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Desvelando aspectos da natureza da ciência presentes na palestra Nobel de Marie Curie

José Guilherme Lício, Cibelle Celestino Silva

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XXIII
Ano
2019
Data
29/01/2019
Linha de pesquisa
História, Filosofia E Sociologia Das Ciências E O Ensino De Física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## Desvelando aspectos da natureza da ciência presentes na palestra Nobel de Marie Curie

## José Guilherme Licio , Cibelle Celestino Silva 1 2

1 Programa de pós-graduação Interunidades em Ensino de Ciências da USP, jose.licio@usp.br 2

Instituto de Física de São Carlos da USP, cibelle@ifsc.usp.br

## Resumo

O Prêmio Nobel é uma fonte promissora para ilustrar aspectos da natureza da ciência, porém pouco ainda explorada no ensino de ciências. Como é bem sabido, Marie Skłodowska Curie foi uma das cientistas mais reconhecidas do século XX. Em 1911, ela recebe pela segunda vez um Prêmio Nobel, na área de química. Diferentemente de sua primeira premiação, nessa ocasião ela proferiu uma palestra sobre seu trabalho. Em sua exposição, Marie Curie realçou aspectos que considerava relevantes a respeito de como sua pesquisa foi realizada. Em sua palestra, a cientista assumiu implicitamente que sua pesquisa foi guiada por uma sequência de passos previstos na descrição tradicional de método científico. Embora hoje ultrapassada entre especialistas, a ideia de ciência regida por um método linear e lógico reflete o pensamento filosófico de sua época e ainda é frequentemente difundida entre professores, estudantes e público em geral. A problematização sobre a existência de tal método a partir do estudo do discurso de uma personagem bastante conhecida da história da ciência pode contribuir para o enriquecimento das visões sobre natureza da ciência de professores e estudantes em geral. No presente trabalho, fazemos uma análise da palestra de Marie Curie, utilizando a Análise Textual Discursiva, buscando explicitar aspectos da natureza da ciência.

Palavras-chave : Marie Curie, Prêmio Nobel, Natureza da Ciência

## O Prêmio Nobel em Contexto

Receber o Prêmio Nobel é, desde seus primórdios, uma das ocasiões de maior reconhecimento para um cientista, tanto pela comunidade acadêmica quanto por leigos. Na última versão de seu testamento, assinado em 27 de Novembro de 1895, pouco menos de um ano antes de sua morte, o industrial sueco Alfred Bernhard Nobel (1833-1896), que havia acumulado grande riqueza em vida, desejava que parte de sua fortuna fosse usada anualmente para premiar os trabalhos mais relevantes realizados durante o ano anterior nas áreas de Física, Química, Fisiologia/Medicina, Literatura e em missões humanitárias que promovessem a paz entre os povos. Após a oficialização e publicação do testamento, seguiram-se complexos procedimentos burocráticos que culminaram na instituição do Prêmio Nobel, transformando os trechos do testamento em estatuto que seria seguido para escolher os laureados (CRAWFORD, 1984). O Prêmio é anualmente distribuído desde 1901 em uma grande cerimônia que acontece na data do aniversário da morte de Alfred Nobel. Na ocasião, os laureados proferem discursos sobre os trabalhos premiados, que atualmente estão disponíveis no website oficial do Prêmio Nobel.

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O Prêmio Nobel é uma fonte promissora e pouco explorada no ensino de ciências, especialmente com a intenção de ilustrar aspectos da natureza da ciência e da comunicação pública da ciência, por uma perspectiva crítica. Nesse âmbito, é relevante estudar as ideias que os próprios cientistas têm a respeito de seus trabalhos. Uma das primeiras publicações oficiais a esse respeito ocorreu na década de 1970, quando o microbiologista italiano Salvador Edward Luria (1912-1991) ganhador do Nobel de medicina em 1969, publicou um artigo sobre os problemas existentes na relação entre o desenvolvimento científico e a sociedade (LURIA, 1977). Atualmente, há na literatura estudos sobre ocasiões específicas do Prêmio Nobel, que por vezes são permeadas por polêmicas (SINGH e RIESS, 2001), e também estudos que envolvem o uso dos episódios históricos referentes a premiações do Nobel visando estudos sobre natureza da ciência (ALLCHIN, 2008; CORDEIRO e PEDUZZI, 2010).

