Divulgação e Ensino de Ciências partindo de interconexões entre Ciência e Arte
Ricardo Meloni Martins Rosado, Riama Coelho Gouveia
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXIII
- Ano
- 2019
- Data
- 29/01/2019
- Linha de pesquisa
- Cultura E Arte No Ensino De Física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## Divulgação e Ensino de Ciências partindo de interconexões entre Ciência e Arte
## Ricardo Meloni Martins Rosado 1 , Riama Coelho Gouveia 2
- 1 Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo campus Sertãozinho, ricardo.meloni@ifsp.edu.br
- 2 Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo campus Sertãozinho, riama@ifsp.edu.br
## Resumo
Este trabalho descreve a experiência de um projeto de extensão criado no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo (IFSP) - campus Sertãozinho no ano de 2016 no qual teatro e paródias musicais foram utilizados para ensinar Física de uma maneira atraente e divertida para os alunos. O projeto rendeu apresentações no III Congresso de Extensão e Mostra de Arte e Cultura (CEMAC) do IFSP realizado em 2016 no município de Sertãozinho e no XXII Simpósio Nacional de Ensino de Física (SNEF) realizado em 2017 no município de São Carlos. Em 2017 e 2018, outros professores passaram a fazer parte do projeto, que passou a incluir também outras manifestações artísticas, como histórias em quadrinhos, modelagem e cinema, permitindo a participação de maior número de estudantes. Além de apresentar a ciência de forma diferenciada para jovens e adultos que assistiram às apresentações e visitaram as exposições, notou-se que o projeto serviu também para motivar a discussão de temas como Física Moderna e História da Ciência em sala de aula.
Palavras-chave : Extensão; Divulgação Científica; Artes.
## Introdução
As pessoas em geral olham para as Ciências da Natureza, em especial para a Física, sob o ponto de vista de sua racionalidade, do rigor da linguagem matemática, provavelmente motivadas pela forma como tiveram contato com esse conhecimento no processo escolar. Certamente as ciências naturais, e a Física em particular, utilizam a razão e o rigor matemático em sua estrutura e desenvolvimento, mas estas ciências também possuem um lado de contemplação, de admiração, que estabelecem uma relação bastante próxima com as atividades artísticas. Aproveitar essa conexão, buscando destacar a beleza e a criatividade da ciência, utilizando-se da arte para ensinar e divulgar Física, Química, Biologia, é um recurso já explorado por diversos autores.
- O teatro, por exemplo, foi utilizado por Júdice e Dutra (2001) como uma ferramenta para contextualização da história dos cientistas estudados no ensino médio. Esta forma de expressão artística também foi discutida por Zorzi Sá, Vicentin e Carvalho (2010) como forma de contextualizar os conhecimentos científicos, na história e no cotidiano. Uma parceira próxima do teatro, a dança, também está presentes em trabalhos que discutem o ensino de física de maneira mais contextualizada e atraente (VIEIRA, 2015).
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A música também é um recurso bastante utilizado para ensinar e difundir a ciência. Paródias musicais, por exemplo, são usadas por professores para memorização e síntese de conteúdos, como mostram Deponti et. al (2013), que utilizam a composição de paródias para o estudo de calorimetria. No XXII Simpósio Nacional de Ensino de Física (SNEF), foi apresentada uma oficina sobre construção de paródias (SANTOS et al, 2017). Mesmo as letras originais de músicas existentes podem servir para contextualizar conteúdos científicos e promover reflexões, como apontam Silveira e Klouranis (2008).
Os audiovisuais, em suas diversas formas, são expressões artísticas que igualmente podem contribuir para a aprendizagem de conceitos científicos (ROSA, 2000), bem como para a divulgação da ciência. Sartori (2012), por exemplo, discute de que maneira as produções de vídeos sobre conteúdos científicos podem auxiliar o trabalho do professor de Física.
Assim, buscando explorar as inter-relações entre as ciências da natureza e as expressões artísticas como forma de aprimorar o ensino e a divulgação da ciência, motivado por uma apresentação de paródias musicais e um pequeno teatro sobre Física de Partículas feita por estudantes do ensino médio na Semana Nacional de Ciência e Tecnologia (SNCT) de 2014 1 , foi criado, no ano de 2016, o projeto de extensão Ciência e Arte, no IFSP campus Sertãozinho.
