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Motivos apresentados por ex-alunos para a evasão de um curso de licenciatura em física de uma universidade pública paulista.

Sérgio Rykio Kussuda, Roberto Nardi

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XXIII
Ano
2019
Data
28/01/2019
Linha de pesquisa
Formação, Práticas E Desenvolvimento Profissional Docente
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## MOTIVOS APRESENTADOS POR EX-ALUNOS PARA A EVASÃO DE UM CURSO DE LICENCIATURA EM FÍSICA DE UMA UNIVERSIDADE PÚBLICA PAULISTA.

## Sérgio Rykio Kussuda 1 , Roberto Nardi 2

## Resumo

Atualmente percebemos grande problema na falta de professores na Educação Básica, principalmente em disciplinas como a Física. Um dos motivos que levam a este quadro é o alto índice de evasão nos cursos de Licenciatura em Física. Visando conhecer melhor os motivos que levam os alunos a abandonar este curso, e tentar reverter este quadro, realizamos um estudo aplicando um questionário online com ex-alunos que abandonaram este curso em uma universidade pública paulista. Os dados obtidos por meio dos 37 ex-alunos que responderam ao questionário online apontam que a maior parte da evasão está relacionada à forma como o professor universitário trabalha, indicando a possibilidade de ampliar o índice de conclusão do curso modificando a forma como o professor universitário trabalha, contudo, apenas esta mudança não parece ser suficiente, pois alguns ex-alunos tinham intenção de mudar de curso antes do ingresso e outros procuram evadem por considerar que a profissão docente é desvalorizada.

Palavras-chave : Evasão no Ensino Superior; Formação de professores; Falta de professores de Física.

## Introdução

Embora a falta de professores no estado de São Paulo, e possivelmente em outros estados, em diversas escolas voltadas ao Ensino Médio, principalmente em algumas disciplinas como a Física, não seja algo recente, poucas políticas públicas têm tentado alterar este quadro, sendo que algumas delas como a proposição da nova Base Nacional Comum Curricular que possibilita a divisão do Ensino Médio em itinerários formativos, parecem apenas disfarçar a falta de professores, uma vez que a escola poderá deixar de oferecer ênfase em áreas com menor quantidade de professores ou suprir a falta de professores com formação específica por outros que estão na mesma área.

A falta de professores com formação específica, como a de Licenciatura em Física, pode levar a diversos problemas como professor substituto com outra formação lecionar nesta disciplina, o que poderia levar a um ensino baseado apenas no desenvolvimento da habilidade de reproduzir o livro didático ou a matematização da Física, além deste professor, provavelmente, não possuir conhecimento sobre a didática desta disciplina, o que pode levar o aluno a obter concepção errada sobre os temas trabalhados, limitando sua compreensão e interesse que poderiam ser de seu interesse.

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Podemos notar a falta de professores efetivos no Ensino Médio em determinadas áreas através de dados apresentados por meios de divulgação em massa como a reportagem de Weber (2007) que apresenta a manchete: ' MEC: dos professores de ciências 70% não têm formação na área. No caso de Física, a falta de preparo atinge 90% dos que ensinam ' ou pesquisas acadêmicas como a de Gesqui (2009) que, ao analisar um ano letivo em uma escola estadual da grande São Paulo observou que apenas 64% das aulas ministradas por professores titulares; 15,37% por substitutos e 20,63% não foram ministradas. Isto parece ocorrer inclusive em cidades que possuem cursos de formação de professores, como constatado por Camargo (2007), ao se reunir com os professores que lecionavam Física, na rede pública de Ensino Médio, na região de Bauru. Nessa ocasião, participaram 46 professores, sendo 18 eram graduados em Licenciatura ou Bacharelado em Física e cinco formados em Licenciatura Curta em Ciências com habilitação em Física, os demais eram formados em cursos de Matemática, Química ou engenharia.

O baixo índice de professores na Educação Básica está relacionado a três fatores principais: falta de atratividade da profissão docente, abandono do magistério pelos professores e evasão no curso de formação de professores. A primeira possibilidade foi apontada pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) (2005), sendo considerada um dos motivos que afetam a quantidade de professores em diversos países. De acordo com esta pesquisa, o surgimento de novos empregos e aumento na riqueza da população tornou o magistério menos atrativo. A segunda possibilidade foi investigada por Kussuda e Nardi (2013). Segundo estes autores, muitos licenciados atuam como professor da Educação Básica após concluíram o curso, contudo optam por outras profissões devido às condições de trabalho e questões salariais. A última possibilidade foi estudada e parte do resultado obtido será apresentada nesta publicação. A última possibilidade foi estudada pelos autores desta publicação e parte dos resultados obtidos será aqui apresentada. Desta forma, procuramos apresentar quais os principais motivos alegados em um questionário online pelos ex-alunos do curso de Licenciatura em Física de uma universidade pública para sua escolha pela evasão do curso.

