BURACOS NEGROS NA LINGUAGEM AUDIOVISUAL DA FICÇÃO CIENTÍFICA: ANÁLISE DE UM EPISÓDIO DE JORNADA NAS ESTRELAS - A SÉRIE CLÁSSICA
Alessandra De Souza Teixeira, Henrique Cesar Da Silva
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXIII
- Ano
- 2019
- Data
- 29/01/2019
- Linha de pesquisa
- Cultura E Arte No Ensino De Física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## BURACOS NEGROS NA LINGUAGEM AUDIOVISUAL DA FICÇÃO CIENTÍFICA: ANÁLISE DE UM EPISÓDIO DE JORNADA NAS ESTRELAS - A SÉRIE CLÁSSICA
## Alessandra de Souza Teixeira 1 , Henrique Cesar da Silva 2
1 UFSC/PPGECT/Mestranda bolsista CAPES, alessandrasouzateixeira@gmail.com
2 UFSC/MEN/CED/PPGECT, henriquecsilva@gmail.com
## Resumo
A circulação do conhecimento é a sua textualização em diferentes suportes. Um exemplo é a divulgação científica em suas mais diferentes textualizações: textos em sites, artigos, livros, jornais, imagens, vídeos, filmes, entre outros. A ficção científica em seu formato de filmes e séries é um meio de circulação da ciência e, também, de divulgar o conhecimento científico. A escolha do tema buracos negros se deve à grande notoriedade e relevância no meio científico, fundamentado na Teoria da Relatividade Geral. Também, está bastante presente nas mídias, incluindo notícias, filmes e séries de ficção científica. Este trabalho visa compreender a circulação desse conhecimento em um episódio de Jornada nas Estrelas - A Série Clássica. O tema também foi escolhido por se tratar de um tópico de Física Moderna e Contemporânea, cujo estudo é importante na educação básica. O artigo está estruturado de forma a introduzir a interlocução entre ficção científica, cinema, circulação da ciência e educação em ciências; apresenta elementos da linguagem audiovisual e do cinema de ficção científica como base para construir categorias de análise do episódio de seus efeitos de sentido; e na sequência expõe os resultados das análises do episódio a partir deste dispositivo.
Palavras-chave : Buracos Negros; Jornada nas Estrelas; Ficção Científica; Linguagem Audiovisual; Circulação e Textualização da Ciência.
## Introdução
A ficção científica é capaz de proporcionar expectativas sobre o futuro, inspirando pessoas a seguirem carreiras científicas e tecnológicas. Com o surgimento do cinema no início do século XX, a ficção científica ganhou grande destaque nas telonas - desde curtas a longas-metragens, séries para televisão, desenhos animados e mais recentemente, webséries - além do vasto campo da literatura. A ficção científica pode ser considerada tanto um gênero literário como cinematográfico.
Este artigo é um recorte de um trabalho de pesquisa que está sendo desenvolvido com o objetivo de analisar obras de ficção científica em seu formato audiovisual, isto é, filmes e séries. As obras fazem parte da franquia Jornada nas Estrelas, criada por Gene Roddenberry na década de 1960. O presente escrito traz um recorte de análise de um episódio da primeira temporada da série Jornada nas Estrelas - A Série Clássica, a qual foi ao ar pela primeira vez em 1967 na TV norteamericana. A série é estruturada em episódios de 50 minutos distribuídos em 3 temporadas para apresentar a história de uma tripulação terrestre 1 em uma missão de 5 anos a bordo da nave espacial U. S. S. Enterprise . A história se passa no
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século XXIII com o objetivo de fazer exploração científica, encontrar outras civilizações e descobrir coisas novas, com o slogan 'audaciosamente indo onde nenhum homem jamais esteve'. Como toda obra de ficção científica, Jornada nas Estrelas é constituída por uma terminologia científica. As histórias giram em torno de como a evolução humana conseguiu superar obstáculos de variadas naturezas, seja no campo moral, civilizatório, econômico, político, ambiental, científico e tecnológico - características típicas de obras utópicas. Os episódios exploram diversos temas da física, como por exemplo, viagem no tempo, dobra espacial, universos paralelos, antimatéria, teletransporte e buracos negros. A presente pesquisa direcionou um olhar especial para os buracos negros, com o foco em analisar como ocorre a circulação e a textualização audiovisual deste tema no episódio 'Amanhã é Ontem' (T1:E20).
