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PROPOSTA DE UM INSTRUMENTO PARA ANALISAR IMAGENS EM LIVROS DIDÁTICOS DE CIÊNCIAS À LUZ DAS TEORIAS DE GÊNERO

Maria Ruthe Gomes Da Silva, Katemari Diogo Da Rosa

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XXIII
Ano
2019
Data
29/01/2019
Linha de pesquisa
Ética, Afeto E Diversidade Em Ensino De Física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## PROPOSTA DE UM INSTRUMENTO PARA ANALISAR IMAGENS EM LIVROS DIDÁTICOS DE CIÊNCIAS À LUZ DAS TEORIAS DE GÊNERO

## Maria Ruthe Gomes da Silva 1 , Katemari Rosa 2

1 Universidade Estadual da Paraíba, ruthe1010@gmail.com

2 Universidade Federal da Bahia, katemari@gmail.com

## Resumo

Neste trabalho propomos um instrumento que sistematiza a análise de imagens trazidas por livros didáticos de ciências, em geral, e física em particular, a partir de uma perspectiva não-sexista. O instrumento de análise contém um sistema de indicadores e três dimensões de análise, a dimensão quantitativa, a dimensão espacial e a dimensão atitudinal. Selecionamos algumas ilustrações de uma coleção aprovada pelo PNLD 2018, para exemplificar alguns indicadores do sistema de categorias. O instrumento passou por testes com estudantes de graduação, professoras e professores de física durante oficinas para análise de imagens de livros didáticos, o que nos levou ao resultado aqui apresentado. Entretanto, mais testagens estão sendo realizadas e esperamos, com este artigo, contribuir para que outras pessoas tenham acesso e utilizem o instrumento, a fim de realizarmos uma construção coletiva de material que colabore para melhorar a qualidade dos livros didáticos brasileiros, particularmente no que se refere a uma educação inclusiva e não-sexista.

Palavras-chave : Instrumento de Análise de Imagens, Gênero, Livros Didáticos

## Introdução

O Programa Nacional do Livro Didático (PNLD) consiste em uma iniciativa do Governo Federal brasileiro cuja finalidade é orientar a aquisição e distribuição de Livros Didáticos (LD) às escolas públicas de todo território nacional (BITTENCOURT, 2013). Dessa forma, professoras, professores e estudantes tem fácil acesso a esses materiais, tornando-o um dos principais instrumentos de suporte ao ensinoaprendizagem de ciências (e.g. física, química e biologia). As informações contidas nos LD se relacionam não apenas com conteúdos conceituais, mas com aspectos sócio-culturais bem como procedimentos científicos, visões sobre ciências e cientistas.

Embora o Guia do Livro Didático tenha critérios que proíbam a circulação de materiais que apresentem desatualização, estereótipos, preconceitos de cor, de gênero e qualquer outra forma de discriminação (ROSEMBERG, 2003; FERREIRA, 2006). Pesquisas como as de (TAUFER, 2009; SANTOS, 2013 e GONZÁLEZPALOMARES; ALTMANN; REY-CAO, 2015) nos indicam que mesmo os LD

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passando por esses critérios de avaliação não estão isentos em disseminar estereótipos e reproduzir preconceitos na sociedade. Dessa maneira, podemos afirmar que o Guia de Livros Didáticos - PNLD, por si só, não é suficiente para enfrentar essa questão.

A fim de contribuir para atenuação das discriminações e preconceitos que Livros Didáticos de ciências podem apresentar, este trabalho tem como objetivo propor um Instrumento para sistematizar a análise de imagens em LD de ciências numa perspectiva não-sexista de Ensino de Ciências em geral e de física em particular.

Começamos este texto apresentando o sistema de categorias, as hipóteses levantadas em cada dimensão de análise e as ferramentas estatísticas incrementadas no Instrumento de Análise (IA), e em seguida realizamos um teste hipotético do uso do (IA) para exemplificar alguns indicadores do sistema de categorias.

## Metodologia

Este estudo é do tipo quanti-qualitativo, empírico descritivo e comparativo e utiliza a análise de conteúdo (NEYENDORF, 2002) como método central de análise. Nas próximas sessões iremos discutir aspectos do sistema de categorias e das dimensões de análise que compõem o IA.

## Sistema de Categorias

No Quadro 1 estão explícitos os indicadores e as definições operativas 1 para coleta de dados.

