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UM ESTUDO DE CASO NA CONSTRUÇÃO DA REFERÊNCIA LINGUÍSTICA EM AULAS DE FÍSICA EM LIBRAS

Heloísa Almeida Galdino Barbosa, Daisy Martins De Almeida, Shirley Barbosa Das Neves Porto

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XXIII
Ano
2019
Data
29/01/2019
Linha de pesquisa
Ética, Afeto E Diversidade Em Ensino De Física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## UM ESTUDO DE CASO NA CONSTRUÇÃO DA REFERÊNCIA LINGUÍSTICA EM AULAS DE FÍSICA EM LIBRAS

## Heloísa Almeida Galdino Barbosa 1 , Daisy Martins de Almeida 2 , Shirley Barbosa das Neves Porto 3

- 1 Universidade Federal de Campina Grande/Unidade Acadêmica de Física/heloisa.agb@gmail.com
- 2 Universidade Federal de Campina Grande/Unidade Acadêmica de Física/daisymalmeida@gmail.com
- 3 Universidade Federal de Campina Grande/Unidade Acadêmica de Letras/sbportoneves@gmail.com

## Resumo

Ao pensarmos acerca do processo de escolarização dos surdos e do ensino da Física algumas questões se apresentam, entre elas, como se dá a relação ensinoaprendizagem do surdo; quais os artifícios utilizados para o ensino desses sujeitos; qual o papel e como a Língua de Sinais aparece no contexto do ensino de surdos; quais os artifícios que essa língua possui que podem ser utilizados a favor do ensino para esses sujeitos. Tomando como base estudos citados na literatura especializada temos como objetivo para esta pesquisa identificar a presença da relação apontamento-olhar na relação ensino-aprendizado, com atenção voltada para o aprendizado da Física. Para isto acompanhamos e filmamos as aulas de um professor de Física que atua em uma Escola Bilíngue (Libras-Língua Portuguesa) para surdos da Cidade de Campina Grande. Nesse contexto, observamos como e em que situações aparecem os apontamentos e olhares durante as suas aulas. Em nossa pesquisa vimos que os apontamentos aparecem como constituinte gramatical da Libras, se concretizando nos pronomes você, ela e esta bastante usados pelo professor. Estes pronomes têm importância no momento de negociação de significado, quando o professor usa os exemplos para trazer um conceito, usando as dêixis para situar os e as estudantes. Os olhares além de aparecerem como componentes constituintes dos pronomes e para dar localização, eles são usados não com valor gramatical, mas com valor de chamada, chamando sempre os e as estudantes para aula. Este trabalho trata-se de um recorte de um Trabalho de Conclusão de Curso.

Palavras-chave : Apontamentos e Olhares, Ensino de Física, Ensino de Física para Surdos

## Introdução

Diversas pesquisas relacionadas ao Ensino de Ciências têm sido direcionadas para questões relativas à linguagem, tratando, em sua maioria, das diferenças entre a linguagem cotidiana e linguagem científica, e das dificuldades de adaptação dos estudantes com a linguagem adotada pelas ciências. Essas questões residem no fato da linguagem científica ter certos signos linguísticos incomuns aos estudantes e cujos sentidos diferem daqueles usados comumente por estes. O diálogo no cotidiano da sala de aula está repleto desses signos, e a tarefa de familiarizar os estudantes e fazer com que eles entendam seus significados recai sobre o professor.

Essas investigações buscam entender e resolver situações de sala de aula para coletivos que compartilham uma mesma língua e que a dificuldade está na negociação de significados entre a linguagem científica e a cotidiana, que os estudantes conhecem, sem a preocupação de negociação de significados para termos ainda não construídos pela língua. Assim, é nesse contexto de negociação

de significados e de construção e disseminação de léxico para a Física, que perguntamos: como se dá o processo de negociação de signos para a Física, entre usuários da Língua Brasileira de Sinais (Libras) -professor e alunos -ao ensinar/estudar conteúdos dessa disciplina? Nossa perspectiva é analisar a possível presença e o uso do apontamento e do olhar como facilitador dessa negociação de significados para sinais ainda não estabelecidos ou de significados não estabilizados.