O cinema de ficção científica coloca em circulação um variado número de representações culturais que têm ensinado a viver num mundo de tecnologias digitais (BICCA; WORTMANN, 2013). O cinema atua na produção de saberes e formas de compreensão do mundo. Um autor que defende a intersecção entre educação e cinema é Almeida (2001), que discute a interação do indivíduo com o cinema e a televisão, pois ambos estão cada vez mais atuantes na formação das pessoas. O autor sustenta a ideia de que o cinema é uma forma de linguagem capaz de produzir significados. Por essas e outras razões, defende-se neste trabalho a inserção do cinema na educação em ciências como forma de compreender o mundo, de integrar cultura, ciência e arte, bem como compreender as (res)significações da física.
A justificativa para inserir a ficção científica no contexto da educação em ciências proposta por Piassi (2015) é de que este gênero pode, além motivar os estudantes para o interesse por temas da ciência, auxiliar no processo de aprendizagem, fornecer subsídios para conhecimentos relativos ao contexto social, imaginar possíveis futuros e cenários, entre outros motivos. O papel da ficção científica passa a ser o de proporcionar maneiras de pensar sobre os conhecimentos a partir de problemas estabelecidos, pois '[a ficção científica] é fortemente baseada nas práticas sociais envolvidas com a ciência e as suas consequências futuras e, ao mesmo tempo, envolve os leitores em um mundo fictício, dando-lhes uma sensação vivencial detalhada da situação retratada' (PIASSI, 2015, p. 791).
## A Linguagem Cinematográfica
Na literatura 'compreende-se o audiovisual como toda e qualquer imagem em movimento, iniciada no surgimento do cinema' (PEIXOTO, 2016, p. 18). O cinema é um discurso sobre a realidade, sempre ficcional, composto de imagens e sons (XAVIER, 2008). A linguagem do cinema é caracterizada por 'um sistema simbólico de produção/reprodução de significações acerca do mundo' (ALMEIDA, 1993, p. 16), uma vez que para ler cinema, é necessário utilizar variados sentidos. O cinema é produto de muitas faces: envolve luz, enquadramento, atores, fala, som, ideias, informações, visões de mundo, sensações e percepções estéticas que somente o cinema pode mostrar.
Bordwell e Thompson (2013) caracterizam a forma do filme como a soma de todas as suas partes, tais como enredos e características dos personagens. O estilo é caracterizado pela utilização das técnicas cinematográficas, classificadas em quatro categorias: (1) a mise-en-scène que é a disposição de pessoas, lugares e
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objetos a serem filmados; (2) a cinematografia que é o uso de câmeras e outras máquinas para gravar imagens e sons; (3) a montagem é constituída pela soma dos planos individuais; e (4) o som que é composto pela trilha de áudio do filme. A miseen-scène é a técnica responsável pela decisão dos objetos que serão colocados no quadro fílmico (cenário, iluminação, figurino e comportamento dos personagens). Dito de outra maneira, trata dos elementos visuais da linguagem audiovisual. Todos esses elementos formam um complexo de códigos capazes de produzir significados.
A cinematografia define como tudo é filmado, envolvendo três áreas de escolha: aspectos fotográficos do plano, enquadramento e a duração do plano. As técnicas mais utilizadas são câmera alta e baixa, close-up , plano geral, plano fixo, planos alternados, plano médio e americano, entre outros. A montagem é a junção dos elementos do filme. Algumas técnicas utilizadas são o corte, que tem a função de apresentar a passagem do tempo, geralmente um tempo muito longo; o corte seco, no qual separa a passagem de um plano para outro de forma rápida; a fusão que é a transição de imagens sobrepostas, de forma acelerada; e a elipse que se caracteriza pela escolha de fragmentos da história que serão criados pela câmera, suprimindo todos os tempos desnecessários da ação.
A banda sonora (som) possui relações com as imagens no filme, sendo capaz de transmitir emoções e relacionar-se com os personagens, lugares que fazem o telespectador lembrar de tais elementos justamente associando a memória ao som. Os principais elementos sonoros são intensidade, frequência, timbre, falas, som diegético e não-diegético, que se combinam com a cinematografia e a montagem para produzir diversos efeitos.
Todos esses elementos de linguagem participam da produção de efeitos de sentidos.
