ATIVIDADES EXPERIMENTAIS E A EPISTEMOLOGIA DA CIENCIA
Roberto Cruz-Hastenreiter, Patirica Sales, Aynã Felix, Juliana Gomes, Kaiza Cavalcanti
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXIII
- Ano
- 2019
- Data
- 29/01/2019
- Linha de pesquisa
- Materiais, Métodos E Estratégias De Ensino De Física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## ATIVIDADES EXPERIMENTAIS E A EPISTEMOLOGIA DA CIæNCIA
## Ayn‹ Felix , Juliana Gomes , Ka'za Cavalcanti , Patr'cia Sales , Roberto Cruz1 2 3 4 Hastenreiter 5
1 IFRJ Ð Campus Rio de Janeiro, aynafelixdasilva@gmail.com
- 2 IFRJ Ð Campus Rio de Janeiro, julianakellyribeirogomes@gmail.com
- 3 IFRJ Ð Campus Rio de Janeiro, kaiza.cavalcanti@ifrj.edu.br
4 IFRJ Ð Campus Rio de Janeiro, patr'cia.sales@ifrj.edu.br
5 IFRJ Ð Campus Rio de Janeiro, roberto.cruz@ifrj.edu.br
## Resumo
No campo da epistemologia da ciGLYPH<144>ncia, a an‡lise hist-rica indica uma permanente preocupaGLYPH<141>‹o na criaGLYPH<141>‹o de critŽrios de delimitaGLYPH<141>‹o da ciGLYPH<144>ncia. No entanto, esta delimitaGLYPH<141>‹o sucede uma problem‡tica: Ž poss'vel pensar em critŽrios objetivos que classifiquem os conhecimentos em categorias do tipo Òcient'ficosÓ e Òn‹o-cient'ficosÓ? H‡ preocupaGLYPH<141>›es concernentes ˆ relev%ncia da observaGLYPH<141>‹o e da racionalidade na elaboraGLYPH<141>‹o do conhecimento cient'fico. Mais especificamente, pensa-se na relaGLYPH<141>‹o entre experiGLYPH<144>ncia e teoria, assim como no papel dos instrumentos de medida na elaboraGLYPH<141>‹o dos conceitos cient'ficos. Tendo em vista a import%ncia dos presentes temas nas atividades relacionadas ao Òfazer ciGLYPH<144>nciaÓ, julga-se de similar relev%ncia tais quest›es nas atividades voltadas ao Òcomunicar ciGLYPH<144>nciaÓ que inclui as atividades did‡ticas. O presente trabalho Ž parte de um projeto mais amplo que apresenta reflex›es e aGLYPH<141>›es em duas perspectivas: uma sobre o papel das atividades experimentais nas aulas de ciGLYPH<144>ncias e outra a respeito da natureza da ciGLYPH<144>ncia. Neste trabalho, pretende-se apresentar reflex›es te-ricas referentes ˆs perspectivas supracitadas, e como ensaio te-rico Ž apresentada uma das atividades desenvolvidas no referido projeto. Como mŽtodo de pesquisa, foi utilizada a pesquisa qualitativa. Fundamentalmente, os dados foram constru'dos a partir do di‡logo entre alunos e entre os alunos e o professor, alŽm da an‡lise dos textos produzidos pelos alunos. Por meio da an‡lise de conteœdo, pretendeu-se avaliar poss'veis mudanGLYPH<141>as nas concepGLYPH<141>›es de ciGLYPH<144>ncia que esses novos experimentos podem fomentar junto aos alunos.
Palavras-chave : Atividades Experimentais, Epistemologia da CiGLYPH<144>ncia, Ensino por InvestigaGLYPH<141>‹o.