Estudar e compreender essa realidade em escolas para surdos é uma necessidade, pois criar, negociar e validar signos, por mais que pareça estar fora da nossa realidade é uma situação frequente nos processos de ensino-aprendizagem acontecidos no cotidiano de escolas bilíngues 1 para surdos. Realidade esta que é majoritariamente desconhecida da sociedade ouvinte.

## As deixis na Língua de Sinais

Como bem cita Quadros (1997) as línguas de sinais (LS) '[...] são línguas que não se derivaram das línguas orais, mas fluíram de uma necessidade natural de comunicação entre pessoas que não utilizam o canal oral-auditivo, mas o canal espaço-visual como modalidade linguística' (p. 47). E por serem naturais, essas línguas são regidas por regras que fazem parte do conhecimento humano e determinam sua produção, permitindo assim um estudo gramatical das mesmas.

Estudando a morfologia das LS, vemos os processos de derivação, entre eles o de nominalização, formação de composto, incorporação numeral e de negação e flexão.

Flexão pessoal é o processo de alteração das referências pronominais pessoais em sua relação com o verbo com concordância 2 (EU, VOCÊ, EL@ quando da construção da frase 'eu entrego a você', por exemplo). É nesse tipo de flexão que aparecem os termos dêiticos apontamento e olhar .

Termos dêiticos, no português, são elementos linguísticos que indicam o lugar ou o tempo em que um enunciado é produzido e também indicam os participantes de uma situação do enunciado. São dêiticos na Libras os pronomes pessoais que indicam os participantes; os advérbios de lugar, que são marcadores de tempo; e os pronomes demonstrativos.

Quadros e Karnopp (2004) trazem uma definição de deixis, segundo as autoras:

Deixis - palavra grega que significa 'apontar' ou 'indicar' - descreve uma forma particular de estabelecer nominais no espaço que são utilizados pelos verbos com concordância como parte de sua flexão. A função dêitica em língua de sinais, como na língua de sinais brasileira e na ASL ( American Signal Language ), é marcada através da apontação propriamente dita. Os referentes são introduzidos no espaço à frente do sinalizador, através da

apontação em diferentes locais. As formas verbais para pessoa são estabelecidas através do início e fim do movimento e da direção do verbo, incorporando estes pontos previamente indicados no espaço para determinados referentes. (QUADROS E KARNOPP, 2004. p. 112, grifos nosso).

O apontamento e o olhar como termos dêiticos em Libras é que vão nos mostrar a quem (pronomes pessoais), o que (pronomes demonstrativos), ou a que lugar (advérbios de lugar) estamos nos referindo, além de localizar esses referentes no espaço.

Além do apontamento, a direção do olhar e a posição do corpo, também podem ser utilizados para estabelecer referentes.

Como exemplo, para que possamos entender a forma como se apresenta o apontamento nas aulas de Física por nós estudadas, trazemos quatro expressões AQUI, EST@, EU e VOCÊ, muito utilizadas pelo professor em sua fala.

Fonte: Apostila de Libras - Curso básico - Semed/2013

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Figura 01 Apontamentos no sistema pronominal 3;4

É na perspectiva desse referencial teórico sobre a LS que trataremos e analisaremos nossos dados de pesquisa.

## Análise de conteúdo: Embasamento e aplicação

Na cidade em que se realizou esta pesquisa, há uma Escola de Ensino Bilíngue, e o professor de Física desta escola, a época de nosso estudo, é surdo. Este fato e a legislação pertinente, voltadas para a educação de surdos, no qual estamos inseridos foram uns dos motivos que nos levou a realizar esta pesquisa.

Acompanhamos, filmamos e analisamos as aulas de Física desse professor. Para a realização das filmagens acompanhamos as aulas em duas turmas do Ensino Médio.

Para a análise dos dados utilizamos como base a metodologia de Análise de Conteúdo (AC). Assim, dialogamos com Cavalcante, Calixto e Pinheiro (2014) que ao citar Bardin (1997), definem a AC como uma metodologia que compreende técnicas de pesquisa que permitem, de forma sistemática, a descrição das mensagens e das atitudes atreladas ao contexto de enunciação, bem como as inferências sobre os dados coletados.