## Ficção Científica e Cinema
Para ser caracterizada como ficção científica, uma obra deve possuir relações com a ciência. Não necessariamente contém a ciência de forma direta, pois a ficção científica apresenta uma ciência ficcional imaginada, não uma ciência real. 'Mesmo assim, ela é apresentada como sendo ciência, com a lógica e a retórica da [própria] ciência' (PIASSI; PIETROCOLA, 2006, p. 3). Para Dufour (2012), a ficção científica é influenciada pelo contexto histórico no qual surgiu, imerso no progresso científico e nas preocupações com o futuro da sociedade humana.
O discurso científico é predominante na ficção científica. Explicações científicas e o uso de artefatos tecnocientíficos são suas características principais. Dufour (2012) aponta que existem dois tipos de discursos científicos neste gênero: as razões por que os extraterrestres invadem a Terra e os termos científicos ligados à tecnologia avançada da civilização terrestre do futuro ou de outras civilizações extraterrestres. Este último foi mantido até hoje. Jornada nas Estrelas , por exemplo, não é somente centrada na invasão de alienígenas, mas também mostra a cooperação que os humanos possam vir a ter com os extraterrestres, como é o caso de vários exemplos considerados pacíficos. O segundo discurso é importante para o espectador mesmo que o que é apresentado não seja realmente científico, mas que seja capaz de mostrar o 'efeito ciência' (DUFOUR, 2012). Um simples material cotidiano do espectador pode ser utilizado para explicações mirabolantes, fora da realidade, causando efeitos extraordinários, garantidos pelos efeitos especiais do cinema. A combinação final dos elementos produz um significado próprio da ficção
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científica. A obra de ficção científica tem suas próprias leis: o que um cientista pode considerar como erro, 'pode constituir uma estratégia narrativa fundamental para que a história atinja o efeito pretendido pelo autor' (PIASSI; PIETROCOLA, 2009, p. 527). Uma das funções do cinema é causar emoções no telespectador, e muitas vezes um determinado conceito científico apresentado corretamente não transmite a emoção desejada. O exemplo mais comum é o barulho das naves no espaço que proporcionam muitas expectativas em relação ao filme.
## Metodologia
O episódio 'Amanhã é Ontem' foi escolhido por ser um dos mais famosos da franquia que aborda a temática viagem no tempo. O 'ingrediente' responsável por tal fenômeno é um buraco negro. O episódio é disponibilizado na forma streaming , como a Netflix , e na forma de DVDs em circulação comercial. Com base no referencial teórico, foram selecionadas as categorias de análise. O episódio foi analisado em dois momentos diferentes: o primeiro olhar foi direcionado aos aspectos gerais da linguagem audiovisual, a qual produz os efeitos, enquanto o segundo aspecto levado em conta foi conduzido pelas ideias de circulação do conhecimento, ou seja, os efeitos de sentido. Para a análise fílmica deve-se selecionar cuidadosamente quais são os recortes de cenas que serão analisados. Dessa forma, é possível fazer a análise de cada plano da cena, descrevendo todos os elementos do estilo fílmico, ou seja, as nuances da linguagem audiovisual, sempre relacionando a imagem com o som.
## Discussão
A sinopse resumida do episódio é a seguinte: enquanto rumava em direção à Terra, a Enterprise é atraída por um buraco negro, e no processo para se libertar acaba sendo jogada para uma época de 200 anos no passado, na segunda metade do século vinte, na atmosfera terrestre, às vésperas do primeiro pouso do homem na Lua. Foram selecionadas duas cenas 2 para análise, a primeira de 2'56'' e a segunda de 4'11''.
(Cena 1: 2'11'' - 5'07''): O primeiro enquadramento é um plano médio do céu azul coberto de nuvens com os créditos iniciais do episódio. A Enterprise surge no mesmo plano, ao fundo da tela, minúscula, de frente, em direção à câmera, se aproximando a uma velocidade baixa. Enquanto isso, o som que preenche os ouvidos do telespectador é a voz do capitão Kirk narrando a data estelar, 3113.2, no diário de bordo e descrevendo a missão da Enterprise , na qual foi interceptada por um buraco negro no caminho. Enquanto Kirk narra o ocorrido, uma música suave toca ao fundo. A missão era chegar até a Base Estelar 9, quando um buraco negro de grande atração gravitacional começou a puxar a Enterprise em sua direção. A solução para se afastar do buraco negro foi usar a força de dobra máxima, em reverso. Como efeito de estilingue, a liberação do campo gravitacional do buraco negro jogou a nave pelo espaço, fora de controle, até um local específico no qual o capitão não sabe onde é. Um corte da cena leva a um plano em que aparece o interior da Enterprise , onde Kirk está em primeiro plano fixo, enquanto os outros personagens estão em segundo plano. Os atores encenam uma situação caótica, em que alguns personagens encontram-se no chão preparando-se para
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levantar, enquanto os outros ajeitam suas cadeiras. Tal situação indica que a nave sofreu um grande impulso devido a uma força externa na nave que, como explicado pelo capitão, foi gerada por um buraco negro.
