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História da Radioatividade e Natureza da Ciência: possibilidades de diálogo

Karel Pontes Leal, Thaís Cyrino De Mello Forato

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XXIII
Ano
2019
Data
29/01/2019
Linha de pesquisa
História, Filosofia E Sociologia Das Ciências E O Ensino De Física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## História da Radioatividade e Natureza da Ciência: possibilidades de diálogo

## Karel Pontes Leal 1 , Thaís Cyrino de Mello Forato 2 ,

1 Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca - CEFET/RJ Campus Petrópolis, karelpontes@yahoo.com.br

2 Universidade Federal de São Paulo Campus Diadema, thaiscmf@gmail.com

## Resumo

Diferentes aspectos da natureza das ciências podem ser debatidos em episódios históricos sobre a radioatividade. Com o intuito de levantar possibilidades para professores de física de diferentes níveis de ensino, apresentamos diferentes fatos históricos do final do século XIX e início do século XX, que podem gerar debates em sala de aula. Questões epistemológicas, da prática científica, de gênero e socioeconômicas foram apresentadas junto ao desenvolvimento dos estudos sobre a radioatividade. Chamamos a atenção para diferentes produtos adicionados de materiais radioativos que foram lançados nesse período com a promessa de cura e prevenção de diversas doenças, inclusive de impotência sexual. Relacionamos esses acontecimentos à importância de uma educação científica baseada do desenvolvimento crítico dos estudantes, para que sejam capazes de identificar possíveis riscos à saúde, danos ao meio ambiente e prepara-los para questionar a eficácia de produtos que se propõem milagrosos, quando associados à determinadas concepções sobre a ciência. As reflexões mobilizadas por tais episódios históricos envolvendo a aspectos da natureza das ciências e o ensino de conceitos de física pode aproximar a construção desses saberes ao objetivo de assegurar os direitos humanos para todos, quanto ao acesso democrático ao conhecimento físico, que permite uma atuação mais crítica na sociedade.

Palavras-chave : Radioatividade, história da ciência, natureza da ciência, ensino de física.

## Introdução

As interpretações de fatos históricos, ou mesmo contemporâneos, comumente apresentam algumas divergências, dependendo do olhar e dos valores aplicados nesse exercício de analisar um acontecimento. Segundo Martins (2010, p. 7) 'A partir do caos histórico, o historiador cria uma ordem compreensível, através de um processo de seleção daquilo que é descrito pelas conexões que ele próprio inventa.'. Para esse historiador da ciência, mesmo que essa seleção seja criteriosa e siga uma metodologia historiográfica atual, é impossível não haver a omissão de muitos aspectos, ocasionando uma grande simplificação da complexidade histórica. Os resultados apresentados pela ciência também podem ter diferentes interpretações, apropriações ou vieses. Ao mesmo tempo em que uma descoberta ou elaboração de uma teoria podem levar a um grande passo tecnológico, suas nuances permitem o desenrolar de grandes tragédias. Alguns episódios das histórias das ciências são capazes de evidenciar esses quase paradoxos.

Um exemplo pode ser o desenvolvimento dos conhecimentos sobre a radioatividade, que ocorreram na última década do século XIX e no início do século passado. Com as pesquisas sobre a luminescência de determinados materiais, impulsionadas pelas descobertas dos raios x, as conclusões encontradas após anos

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de experiências, apontavam para uma energia que emanava dos átomos dos materiais, que hoje são chamados radioativos (Martins, 1990; Cordeiro e Peduzzi, 2011). Porém, se analisarmos a trajetória desse campo de pesquisa até os dias atuais, é possível identificarmos grandes tragédias que envolvem os elementos radioativos. Apenas para citar alguns, enumeramos o caso do Césio 137, ocorrido em Goiânia, no Brasil; as bombas de Hiroshima e Nagasaki, que surpreenderam o mundo no final da Segunda Guerra Mundial, na década de 1940; e, a explosão da Usina Nuclear de Chernobyl, na União Soviética da década de 1980.