Ramos e Salvi (2009) apresentam o roteiro no qual expõem como o método AC consiste em tratar a informação, segundo os autores o método é divido em três fases explicitadas a seguir:

- 1) Pré -análise: consiste em escolher os documentos e formular hipóteses e objetivos para a pesquisa;
- 2) Exploração do material: consiste na aplicação de técnicas específicas, de acordo com os objetivos da pesquisa;
- 3) Tratamento de resultados e interpretação: consiste na ligação dos resultados obtidos ao escopo teórico, e permite avançar para conclusões.

A Análise de Conteúdo é um método mais complexo de análise de dados utilizado nas pesquisas qualitativas, porém, não o utilizamos na íntegra seguimos apenas os três passos acima citados.

## Passos da nossa pesquisa

Na Pré Análise, assistimos todas as filmagens e escolhemos, então, para a análise, uma aula onde o professor resolve um exercício com os estudantes.

Para resolvê-lo os estudantes precisam utilizar conhecimentos sobre calor específico, quantidade de calor e massa e trabalhar essas grandezas matematicamente. Diante do exposto, buscamos observar as negociações de conteúdo e de significado dessas grandezas, quais os meios que o professor utilizou para fazer a negociação entre o sinal referente aos conteúdos e seu significado e de que modo, nessa aula, os apontamentos e olhares compuseram o enunciado/discurso explicativo do professor.

Assistimos ao filme da aula e marcamos todas as falas do professor em que aparecem apontamentos, olhares e onde há negociações de significado. Depois transcrevemos e traduzimos essas falas. Para a transcrição das falas, em Libras, utilizamos o sistema de notação em palavras.

## Apontamentos e olhares nas aulas de Física: Resultados e discussões

No conjunto das aulas filmadas escolhemos uma com duração de uma hora e dezesseis minutos, filmada numa turma do segundo ano do Ensino Médio no turno da manhã.

A aula começa com o professor distribuindo uma atividade em folha avulsa para os alunos responderem. Enquanto os alunos respondem a atividade, o professor escreve a seguinte questão no quadro:

'Determine a variação da temperatura sofrida por 3kg de uma substância, de calor específico igual a 0,5 cal/g ºC, que fica exposta durante 30s a uma fonte térmica que fornece 1000 cal/s.

a) 10 ºC b)15 ºC c) 20 ºC d) 30 ºC e) 40 ºC'

Assim que os estudantes terminam a atividade entregue no início da aula, o professor inicia a resolução da questão do quadro, não verificando com a turma a resolução da atividade entregue em folha avulsa.

- O modo de leitura da questão pelo professor é a tradução palavra por palavra do enunciado, e, na sequência, a escrita dos dados no quadro. No decorrer da leitura, quando chega ao termo 'calor específico', ele faz o sinal que corresponde ao termo e explica o conceito para a turma.

Nesse sentido, nos alinhamos a Strobel (2008) que coloca a língua de sinais como sendo o artefato linguístico do povo surdo. Sem língua é improvável que alguma negociação de significado seja feita, principalmente em um nível tão abstrato quanto o que demanda o estudo da Física.

Observamos que para explicar o conceito de calor específico contido no enunciado o professor retoma com a turma uma experiência de uma aula anterior realizada por uma das estudantes, na qual a aluna enchia três bexigas, uma com água, outra com areia e uma terceira com ar. Na experiência, as três bexigas são colocadas acima de velas acesas. O teste é para ver qual bexiga estoura por último. De acordo com a definição física, calor específico é a quantidade de energia necessária para que cada grama de uma substância mude em 1°C a sua temperatura e este é uma característica de cada substância, sendo assim, quanto maior o calor específico, mais o corpo demora para mudar sua temperatura. O que significa que a bexiga estoura primeiro para os corpos que possuem calor específico menor, que não é o caso da água, cuja bexiga estoura por último.

- O quadro a seguir contém a transcrição em notação de palavras do que foi dito pelo professor ao se referir ao conteúdo e a experiência.