## IntroduGLYPH<141>‹o
A utilizaGLYPH<141>‹o de atividades experimentais no curr'culo das disciplinas cient'ficas tem sido o centro de grandes discuss›es entre professores e pesquisadores da ‡rea de ensino de ciGLYPH<144>ncias. Os documentos oficiais, como os Par%metros Curriculares Nacionais para o ensino mŽdio (PCN) e as OrientaGLYPH<141>›es Curriculares para o Ensino MŽdio (OCEM), enfatizam o uso de experimentos como estratŽgia de abordar diversos temas por fazerem parte da vida, da escola e do cotidiano de todos. Esses documentos recomendam que as atividades experimentais se desenvolvam,
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principalmente, a partir de um problema ou quest‹o a ser respondida, em detrimento as atividades experimentais com roteiros (BRASIL, 2002).
Diferentes s‹o as concepGLYPH<141>›es de atividades experimentais assim como diferentes s‹o seus objetivos. Borges (2002) destaca quatro objetivos dos laborat-rios nas aulas de CiGLYPH<144>ncias: verificar/comprovar leis e teorias cientificas; ensinar o mŽtodo cientifico; facilitar a compreens‹o de conceitos; ensinar habilidades pr‡ticas. Ainda que os objetivos supracitados possam ser considerados limitados, estes parecem delinear bem grande parte das atividades experimentais praticadas nas aulas de CiGLYPH<144>ncias. Uma discuss‹o mais ampla que problematize a pr‡tica proposta, ou que traga elementos inerentes da atividade cient'fica parece n‹o estar presente na maioria das propostas de atividades experimentais praticadas nas escolas e atŽ mesmo nos cursos universit‡rios.
Praia, Gil-Perez e Vilches (2007) destacam a import%ncia da alfabetizaGLYPH<141>‹o cient'fica na formaGLYPH<141>‹o cidad‹. Especificamente, os autores apresentam o papel da Natureza da CiGLYPH<144>ncia (NdC) na educaGLYPH<141>‹o para cidadania. O presente trabalho busca trazer reflex›es que envolvam a NdC em atividades experimentais. Admite-se a import%ncia das atividades experimentais nas aulas de CiGLYPH<144>ncias, sobretudo aquelas que se prop›em englobar, alŽm da perspectiva conceitual, as perspectivas epistGLYPH<144>mica e social.
Como elemento pr‡tico de nossa reflex‹o, apresenta-se neste texto uma proposta de atividade experimental que inclui discuss›es a respeito do Òfazer ciGLYPH<144>nciaÓ. Tais discuss›es apresentam quest›es sobre o mŽtodo cient'fico, o papel da observaGLYPH<141>‹o na elaboraGLYPH<141>‹o do conhecimento cient'fico, a relaGLYPH<141>‹o entre observaGLYPH<141>‹o e teoria, e o papel dos instrumentos e aparatos experimentais. A proposta em quest‹o refere-se a um experimento cl‡ssico de eletrost‡tica que visa o mapeamento de superf'cies equipotenciais. O ensaio emp'rico da referida atividade foi realizado em duas turmas de ensino mŽdio tŽcnico do Instituto Federal de EducaGLYPH<141>‹o, CiGLYPH<144>ncia e Tecnologia do Rio de Janeiro (IFRJ) Ð campus Rio de Janeiro. Os resultados iniciais foram obtidos a partir dos dados constru'dos por meio de textos produzidos pelos alunos assim como por meio da transcriGLYPH<141>‹o dos ‡udios gravados durante as atividades.