## Atividades Realizadas
Em 2016, o projeto foi coordenado por um professor de Física e contou com a participação de um monitor bolsista, que ficou encarregado de organizar as atividades de teatro e música. No ano seguinte, houve a inclusão de mais uma professora de Física, uma de Química, uma de Biologia e uma de Artes além da colaboração de dois monitores bolsistas. O projeto passou a abordar também com atividades de história em quadrinhos, astronomia, nanoarte e reprodução de experimentos e modelos atômicos.
Para o ano de 2018 o projeto conta com a participação de dois professores de Física, um monitor bolsista e mais seis monitores voluntários. As atividades em desenvolvimento neste ano incluem a música, a dança, o cinema e as artes visuais, destacando conceitos relacionados à diferentes áreas da Física.
## Atividades de Música
Duas das paródias musicais trabalhadas no projeto Ciência e Arte já haviam sido apresentadas na SNCT de 2014: Lépton Lépton (paródia da música Lepo Lepo do grupo Psirico) e Neutrino da Porteira (paródia de Menino da Porteira de Teddy Vieira e Luís Raimundo). A terceira canção trabalhada foi É Preciso um LHC, paródia de É Preciso Saber Viver de Roberto Carlos e Erasmo Carlos). Os próprios alunos ficaram responsáveis pelo figurino e coreografias para as músicas.
O trabalho foi apresentado no III Congresso de Extensão e Mostra de Arte e Cultura (CEMAC) do IFSP realizado em 2016 no campus Sertãozinho. Em 2017, o trabalho foi apresentado na I Jornada IFSP, realizada no campus Cubatão, com a inclusão da canção Faroeste Newtoniano, paródia de Faroeste Caboclo da Legião Urbana.
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Figura 01: Apresentação no III CEMAC em Sertãozinho - SP
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Em 2018, além da reapresentação das paródias, com a possibilidade de inclusão de novas produções, as atividades de música estão incluindo discussões sobre a física do som e dos instrumentos musicais, com aulas de diferentes instrumentos e a produção de vídeo sobre o assunto.
## Atividades de Teatro
Diferentemente das atividades de música, que já haviam tido uma experiência anterior, as atividades de teatro tiveram que começar do estágio inicial.
A peça trabalhada foi Alice no País da Física, inspirada no livro Alice no País das Maravilhas de Lewis Carroll. O texto, de autoria do coordenador e do monitor do projeto, narra a história de Alice, uma menina jovem demais para ter aulas de Física na sua escola, que um dia cai em um buraco e encontra cientistas em um lugar cheio de surpresas.
- O objetivo central da peça foi repassar o conhecimento em Física para alunos do Ensino Fundamental II e Ensino Médio de uma forma descontraída. O humor esteve presente na maior parte da peça, que incluiu referências a filmes e artistas que fazem parte da vida da maioria dos adolescentes.
A peça foi apresentada no III CEMAC no mesmo dia em que foram apresentadas as paródias. Após esta apresentação, o grupo foi convidado a apresentar novamente a peça no XXII SNEF, que ocorreu em São Carlos - SP. A apresentação foi uma oportunidade de levar o trabalho do grupo para outro município e de divulgá-lo a professores de diversas regiões do Brasil.
Figura 02: Apresentação no XXII SNEF em São Carlos - SP
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As apresentações de música e teatro realizadas no CEMAC e no SNEF foram filmadas e, em seguida, disponibilizadas no canal Ciência e Arte - IFSP , criado no site YouTube para a divulgação dos trabalhos do grupo . 2
## Atividades de História em Quadrinhos
No ano de 2017, como parte da ampliação do projeto, foi desenvolvida, em duas turmas de Ensino Médio do IFSP campus Sertãozinho, uma atividade didática com a construção de histórias em quadrinhos sobre Relatividade Restrita para exposição à comunidade escolar.
Como primeira etapa foi realizada uma aula expositivo-dialógica tratando dos conceitos científicos da teoria, incluindo a utilização de vídeos sobre o assunto, disponíveis na internet. Em seguida foi fornecido aos estudantes o texto 'Limite da Velocidade da Luz', capítulo do livro 'O incrível mundo da Física Moderna' (GAMOW, 1976), cuja história se desenrola num mundo onde a velocidade da luz é muito menor do que no mundo real e onde, portanto, os efeitos da relatividade restrita são enfatizados.