## Metodologia de obtenção e análise dos dados

Visando conhecermos os motivos apresentados pelos ex-alunos do curso de Licenciatura em Física para abandonarem o curso aplicamos um questionário online com os ex-alunos que evadiram o curso entre 1988 e 2014. Este questionário foi enviado aos ex-alunos por meio do endereço de correio eletrônico que pudemos encontrar.

Para obtermos o contato dos ex-alunos consultamos a Diretoria Técnica Acadêmica (DTA) da universidade, setor responsável por assessorar as diferentes atividades administrativas e órgãos colegiados, visando obter o nome e o endereço de correio eletrônico ou telefone dos ex-alunos.

De posse do nome dos ex-alunos passamos a utilizar diferentes meios, como consulta a professores que haviam lecionado neste período, Plataforma Lattes e motores de busca, para procurarmos o endereço eletrônico dos ex-alunos, visto

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que esta seria a forma mais fácil de contatar grande quantidade de pessoas e de enviar o questionário online .

Por meio da consulta à DTA foi possível constatar que entre os anos de 1988 a 2014, 809 alunos ingressaram no curso de Licenciatura em Física da universidade em que a pesquisa foi realizada. Destes, 354 ex-alunos o concluiu, 378 evadiram o curso antes de concluí-lo, 71 optaram por se transferir para outro curso e seis foram jubilados. Do total dos que não concluíram o curso (455), foi possível encontrar o endereço de correio eletrônico de 324, ou seja, 71,21% da amostra considerada, contudo, obtivemos a resposta de apenas 37 ex-alunos.

Embora o questionário online possua diversas questões, focaremos nas respostas apresentadas à questão aberta: ' Que motivos você acredita que possam estar relacionados a seu desligamento do Curso de Licenciatura em Física? ' e à questão fechada: ' Durante quanto tempo você cursou a Licenciatura em Física? '.

Os dados quantitativos obtidos através do questionário online foram analisados através de interpretação estatística, já os dados qualitativos foram analisados de acordo com o aporte teórico da Análise de Conteúdo (BARDIN, 2002), procurando focar, principalmente, nas questões referentes à opção pela evasão do curso. Para esta análise dividiremos as respostas em seis categorias: socioeconômica, universitária, opção por outro curso, política, questões pessoais e indeterminada: A socioeconômica inclui questões como a desvalorização da profissão e salarial e a necessidade de trabalhar; já a universitária se refere às características estruturais, tanto as físicas quanto organizacional, da universidade e à forma de trabalhar do professor universitário. A opção por outro curso se refere à escolha do ex-aluno por outro curso, desta ou de outra instituição. A categoria política diz respeito às políticas públicas relacionadas aos professores como dificuldade de ingresso na profissão e à dificuldade de desenvolver uma atividade com autonomia. A categoria questões pessoais foi designada às causas que são atribuídas ao próprio respondente como a imaturidade e dificuldade advinda da formação anterior. A última categoria foi designada às respostas gerais que não permitem conhecer claramente os motivos apresentados.

Destacamos que a soma total dos motivos ultrapassa a quantidade de respondentes, pois eles podem apresentar mais de um motivo para a sua opção por evadir o curso.

Com a finalidade de não interferir na interpretação das falas dos respondentes, optamos por transcrever os dados obtidos através do questionário online , sem alterarmos o texto, inclusive mantendo os erros ortográficos. Iremos apresentar as respostas obtidas por meio do questionário online utilizando o símbolo R (respondente) seguido de um número para diferenciar os respondentes.

## Análise dos dados

Inicialmente iremos analisar os dados quantitativos obtidos através de levantamento realizado na DTA. Para analisarmos estatisticamente estes dados iremos considerar apenas os ingressantes até 2007, visto que os alunos que ingressaram após este período não atingiram o tempo máximo estipulado para a conclusão do curso.

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Tabela 01: Tempo de permanência, em anos, no curso de Licenciatura em Física antes da conclusão.

Os dados obtidos na tabela 1 indicam que a maior parte dos alunos concluiu o curso próximo ao menor tempo estipulado pela universidade (4 anos), indicando que a maior parte dos que concluem o curso não possui reprova ou a possui em pequena quantidade e que os alunos que se propõe a frequentar o curso por longos períodos é menor.

Tabela 02: Tempo de permanência, em anos, no curso de Licenciatura em Física antes de se desligar intencionalmente.

Os dados apresentados nesta tabela indicam que a maior parte dos exalunos abandonou o curso nos primeiros anos, sendo a maioria no primeiro ano (67), fato também constatado por outros pesquisadores como Gomes, Moura e Ferreira (2010) e Joele, Castro e Brito (2011). Este alto índice de evasão nos primeiros anos do curso pode ser explicado pela dificuldade no processo de transição do Ensino Médio para o Superior, fato indicado por Tinto (1994).

Tabela 03: Tempo de permanência, em anos, no curso de Licenciatura em Física antes de se transferir.

De forma semelhante ao desligamento intencional, a evasão por transferência ocorre, principalmente, nos primeiros anos, sendo a maior parte no segundo ano (16), o que está de acordo com os estudos de Paiva et al. (2012), ao constatar que os alunos que ingressam com a intenção de transferir ou aprofundar

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conhecimento, visando se preparar para o vestibular, geralmente cursam apenas os primeiros anos.