## Atividades Experimentais nas Aulas de CiGLYPH<144>ncias
Dentre os educadores mais atuais que reconhecem a experimentaGLYPH<141>‹o como essencial na EducaGLYPH<141>‹o B‡sica, v‡rios argumentos s‹o encontrados na literatura da ‡rea. Destacam-se alguns motivos apontados por professores para uso deste recurso que ainda permeiam as pesquisas mais recentes: a) estimular a observaGLYPH<141>‹o acurada e o registro cuidadoso dos dados; b) promover mŽtodos de pensamento cient'fico; c) desenvolver habilidades manipulativas; d) treinar em resoluGLYPH<141>‹o de problemas; e) esclarecer a teoria e promover a sua compreens‹o; f) vivenciar o processo de encontrar fatos por meio da investigaGLYPH<141>‹o chegando aos seus princ'pios e g) motivar os alunos (GALIAZZI et al ., 2001). Apesar disso, nem sempre o recurso ˆ atividade experimental se traduz por melhor aprendizagem e por isso alguns autores defendem a necessidade da sua reconceitualizaGLYPH<141>‹o ˆ luz de uma perspectiva construtivista social da natureza da ciGLYPH<144>ncia e da aprendizagem.
ƒ comum que em atividades pr‡ticas tradicionais, os alunos trabalhem em pequenos grupos e sigam as instruGLYPH<141>›es de um roteiro. Alguns dos objetivos das atividades pr‡ticas, em geral, Ž o de testar uma lei cient'fica, ilustrar ideias e
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conceitos aprendidos nas aulas te-ricas, descobrir ou formular uma lei acerca de um fen™meno espec'fico, ver na pr‡tica o que acontece na teoria, ou aprender a utilizar algum instrumento ou tŽcnica de laborat-rio espec'fica. Destaca-se as principais cr'ticas feitas a estas atividades pr‡ticas: elas n‹o s‹o efetivamente relacionadas aos conceitos f'sicos; muitas delas n‹o s‹o relevantes do ponto de vista dos estudantes, uma vez que tanto o problema como o procedimento para resolvGLYPH<144>-lo est‹o previamente determinados; as operaGLYPH<141>›es de montagem dos equipamentos, as atividades de coleta de dados e os c‡lculos para obter respostas esperadas consomem muito ou todo o tempo dispon'vel. Com isso, os estudantes dedicam pouco tempo ˆ an‡lise e interpretaGLYPH<141>‹o dos resultados e do pr-prio significado da atividade realizada. Em geral, eles percebem as atividades pr‡ticas como eventos isolados em que o objetivo Ž chegar ˆ resposta certa.
Hodson (2000) afirma que ganhamos muito ao redefinir a noGLYPH<141>‹o de trabalho experimental de forma a incluir diversas estratŽgias de ensino e de aprendizagem, permitindo ao aluno envolver-se em aspectos mais criativos da ciGLYPH<144>ncia proporcionando uma compreens‹o da natureza da pr‡tica cient'fica. Tal diversidade possibilita contemplar uma maior variedade de objetivos, considerando as distinGLYPH<141>›es entre: (1) aprender ciGLYPH<144>ncia Ð adquirir e desenvolver conhecimento conceitual e te-rico; (2) aprender acerca da ciGLYPH<144>ncia Ð desenvolver uma compreens‹o sobre a natureza e mŽtodos da ciGLYPH<144>ncia e uma percepGLYPH<141>‹o das complexas interaGLYPH<141>›es entre ciGLYPH<144>ncia, tecnologia, sociedade e ambiente; (3) fazer ciGLYPH<144>ncia Ð empenhar-se e desenvolver competGLYPH<144>ncias em investigaGLYPH<141>‹o cient'fica e resoluGLYPH<141>‹o de problemas.
Para que o ensino se reflita em aprendizagem, cabe ao professor a seleGLYPH<141>‹o da metodologia experimental mais adequada ˆ aprendizagem pretendida, pois diferentes modalidades de experimentaGLYPH<141>‹o privilegiam diferentes objetivos educacionais. Os alunos devem entender que a atividade cient'fica Ž uma atividade complexa e constru'da socialmente. E essa compreens‹o Ž atingida a partir do desenvolvimento de investigaGLYPH<141>›es de interesse pessoal, mas tambŽm centrando na aprendizagem de ciGLYPH<144>ncias e sobre ciGLYPH<144>ncias (SARAIVA-NEVES, 2006).