Considerando a importância da história da humanidade para o desenvolvimento das gerações mais recentes, diferentes pesquisadores apresentaram propostas de ensino relacionadas a esses trágicos eventos (Grassi e Ferrari, 2009; Pinto e Marques, 2010; Gomes, 2015; Schmiedecke e Porto, 2017). Tais debates têm potencial para serem valorizados na escola básica devido à complexidade do tema e controvérsias que suscitam. Ao mesmo tempo em que acidentes como esses ocorreram, o desenvolvimento da física nuclear, da qual a radioatividade faz parte, proporcionou diversos avanços relacionados à geração de energia, à benefícios na agricultura e ao diagnóstico e tratamento de doenças.

Aspectos positivos e usos questionáveis relacionados ao conhecimento dos materiais radioativos podem enriquecer o ensino de física, mobilizando conceitos e discussões sobre diferentes aspectos da Natureza das Ciências. Tais debates permitem mobilizar um dos objetivos da educação científica, em formar cidadãos aptos a interpretar e refletir sobre questões sociocientíficas (Santos e Auler, 2011; Allchin, 2013; Acevedo-Díaz e García-Carmona, 2016). Conforme argumentamos neste trabalho, o acesso a esses conhecimentos e sobre a natureza da ciência são requisitos fundamentais para a promoção dos direitos humanos (D'Ambrosio, 2007).

Dentre uma diversidade de enfoques na literatura especializada sobre a introdução de aspectos da natureza da ciência no ensino de ciências (autores como Lederman; Mattheus, André Martins, McComas etc), selecionamos a perspectiva de Forato, Bagdonas e Testoni (2017), que defendem a explicitação apenas dos aspectos da natureza da ciência que se evidenciam no recorte histórico discutido. No caso deste trabalho, destacamos concepções que emergem dos exemplos apresentados. É a partir dessa perspectiva que apresentaremos alguns ingredientes da história da radioatividade que podem ser articulados na escola básica e na formação de professores de Física.

## Radioatividade e Natureza da Ciência

Os estudos dos trabalhos sobre radioatividade difundiram-se a partir de desdobramentos de investigações relacionadas aos Raios X. Antoine Henri Becquerel (1852-1908) é comumente considerado o pioneiro dos estudos sobre radioatividade, entretanto, Martins (1990) apresenta outros aspectos importantes do início dessas atividades. Ele indica que as interpretações dadas por Becquerel, relacionando seus estudos sobre luminescência às então recentes descobertas dos raios x, não possibilitariam chegar ao conceito de radioatividade, como foi construído por nomes como o de Marie Sklodowska Curie (1867-1934), poucos anos depois. O autor ainda afirma que encontrar um caminho para os estudos de radioatividade pode ter sido um golpe de sorte pois,

Na verdade, de acordo com nossos conhecimentos atuais, não existe relação direta entre a emissão de raios x e a luminescência. Mas é graças a

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essa pista falsa que muitas descobertas serão feitas (MARTINS, 1990, p. 30).

Nesse período, diferentes hipóteses a respeito da natureza das radiações x e, posteriormente, da atividade de materiais que contém urânio em suas composições levaram os cientistas a desenvolver diferentes métodos para a tomada de dados e observação de fenômenos relacionados a essas áreas. Isso pode evidenciar a negação, na prática, de um método científico único no desenvolvimento da ciência (Cordeiro e Peduzzi, 2011). Um outro aspecto da ciência que se apresenta nesse episódio é o possível alienamento do cientista. Essa ocorrência seria devida a uma crença exacerbada de um pesquisador em suas hipóteses, enviesando tomadas de dados e conclusões para que suas convicções sejam corroboradas em sua pesquisa. Martins (1990) considera que isso pode ter ocorrido com Becquerel, fazendo-o descreditar o 'descobrimento' da radioatividade ao mesmo.

Parte significativa do crédito desse desenvolvimento é dado para Marie Curie. Essa personagem da história das ciências é profícua por muitos aspectos passíveis de ênfase nas diferentes etapas do ensino de física. Inicialmente, pode-se contextualizar seu trabalho científico em uma sociedade machista como a do início do século passado. Nesse contexto, ela obteve o reconhecimento e chegou ao fim de sua vida com dois prêmios Nobel. Até hoje, apenas ela conseguiu isso em duas áreas diferentes (química em 1911 e física em 1903) (Cordeiro e Peduzzi, 2011).