Neste trabalho, apresentamos uma análise da palestra proferida por Marie Curie em 1911, quando foi premiada em Química, explicitando trechos em que a cientista deixa transparecer suas ideias a respeito de um método científico bem definido. Essa análise se propõe a mostrar como o contexto filosófico da cientista influenciou seu discurso na cerimônia de laureação. Em especial, problematizar as visões de um cientista sobre o método científico é relevante para uma formação científica crítica, pois pode revelar algumas concepções distorcidas que se costuma propagar a respeito do funcionamento da ciência.

## Naturezas e Complexidades do Fazer Científico

Na educação científica, é comum a ênfase em aspectos técnicos e operacionais das ciências em detrimento de discussões a respeito de aspectos metacientíficos, como, por exemplo, quais são os objetivos de uma dada área do conhecimento, como trabalham os cientistas nesta área, como ocorre a validação dos conhecimentos científicos, como os conhecimentos científicos são influenciados por interesses econômicos, políticos, ideológicos e outros. Em outras palavras, costuma-se apresentar a ciência apenas pelos seus produtos, sem levar em conta as relações com os contextos sociais, políticos, econômicos e culturais, por exemplo (BERÇOT e PRESTES, 2016). Ignorar aspectos meta-científicos limita demasiadamente a visão que se tem sobre ciências e favorece a manutenção de visões distorcidas, baseadas em senso comum ou estereótipos a respeito dos cientistas.

Em contextos mais específicos, como a formação de profissionais científicos em níveis de pós-graduação, a falta da discussão sobre tópicos de Natureza da Ciência (NdC) também é nociva, posto que estes profissionais têm, entre suas atribuições, o trabalho de comunicar adequadamente o resultado de suas pesquisas, e, além disso, deverão arcar com burocracias e tomadas de decisão que podem impactar a vida de toda a sociedade. Por isso, em todos os níveis de educação científica, é imperativo que se tenha uma visão crítica sobre a complexidade do fazer científico.

No entanto, escolher a forma como abordar esse tipo de assunto ao longo da formação de professores e cientistas não é simples, já que aspectos conceituais e processuais não podem ser ignorados, por constituirem a forma cristalizada de se entender o que foi feito até agora nas ciências, além de possibilitar aplicações na

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resolução de muitos problemas. As ciências, afinal, são construções extremamente complexas, e qualquer tentativa de simplificá-las ou normatizá-las apresenta confusões e dificuldades. Por isso, muitos debates no mundo acadêmico têm sido realizados nas últimas décadas sobre o que deve ser apresentado como NdC, especialmente no contexto do ensino de ciências, e como esses aspectos devem ser discutidos na formação de jovens e profissionais.

A discussão sobre a necessidade e formas de se ensinar sobre as ciências, visando esclarecer como se dá a construção do conhecimento científico e seus processos existe desde pelo menos meados do século XX (ROBINSON, 1965; MATTHEWS, 1994). Um dos principais objetivos destes autores foi combater as visões de ciência trazidas, por exemplo, pelo pensamento positivista que marcou principalmente a primeira metade daquele século. A ideia de que a ciência utiliza um único método científico, que garante a neutralidade científica e que cientistas sejam sempre guiados pela lógica e pela razão foi muito questionada. Atualmente esse tipo de visão já é considerada inadequada e ultrapassada (THURS, 2015; WOODCOCK, 2014).

Nas primeiras décadas do século XXI, a dita visão consensual da natureza da ciência (MCCOMAS e OLSON, 1998; MCCOMAS, ALMAZROA e CLOUGH, 1998) predominou na área de ensino de ciências. Ao longo dos últimos anos, podemos encontrar diversas alternativas de quais aspectos da natureza da ciência e sobre como abordá-los na educação científica (RUDOLPH, 2000; ADÚRIZ-BRAVO, IZQUIERDO e ESTANY, 2002; CLOUGH, 2008; ALLCHIN, 2011; DIJK, 2011; IRZIK e NOLA, 2011; MATTHEWS, 2012; BAGDONAS e SILVA, 2013; DUSCHL e GRANDY, 2013; MARTINS, 2015). A perspectiva que adotamos em nosso trabalho é a proposta por Douglas Allchin em 2013, chamada de Ciência Integral (ALLCHIN, 2011; ALLCHIN, 2013), que considera que as ciências possuem diferentes dimensões de confiabilidade, isto é, o fazer científico passa por diversos processos complexos para existir e ser validado. Esses processos podem ser classificados de acordo com três dimensões:

-  Dimensão Observacional : Considera aspectos referentes aos experimentos, às medidas e aos instrumentos usados pelos cientistas. Questões como a robustez dos dados empíricos, a precisão das medições e a validação de novos instrumentos de medição encaixam-se nessa dimensão.
-  Dimensão Conceitual: Enfatiza a parte cognitiva do fazer científico considerando padrões de raciocínio dos cientistas, papel dos erros e aproximações, usos de metáforas e crenças epistemológicas dos cientistas.
-  Dimensão Sociocultural: Nesta, são englobados aspectos que dizem respeito à interação entre cientistas e instituições, os vieses dos cientistas, o papel da economia e do financiamento de projetos científicos e a natureza das comunicações dos cientistas - tanto com seus pares quanto com o público geral.

Numa análise como a que fazemos neste artigo, nem todas essas dimensões serão igualmente perceptíveis, e cada episódio histórico demanda um estudo específico.

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## Sobre Fontes e Traduções

Num trabalho historiográfico, uma das questões relevantes é a escolha das fontes a serem analisadas. Fontes históricas não são quaisquer artefatos ou documentos antigos, como às vezes transparece no senso comum do termo. Para adquirir o status de fonte histórica, é necessário que esse objeto, que pode ser desde um béquer até uma carta confidencial, forneça evidências para uma teoria pré-estabelecida por quem se dedica a estudá-lo (KRAGH, 1987). Uma carta escrita por Marie Curie, por exemplo, a princípio não é necessariamente uma fonte histórica. Por outro lado, uma carta que dê pistas, ou mencione explicitamente acontecimentos que se relacionem com o entendimento de sua nomeação para um Prêmio Nobel, passa a ser uma fonte caso um estudo se interesse por esse tipo de documento. Embora não seja o foco desta apresentação, de fato algumas cartas trocadas entre Marie Curie e outros cientistas fornecem pistas a respeito das questões que envolveram especialmente sua nomeação para o Nobel de 1911.

Uma fonte histórica pode ser classificada como fonte primária ou fonte secundária. No primeiro caso, são consideradas as que os próprios cientistas produziram: cartas, anotações, relatórios, comunicações oficiais, e assim por diante. Essas fontes podem ser tanto de âmbito privado do cientista, como anotações pessoais a respeito de sua vida particular ou seu trabalho, e que não tinham, a princípio, a intenção de serem divulgadas ao público, quanto as produções que eram desde o princípio destinadas a se tornarem públicas como artigos, livros, aulas e discursos.

O objeto de nossas análises trata-se de uma fonte primária: a palestra proferida pela cientista quando recebeu o Prêmio Nobel. Ao ler esse tipo de material, devemos nos lembrar de que, primeiramente, essas comunicações foram preparadas muito tempo depois do acontecimento dos fatos a que se referem. Por se tratar de uma ocasião de grande visibilidade e de importância mundial, é normal que Curie possa ter omitido detalhes de seus trabalhos e racionalizado eventos, a fim de criar uma narrativa coerente e que transmitisse uma visão adequada de seus feitos científicos considerando os parâmetros da época. Assim, para analisar adequadamente esse tipo de fonte, é necessário recorrer a outros materiais, as chamadas fontes secundárias. Fontes dessa categoria são as produzidas por terceiros, por exemplo, estudos históricos feitos sobre os episódios considerados, memoriais, obituários e biografias. Essas fontes podem indicar que informações contradizem os relatos apresentados pelos cientistas, qual o contexto da produção da fonte primária analisada e como interpretar de maneira menos anacrônica algumas passagens ditas pelos cientistas.

Outra questão que emerge de uma análise como a nossa diz respeito à tradução de materiais históricos. Quando um cientista produz um objeto que seja de interesse histórico, provavelmente essa produção estará em sua língua vernácula. Um historiador que deseje aprofundar-se de maneira mais completa e esclarecida possível deve analisar esse material conforme foi produzido, ou seja, na língua original. Isso costuma ser mais difícil quanto mais antigo for o material analisado. Além das línguas estrangeiras menos usuais para o público geral, muitas vezes mesmo uma língua amplamente difundida, como o inglês, ou até mesmo o português, passou por tantas mudanças ao longo dos anos, que uma palavra pode ser entendida hoje como significando algo distinto em relação à sua época. Portanto, é importante considerar que, ao ler uma fonte histórica, sempre há o risco de

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fazermos anacronismos, isto é, interpretar certas ideias conforme nossa visão atual de mundo, e não necessariamente aquela vigente à época de produção da fonte. Aqui, destacamos que originalmente Marie Curie proferiu sua palestra em francês. Portanto, a versão em inglês disponibilizada gratuitamente no website do Prêmio Nobel já é uma primeira tradução.

