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É IMPORTANTE ESTUDAR FÍSICA SE VOCÊ É DEFICIENTE VISUAL? AS RESPOSTAS DE ESTUDANTES RECÉM INGRESSOS NA UNIVERSIDADE.

Maria Da Conceição De Almeida Barbosa-Lima, Giselle Faur De Castro Catarino

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XXIII
Ano
2019
Data
29/01/2019
Linha de pesquisa
Ética, Afeto E Diversidade Em Ensino De Física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## É IMPORTANTE PARA UMA PESSOA COM DEFICIÊNCIA VISUAL ESTUDAR FÍSICA? AS RESPOSTAS DE ESTUDANTES RECÉM INGRESSOS NA UNIVERSIDADE NO CURSO DE LICENCIATURA EM FÍSICA.

## Maria da Conceição de Almeida Barbosa-Lima 1 , Giselle Faur de Castro Catarino 2

- 1 Universidade do Estado do Rio de Janeiro-DFAT/FIOCRUZ-IOC/mcablima@uol.com.br
- 2 Universidade do Estado do Rio de Janeiro-DFAT/UNIGRANRIO-PPGEC/gisellefaur@gmail.com

## Resumo

Este artigo trata da perspectiva da inclusão de alunos deficientes visuais em aulas regulares de Física no âmbito da formação inicial dos professores de Física que se apresenta ainda bastante incipiente para atender a esse público que busca as escolas regulares. Nosso objetivo neste trabalho é conhecer o que licenciandos recém-admitidos em um curso de licenciatura em física pensam sobre a inclusão de alunos deficientes visuais em aulas de física em escolas regulares e se concordam ou não com a indissociabilidade entre o sentido da visão e o aprendizado. Nossa pesquisa qualitativa teve como instrumento de coleta de dados um questionário com perguntas abertas, aplicado a uma turma regular de Licenciatura em Física de uma universidade pública do estado do Rio de Janeiro. As análises dos dados apontam como resultados que, apesar da maioria dos licenciandos acreditar que um aluno com deficiência visual é capaz de aprender física, os discursos revelam uma visão socialmente construída de incapacidade intelectual desses alunos.

Palavras-chave : Deficiência visual. Formação inicial. Ensino de Física. Inclusão. Escola regular.

## Introdução

Nas últimas décadas, a Prática Docente e a Formação Inicial de Professores de Física vêm ocupando papel de destaque na pesquisa em Educação em Ciências, sendo bastante debatidas e estudadas por vários pesquisadores da área, entre os quais destacamos Carvalho (2007) e Villani et al. (2008). Muitas questões acerca da problemática da prática docente, entre elas a inclusão de alunos deficientes visuais em aulas regulares de Física (CAMARGO, 2012), estão em foco em disciplinas universitárias da formação inicial, podendo-se vislumbrar melhorias na ação docente futura dos licenciandos nas áreas de Ciências da Natureza. Nesse contexto, os debates indicam a configuração de um novo paradigma baseado nos saberes e práticas docentes em uma perspectiva construtivista (QUEIROZ E BARBOSA-LIMA, 2007) que deveria incentivar a reflexão crítica e contínua sobre os objetivos da Educação.

No que diz respeito às questões envolvendo a inclusão de alunos deficientes visuais em aulas regulares de Física, a formação inicial dos professores de Física é ainda bastante incipiente para atender a esses alunos que buscam as escolas regulares. A formação que se oferece aos licenciandos ainda visa uma escola com alunos sem qualquer deficiência aparente, seja ela, sensória, motora ou mental. Dessa maneira, entendemos ser fundamental insistir em uma nova formação aos

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futuros professores, promovendo um ensino de Física para alunos videntes e não videntes em condições igualitárias e adequadas (CAMARGO, op. cit), bem como contribuir para as suas formações cidadãs e seus sensos críticos.

Para iniciar a discussão sobre inclusão, vamos logo definir o que é ser uma pessoa com deficiência visual no Brasil por sua legislação: de acordo com o Decreto 5296 de 2 de dezembro de 2004, deficiência visual é definida como: cegueira, na qual a acuidade visual é igual ou menor que 0,05 no melhor olho, com a melhor correção óptica; baixa visão, que significa acuidade visual entre 0,3 e 0,05 no melhor olho, com a melhor correção óptica; casos nos quais a somatória da medida do campo visual em ambos os olhos for igual ou menor que 60 o ; ou ocorrência simultânea de quaisquer das condições anteriores (BRASIL, 2004).