- O laborat-rio pode proporcionar excelentes oportunidades para que os estudantes testem suas pr-prias hip-teses sobre fen™menos particulares, para que planejem suas aGLYPH<141>›es, e as executem de forma a produzir resultados dignos de confianGLYPH<141>a. Para que isso seja efetivo, deve-se programar atividades de explicitaGLYPH<141>‹o dessas hip-teses antes da realizaGLYPH<141>‹o das atividades. Faz-se tambŽm necess‡rio que os professores enfatizem as diferenGLYPH<141>as entre os experimentos realizados no laborat-rio escolar, com fins pedag-gicos, e a investigaGLYPH<141>‹o emp'rica realizada por cientistas. ƒ necess‡ria uma an‡lise mais cuidadosa da relaGLYPH<141>‹o entre observaGLYPH<141>‹o, experimento e teoria. AlŽm disso, os professores devem encorajar a discuss‹o aberta das limitaGLYPH<141>›es e suposiGLYPH<141>›es que permeiam cada atividade no laborat-rio escolar.
Esse papel da utilizaGLYPH<141>‹o de aulas experimentais aponta para um car‡ter formador da cidadania, em uma melhor compreens‹o da import%ncia da ciGLYPH<144>ncia no mundo moderno. AlŽm disso, forma um car‡ter tŽcnico, pois entender melhor algumas ferramentas com que se trabalha no laborat-rio Ž de grande import%ncia para aqueles que vir‹o a fazer ciGLYPH<144>ncia ou trabalhar com a tecnologia de forma profissional.. Problematizar conceitos como o de lei ou de observaGLYPH<141>‹o Ž um dos caminhos poss'veis para a ampliaGLYPH<141>‹o das discuss›es nas atividades experimentais.
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## A Respeito da Natureza da CiGLYPH<144>ncia
A concepGLYPH<141>‹o que os professores tGLYPH<144>m sobre o trabalho experimental na CiGLYPH<144>ncia vai condicionar como integram o trabalho experimental no curr'culo, como preparam as atividades experimentais e como organizam o trabalho na sala de aula. Por outro lado, para construir uma concepGLYPH<141>‹o do que Ž um trabalho cient'fico e de como este deve ocorrer, Ž necess‡rio ter uma concepGLYPH<141>‹o formada do que Ž CiGLYPH<144>ncia. As concepGLYPH<141>›es que os professores possuem determina o ensino, evidenciando a import%ncia de compreendGLYPH<144>-las, estud‡-las e inclusive modific‡-las. Isso evidencia a necessidade de discutir tais concepGLYPH<141>›es na formaGLYPH<141>‹o inicial e continuada dos professores..
Nesse sentido, o conhecimento dos procedimentos essenciais no planejamento de aulas experimentais, e tambŽm o conceito que se tem dessas aulas, poderiam ser considerados como aspectos fundamentais do ensino experimental de CiGLYPH<144>ncias. O trabalho cient'fico escolar usualmente se orienta pela pr‡tica indutiva, utilizando uma sŽrie de passos consecutivos e caracter'sticos, tais como: observaGLYPH<141>‹o e experimentaGLYPH<141>‹o, generalizaGLYPH<141>‹o indutiva, formulaGLYPH<141>‹o de hip-teses, tentativa de verificaGLYPH<141>‹o, comprovaGLYPH<141>‹o ou recusa e obtenGLYPH<141>‹o de conhecimento objetivo. Assim, a concepGLYPH<141>‹o de ciGLYPH<144>ncia Ž empirista-indutivista para os alunos e tambŽm para os professores (SILVA e ZANON, 2000).
As crenGLYPH<141>as dos professores sobre suas pr‡ticas pedag-gicas est‹o intrinsicamente relacionadas ˆs suas concepGLYPH<141>›es epistemol-gicas. Essa interdependGLYPH<144>ncia pode nos auxiliar a elucidar algumas das raz›es pelas quais as atividades experimentais no ensino de ciGLYPH<144>ncias ainda apresentam concepGLYPH<141>›es pedag-gicas e epistemol-gicas j‡ consideradas inadequadas e superadas pela comunidade da ‡rea.