A informação inerente ao buraco negro é expressa através das falas dos personagens que envolvem conceitos de dobra temporal e efeito estilingue. A primeira fala menciona apenas uma característica do buraco negro: a grande atração gravitacional e a ideia de 'negro'. O vocábulo 'estrela negra' já existia e foi cunhado por John Michell (1724-1793) no século 18, que propôs a existência de estrelas invisíveis, conhecidas como estrelas negras. A luz dessas estrelas não poderia escapar da atração gravitacional gerada por elas (MACHADO; TORT, 2016). Tanto é que, o termo falado pelos personagens é estrela negra ( black star ). A partir do plano em 3'31'' a nave fica bastante iluminada e com um som constante ao fundo, parecendo emanar de um computador, caracterizado como uma espécie de apito pausando em intervalos curtos e iguais. Spock afirma que a Enterprise está orbitando um planeta. Capitão Kirk o questiona: - Que órbita, Sr. Spock? O Vulcano responde: - Da Terra, capitão. Íamos nessa direção quando fomos atraídos pela estrela. Aparentemente, a liberação lançou-nos na mesma direção . Enquanto isso, Uhura tenta uma comunicação com a Frota Estelar, mas não há resposta. Ela entra em cena afirmando que só ouve estática, mas conseguiu captar algo. O áudio que preenche a cena, captado da Terra, é de um homem relatando a notícia da ida de três astronautas à Lua, em um futuro muito próximo. Kirk solicita o corte do áudio, com uma reação espantosa ilustrada por suas feições, fazendo-o questionar onde eles foram parar. Nesse momento ele levanta da cadeira e se aproxima de Spock, que não esboça reação. Uma música de suspense toca ao fundo. Kirk diz: Viagem tripulada à Lua? Isso ocorreu no final dos anos 60. Spock: Aparentemente, é onde estamos. O estilingue nos lançou em uma dobra temporal, para trás. Leitura exata do cronômetro em alguns segundos. Mais um indício, por implícito que seja, retoma à ideia de buraco negro: o oficial de ciências explica que uma dobra temporal lançou a nave para três séculos no passado. Como informação já apresentada anteriormente nas cenas e falas, o buraco negro causa a dobra temporal. As falas dão suporte à construção do buraco negro junto a um de seus efeitos presente na narrativa textualizada com diversos elementos: a volta ao passado. Os planos fornecem indícios sutis, de quando a nave perde estabilidade, a ponte fica com energia baixa no início e os personagens descobrem que estão orbitando a Terra no final da década de 1960.
(Cena 2: 40'20'' - 44'31''): Após o desenvolvimento do episódio, esta cena retoma os conceitos ligados ao buraco negro. A partir de um corte de cena, os personagens Spock, Kirk, Scott e Cristopher (piloto do século XX) encontram-se em uma sala de reuniões discutindo o objetivo de viajar no tempo de volta para o século XXIII. Como alternativa para a nave voltar para a casa, o engenheiro e o cientista utilizam o conceito de efeito estilingue, aproveitando-se do campo gravitacional do Sol para impulsionar a nave, que implica em uma dobra temporal. Quando a nave deixa a órbita da Terra, um efeito sonoro de jato começa a surgir no fundo, que produz o efeito da nave acelerando. Kirk e Christopher observam a Terra se afastando na tela, enquanto conversam. Os outros personagens realizam suas tarefas, em planos menos detalhados, para a missão acontecer. O próximo plano ilustra a nave voando rapidamente em direção ao Sol, que toma forma circular ao fundo com uma luz amarelada muito brilhante. O efeito da alta velocidade da nave é confirmado pela fala do piloto Sulu. Ultrapassaram a dobra 8.