## Metodologia de Análise

Para a análise da palestra, baseamo-nos na metodologia de Análise Textual Discursiva (ATD), proposta pela Profa. Maria do Carmo Galiazzi e pelo Prof. Roque Moraes (MORAES e GALIAZZI, 2016). Com a ATD buscamos informações explicitamente presentes no objeto de estudo, bem como informações que não estejam explicitamente presentes, como as referentes ao contexto no qual o documento foi elaborado. Segundo a ATD, a análise pressupõe as etapas, que não precisam ocorrer de forma linear: 1) seleção do material, 2) unitarização, 3) categorização, descrição e interpretação.

- O material analisado foi a palestra de Curie; utilizamos como fontes secundárias estudos históricos e biográficos sobre a autora (MALLEY, 2000; QUINN, 2011; MARTINS, 2012) A unitarização é representada pela numeração dos parágrafos e pela seleção de trechos representativos. A categorização é apresentada como uma separação em diferentes tópicos levantados pela cientista em sua comunicação e que são de nosso interesse. A descrição contextualiza os trechos salientados. Na fase da interpretação, relacionamos nossa análise com a abordagem de Ciência Integral, explicitando quais dimensões de confiabilidade podem ser exploradas no material.

## Análise da Palestra

- O Prêmio Nobel de Química de 1911 foi entregue a Maria Salomea Sklodowska, que ficou conhecida pelo seu nome de casada, Marie Curie, 'em reconhecimento aos seus serviços para o avanço da Química, pela descoberta dos elementos Rádio e Polônio, pelo isolamento do Rádio e o estudo da natureza e compostos deste notável elemento' (NOBEL MEDIA AB, 2014). Esta foi a primeira vez que um Prêmio Nobel foi entregue a alguém que já havia sido laureado anteriormente: Marie Curie recebera o Prêmio de Física em 1903, juntamente com Antoine Henri Becquerel (1852-1908) e seu marido Pierre Curie (1859-1906), pela descoberta do fenômeno da radioatividade. Naquela ocasião, foram reconhecidos os trabalhos desenvolvidos pela cientista e seu marido a respeito da radioatividade presente em elementos além do urânio, e, a partir disso, do isolamento dos novos elementos polônio (nomeado em homenagem ao país de origem de Marie) e rádio. O reconhecimento dado a Becquerel sobre os trabalhos com radioatividade é um tema controverso, posto que a posição de influência do francês pode ter influenciado a comunidade científica da época a relevar alguns de seus equívocos conceituais (MARTINS, 2012; MARTINS, 1990). Em 1903, Marie Curie não proferiu um discurso oficial. Em 1911, apenas ela foi premiada, sendo reconhecidos ainda os desdobramentos de suas pesquisas sobre a radioatividade e sobre a descoberta de

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novos elementos. Neste contexto, ela já era viúva de seu marido Pierre, e, sendo a única laureada da ocasião, ela proferiu o discurso que aqui analisamos.

As ideias aqui exploradas encontram-se entre os parágrafos 10 e 13 da palestra transcrita . Segue, abaixo, o trecho, a partir do material disponível no 1 website (CURIE, 1911, tradução e negritos nossos):

Eu fiquei chocada pelo fato de que a atividade dos compostos de urânio e de tório parecia ser uma propriedade atômica do elemento urânio e do elemento tório. Compostos químicos e misturas contendo urânio e tório são ativos em proporção direta à quantia desses materiais contidos nelas. A atividade não é destruída nem por mudanças físicas de estado nem por transformações químicas.