Uma educaGLYPH<141>‹o cient'fica voltada para a formaGLYPH<141>‹o de cidad‹os tem apontado a necessidade de incluir nos curr'culos de ciGLYPH<144>ncias o ensino acerca das ciGLYPH<144>ncias alŽm dos conteœdos cient'ficos.. Dessa forma, diversos autores tGLYPH<144>m defendido nos œltimos anos um ensino de ciGLYPH<144>ncias que traga discuss›es sobre a inter-relaGLYPH<141>‹o do conhecimento cient'fico produzido em determinada Žpoca com seu respectivo contexto s-cio-hist-rico-cultural (ALLCHIN, 2011; MARTINS, 2006). Com a crescente import%ncia da ciGLYPH<144>ncia e da tecnologia na vida das pessoas e nas decis›es de %mbito pœblico governamental, o mero conhecimento dos conteœdos Ž julgado por alguns pesquisadores insuficiente para a participaGLYPH<141>‹o destes cidad‹os na sociedade (ALLCHIN, 2011; OSBORNE et al., 2003).
Dessa forma, nos œltimos anos, vem se fortalecendo a utilizaGLYPH<141>‹o de uma concepGLYPH<141>‹o de educaGLYPH<141>‹o cient'fica baseada no conhecimento sobre a ciGLYPH<144>ncia denominada Ònatureza da ciGLYPH<144>nciaÓ (NdC). Esta, representa um conjunto de vis›es e abordagens das quest›es relativas ao modus operandi da ciGLYPH<144>ncia, a sua construGLYPH<141>‹o social assim como os fatores extracient'ficos que influenciam o seu desenvolvimento e que por eles s‹o influenciados.
O professor e pesquisador McComas Ž um dos que defende esse ensino e define o termo NdC como:
Um dom'nio h'brido que combina aspectos de v‡rios estudos sociais da ciGLYPH<144>ncia, incluindo hist-ria, filosofia e sociologia da ciGLYPH<144>ncia combinados com a
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pesquisa das ciGLYPH<144>ncias da cogniGLYPH<141>‹o, como a psicologia, em uma rica descriGLYPH<141>‹o da ciGLYPH<144>ncia; como ela funciona, a forma de operar dos cientistas, enquanto um grupo social; e como a pr-pria sociedade tanto dirige como reage aos empreendimentos cient'ficos (McCOMAS, 2008).
O termo natureza da ciGLYPH<144>ncia n‹o se restringe ˆ definiGLYPH<141>‹o proposta por McComas (ibid.). Atualmente, diversos grupos de pesquisa tGLYPH<144>m empreendido esforGLYPH<141>os sobre como caracterizar essa concepGLYPH<141>‹o de ciGLYPH<144>ncia e de educaGLYPH<141>‹o cient'fica.
Pesquisas acerca das concepGLYPH<141>›es de estudantes e de professores a respeito da natureza da ciGLYPH<144>ncia apresentam resultados semelhantes, indicando que em geral, ambos apresentam concepGLYPH<141>›es inadequadas. Dentre estas, destacam-se: a compreens‹o do conhecimento cient'fico como verdade absoluta; uma vis‹o emp'rico-indutivista da ciGLYPH<144>ncia; a desconsideraGLYPH<141>‹o do papel da criatividade e da imaginaGLYPH<141>‹o na produGLYPH<141>‹o do conhecimento cient'fico; a falta de compreens‹o das noGLYPH<141>›es de fato, evidGLYPH<144>ncia, observaGLYPH<141>‹o, experimentaGLYPH<141>‹o, modelos, leis e teorias, bem como de suas interrelaGLYPH<141>›es.