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Quando Spock frisa que os cronômetros começaram a retroceder, Kirk observa o cronômetro e a câmera dá um close no equipamento. Após a contagem regressiva realizada por Spock, a nave começa a chacoalhar. A cena produzida constitui um padrão em toda a série: a câmera se movimenta e os personagens atuam, como se estivessem sendo jogados para o lado, para transmitir o efeito de instabilidade na nave, causada por forças externas. As luzes cintilam, produzindo efeitos de claro e escuro. A nave é ejetada para longe do Sol, percorrendo a tela até o final, se afastando da câmera. O efeito estilingue funcionou. O fenômeno de passagem do tempo em si é mostrado apenas através das turbulências que a Enterprise sofre.
Figura 01: Nave orbitando o Sol.
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Figura 02: Personagens impulsionados pela força externa.
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## Buracos Negros
Analisando a fala dos personagens, a estrutura conceitual do enredo explica que uma estrela negra possui grande atração gravitacional capaz de atrair objetos, que nesse caso é a nave. Ao tentar escapar da atração gravitacional, a nave utiliza a velocidade de dobra máxima, provocando o efeito estilingue. Tal efeito lançou-a para trás no tempo, causando uma dobra temporal. Após ser lançada, a nave está apenas com a força de empuxo (ou força de impulso), que a permite viajar a uma velocidade abaixo da velocidade da luz.
Hawking introduz a ideia de que a teoria quântica sugere que buracos negros 'não são completamente negros' (HAWKING, 2016, p. 121), isto é, eles emitem alguma radiação. A explicação é fornecida com base na existência de flutuações quânticas no vácuo, afirmando que este não é totalmente vazio. Nas flutuações surgiriam partículas virtuais, que não podem ser observadas diretamente. Em cada par de partículas virtuais, uma delas pode cair no buraco negro, enquanto a outra escaparia. Para um observador, as partículas que escapam parecem ter sido irradiadas do buraco negro.
A teoria da viagem no tempo mostra que na evaporação dos buracos negros no nível quântico de energia, quando a densidade de energia é negativa, ela pode dobrar o espaço-tempo na direção onde seria possível construir uma máquina do tempo. Porém, algo que torna a viagem do tempo inviável, segundo Hawking, é que o horizonte de uma máquina do tempo é formado por raios luminosos fechados, ou seja, que se cruzam em loops . Como consequência, se uma partícula virtual se mover em tal trajetória fechada, levaria sua energia de estado fundamental de volta ao mesmo ponto a cada vez que ela completa o loop . Isso faria com que a densidade de energia no horizonte fosse infinita, a região em que podemos viajar para o passado. Isso significa que se alguém tentar atravessar o horizonte seria
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aniquilado por um disparo de radiação. A solução, aponta Hawking, seria encontrar maneiras de tornar finita a densidade de energia no horizonte da máquina do tempo, ''congelando' ou removendo as partículas virtuais que a contornam incessantemente num loop fechado' (HAWKING, 2016, p. 154). Desta forma, evitaria a circulação de partículas virtuais que geraria o disparo de um raio altamente energético.
Como Hawking lembra em seu livro, o horizonte de eventos do buraco negro não é o horizonte da máquina do tempo. A evaporação do buraco negro é um 'vazamento' (HAWKING, 2016, p. 155) do horizonte de eventos (este é formado por raios luminosos que nunca se cruzam), de forma que os raios finalmente acabam se convergindo para formar um loop temporal. A evaporação, isto é, a radiação Hawking, contribui para produzir partículas virtuais devido às flutuações quânticas no espaço-tempo. Ainda é difícil explicar os efeitos de tais flutuações quânticas devido à uma teoria incompleta da gravitação quântica. Por enquanto, apenas a teoria quântica permitiria a viagem no tempo em escala microscópica - o que não é capaz de produzir o efeito desejado em histórias de ficção científica.
## Considerações Finais
É a primeira vez que uma história que envolve buraco negro aparece na franquia de Jornada nas Estrelas, tornando-se mais recorrente nas séries e filmes posteriores. Apesar de o buraco negro não ser o tema principal no episódio, é a partir dele que acontecem as linhas de ação futuras. É através dos efeitos físicos que ocorrem nas vizinhanças do buraco negro que a tripulação viaja no tempo (evento principal do episódio). O principal efeito do buraco negro no episódio é, certamente, a dobra temporal, deixando em segundo plano outros conceitos físicos consideráveis. Além disso, o efeito da atração gravitacional é bem evidente na linguagem audiovisual, principalmente na performance dos personagens. Este episódio mostrou que o buraco negro pode ser representado de outra forma além da científica, mas que não está errada, simplesmente utiliza-se de outros enunciados.