Quadro 1: Sistema de Categorias

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Fonte: das autoras

## Sobre o Instrumento de Análise de Imagens

Dividimos o Instrumento em três dimensões, a Dimensão Quantitativa (DQ) a Dimensão Espacial (DE) e a Dimensão Atitudinal (DA).

A Dimensão Quantitativa está relacionada com a contagem de personagens levando em consideração as aparências de gênero. Distinguimos representações de gênero feminino e masculino pelos significados que culturalmente são atribuídos para mulheres e homens. Compreendemos as construções de gênero de uma forma mais ampla e não binária. Entretanto, para fins dessa análise, identificamos como mulheres e homens as imagens que trazem figuras e desenhos com formas físicas tradicionalmente atribuídas ao que se entende como mulher e ao que se entende como homem. A DQ sugere uma contagem de Personagens Femininos - (PF) e de Personagens Masculinos - (PM) trazidas nas ilustrações dos livros didáticos. Nesta dimensão será possível comparar a presença de PM com a presença PF. No Quadro 2 é possível calcular a Taxa de Masculinidade - (TM) e, a partir do resultado, testar a hipótese levantada.

Quadro 2: Dimensão Quantitativa

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Taxa de Masculinidade =

A Taxa de Masculinidade (TM) significa que para cada 100 representações femininas existem TM representações masculinas.

Hipótese: Existem mais representações masculinas nas imagens trazidas por livros didáticos do que representações femininas.

Se TM≤100 rejeita-se a hipótese.

Se TM>100 aceita-se a hipótese.

## Fonte: das autoras

A Dimensão Espacial está relacionada com os locais onde personagens estão. Construímos essa dimensão pensando nas ideias de Chanter (2011), quando a autora elucida que a crença de que o lugar da mulher é o lar baseou-se em afirmações de que os espaços públicos e políticos eram incompetentes para mulheres transitar, já que esses espaços eram marcadamente masculinos. No quadro 3 , apresentamos uma tabela de contingência que, a partir do cálculo do Quiquadrado de Pearson com nível de significância estabelecido nos 5% - α= 0,05, será possível estabelecer uma independência ou dependência entre as variáveis e consequentemente uma rejeição ou aceitação da hipótese levantada.

Quadro 3: Dimensão Espacial

Hipótese: Existem mais personagens femininos em locais privados do que personagens masculinos e mais personagens masculinos em locais públicos do que personagens femininos.

Se as variáveis forem independentes - Rejeita-se a hipótese.

Se as variáveis forem dependentes - Aceita-se a hipótese.

## Fonte: das autoras

Por fim, a Dimensão Atitudinal relaciona-se com as ações que mulheres e homens aparecem exercendo nas ilustrações contidas nos LD. Autoras como Santos, Lima e França (2010), Taufer (2009), Silva e Ribeiro (2011) discutem que existem ações como costurar, cuidar, limpar e dançar, que são destinadas historicamente e socialmente para mulheres. Baseando-nos nesses pressupostos que elaboramos essa última Dimensão. Nos Quadros 4.1 e 4.2 , expomos algumas

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possíveis ações que podem aparecer nas ilustrações de livros didáticos, tais como profissões, esportes, atividades de lazer e atividades relacionadas com o ambiente doméstico. No entanto, essa dimensão de análise não está restrita apenas a essas ações que mencionamos nos quadros abaixo, esta depende do tipo de ilustrações que cada livro pode conter.

Quadro 4.1 - Dimensão Atitudinal - Atividades que foram definidas e destinadas historicamente e socialmente para serem exercidas por mulheres

Hipótese: Existem mais personagens femininos exercendo essas atividades do que personagens masculinos.

Se as variáveis forem independentes - Rejeita-se a hipótese.

Se as variáveis forem dependentes - Aceita-se a hipótese.

Fonte: das autoras

Quadro 4.2 -Análise da Dimensão Atitudinal -Atividades que historicamente e socialmente não foram definidas e destinadas para serem exercidas por mulheres

Hipótese: Existem mais personagens masculinos exercendo essas atividades do que personagens femininos.

Se as variáveis forem independentes - Rejeita-se a hipótese.

Se as variáveis forem dependentes - Aceita-se a hipótese.

Fonte: das autoras

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## Exemplificando os Indicadores do Sistema de Categorias

Considerando o Quadro 1, selecionamos imagens da coleção Física (volumes 1, 2 e 3), dos autores José Roberto Bonjorno et al, aprovado pelo PNLD 2018, a fim de exemplificar cada indicador do Sistema de Categorias.