## Quadro 01 Notação em palavras 5 - calor específico na experiência com bexigas

A Libras, por ser uma língua de modalidade visuo-espacial, produz enunciados utilizando o corpo do sinalizador e o espaço a sua frente (QUADROS e KARNOPP, 2004; COUTINHO, 2000; entre outros). Assim, na aula observada, as bexigas e velas são trazidas para o discurso como referentes não presentes, sendo colocadas a frente do sinalizador em três posições diferentes, como mostram as imagens na Figura 2.

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Figura 02: Marcação espacial das bexigas e velas

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O estabelecimento de pontos no espaço através do apontamento, é comumente realizado envolvendo referentes presentes ou não. No caso da experiência comentada pelo professor, os referentes, bexiga e velas, não estão presentes, sendo o olhar e o apontamento o marcador existencial do objeto.

Como vimos em Quadros e Karnopp (2004) a apontação e o olhar são direcionados ao local, onde foi estabelecido o elemento referenciado, ao longo do plano horizontal à frente do corpo do sinalizador.

Observamos que, os apontamentos aparecem, em sua totalidade, em forma de pronomes, tanto pessoais como demonstrativos, confirmando assim o uso majoritário do apontamento e olhar como termo dêitico, na estrutura frasal da Libras. Também observamos que o número de apontamentos foi maior quando o professor explicava o significado de calor específico, porque os objetos que fazem parte do discurso dele estão sendo chamados o tempo inteiro em sua fala, sejam estes os dados no quadro necessários para a resolução da questão, sejam os alunos (VOCÊ e EL@).

Além dos apontamentos e olhares, observamos que o professor por muitas vezes pede a atenção dos estudantes enfatizando a necessidade de olhar para ele e para o quadro. O professor não só pede o olhar dos estudantes, mas também usa o seu olhar como meio de chama-los.

Deste modo, ao ver a filmagem na íntegra, percebemos que o olhar é constitutivo da produção em Língua de Sinais. O professor está sempre chamando a turma através do olhar, um olhar não com valor gramatical, mas com valor de chamada (chamando os estudantes para aula).

## Considerações Finais

Em nossa pesquisa vimos que os apontamentos aparecem como constituinte gramatical da Libras, se concretizando nos pronomes AQUI, VOCÊ e EST@, bastante usados pelo professor. Estes têm importância no momento de negociação de significado, quando o professor usa os exemplos para trazer um conceito, usando as dêixis para situar os e as estudantes.

Os olhares além de aparecerem como componentes constituintes dos pronomes e para dar localização, eles são usados não com valor gramatical, mas com valor de chamada, chamando sempre os e as estudantes para aula e/ou para a cena descrita.

## Referências

CAPOVILLA, F.C. et al. Dicionário Enciclopédico Ilustrado Trilíngue da Língua de Sinais Brasileira . Volume I: Sinais de A a D São Paulo, SP: Edusp, Fapesp, Fundação Vitae, Feneis, Brasil Telecom, 2017a.

\_\_\_\_\_\_. Dicionário Enciclopédico Ilustrado Trilíngue da Língua de Sinais Brasileira . Volume II: Sinais de E a O São Paulo, SP: Edusp, Fapesp, Fundação Vitae, Feneis, Brasil Telecom, 2017b.

CAVALCANTE RB, CALIXTO P, PINHEIRO MMK. Análise de Conteúdo: considerações gerais, relações com a pergunta de pesquisa, possibilidades e limitações do método. Inf &amp; Soc Est. 2014; 24(1):13-18.

DORZIAT, A. Bilinguismo e surdez: para além de uma visão linguística e metodológica. In. SKLIAR, C. Atualidade da educação bilíngue para surdos . 4 edição. Porto Alegre: Mediação, 2013. p. 27 - 40.

FELIPE, Tânia Amara. Libras em contexto: curso básico do estudante cursista. Brasília: Programa Nacional de Apoio à Educação dos Surdos, MEC; SEESP, 2001. p. 21 - 23.

QUADROS, R.M. Educação de Surdos: a aquisição da linguagem. Porto Alegre. Artes Médicas, 1997.

\_\_\_\_\_\_. DE.; KARNOPP, LODENIR B. Língua de Sinais Brasileira: Estudos linguísticos. Porto Alegre: Artmed, 2004.

STROBEL, K. As imagens do outro sobre a cultura surda . Florianópolis: Editora da UFSC, 2008.

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