INTERSEÇÃO ENTRE FÍSICA E LITERATURA: UM ESTUDO SOBRE A EVOLUÇÃO DO TEMA NO SIMPÓSIO NACIONAL DE ENSINO DE FÍSICA (SNEF)
Ligia Valente De Sá Garcia, Luiz Carlos Coelho De Oliveira, Dante Provietti, Glauce Cortêz Pinheiro Sarmento
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXIII
- Ano
- 2019
- Data
- 29/01/2019
- Linha de pesquisa
- Cultura E Arte No Ensino De Física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## INTERSEÇÃO ENTRE FÍSICA E LITERATURA: UM ESTUDO SOBRE A EVOLUÇÃO DO TEMA NO SIMPÓSIO NACIONAL DE ENSINO DE FÍSICA (SNEF)
## Ligia Valente de Sá Garcia 1 , Luiz Carlos Coelho de Oliveira 2 , Dante Marinho Provietti Cury 3 , Glauce Cortêz Pinheiro Sarmento 4
1 IFRJ, ligia.garcia@ifrj.edu.br
2 IFRJ, luizoelho@yahoo.com.br
3 IFRJ, danteprovietti@hotmail.com
4 IFRJ, glauce.sarmento@ifrj.edu.br
## Resumo
São inúmeros os desafios enfrentados no cotidiano do ensino de Física, a saber: a dependência excessiva do livro didático, a carga horária limitada destinada à disciplina, a predominância do método expositivo, a valorização de memorização de fórmulas e leis em detrimento da aprendizagem conceitual, entre outros. Com a intenção de mitigar estas dificuldades e contribuir para um ensino que pudesse ser mais eficaz, estudos têm apontado como alternativa a busca de interseção entre a Física e outras áreas de saber, quais sejam: teatro, artes, história, filosofia, música etc. Diante desse quadro, esta pesquisa objetiva investigar como a relação específica entre Física e Literatura tem sido tratada em um dos principais eventos do ensino de Física no Brasil, o Simpósio Nacional de Ensino de Física (SNEF). Para isso procedeu-se a uma pesquisa bibliográfica nos anais deste evento desde a sua primeira edição em 1970. Do conjunto de artigos selecionados, buscou-se analisar a evolução temporal da produção, o nível de ensino de que tratavam e as temáticas específicas de Física, entre outras, identificadas. Os resultados mostram que, apesar da recente preocupação pela temática, a mesma vem se destacando nas pesquisas sobre ensino de Física ao longo dos anos e ganhando importância no meio acadêmico.
Palavras-chave : Ensino de Física; Obstáculo ao ensino de Física; Física e Literatura;
## Introdução
Muitos são os desafios que permeiam o ensino de ciências na atualidade. Fourez (2003) os relaciona aos atores envolvidos no que ele chama de crise na área, a saber: alunos, professores de ciências, dirigentes da economia, os pais e os cidadãos - isso tudo dito de forma geral. No que diz respeito aos professores, por exemplo, afirma que esses vivenciam uma contradição entre sua formação e o que lhes é exigido na atuação docente:
Seus estudos não estão muito preocupados em introduzi-los nem à prática tecnológica, nem à maneira como ciências e tecnologias se favorecem, nem às tentativas interdisciplinares. Eles confundem frequentemente tecnologia e aplicação das ciências ou a aplicação de um sistema experimental. Quanto à interdisciplinaridade, apenas raramente lhes ensinamos como fazer intervir, para resolver uma situação problemática, as disciplinas pertinentes, sejam elas de ciências naturais ou humanas (FOUREZ, 2003, p. 3).
Voltando a atenção especificamente para o ensino de Física, Costa e Barros (2015) apontam que, na atualidade, ainda há 'forte dependência do livro didático, método expositivo, reduzido número de aulas, currículo desatualizado e descontextualizado e profissionalização insuficiente do professor' (p. 10981). Corroborando esta ideia, Moreira (2000) destaca que nos últimos anos, as práticas curriculares no ensino da disciplina têm se referenciado em livros didáticos de má qualidade e pela excessiva preocupação com os programas de vestibular.