## Metodologia
O presente trabalho Ž parte de um projeto que visa desenvolver atividades experimentais que envolvam discuss›es a respeito da NdC com GLYPH<144>nfase nos aspectos hist-ricos, sociais e epistemol-gicos da ciGLYPH<144>ncia. A atividade experimental proposta neste ensaio emp'rico inclui a discuss‹o de um texto de filosofia da ciGLYPH<144>ncia, as medidas de uma grandeza f'sica com um instrumento de medida (mult'metro), o mapeamento das superf'cies equipotenciais e as discuss›es entre os componentes do grupo. A referida atividade experimental consiste no desenvolvimento de um experimento cl‡ssico de eletrost‡tica que visa a determinaGLYPH<141>‹o das superf'cies equipotenciais relativas a dois perfis de geraGLYPH<141>‹o de campo elŽtrico: duas placas condutoras paralelas carregadas com cargas de sinais opostos e um anel met‡lico carregado.
Figura 01: A atividade Experimental
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A atividade experimental proposta foi desenvolvida no laborat-rio de F'sica, em duas turmas do terceiro per'odo dos cursos de Ensino MŽdio TŽcnico em Qu'mica e Biotecnologia do Instituto Federal de EducaGLYPH<141>‹o, CiGLYPH<144>ncia e Tecnologia do Rio de Janeiro (IFRJ) Ð Campus Rio de Janeiro. Os participantes foram alunos das referidas turmas e quatro professores, sendo trGLYPH<144>s de F'sica e um de Qu'mica. Cada turma participante da atividade experimental era composta por doze alunos. Os alunos foram divididos em grupos menores de seis alunos por bancada.
A atividade iniciou-se com uma discuss‹o a respeito do mŽtodo cient'fico e o processo de produGLYPH<141>‹o da ciGLYPH<144>ncia conduzida por um dos professores de F'sica. Em seguida, foram apresentados os equipamentos sem fornecer aos alunos muitos detalhes relativos aos procedimentos experimentais. Fez-se uma breve recapitulaGLYPH<141>‹o do tema (Linhas de Campo ElŽtrico e Superf'cies Equipotenciais) que outrora fora abordado em sala de aula. A partir de ent‹o, os alunos foram liberados para discutir entre si e conduzir o experimento a fim de cumprir com o objetivo apontado pelo professor, a saber, mapear as linhas equipotenciais dada a configuraGLYPH<141>‹o das hastes carregadas.
- O pr-ximo passo da atividade experimental consistiu em ler quatro par‡grafos do extrato do texto de Hodson (1988). O extrato selecionado pelos professores trata dos experimentos na ciGLYPH<144>ncia, e parte de uma provocaGLYPH<141>‹o destacada em algumas frases de Francis Bacon. O texto possibilitou o desenvolvimento de um debate a respeito do mŽtodo cient'fico e as formas de se fazer ciGLYPH<144>ncia. (HODSON, 1988; PRAIA, GIL-PƒREZ e VILCHES, 2007).
Ap-s o debate duas perguntas foram apresentadas aos alunos:
- 1. Quais as caracter'sticas destacadas nesta atividade experimental que n‹o estavam presentes em outras realizadas por vocGLYPH<144> no IFRJ?
- 2. Qual a sua ideia de como se constr-i conhecimento cient'fico? Como tais discuss›es convergem ou divergem da sua concepGLYPH<141>‹o?
Como metodologia de investigaGLYPH<141>‹o utilizamos uma pesquisa qualitativa de observaGLYPH<141>‹o participante, na qual os pesquisadores estiveram face a face com os observados, fazendo parte do cen‡rio cultural, onde foi coletado e constru'do seus dados.