Marie Curie desenvolveu seus estudos com elementos radioativos, durante boa parte de seu período produtivo de pesquisa, em um laboratório improvisado no porão de uma empresa de engenharia química. Seus trabalhos iniciais buscavam medidas quantitativas de radiação a partir de um método elétrico, além do que utilizava chapas fotográficas. Ambas as formas de obtenção de dados foram desenvolvidas durante a ascensão de pesquisas sobre os raios x. Com essa técnica foi possível diferenciar os fenômenos que hoje chamamos de radioatividade de outros fenômenos considerados espúrios e, a partir de conjecturas a respeito da natureza dessa radiação, ela foi capaz de encontrar novos elementos, como o polônio e o rádio. Martins (2003) apresenta diferentes personagens que auxiliaram e desenvolveram métodos utilizados por Marie ao longo de suas pesquisas. Uma dessas personagens foi seu marido Pierre Curie (1859-1906) que, dentre outros feitos, dividiu um prêmio Nobel com a esposa pelo descobrimento de novos elementos radioativos.

O fato de ser mulher gerou grandes dificuldades para Marie, pois era frequentemente descreditada dos seus feitos, inclusive com críticos indicando que seu marido era o responsável por todos os desenvolvimentos profissionais do casal. Com a morte de Pierre em 1906, Marie foi execrada pela opinião pública após boatos de que teria um relacionamento romântico com um homem casado e colega profissão Paul Langevin (1872-1946). Seu segundo prêmio Nobel, em 1911, pôs panos quentes nessas acusações que, possivelmente, levaram a saúde de Marie Curie a se deteriorar mais rapidamente (Tennenbaum, 2007).

Diferentes questões relacionadas a gênero podem ser discutidas nas aulas de ciências (Allchin, 2013). O fato de a história apresentar pouquíssimos exemplos de mulheres vitoriosas nos âmbitos acadêmicos, pode ser mais um ingrediente a ser apresentado nas aulas de radioatividade. Na escola básica, a apresentação de uma

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personagem inspiradora como Marie Curie pode evidenciar o machismo e a misoginia que ainda afloram em nossa sociedade.

Marie teve sua morte em decorrência de uma leucemia, provavelmente desenvolvida a partir de alto índice de exposição a materiais radioativos durante sua carreira como cientista. Infelizmente, ela não foi a única pessoa a sofrer com as consequências das radiações (Tennenbaum, 2007). Diversas outras sofreram tanto, ou até mais que ela, por desconhecimento da interação dos materiais radioativos com a matéria, ou mesmo de irresponsabilidade com uma nova tecnologia.

No início do século XX, o descobrimento do elemento rádio, que possui atividade muito superior à do urânio, desenvolveu uma grande corrida para minerar esse material. Diversos países começaram a fazer esse tipo de trabalho sem qualquer proteção para os trabalhadores, que inalavam grandes quantidades de Radônio, gás altamente tóxico liberado a partir da quebra de rochas em minas de Urânio. Apenas na década de 1920, países como Alemanha e Tchecoslováquia reconheceram que as doenças pulmonares que afligiam os mineiros eram oriundas da inalação de radônio. Na década seguinte, parte significativa desses trabalhadores tinham afecções pulmonares e, então, as autoridades começaram a buscar métodos de segurança para eles (Lima, Pimentel e Afonso, 2015).

- O desenvolvimento mercadológico e comercial desses materiais radioativos promoveu inúmeros casos de trabalhadores e consumidores com doenças provenientes de exposição às radiações. Nas duas primeiras décadas do século XX, diversos produtos tiveram rádio adicionado com o objetivo de incluir materiais que brilham no escuro em relógios e, até mesmo, em águas para consumo humano e tônicos que deveriam revigorar os homens (Lima, Pimentel e Afonso, 2015; Gunderman e Gonda, 2015).