Outro problema apontado por diversos estudos é a frequente matematização do ensino de Física, ou seja, a disciplina é pautada na resolução de fórmulas e listas de exercícios que buscam testar estritamente os conhecimentos matemáticos dos alunos (MENDES e BATISTA, 2016; PIETROCOLA, 2002; ZANETIC, 2005). Consequência direta disto é a atribuição do fracasso do aluno na disciplina de Física à insuficiência de seus conhecimentos matemáticos (PIETROCOLA, 2002).
De acordo com Mendes e Batista (2016), reduzir o ensino de Física à pura técnica matemática evita os questionamentos conceituais, bem como 'gera uma formação limitada, estreita e acrítica' (p. 758). Para Almeida (2012), há uma forte influência da formação de professores nesse cenário, uma vez que, durante a licenciatura, o ensino é pautado quase exclusivamente na resolução de exercícios, contribuindo assim para a construção de um ideário distorcido sobre o que é ser professor e ensinar Física.
Este cenário nos leva a refletir se a disciplina tem conseguido atingir seu real propósito, que seria mostrar as possibilidades oferecidas pela Física como forma de construir entendimento sobre o mundo que nos cerca (PIETROCOLA, 2001).
Como alternativa a esta questão, muitos estudos têm demonstrado o potencial da interseção entre a Física e outras áreas de conhecimento como teatro (OLIVEIRA; GOMES, 2016), arte (ZANETIC, 2006), literatura (ZANETIC, 2006; LIMA; RICARDO, 2015) etc. A articulação entre a Física e outras formas de cultura tem potencial para oferecer aos estudantes a compreensão de 'visões de mundo complementares à simples descrição matemática dos fenômenos físicos (...), garantindo uma melhor compreensão da Física enquanto atividade humana' (LIMA e RICARDO, 2015, p. 1).
Atendo-nos à reflexão particular sobre a articulação entre Física e Literatura, destacamos que ambas as áreas de saber, apesar da aparente distinção, apresentam convergências. A este respeito, Lima e Ricardo (2015) elucidam que:
(...) tanto para a física, quanto para a literatura, existe um momento de arte e de criação, onde tanto o cientista, quanto o literário, encontram-se em um mesmo 'limbo' de imaginação. A diferença surge depois, principalmente, entre os métodos utilizados, tanto por um quanto por outro (p. 579).
Em outro estudo, Lima (2015) defende a ideia de que a imaginação trabalhada didaticamente por meio da literatura pode servir de conexão para as aprendizagens conceitual e não conceitual, para os conhecimentos não científico e científico, se convertendo em estratégia de ensino potente.
Além disso, a Literatura seria um espaço de estímulo à imaginação, também entendida como terreno de experimentação imaginária, o que, em tese, a aproximaria da Física, na medida em que esta disciplina fabula conceitos. Deste ponto de vista, podemos dizer que existe entre os dois campos de saber uma
interseção a ser explorada. Esse caminho já foi previamente percorrido por diversos pesquisadores, como é o caso de Zanetic (2006).
Nos documentos oficiais como os Parâmetros Curriculares Nacionais (2002) em sua versão complementar (PCN+) há a orientação sobre a possibilidade de relação entre Física e Literatura quando se propõe que no ensino daquela disciplina:
- (...) podem ser utilizados os meios de informação contemporâneos que estiverem disponíveis na realidade do aluno, tais como notícias de jornal, livros de ficção científica, literatura , programas de televisão, vídeos, promovendo diferentes leituras e/ou análises críticas. (BRASIL, 2002, p. 36, grifos nossos).
Apesar de presente até mesmo nos documentos norteadores da educação, a necessidade de articulação entre a Física e outras áreas de conhecimento é bastante recente. Lima e Ricardo (2015) apontam que, no Brasil, a primeira obra que teoriza sobre a aproximação da Física a uma dimensão cultural se dá na tese de Zanetic em 1989. Deste tempo até os dias atuais, talvez ainda tenhamos avançado pouco nessa direção.
A interseção entre a Física e a Literatura, suas nuances e uma possível prática interdisciplinar em sala de aula podem ser uma promessa de lidar com o quadro de dificuldades brevemente apontado. A possibilidade de um ensino interdisciplinar que permita ao aluno relacionar o conteúdo desses campos de saber ao fluxo da vida dá ao processo de aprendizagem uma densidade vivencial. Sendo assim, se aposta que tal ponte pode auxiliar nos processos de aprendizagem e de formação do cidadão-aluno que sejam efetivos.