A seguir iremos analisar as respostas obtidas por meio das respostas das duas questões apresentadas anteriormente e respondidas pelos 37 ex-alunos através do questionário online .

As respostas foram classificadas nas seis categorias apresentadas anteriormente e podem ser observadas na tabela a seguir:

Tabela 04: Categorias das respostas apresentadas pelos respondentes e a quantidade de respostas.

A análise das respostas permite perceber que a maior parte dos motivos está ligada à própria universidade, tendo destaque a forma de lecionar do professor universitário que não considera as dificuldades do aluno, como podemos notar em uma das respostas:

O sistema precário de ensino com didática falha e baixo interesse no aluno. Os professores cospem o conteúdo descontroladamente enquanto analisam incorretamente o conhecimento adquirido com um sistema de provas estressante que não possui necessariamente o conteúdo abordado pelo professor e ainda exige domínio de ferramentas que ainda estão sendo aprendidas em outras matérias. (R34).

Também é possível encontrar críticas nas disciplinas voltadas ao Ensino, como é possível notar no trecho a seguir:

[...] curso. Por isso, em primeiro lugar, quando entrei em Física queria trabalhar com Educação e tinha afinidade por Física. Dessa forma, resolvi fazer física para trabalhar com educação. Porém, ao cursar alguns anos de física não encontrei a educação dentro da Física. O curso é permeado de diversos conceitos muito interessante a formação dos seres humanos e isso eu não posso negar. Mas quando falamos de compreender o próximo e também de ser o que se vive não consegui me encontrar ali dentro. [...] (R 13 ).

Entre os que optaram por transferir-se para outro curso, percebemos que existem ex-alunos que ingressaram no curso sem a intenção de concluí-lo, mas para poder transferir-se para outro curso, ou seja, a transferência não está necessariamente relacionada à experiência vivenciada no curso, como podemos notar em:

Entrei no curso através de uma das vagas remanescentes, mas prestei vestibular para engenharia civil. Minha intenção era cursar o primeiro ano em Física e pedir transferência para o curso de Engenharia Civil. Porém, obtive informações que me levaram a chegar a conclusão de que seria mais fácil tentar o vestibular novamente do que tentar uma transferência. Portanto, desisti do curso. (R14).

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Em relação à categoria socioeconômica, a maior parte das respostas está relacionada à necessidade de trabalhar, o que acaba influenciando no desempenho acadêmico, como podemos notar na resposta do Respondente 5: ' Falta de tempo para estudos. É muito difícil para quem trabalha dar conta da quantidade de deveres para conseguir levar o curso de uma forma saudável. ' (R5).

Embora a questão salarial e das condições de trabalho do professor, título que iria adquirir caso concluísse o curso, não fosse a mais citada, também aparece nas respostas obtidas: ' [...] Tópicos como esse me deixaram bastante desmotivadas em continuar o curso, aliado com uma profissão que é sucateada, com baixos salários e poucas condições de trabalho. ' (R32).

As respostas categorizadas como questões pessoais foram diferentes para cada respondente, variando de questões relacionados à saúde à sua formação anterior.

A única resposta relacionada à política pública diz respeito à falta de apoio na formação de professores: ' Falta de apoio do governo na formação de professores ' (R9).

## Conclusão

Através da análise dos dados podemos perceber que a maior parte das desistências entre os respondentes foi devido às questões relacionadas à universidade, principalmente na forma de trabalhar do professor universitário, desta forma, se mostra necessário repensar como os professores universitários estão trabalhando, tanto os que lecionam disciplinas sobre o conhecimento que será ensinado quanto os que trabalham o conhecimento pedagógico do conteúdo de forma a levar em consideração as dificuldades dos alunos.

Por meio dos dados podemos notar que parte dos alunos que ingressam no curso não possui a intenção de concluí-lo, o que pode estar relacionado à falta de atratividade da profissão.

Embora a mudança na forma dos professores universitários lecionarem possa alterar o quadro de evasão, apenas esta medida não é suficiente, uma vez que existem outros fatores como a desvalorização profissional dos professores da Educação Básica, desta forma, também é necessário lutarmos pela melhoria nas condições de trabalho e salário destes professores, o que poderia diminuir a quantidade de alunos que ingressam neste curso visando a transferência.

Os dados também apontam que a maior parte da evasão ocorre nos primeiros anos do curso, desta forma, é necessário maior atenção aos alunos ingressantes, período em que o aluno está se adaptando à vida universitária.

## Referências

BARDIN, L. Análise de conteúdo . 2. ed. Lisboa: Edições 70, 2002.

CAMARGO, S. Discursos presentes em um processo de reestruturação curricular de um curso de licenciatura em física: o legal, o real e o possível .

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Texto extraído automaticamente do PDF: podem existir erros de conversão, especialmente em fórmulas, tabelas e figuras.