Após a leitura do texto, foi proposto aos estudantes que produzissem uma história em quadrinhos que envolvesse um ou alguns dos conceitos abordados na aula ou no texto, desenhadas a mão livre ou com uso de recursos digitais. As histórias produzidas foram formatadas e expostas na forma de painéis.
Figura 03: Exposição de Histórias em Quadrinhos sobre Relatividade
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Os assuntos escolhidos pelos grupos foram: dilatação do tempo, soma de velocidades, compressão das distâncias e paradoxo dos gêmeos. Ainda que alguns grupos escolhessem temas iguais todas as histórias foram muito diferentes, com diferentes roteiros e personagens. Quanto aos conceitos abordados, oito dos dez grupos trataram corretamente dos conceitos escolhidos, ilustrando com desenhos os efeitos relativísticos de forma correta; um dos grupos mostrou uma pequena confusão, ilustrando de forma equivocada a direção de compressão das distâncias em relação à direção do movimento e outro construiu a história de forma correta, mas ao final afirmou ser possível a um objeto atingir a velocidade da luz.
Em relação à exposição, tanto os alunos que participaram da atividade quanto os demais estudantes, bem como servidores, mostraram-se curiosos e pararam para observar os painéis. Alguns estudantes e servidores chegaram a procurar o
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professor responsável pela atividade para fazer questionamentos, tanto sobre seu conteúdo quanto sobre seu aspecto pedagógico.
## Atividades de Astronomia
Esta foi a área que apresentou maior número de alunos interessados para o ano de 2017, contando inicialmente com 68 alunos inscritos de um total de 102, de modo que foi necessário dividir o grupo em dois, um no período da manhã e outro no período da tarde. Cada monitor ficou responsável por um grupo.
- O período da manhã contou com a participação de estudantes de diferentes turmas do ensino técnico integrado ao Ensino Médio, tanto do curso de química quanto de automação industrial. A primeira atividade escolhida pelos estudantes foi a montagem de um sistema solar em escala. Para tanto, os estudantes mediram o tamanho da escola, calcularam as proporções para distâncias e tamanhos dos planetas e construíram totens para representá-los em tamanho proporcional, sempre auxiliados pela professora e por um monitor do período.
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Figura 04: Representação do Sol e planetas mais próximos no Sistema solar em escala (à esquerda) e alunos participantes ao lado do totem do planeta Netuno (à direita)
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Finalizada a construção do sistema solar o grupo decidiu fazer 'nebulosas em garrafas de vidro'. Foi realizada então uma aula sobre nebulosas, complementada por uma palestra no Observatório Astronômico de São Carlos sobre evolução estelar. Os estudantes fizeram testes de fabricação das nebulosas em potes de vidro caseiros e, após estabelecerem procedimentos e materiais adequados, fizeram nebulosas em garrafinhas de vidro para exposição na SNCT de 2017.
Figura 05: Nebulosas de garrafas de vidro
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O grupo que desenvolveu as atividades no período da tarde contou com a participação de estudantes de cursos superiores do IFSP campus Sertãozinho, especialmente da Engenharia Elétrica e Licenciatura em Química. Após uma apresentação inicial de alguns assuntos de astronomia que poderiam ser abordados pelo grupo de trabalho, os estudantes optaram por aprofundar o tema espectroscopia, pesquisando e discutindo a emissão e absorção de radiação eletromagnética pelas estrelas. Após algumas reuniões para que os estudantes se apropriassem de conhecimentos sobre o assunto, os mesmos prepararam uma oficina a ser aplicada com estudantes do ensino médio. Foram escolhidas como atividades práticas da oficina a observação do espectro de diferentes lâmpadas com espectroscópios de baixo custo, a observação da luz emitida pela queima de diferentes sais e a simulação Átomo de Hidrogênio , presente em um site de objetos de aprendizagem 3 . A oficina foi trabalhada em todas as turmas de primeiro e segundo ano do ensino médio do IFSP campus Sertãozinho, com resultados satisfatórios em termos da participação dos estudantes e no aspecto da aprendizagem.
## Atividades de Nanoarte
A nanoarte consiste na editoração gráfica de imagens de nanoestruturas obtidas com uso de microscópios, especialmente os microscópios eletrônicos. Num primeiro momento, portanto, as atividades de nanoarte do projeto consistiram em explicar aos estudantes o que são nanoestruturas e como funcionam os diferentes microscópios, o que foi feito através de aulas expositivo-dialógicas com o grupo de interessados.