## Metodologia
Este estudo tem como objetivo principal investigar como a interseção entre Física e Literatura tem sido tratada desde a realização do primeiro Simpósio Nacional do Ensino de Física. São questões da pesquisa: qual lugar a relação entre Física e Literatura ocupa nas pesquisas sobre o ensino de Física apresentadas no SNEF? Como se deu a evolução desta temática em termos numéricos ao longo dos anos? Em que níveis de ensino esta é predominante?
Para atingir os objetivos deste estudo e compor nossa amostra, consultamos todas as atas dos SNEFs desde sua primeira edição (período de 1970 a 2015). Com exceção do Simpósio de 1989, do qual não foi possível localizar a ata online.
A busca foi realizada sob a mediação da palavra-chave literatura nas páginas das atas do evento. Foram selecionados aqueles textos em que a referida palavra encontrava-se no título ou nas palavras-chave dos trabalhos apresentados. A partir dos resultados da pesquisa procedeu-se à leitura dos resumos para verificar aqueles que se enquadravam no escopo da pesquisa - atentando, por exemplo, para a diferença entre literatura em um sentido largo, isto é, como produção escrita relativa a um assunto, e Literatura em um sentido estrito, como manifestação artística. Como resultado dessa busca encontramos um total de 24 trabalhos, que posteriormente, foram lidos na íntegra.
Para fins de estudos iniciais, a análise desse conjunto foi realizada identificando a evolução temporal da produção, o nível de ensino de que tratavam e as temáticas específicas de Física, entre outras que identificamos nos trabalhos.
## Caracterização geral dos trabalhos sobre Literatura nas Pesquisas em Ensino de Física
## (i) Evolução temporal:
O gráfico a seguir apresenta o número de trabalhos que abordam a Física e a Literatura identificados na amostra considerada, no período entre 1970 e 2015.
Gráfico 1: Número absoluto de trabalhos que abordam a Literatura apresentados entre 1970 e 2015
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Verificamos que os primeiros trabalhos que abordam a relação entre Literatura e Física foram apresentados no SNEF no ano de 2003. A partir de 2011 o crescimento do número de publicações é realmente explícito, e podemos considerar que essa temática vem se consolidando em nossa área de ensino de Física.
Para situar esses números, é importante observar que o número dos trabalhos da área de ensino de Física que se destinam à Literatura é muito reduzido, em relação ao total de trabalhos apresentados nos SNEFs, a saber: em média, uns 550 nos últimos anos.
## (ii) Nível de ensino
Uma vez que o foco principal do presente trabalho é uma reflexão sobre a inserção de interfaces entre a Literatura e a Física, buscamos caracterizar o nível de ensino considerado nas produções analisadas. Os resultados estão apresentados no Gráfico 2. É importante destacar que em muitos trabalhos há considerações genéricas, que independem do nível de ensino, aqui identificadas por nível não identificado.
Gráfico 2: Distribuição trabalhos por níveis de ensino.
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Dos 24 trabalhos publicados no período de 1970 a 2015, 17 trabalhos, o que corresponde a 68%, são voltados ao Ensino Médio. Isso corrobora com a tendência de renovação curricular que foi estabelecida em nossa área. Ainda nesse período, temos 12% dos trabalhos voltados ao Ensino Superior, e também 12%, ao Ensino Fundamental, apenas três trabalhos para cada nível, além disso, 8% de trabalhos que não especificam o nível de Ensino totalizando apenas dois trabalhos 1 .
## (iii) Áreas temáticas referentes
Elaboramos uma tabela inicial, na qual identificamos detalhadamente todas as abordagens relacionadas na interface entre Literatura e Física. O processo de síntese dessa tabela inicial resultou no Gráfico 3, no qual apresentamos os trabalhos distribuídos em oito 'áreas temáticas' que identificamos nos trabalhos analisados.
Gráfico 3: Número absoluto de trabalhos distribuídos nas temáticas identificadas
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Verificamos que a temática que mais se destaca é a que relaciona a Literatura com a FMC (Física Moderna e Contemporânea), com 7 trabalhos, o que corresponde a 29% do total. Um desses trabalhos aborda a FMC de maneira geral, dois relacionam com a Mecânica Quântica, mais dois com a Relatividade e os outros dois com a figura de Einstein.