Sendo o Brasil signatário da Declaração de Salamanca (UNESCO, 1994) a inclusão das pessoas com necessidades especiais é estimulada no País. É certo que ainda não conseguimos quebrar todos os hábitos e preconceitos, necessários de serem vencidos em sua plenitude, mas nas escolas públicas ela já é uma realidade apesar das dificuldades de implantação. Uma das grandes dificuldades que devemos considerar é, em nosso caso que estudamos os alunos com deficiências visuais, o fato de vivermos em uma sociedade quase que exclusivamente apoiada no visual.

De acordo com Bianchi e Barbosa-Lima (2014) citando Camargo e Nardi (2013), para a inclusão de alunos com deficiência visual, há uma construção sóciohistórica que não permite a indissociabilidade entre o sentido da visão e o aprendizado. Além disso, as autoras chamam à conversa Aristóteles (384 a.C. - 322 a.C.), que em seu texto de abertura 'O conhecimento' de uma de suas mais importantes obras declara:

Por natureza, todos os homens desejam o conhecimento. Uma indicação disso é o valor que damos aos sentidos; pois além de sua utilidade são valorizados por si mesmos, acima de tudo, o da visão. Não apenas com vistas à ação, mas mesmo quando não se pretende ação alguma, preferimos a visão, em geral, a todos os outros sentidos. A razão disso é que a visão é, de todos eles, o que mais nos ajuda a conhecer coisas, revelando muitas diferenças. (apud MARCONDES, 2011, p. 46)

Diante das colocações feitas até aqui, nosso objetivo neste trabalho é saber o que jovens recém admitidos em um curso de licenciatura em física pensam sobre a inclusão de alunos deficientes visuais em aulas de física em escolas regulares e se concordam ou não com a indissociabilidade entre o sentido da visão e o aprendizado.

## Metodologia

Apoiados na perspectiva de pesquisa qualitativa, elaboramos e aplicamos um questionário com perguntas abertas a uma turma composta de 20 estudantes de licenciatura em física de uma universidade pública do Rio de Janeiro. A composição desta turma é de 17 rapazes e três moças. Não temos informação sobre a faixa etária coberta por estes sujeitos, mas sabemos em que períodos estão matriculados: 9 cursavam o 2º período, 3 estavam no 3º período e os demais variavam bastante. Isto se explica por ser o curso em regime de créditos o que facilita ao aluno optar por se inscrever em uma disciplina quando achar mais conveniente. Estes estudantes demoraram entre 30 e 40 minutos para preencherem o questionário proposto.

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Nossa pesquisa qualitativa exigiu um enfoque interpretativo das respostas dos sujeitos. Assim, nossa postura diante dos dados foi de interpretar/compreender as concepções dos licenciandos sobre a importância de alunos deficientes visuais aprenderem física. Além disso, entendemos que não existe neutralidade, a própria realidade investigada alcança o seu significado e se constrói sob a influência da situação 'relativamente artificial' da pesquisa.

## O questionário

O questionário aberto foi composto de dez perguntas: 1) O que você entende por inclusão escolar?; 2) O que você entende como deficiência visual?; 3) O que é uma turma inclusiva?; 4) Você concorda que alunos com necessidades especiais frequentem escolas regulares ou acredita que o melhor seria frequentarem escolas especiais? Por quê?; 5) O que você faria se na sua futura turma existisse um cego?; 6) Como você elaboraria uma aula teórica/conceitual para uma turma inclusiva?; 7) Como você elaboraria uma aula prática/experimental para uma turma inclusiva?; 8) O que você acredita ser mais adequado em relação à linguagem a ser utilizada em uma turma inclusiva?; 9) Você acha que um aluno com deficiência visual é capaz de aprender física? Por quê?; 10) Você acha que um aluno com deficiência visual precisa aprender física? Por quê?. Ao final do questionário estava indicado que o licenciando poderia incluir mais informações, ficando livre para completar suas respostas.

Procuramos identificar se os licenciandos entendem o que é a inclusão de alunos deficientes visuais em aulas regulares de física e se eles consideram que há possibilidade de aprendizagem, além da sua necessidade.

A escolha desse tipo de questionário ocorreu devido ao fato de que questões abertas permitem ao sujeito formular e estruturar livremente sua resposta e, dessa maneira, 'possibilitam conhecer de forma mais profunda e espontânea a opinião do entrevistado sobre o assunto abordado, permitindo variedade maior de respostas' (NOVELLI, 2005, p. 172). Procuramos levar em consideração algumas características necessárias para a construção de um questionário consistente: a objetividade, a clareza e a linguagem adaptada aos sujeitos.