Eu medi a atividade de um número de minerais; todos os que pareciam ser radioativos sempre continham urânio ou tório. Mas um fato inesperado foi notado: alguns materiais (pechblenda, chalcolita, autunita) tinham maior atividade que a esperada com base no conteúdo de urânio ou tório. Então, certas pechblendas que continham 75% do óxido de urânio eram cerca de quatro vezes mais radioativas que esse óxido. Chalcolita (fosfato cristalizado de cobre e urânio) era cerca de duas vezes mais radioativa que urânio. Isso entrava em conflito com visões de que nenhum mineral devia ser mais radioativo que urânio metálico. Para explicar esse ponto eu preparei chalcolita sintética a partir de produtos puros, e obtive cristais cuja atividade era completamente consistente com o conteúdo de urânio; essa atividade é cerca de metade daquela do urânio.

Eu então pensei que a maior atividade dos minerais naturais devia ser determinada pela presença de uma pequena quantidade de um material altamente radioativo, diferente de urânio, tório e dos elementos conhecidos na época. Também ocorreu a mim que, se esse fosse o caso, eu poderia extrair essa substância do mineral por meio de métodos ordinários de análise química. Pierre Curie e eu certa vez fizemos essa pesquisa, esperando que a proporção do novo elemento pudesse alcançar um alto percentual. Na realidade, a proporção do elemento hipotético era muito menor, e levou muitos anos para se mostrar inequivocamente que a pechblenda contém pelo menos um material altamente radioativo que é um novo elemento no sentido que a química usa o termo.

Fomos, então, levados a criar um novo método de procurar elementos, um método baseado em radioatividade, considerada uma propriedade atômica da matéria . Cada separação química é seguida por uma medição da atividade dos produtos obtidos, e, dessa maneira, é possível determinar como a substância ativa se comporta do ponto de vista químico. Este método veio a ter aplicações gerais, e é similar, em algum sentido, à análise espectral. Devido à alta variedade da radiação emitida, o método pode ser aperfeiçoado e estendido, de forma que seja possível não apenas descobrir materiais radioativos, mas distingui-los entre si com grande certeza.

Nestes fragmentos, a cientista descreve um procedimento linear que guiara sua pesquisa. A sequência 'ficar chocada', 'medir', 'entrar em conflito' e 'então pensar', para portanto ser levada a 'criar um novo método' revela uma postura filosófica de Marie Curie. Essa postura, que se aproxima de um contexto histórico e cultural permeado por ideias indutivistas a respeito da construção do conhecimento científico, revela a cientista como um fruto de sua época, influenciada (e influenciadora) de ideais sobre as ciências. Sendo uma cientista de origem polonesa, Marie Curie teve contato desde cedo, especialmente por parte de seu pai, Wladyslaw Sklodowksi (1832-1902), com alguns dos pensamentos do realismo

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político que se tornaram centrais no positivismo praticado em Varsóvia no século XIX. Nesse contexto, os pensamentos herdados do Iluminismo de que 'ciência, comércio o ofício são as armas necessárias' eram importantes para Wladyslaw, e, por consequência, Marie teve contato com esse tipo de vertente filosófica em sua criação (QUINN, 2011, cap. 1).

Pela perspectiva da Ciência Integral, podemos aqui ressaltar alguns aspectos das dimensões de confiabilidade das ciências:

-  Quanto à dimensão observacional , ressalta-se a importância dos estudos sistemáticos realizados pela cientista.
-  Na dimensão conceitual , a cientista descreve uma construção metodológica linear, sistemática, que reflete alguns pensamentos da época em que ela vivia. A construção do conhecimento através da lógica e do empirismo é realçada.
-  Na dimensão sociocultural , Marie Curie se mostra como influenciada pelo ambiente filosófico de sua época, uma vez que, desde sua criação, teve contato com o pensamento indutivo-positivista, e, além disso, as próprias condições em que se encontrava socialmente, no contexto de sua premiação, exerciam uma pressão para que ela se portasse, neste tipo de discurso, conforme o que era esperado de um cientista de sua época (QUINN, 2011, cap. 9).

A palestra de Marie Curie é exemplar no que diz respeito à potencialidade de informações que podem ser debatidas a partir da produção original de uma cientista renomada como ela, revelando pensamentos que a cientista tinha não somente sobre seu trabalho, mas sobre a ciência de forma geral.

Levando em consideração o contexto no qual esse discurso foi produzido, podemos entender, e, dessa forma, embasar uma discussão no âmbito do ensino de ciências, como o ambiente filosófico influencia, e é influenciado pelos profissionais das ciências.

## Referências

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