- O episódio é um entre vários exemplos em que se pode explorar o potencial da linguagem audiovisual para representar conceitos físicos que vão além do escopo dos manuais científicos e periódicos. Pensando na circulação e textualização da ciência, o episódio de ficção científica é um dos meios favoráveis para se divulgar a ciência e mostrar como o conhecimento científico pode estar representado por outros enunciados, constituído por outras regras, produzindo outros efeitos de sentido. Este trabalho apresentou apenas um recorte da análise do episódio, isto é, não em sua íntegra, que faz parte de um contexto de pesquisa que analisa outros episódios e um filme, todos da franquia Jornada nas Estrelas, que têm o buraco negro como elemento narrativo em comum.
- A ficção científica se enquadraria no que Fleck (2010) chama de ciência popular, ou seja, uma ciência para não especialistas. Uma de suas características é a ausência de detalhes e principalmente de polêmicas, de modo que se consegue uma simplificação artificial, onde é possível escrever um enunciado de outras formas, que no caso da ciência dos periódicos isso é mais difícil (FLECK, 2010). O buraco negro constitui objeto de conhecimento dos cientistas, apresentado na linguagem dos livros e manuais científicos que estão constantemente presentes na formação dos especialistas. Mas também circula em diferentes tipos de textos, como o audiovisual. Nesse sentido, Fleck descreve as características de cada tipo de texto
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(periódicos, manuais, didáticos e ciência popular), sendo que, esta última é caracterizada por ser esteticamente mais agradável, mais ilustrativa, mais viva, mais flexível, apodítica, mais segura e mais sólida. O fato científico (buraco negro) é apresentado de formas diferentes conforme as características de cada texto. Quando o buraco negro, o fato, é representado na ficção científica, ele já é realidade. No século XXIII (onde se passa a história), o objeto aparentemente controverso hoje para os cientistas, já é um fato científico há muito tempo resolvido.
## Referências
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ALMEIDA, M. J. Imagens e Sons: A Nova Cultura Oral. 2. ed. São Paulo: Cortez, 2001.
BICCA, A. D. N.; WORTMANN, M. L. C. Olhando o presente a partir do futuro: a pedagogia do cinema de ficção científica. Educação , v. 36, n. 3, p. 363372, set./dez. 2013.
BORDWELL, D.; THOMPSON, K. A arte do cinema: uma introdução. Campinas: Editora da Unicamp; São Paulo: Editora da USP, 2013.
DUFOUR, E. O Cinema de Ficção Científica . 1 ed. Edições Texto & Grafia, Lda: Lisboa, 2012.
FIELD, S. Manual do roteiro: os fundamentos do texto cinematográfico. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.
FLECK, L. Gênese e Desenvolvimento de um Fato Científico . Belo Horizonte: Fabrefactum, 2010.
HAWKING, S. O Universo numa Casca de Noz . 1 ed. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2016.
MACHADO, R. R.; TORT, A. C. Michell, Laplace e as estrelas negras: uma abordagem para professores do Ensino Médio. Revista Brasileira de Ensino de Física , vol. 38, nº 2, 2016.
PEIXOTO, L. V. A utilização da linguagem audiovisual na produção para novos suportes de exibição . Dissertação (Mestrado Profissional em Indústria Criativa), Universidade Feevale, Novo Hamburgo, 2016.
PIASSI, L. P.; PIETROCOLA, M. Possibilidades dos filmes de ficção científica como recurso didático em aulas de Física: a construção de um instrumento de análise. In: X Encontro de Pesquisa em Ensino de Física, 2006, Londrina. Anais...
PIASSI, L. P. C. Ficção Científica e Ensino de Ciências: para além do método de 'encontrar erros em filmes'. Educação e Pesquisa , São Paulo, v.35, n.3, p. 525-540, set./dez. 2009.
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XAVIER, I. O Discurso Cinematográfico: a opacidade e a transparência. 4. Ed. São Paulo: Paz e Terra, 2008.
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