## Discuss›es e Resultados
Os resultados preliminares indicam a potencialidade da presente abordagem. Inicialmente, os alunos demonstraram certo desconforto com a din%mica proposta. No entanto, n‹o foi preciso muito tempo para que entendessem o car‡ter participativo da atividade experimental apresentada. A maioria dos relatos escritos pelos estudantes enfatizou a ausGLYPH<144>ncia de um roteiro a ser seguido, comum ˆs aulas de laborat-rio, como um elemento de desconforto inicial.
As quest›es que envolveram discuss›es a respeito da Natureza da CiGLYPH<144>ncia e da formaGLYPH<141>‹o/elaboraGLYPH<141>‹o dos conceitos cient'ficos foram longamente debatidas pelos alunos, causando, por diversas vezes, certo estranhamento. Destaca-se abaixo a fala de uma aluna ( A1 ) ap-s a leitura de um trecho retirado de Hodson (1988) no qual ele interpreta uma citaGLYPH<141>‹o de Francis Bacon: Ò [...] os segredos da natureza
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revelam-se mais facilmente sob a opress‹o da arte do que quando seguem seus pr-prios caminhos [...]. N‹o Ž suficiente simplesmente observar a natureza no estado bruto. Em vez disso, deve-se Òtorcer a cauda do le‹oÓ Ð manipular o mundo para obter maior acesso aos seus segredos. Os experimentos v‹o alŽm da (mera) observaGLYPH<141>‹o; s‹o eventos projetados e estritamente controlados, e Ž esse controle estrito que lhes d‡ sua forGLYPH<141>a particular. Ó
A1 :ÔÔ/.../cara eu n‹o gostei do par‡grafo ... porque eu n‹o acredito nisso o cara t‡ falando de manipular e eu n‹o acredito que a gente consegue manipular a natureza (+) a gente observa o que acontece com ela Ž a lei dela a gente n‹o muda ela. [...]to imaginando a gente forGLYPH<141>ando aqui a parada eu n‹o gostei disso/.../ Ó
O relato da aluna parece explicitar uma concepGLYPH<141>‹o realista de ciGLYPH<144>ncia, na qual os sujeitos participantes nas atividades de investigaGLYPH<141>‹o s‹o passivos, cabendo a eles apenas o cuidado de extrair a verdade inerente ao objeto. O desconforto da estudante est‡ no fato de propormos certa intencionalidade daquele que deseja conhecer.
Destacamos na Figura 2 o fragmento da resposta de outra aluna ( A2 ) que parece evidenciar quest›es sobre a Natureza da CiGLYPH<144>ncia, assim como quest›es sobre elementos presentes na elaboraGLYPH<141>‹o do conhecimento cient'fico. Estes visam certa inteligibilidade dos conceitos, e n‹o apenas um estrito relato da natureza.
.
Figura 02: Fragmento do texto produzido pela aluna (A2).
Foi percept'vel o avanGLYPH<141>o de alguns alunos nas discuss›es a respeito da materialidade das linhas de campo elŽtrico, da natureza da ciGLYPH<144>ncia, e daelaboraGLYPH<141>‹o/formaGLYPH<141>‹o dos conceitos cient'ficos. Vale ressaltar, que os alunos destacaram mais a forma com que a atividade experimental foi constru'da e conduzida durante a aula do que o conteœdo das discuss›es Destacamos mais uma . vez que a atividade relatada neste trabalho est‡ inserida em um projeto cujos objetivos v‹o alŽm de propor atividades com uma din%mica mais livre, e com mais autonomia para os estudantes. Tal fato, remonta a nossa expectativa inicial, a compreens‹o do presente trabalho como um processo, como parte de aGLYPH<141>›es conjuntas que se prop›em a contribuir com a formaGLYPH<141>‹o de um esp'rito cient'fico mais cr'tico.
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Como parte dos resultados preliminares, consideramos que esta atividade aponta para proposiGLYPH<141>›es que n‹o se limitem a discutir a F'sica em sua dimens‹o conceitual, estendendo-se ˆs dimens›es epistGLYPH<144>mica e social.
## Referencias
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