As análises foram feitas através da leitura crítica das respostas aos questionários. Os trechos considerados importantes foram analisados e uma síntese para cada pergunta foi elaborada a partir da análise dos trechos.

## Análises

1ª questão: Entendem como inclusão escolar a diminuição das barreiras arquitetônicas e a integração dos alunos com deficiência ao corpo discente da escola. Vale ressaltar, que segundo Blanco (2010), inclusão é mais amplo que integração, uma vez que a finalidade da integração é assegurar o direito das pessoas com necessidades educativas especiais a educar-se em escolas comuns enquanto a inclusão tem como finalidade oferecer uma educação de qualidade a todos os estudantes. Isto significa que a inclusão tem um eixo central das políticas educativas e uma responsabilidade do sistema educativo em conjunto (BLANCO, 2010).

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- 2ª questão: Esses estudantes entendem como deficiência visual a pessoa com dificuldade de enxergar, com falta ou perda parcial da visão, incapacitado e privado de oportunidades. Entendemos que apresentam uma percepção antiga do aluno com deficiência visual, posto que atualmente já há pessoas com deficiência visual no mercado de trabalho e atuantes como consumidores exigentes.
- 3ª questão: Nesta questão os licenciandos mostraram a preocupação em cooperar com os alunos com deficiência visual, oferecendo-lhes uma boa receptividade, indicando que a escola deveria ser adaptada e ter profissionais qualificados para atender a todos os alunos sem distinção.
- 4ª questão: Vários licenciandos defenderam a escola regular para a formação dos alunos com deficiência visual. Dentre os motivos apontados estava que a presença de um aluno com deficiência visual auxiliaria os demais a aprender a lidar com as diferenças. Em relação a este aspecto, é importante trazer resultados de outras pesquisas que já indicam que os alunos normovisuais 'se aproveitam da prática inclusivista, pois elas permitem uma maior e melhor compreensão dos princípios e fenômenos estudados durante as aulas de física (BARBOSA-LIMA & CASTRO, 2012, p. 5). Alguns reconhecem as dificuldades na inclusão, mas acreditam que esta é a melhor solução para uma sociedade mais justa.
- 5ª questão: Na resposta a esta questão alguns alunos mostraram a preocupação em incluir o aluno com deficiência visual na turma, aprendendo Braille, modificando métodos de aula, buscando material adequado, seja livro em Braille ou outro material assistivo. Apenas um trouxe o aluno com deficiência visual para o mundo dos normovisuais através da exploração de sua imaginação.
- 6ª questão: A pergunta era como fariam uma aula teórica de física. Vários desses licenciandos afirmaram não saber o que fazer. Outros afirmaram que considerariam as limitações dos alunos, apelando para exemplos palpáveis apoiando sua aula mais em sua fala que em sua escrita. De qualquer forma eles mostraram preocupação em possibilitar a participação de todos os discentes. Vale ressaltar que a maioria dos alunos está no início da graduação, não tendo cursado ainda as disciplinas específicas sobre o ensino de física, ou seja, eles não participaram de discussões embasadas nas teorias da área sobre como ensinar física. De qualquer maneira, entendemos que eles já possuem saberes (TARDIF, 2014) vivenciados quando eram ainda alunos de ensino médio.
- 7ª questão: Questionados como procederiam para preparar uma aula prática/experimental para alunos com deficiência visual, alguns responderam que não saberiam o que fazer, enquanto vários outros apelariam para a construção de experimentos que utilizassem o tato, o som, além da imaginação do aluno para buscar a participação de todos.
- 8ª questão: Na questão sobre linguagem, os alunos, de maneira geral, compreendem que é necessário respeito e atenção do professor no sentido de facilitar o processo de aprendizagem dos alunos. Chamou-nos atenção o fato da grande maioria entender que essa facilitação se dá quando há simplificação. Entendemos que tornar a linguagem simples significa tornar o conteúdo mais fácil para os alunos, podendo indicar que a deficiência visual implica em uma deficiência na compreensão, ou seja, uma visão socialmente construída de incapacidade intelectual.

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- 9ª questão: A maioria dos estudantes acredita que um aluno com deficiência visual é capaz de aprender física, sendo algumas das justificativas o fato de a ciência ser abstrata e que todos se encontram em igualdade de condição. Mesmo entendendo que todos podem aprender física, não souberam informar como fariam em suas futuras aulas.