Em seguida foram disponibilizadas imagens obtidas em microscópios óptico e eletrônicos do campus Sertãozinho do IFSP e do NanOLab da UFSCar, de nanoestruturas, especialmente nanopartículas e nanofios, produzidos no IFSP campus Sertãozinho em atividades de iniciação científica. Os participantes do Ciência e Arte escolheram algumas imagens e realizaram a edição das mesmas em softwares de editoração gráfica.
Durante o ano de 2017 foram, desta forma, criadas nove gravuras de nanoarte, organizadas em painéis e estruturadas para exposição, ao lado das respectivas imagens originais das nanoestruturas e de um texto explicativo sobre o conteúdo das imagens. O material foi exposto na Feira do Livro de Sertãozinho, ao lado de uma amostra de nanofios crescidos no IFSP, despertando o interesse dos visitantes, que puderam ter contato direto com processos diretamente relacionados ao desenvolvimento científico atual. O trabalho também foi exposto na Semana Nacional de Ciência e Tecnologia de 2017, no campus Sertãozinho, que contou com a visitação de centenas de estudantes de ensino fundamental da cidade e região.
Em 2018 alguns estudantes já procuraram o professor responsável pelo projeto demonstrando interesse no desenvolvimento de novos produtos de nanoarte. Além de implementar esta atividade, pretende-se, no decorrer deste ano, organizar uma exposição permanente nas dependências da escola do material produzido pelos estudantes.
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Figura 06: Nanoarte
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## Atividades de Reprodução de Experimentos e Modelos Atômicos
Os grupos de reprodução de experimentos e modelos atômicos ocorreram de forma simultânea. Nele os estudantes construíram os modelos atômicos de Dalton, Thomson e Rutherford-Bohr em estruturas tridimensionais. Algumas das estruturas tridimensionais trabalharam com a ideia de movimento, reproduzindo de forma lúdica e interativa os experimentos relacionadas às descobertas atômicas. Para o experimento de Rutherford, por exemplo, utilizou-se uma fibra ótica para representar o feixe de partículas alfa e uma folha de papel metálico para representar a folha de ouro. O material foi exposto na SNCT de 2017.
Figura 07: Modelos atômicos de Dalton, Thomson e Rutherford
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## Considerações Finais
Ao longo destes mais de dois anos de desenvolvimento do projeto Ciência e Arte no campus Sertãozinho do IFSP pode-se constatar algumas contribuições que o uso de diferentes estratégias pedagógicas pode trazer ao ensino e à divulgação da Ciência.
De forma direta, percebe-se a participação de número significativo de estudantes na realização das diferentes atividades, muitos destes que, a princípio, não demonstravam interesse nos conteúdos científicos em sala de aula. O projeto permitiu ainda que os professores levassem à sala de aula debates sobre Física Moderna e História da Ciência, assuntos pouco explorados pelos materiais didáticos tradicionais.
Outro aspecto de destaque é o amadurecimento promovido pela organização das atividades, em termos de responsabilidade com as práticas
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escolares. Como são os estudantes que definem os materiais necessários e, por vezes, empenham-se na aquisição dos mesmos, além de acompanharem todas as etapas do trabalho, compreendem de forma mais ampla os vários aspectos associados ao desenvolvimento de projetos coletivos.
Em termos de divulgação, vale mencionar tanto a divulgação da ciência, ao público que concorre às exposições realizadas em feiras e eventos, quanto a divulgação do próprio IFSP, cujo nome fica associado a uma imagem diferenciada de educação.
Com as atividades deste ano de 2018 espera-se dar continuidade à divulgação da ciência, especialmente com a realização das seções de cinema sobre temáticas científicas, bem como trazer novas contribuições, em termos de ensinoaprendizagem, aos estudantes participantes do projeto, em suas diferentes formas.
## Referências
DEPONTI, M.A.M.; FERNANDES, M.B.; VASCONCELOS, F.E.O. Composição de paródias musicais no ensino de Física. In: SIMPÓSIO SUL-RIO-GRANDENSE DE PROFESSORES DE CIÊNCIAS E MATEMÁTICA. Pelotas, 2013. Resumos...
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