## Da Dimensão Quantitativa - DQ

Figura 8: Personagem Masculino em local não identificado. Volume 2, p. 261

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Figura 1: Personagem masculino. Volume 1, p.246.

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Figura 2: Personagem feminino. Volume 1, p.176.Figura 3: Personagem de gênero não identificado. Volume 1, p.246.

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A seguir escolhemos ilustrações que exemplificam alguns indicadores tanto da Dimensão Espacial quanto da Dimensão Atitudinal.

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Figura 4: Personagem Feminino em local público. Volume 2, p. 152.

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Figura 5: Personagem Feminino em local privado, fazendo uma atividade doméstica. Volume 3, p. 11.

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Figura 6: Personagem Feminino em local não identificado. Volume 1, p. 176.Figura 7: Personagem Masculino em local público. Volume 2, p. 11.

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Não encontramos nessa coleção nenhuma figura que representasse um personagem masculino em um ambiente privado.

## Considerações Finais

Neste texto propomos um instrumento para sistematizar a análise de imagens em livros didáticos de ciências que leve em consideração as discussões sobre gênero e ensino inclusivo.

- O instrumento já passou por testes com estudantes de graduação, professoras e professores de física durante oficinas para análise de imagens de livros didáticos, o que nos levou ao resultado aqui apresentado. Ainda assim, queremos ampliar nossos testes e entendemos que o XXIII Simpósio Nacional de Física (SNEF) seja um momento oportuno para realização dessas oficinas e troca de informações e referências que nos auxiliem a ampliar visões acerca das limitações, usabilidade e potencialidades deste Instrumento de Análise.

## Referências

BITTENCOURT, C. M. F. Em foco: História, produção e memória do livro didático. Educação e Pesquisa , set./dez. 2004, v.30, n.3, p.471-473.

CHANTER, Tina. Gênero: conceitos-chave em filosofia. Porto Alegre: Artmed, 2011.

FERREIRA, J.R. Educação especial, inclusão e política educacional: notas brasileiras. In: Inclusão E Educação - Doze Olhares Sobre a Educação Inclusiva. David Rodrigues (org.). São Paulo. Editora Summus, 2006.

GONZÁLEZ-PALOMARES, Alba; ALTMANN, Helena; REY-CAO, Ana; Estereótipos de Gênero nas Imagens dos Livros Didáticos de Educação Física do Brasil. Movimento , Porto Alegre, v. 21, n.1, p.219-232, jan./mar. de 2015.

NEUENDORF, Kimberly A. Content analysis: A methodological primer for gender research. Sex Roles , New York, v. 64, n. 3-4, p. 276-289, 2011.

ROSA, K.; GOMES, M. R. Feminismos e ensino de ciências: análise de imagens de livros didáticos de física. Gênero , Niterói, v. 16, n. 1, p. 83 - 104, 2015.

ROSEMBERG, Fluvia; BAZILLI, Chirley &amp; SILVA, Vinícius Baptista da. Racismo nos livros didáticos brasileiros e seu combate: uma revisão da literatura. Educação e Pesquisa, 2003, v. 29, n. 1, p. 125-146.

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SANTOS, T.F.; LIMA, M.B.; FRANÇA, J.M. Representações de gênero no conteúdo e em ilustrações de livros didáticos de língua portuguesa do primeiro ciclo (1º ao 5º anos). In: 4º Fórum Identidades e Alteridades: Educação e Relações Etinicorraciais UFS - Itabaiana/SE, 2010.

SANTOS, Wellington Oliveira. Espaços de Negros e Branco em Livros Didáticos de Geografia do Estado do Paraná, Brasil. Ciência &amp; Educação , Bauru, v.19, n. 4, p. 1027-1044, 2013.

SILVA, F.F.; RIBEIRO, P.R. A participação das mulheres na ciência: problematizações sobre as diferenças de gênero. Revista Labrys Estudos Feministas , v. 10, 2011.

TAUFER, I. C. B. Representações do livro didático de ciências nos anos iniciais do ensino fundamental . TCC (Especialização em Educação, Sexualidade e Relações de Gênero). Porto Alegre: UFRGS, 2009.

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Texto extraído automaticamente do PDF: podem existir erros de conversão, especialmente em fórmulas, tabelas e figuras.