10ª questão: Quanto à necessidade de aprender física, a maioria respondeu de maneira afirmativa e algumas justificativas merecem destaque. Uma delas foi para entender o mundo e a natureza, outra o comportamento do Universo e até mesmo para obter o diploma do ensino médio. Um sujeito afirmou que ninguém precisa aprender física, indicando que, mesmo buscando a formação como professor de física, não considera fundamental a necessidade de aprendê-la.

Vale ressaltar que no questionário havia a possibilidade de o respondente acrescentar informações, indicando que ele estava livre para completar o questionário. Nenhum licenciando incluiu informações, restringindo-se a responder as questões solicitadas.

## Considerações Finais

Partindo do nosso objetivo de buscar entender o que licenciandos de um curso de física pensam sobre a inclusão de alunos com deficiências visuais em aulas de física em escolas regulares e se concordam ou não com a indissociabilidade entre o sentido da visão e o aprendizado, percebemos que a ideia do cego como um sujeito incapaz perpassou algumas vezes pelas suas respostas, assim como a visão histórica do cego como detentor da sabedoria do mundo (CHANGEUX, 2005).

Podemos inferir, com base nas análises realizadas, que estes jovens concordam que os alunos com deficiência visual devem aprender física, mesmo não sabendo como agir para contribuir com este aprendizado, principalmente em salas de aulas de escolas regulares.

Um fato que chama atenção são as respostas sobre a linguagem a ser utilizada em sala de aula. A maioria indicou a necessidade de uma linguagem simples e fácil, mas nenhum deles afirmou que deva ser uma linguagem precisa. Assim, o emprego da fala e da leitura do que está escrito no quadro é primordial para o entendimento do estudante, não bastando, o que normalmente se faz, apontar para a fórmula e/ou equação ali registrada.

Os resultados parciais dessa pesquisa apontam para a necessidade de promover discussões acerca da Inclusão já nos primeiros anos da licenciatura como caminho para construção do conhecimento dos futuros professores que se depararão com as diversas situações em sua futura ação profissional e para cumprimento das bases legais no que diz respeito à formação crítica e reflexiva.

## Referências

BARBOSA-LIMA, M. da C. de A.; CASTRO, G. F. de. Formação inicial de professores de física: a questão da inclusão de alunos com deficiências visuais no ensino regular. Ciência e Educação (UNESP. Impresso), v. 18, p. 81-98, 2012.

BIANCHI, C. S. e BARBOSA-LIMA, M. C. A. Concepções de licenciandos em física e a inclusão de deficientes visuais: a urgência de um novo paradigma

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com enfoque em cts. IV Encontro Nacional de Ensino de Ciências da Saúde e do Ambiente . Niterói/RJ, 2014.

BLANCO, R. La atención educativa a La diversidad: escuelas inclusivas in: Marchesi, A; Tedesco, J. C. & Coll,C Calidad, equidad y reformas em la enseñanza Buenos Aires: Santillana, 2010.

BRASIL, 2004 DECRETO Nº 5.296 de 2 de dezembro de 2004 Regulamenta as Leis nos 10.048, de 8 de novembro de 2000, que dá prioridade de atendimento às pessoas que especifica, e 10.098, de 19 de dezembro de 2000, que estabelece normas gerais e critérios básicos para a promoção da acessibilidade das pessoas portadoras de deficiência ou com mobilidade reduzida, e dá outras providências.

CAMARGO, E. P. Saberes docentes para a inclusão do aluno com deficiência visual em aulas de física . 1ª ed. São Paulo: UNESP Editora, 2012.

CARVALHO, Anna Maria P., A pesquisa em sala de aula e a formação de professores. IN: Nardi, Roberto (org) A pesquisa em Ensino de Ciências no Brasil: alguns recortes . São Paulo: Escrituras Editora, 2007.

CHANGUEX, J-P. La lumière, au siècle des Lumières& aujourd'hui , Paris: Odile Jacob, 2005

NOVELLI, Ana Lucia R., Pesquisa de opinião IN: Duarte, Jorge e Barros, Antonio (orgs) Métodos e Técnicas de Pesquisa em Comunicação . São Paulo: Atlas, 2005.

QUEIROZ, Glória R. P. C; BARBOSA-LIMA, Maria da Conceição de A. Conhecimento científico, seu ensino e aprendizagem: atualidade do construtivismo. Ciência e Educação (UNESP), v. 13, p. 273-291, 2007.

VILLANI, Alberto, FRANZONI, Marisa e VALADARES, Juarez Melgaço. Desenvolvimento de um grupo de licenciandos numa disciplina de prática de ensino de Física e Biologia. Investigações em Ensino de Ciências , Volume 13, Número 2, Agosto de 2008.

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