gov.br/download-da-bncc/, Último acesso em 11/05/2018
BRASIL. Ministério da Educação-MEC, Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira-INEP, CENSO ESCOLAR DA EDUCAÇÃO BÁSICA 2016: Notas Estatísticas, 2017. Disponível em:
http://download.inep.gov.br/educacao\_basica/censo\_escolar/notas\_estatisticas/2017/notas\_estatistica s\_censo\_escolar\_da\_educacao\_basica\_2016.pdf, Último acesso em 11 de maio de 2018
FREIRE, P. Pedagogia da autonomia: Saberes Necessários a Prática docente. São Paulo: Paz e terra,1996.GROTO, S. R e MARTINS, A. F. P. Monteiro Lobato em aulas de ciências: aproximando ciência e literatura na educação científica. Ciência e Educação, Bauru, V. 21, n. 1, 2015, p. 219-238.
- LIMA, J. M. A História do Filosofo Giordano Bruno e a Santa Inquisição, um cordel. In: Cordelistas Contemporâneos: Coletânea 2017, Autores Associados, Gurupi e Barreiras-Ba, Editora Veloso e Nordestina Editora, p. 242-245, 2017.
- LIMA, J. M; ALMEIDA, A. A. F e DANTAS FILHO, F. F. A Química em Cordel: A evolução dos modelos atômicos, cordel, 8 p. Outubro de 2017.
- LIMA, J. M. Literatura de Cordel e ensino de física: uma aproximação para a popularização da ciência. 113 f.: il. color. Dissertação de Mestrado, Universidade Estadual da Paraíba, Centro de Ciências e Tecnologia, 2013.
- LIMA, J. M.; SOUSA, J. M.; GERMANO, M. G. A. Literatura de Cordel como veículo de popularização da ciência: uma intervenção no ensino de física. In: VIII Encontro Nacional de Pesquisa em Educação em Ciências (Enpec). Campinas, 5-9 dez 2011. Disponível em: http://www.nutes.ufrj.br/abrapec/viiienpec/resumos/R0934-1.pdf, acess.11 maio de 2018.
\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_
MARTINS, A. F. P. História e Filosofia da Ciência no Ensino: Há muitas pedras nesse caminho…. Caderno Brasileiro de Ensino de Física, v. 24, n. 1: p. 112-131, abr. 2007.
MARTINS, R. A, Sobre o papel da História da Ciência no Ensino, Boletim da Sociedade Brasileira de História da Ciência (9): 3-5, 1990.
MATTEWS, M. História, filosofia e ensino de ciências: a tendência atual de reaproximação. Caderno Brasileiro de Ensino de Física, Florianópolis, v. 12, n. 3, p. 164-214, jan. 1995.
MOREIRA, I. C.; MASSARANI, L. e ALMEIDA, C. (Orgs.). Cordel e a Ciência: a ciência em versos populares. Rio de Janeiro: Vieira & Lent: FIOCRUZ, 2005.
MOURA, B. A. O que é a Natureza da Ciência e qual sua relação com a História e Filosofia da Ciência. Revista Brasileira de História da Ciência, Rio de Janeiro, v. 7, n. 1, p. 32-46, jan | jun 2014.
NEVES, M. C. D. Do infinito, do Mínimo e da inquisição em Giordano Bruno. Ilhéus, Editora Editus, 2004.
SILVA FILHO, W. S. O uso da Literatura de Cordel como texto auxiliar no ensino de ciências do Ensino Fundamental da educação básica: uma abordagem quantitativa- Teresina, 2010, 88f.: Il. Dissertação (Mestrado) Pós-Graduação em Ensino de Ciências e Matemática da Universidade Luterana do Brasil- Canoas-2009.
SILVA, R. M.; RAFAEL, R. F.; NOBRE, F. A. S. e ARAÚJO, K. M. G. Estudando Transferência de Calor Utilizando Folhetos de Cordel Científicos. Revista do Professor de Física, Brasília, v. 1, n. 1, 2017.
\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_
Texto extraído automaticamente do PDF: podem existir erros de conversão, especialmente em fórmulas, tabelas e figuras.