Um dos casos mais simbólicos é que ficou conhecido como das 'garotas do rádio'. Uma empresa que desenvolveu relógios com pinturas que brilham no escuro, empregava mulheres jovens como principal mão de obra. Parte de suas tarefas era pintar, utilizando pincel, os ponteiros e números dos relógios com uma tinta à base de rádio. Para obter melhor desempenho, essas jovens lambiam a ponta do pincel, com o objetivo de afinar o traço e cobrir os espaços com mais facilidade. Uma moça, que trabalhou durante três anos nessa companhia, começou a perder dentes e apresentar fortes dores na mandíbula inferior. Um médico da Universidade de Harvard averiguou a situação da fábrica e não se surpreendeu com os resultados da radiografia, que apresentou grandes deformidades ósseas na paciente. A jovem acionou a justiça contra a companhia e foi seguida por outras funcionárias. A partir da repercussão do caso, o apelido de 'garotas do rádio' foi dado a essas moças. Elas ganharam indenizações, porém, não viveram muitos anos usufruindo dessa 'recompensa'. Ao negar uma reestruturação na linha de produção em sua fábrica, o então presidente Arthur Roeder indicou que as deformidades em suas funcionárias seriam decorrentes de uma vida promíscua e de possível caso de sífilis, tendo sua enfermidade nada a ver com o rádio (Lima, Pimentel e Afonso, 2015; Gunderman e Gonda, 2015).

A influência de questões econômicas e comerciais pode ser muito grande no desenvolvimento da ciência. É possível encontrar, no período em que se desenvolveu essas concepções sobre a radioatividade, profissionais da ciência que defendiam a utilização de materiais radioativos sem investigar possíveis reações adversas a longo prazo, como o químico responsável pela empresa das garotas do

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rádio, Edward Lehman, que zombou da possibilidade de as deformações encontradas nas jovens fossem decorrentes da exposição não segura ao rádio (Lima, Pimentel e Afonso, 2015; Gunderman e Gonda, 2015).

Esse outro exemplo histórico permite mobilizar, também, as discussões sobre gênero, envolvendo as questões sociocientíficas, envolvendo relações de poder entre diferentes grupos sociais, envolvendo interesses econômicos e financeiros para produção e uso da ciência, envolvendo relações entre ciência e tecnologia, apresentando aplicações práticas de um fenômeno sem que tenha havido a elaboração de explicações, modelos ou teorias para melhor compreendê-la. Essas questões de natureza da ciência trazem significativas contribuições para a formação de professores, consequentemente, para seus usos na escola básica (Allchin, 2013; Santos e Auler, 2011)

Além dos relógios, diversos outros produtos acrescidos de material radioativo foram produzidos e vendidos sob diferentes justificativas. Seu descobrimento trouxe uma imagem de elemento do futuro, capaz de prevenir e curar diferentes tipos de doenças. Um tônico revigorante chamado de Radithor , por exemplo, era prescrito para mais de 150 enfermidades, tendo sido recordista de vendas em meados da década de 1920. Foi desenvolvido, também, um supositório radioativo que, aplicado diariamente por quinze dias, era capaz de curar a impotência sexual dos homens. Lima, Pimentel e Afonso (2011) apresentam diferentes produtos vendidos durante os períodos de pesquisa sobre esses elementos radioativos. Desde águas radioativas, 'essenciais para a saúde' à cosméticos que traziam maior beleza para as mulheres e, caso o resultado não fosse satisfatório, a empresa oferecia uma recompensa de cinco mil dólares.

Todos esses produtos e acontecimentos parecem extremamente absurdos quando discutidos nos dias de hoje. Atualmente, temos regulamentações para a manipulação desses elementos e normas de segurança para profissionais que desempenham atividades relacionadas a essa ciência. Porém, é possível perceber que durante os primeiros anos em que tais conhecimentos eram desenvolvidos, alguns empresários buscaram o lançamento de produtos que prometiam a cura para diferentes doenças, sem nenhuma segurança ou garantia aos consumidores.

Outro exemplo de possível interesse econômico é o artigo de Schlundt, Fulton e Bruner (1936) em que são apresentados três modelos de aparatos para manter uma radioatividade induzida na água. Os autores indicam, em suas conclusões, que é remota a possibilidade de envenenamento por rádio, caso alguém beba da água desses compartimentos. Eles indicam que boa parte do rádio ingerido com a água é eliminado do corpo em poucos dias, deixando 'apenas' entre 25 e 35% dessa quantidade para ser evacuada posteriormente. Imaginamos que o interesse em defender a possibilidade de ingerir qualquer quantidade de material radioativo tenha interesses possivelmente escusos por trás. Isso se dá pela declaração de Marie Curie, em 1926, em que diz que 'não existe absolutamente meio de se destruir a substância uma vez admitido no corpo humano' 1 .