De acordo com Valente (2017), a inserção da Física Moderna e Contemporânea no Ensino Médio consolidou-se nos últimos anos como uma forte tendência na área de Pesquisa em Ensino de Física. Ao longo das duas últimas décadas, cada vez se torna mais presente a discussão acerca da necessidade da introdução desses conteúdos, através de investigações de diversas naturezas, além de levantamento de concepções, propostas e sequências didáticas.
A segunda temática que se destaca, com quatro trabalhos, é a interface da Literatura com arte e imaginação, com 17%. Na sequência, temos a temática Óptica/Ondulatória com três trabalhos. Diga-se que em relação à óptica são abordados os eclipses e a lua. Também a Astronomia conta com três trabalhos (17%), com temas de Geocentrismo e Cosmologia. Os outros trabalhos abordam relações entre a Física e a Biologia (8%), a História da Física (4%) e um último aborda a temática Energia (4%).
## Considerações finais
O primeiro trabalho que aborda a relação entre Literatura e Física no limite da amostragem considerada foi apresentado no SNEF do ano de 2003. Destacamos que, dos 24 trabalhos publicados, 68% são voltados ao Ensino Médio. Isso corrobora com a tendência de renovação curricular que foi estabelecida em nossa área, como explicitamos inicialmente.
É importante salientar que este trabalho tem caráter preliminar. Isso não significa que ele seja esvaziado de relevância, pois, muito embora se possa mapear nos anais do SNEF um lastro de contribuições nesse sentido que remete a 2003, ainda se trata de um exercício pioneiro.
Finalmente, os benefícios de tal empreitada ainda são em sua maioria algo a ser testado no cotidiano escolar, tanto no Ensino Médio (como já aponta o grosso da
amostragem aqui analisada) quanto no Ensino Superior - ressalte-se que este vetor de investigação ainda precisa ser trilhado.
## Referências
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COSTA, L. G.; BARROS, M. A. O ensino de Física no Brasil: Problemas e desafios. XII Congresso nacional de educação. Curitiba, PR - Out. 2015.
FOUREZ, G. Crise no ensino de Ciências? Investigações em Ensino de Ciências. V. 8, N. 2, 2002.
LIMA, L. G de; RICARDO, E. C. A literatura como ferramenta didática no ensino de mecânica quântica para o ensino médio. Anais do XXI Simpósio Nacional de Ensino de Física (SNEF), Uberlândia, MG - Jan. 2015.
LIMA, L. G de; RICARDO, E. C. Física e Literatura: uma revisão bibliográfica. Caderno Brasileiro de Ensino de Física, v. 32, n. 3, p.577-617, dez. 2015.
MENDES, G. H. G. I.; BATISTA, I. L. Matematização e ensino de Física: uma discussão de noções docentes. Ciência e Educação, Bauru, v. 22, n. 3, p. 757-771, 2016.
MOREIRA, M. A. (2000). Ensino de Física no Brasil: Retrospectiva e Perspectivas. Revista Brasileira de Ensino de Física, São Paulo, v.22, n.1, p. 94-99.
PIETROCOLA, M. A matemática como estruturante do conhecimento físico. Caderno Catarinense de Ensino de Física, Florianópolis, v.19, n.1, p. 89-109, 2002. Disponível em: https://periodicos.ufsc.br/index.php/fisica/article/view/9297 . Acesso em: 4 jul. 2018.
PIETROCOLA, Maurício. Construção e realidade: o papel do conhecimento físico no entendimento do mundo. In: (Org.). Ensino de Física: conteúdo, metodologia e epistemologia numa concepção integradora. Florianópolis: EDUFSC, 2001. p. 932
VALENTE, Ligia; KAWAMURA, Maria Regina D. A Física Moderna e Contemporânea nas Pesquisas em Ensino de Física. Atas do XXII SNEF, 2017.
ZANETIC, J. Física e Arte: uma ponte entre as duas culturas. Instituto de Física da Universidade de São Paulo: 2006.
ZANETIC, J. Física e Cultura. Ciência e Cultura, São Paulo, v. 57, n. 3, p. 21-24, 2005.
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