Dentre esses aspectos, gostaríamos de enfatizar o poder do capital. A riqueza financeira é tão significativa que um baque na indústria de produtos radioativos se deu após o episódio de um multimilionário que passou a ingerir, por

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cerca de um ano, um tônico revigorante para superar uma contusão ocorrida num jogo de futebol americano. O atleta Eben Byers (1880-1932) faleceu dois anos após a contusão e fez a sociedade norte americana abandonar a crença da 'terapia suave do rádio'.

Outros aspectos da natureza das ciências podem ser observados e analisados nesse e em outros recortes históricos sobre a radioatividade. A rápida ascensão de conhecimentos e pesquisas sobre o tema, apresentando diferentes metodologias de trabalho em variados lugares do mundo, chama a atenção para o conceito de 'comunidade científica', como Thomas Kuhn narra em seu livro A Estrutura das Revoluções Científicas (1967).

A imagem da ciência como uma entidade alheia a erros, dificuldades e problemas pode, também, interferir em ocasiões como essa. Em alguns dos produtos mencionados, o apelo feito ao consumidor para realizar a compra passa pela apresentação do elemento como uma grande descoberta da ciência. Essa que, aparentemente, pode resolver problemas e descobrir novas formas de encontrarmos tranquilidade em nossas vidas. O apontamento de diferentes episódios das histórias das ciências em que grandes personagens cometeram erros pode ser construtivo para o desenvolvimento do ensino de ciências (Allchin, 2013).

Cabe a reflexão, a ser debatida em diferentes níveis formativos, sobre o quanto de artefatos tecnológicos temos utilizado e sobre os quais não se sabe as possíveis interações com o corpo humano a médio e longo prazo, tal como com os materiais radioativos, décadas atrás. Ter acesso ao conhecimento científico é requisito fundamental para a promoção dos direitos humanos e, nesse sentido, apresentar diferentes nuances do desenvolvimento tecnológico da nossa sociedade pode ser fator determinante para a seguridade desses direitos (Oliveira e Queiroz, 2013).

## Algumas Considerações

Buscamos apresentar pequenos detalhes da história da radioatividade que podem ser debatidos em salas de aula de ciências, trazendo aspectos da natureza da ciência ou de questões sociocientíficas. O interesse pela ampliação dessas discussões para âmbitos metodológicos, acadêmicos e sociais se dá pela busca de apresentar uma ciência com todas as complexidades da vida cotidiana.

Por meio de exemplos históricos, pode-se mobilizar exemplos das relações da ciência com interesses políticos, econômicos, pessoais. É possível promover uma visão crítica nos estudantes, sobre questões sociocientíficas que permeiam a sociedade, um dos requisitos para se desenvolver a inclusão democrática dos saberes científicos e tecnológicos. Compreender tais relações, permite-nos questionar uma visão de ciência neutra, elitizada, livre de equívocos, imagem de autoridade inquestionável. Humanizando a ciência é possível aproximá-la dos alunos, argumentar sobre a importância dos conhecimentos científicos, por exemplo, para posicionar-se sobre acontecimentos que geraram sofrimento para muitas pessoas, ocorridos pelo desconhecimento e irresponsabilidade das pessoas, como no caso do césio-137, em Goiás na década de 1980.

Para D'Ambrósio (2001), a omissão de saberes sobre a matemática e a ciência pode tornar-se instrumento de segregação econômica, social e política. Explicitamos, assim, a perspectiva de D'Ambrósio (2000) sobre o ensino de ciências

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como instrumento de uma Educação para a Paz, bem como para a inclusão e a promoção dos direitos humanos (Oliveira e Queiroz, 2013). A formação do professor deve contemplar a concepção do poder transformador da Educação, na promoção dos direitos humanos e na construção de uma sociedade mais justa (Freire, 1996; D'Ambrósio, 2007).

Diferentes aspectos da natureza das ciências podem ser ressaltados e enfatizados em episódios históricos como esses. Nosso objetivo é apresentar algumas possibilidades e apontar possíveis referenciais para professores que queiram discutir tais questões com seus estudantes.

## Referências

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