O ROMANCE DE FICÇÃO CIENTÍFICA E O ENSINO DE FÍSICA: MEDIAÇÃO SOB O OLHAR DA FILOSOFIA DA DIFERENÇA
Emerson Ferreira Gomes, Luís Paulo De Carvalho Piassi, Rosana Marques De Souza
- Evento
- Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
- Edição
- XII
- Ano
- 2010
- Data
- 28/10/2010
- Linha de pesquisa
- Ensino/ Aprendizagem/ Avaliação Em Física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## O ROMANCE DE FICÇÃO CIENTÍFICA A E O ENSINO DE FÍSICA: MEDIAÇÃO SOB O OLHAR DA FILOSOFIA DA DIFERENÇA
## SCIENCE FICTION NOVEL AND THE PHYSICS TEACHING: MEDIATION FROM THE PERSPECTIVE OF THE PHILOSOPHY OF DIFFERENCE
## Emerson Ferreira Gomes 1 , Rosana Marques de Souza 2 , Luís Paulo de Carvalho Piassi 3
1 Universidade de São Paulo/ Programa de Pós Graduação Interunidades em Ensino de Ciências/emersonfg@usp.br
## Resumo
A construção do conhecimento em Física propicia ao educando a reflexão sobre os fenômenos da natureza de forma que possam extrair seus conceitos científicos e suas consequências em nível epistemológico. Uma possibilidade em mediar esse tipo de discussão em sala de aula é a utilização da ficção científica, pois esse gênero literário privilegia o diálogo do educando com seu meio social e cultural permeado pelo seu imaginário . Pretendemos com esse trabalho analisar o livro O Robô de Júpiter de Isaac Asimov e buscar elementos que forneçam subsídios para a discussão de aspectos conceituais e epistemológicos inerentes à Física . Essa obra foi escrita e direcionada ao público juvenil, possuindo assim uma narrativa envolta de mistério e suspense, imergindo o leitor num universo de contrafactualidades, baseadas no discurso científico. Por se tratar de uma odisseia espacial, esse livro trata das consequências e dos fenômenos que envolvem a viagem no espaço e a ocupação de outros planetas do sistema solar tanto pelo homem quanto por outras civilizações, portanto utiliza-se de conceitos físicos e astronômicos para delinear sua narrativa, além de refletir sobre o papel do homem nessa sociedade plural. Para a análise dos conceitos físicos na obra utilizaremos a filosofia da diferença de Gilles Deleuze e Félix Guattari como uma ferramenta capaz de abordar na ciência elementos da arte - neste caso permitida pela ficção científica - transformando -as em afectos e perceptos. Essa interface entre filosofia, ciência e literatura, busca ainda auxiliar no desenvolvimento da competência leitora do aluno , aprimorando sua sistematização das diferentes formas de interação de fenômenos da Física, conforme previsto pelos Parâmetros Curriculares Nacionais.
Palavras -chave: Ficção Científica, Ensino de Física , Filosofia da Diferença.
## Abstract
The construction of knowledge in Physics enables the learner to ponder on the phenomena of nature in a way that their knowledge has scientific and epistemological concepts. The science fiction is a possibility to mediate these discussions, because this literary genre facilitates dialogue with your student's social and cultural milieu permeated by their imagination. The propose of this research is to
analyze the book Lucky Starr and the Moons of Jupiter by Isaac Asimov and find elements that provide an input to the discussion of conceptual, and epistemological from the physics knowledge. This book was designated for the juveniles, so they have a story shrouded in mystery, immersing the reader in a universe of counterfactual based on scientific discourse. Because it is a space opera, this book deals with the consequences and phenomena that involve space travel and the occupation of other planets in the solar system, both by man and by other civilizations, so it is used for physical and astronomical concepts to shape his narrative , and reflect on the role of man in this pluralistic society. For the analysis of the physical concepts it will be used the Philosophy of Difference from Gilles Deleuze and Félix Guattari as a tool capable of addressing the science elements of art turning them into affections and perceptions. This interface between science, philosophy and literature intends to help in the development of reading competence of students and enhance their systematization of the different forms of interaction and the nature of phenomena in physics, as provided by the National Curriculum Parameters.
Keywords: Science Fiction, Physics Teaching, Philosophy of Difference .
## Introdução
A utilização da ficção científica em sala de aula é um tema que possui algumas publicações na pesquisa em ensino de ciências. Dentre os trabalhos que permeiam esse tema, identificamos que os aspectos conceituais podem ser discutidos em sala de aula numa interface que envolva diferentes níveis epistemológicos e sociais.
Do ponto de vista social, encontramos trabalhos que norteiam os aspectos sociais consequentes da ciência, debatendo sobre seu papel sociopolítico (PIASSI e PIETROCOLA, 2007) , cultural (BRAKE e THORNTON, 2003) e o impacto ambiental (MACHADO, 2008). Nesse caso a ficção científica pode ser utilizada para despertar o senso crítico do aluno.
Quantos às pesquisas que norteiam a reflexão filosófica , a partir da ficção científica, identificamos trabalhos que possibilitam ao estudante a utilização do imaginário em sala de aula (GOMES-MALUF e SOUZA, 2008), inferir sobre o aspecto ontológico da ciência (CARDOSO, 2006), debater sobre seu caráter existencial (PIASSI e PIETROCOLA, 2007) , identificar os obstáculos epistemológicos que circundam a ciência (ZANETIC, 2006).
Observam -se ainda alguns trabalhos que discutem sobre o próprio método de investigação das obras de ficção científica, seja num viés baseado na filosofia da ciência (OLIVEIRA A e ZANETIC, 2008) ou mediante a análise literária e semiótica (PIASSI e PIETROCOLA, 2009).
Pretendemos com esse trabalho fazer uma análise da utilização da obra O Robô de Júpiter, r, publicada por Isaac Asimov em 1957 no ensino de Física. Tal estudo privilegiará a identificação dos conceitos físicos expressos na narrativa e refletirá sobre as possibilidades didáticas que inspirem o caráter imaginário dos educandos. O diagnóstico conceitual da obra será mediado pelo substrato epistemológico da filosofia da diferença proposta por Gilles Deleuze e Félix Guattari ,
que destaca a multiplicidade das interações que geram o pensamento e o conhecimento.
## A leitura do romance de ficção científica nas aulas de ciências
A utilização da sala de aula como um lugar de leitura, possibilita na escola a construção de um espaço dialógico, propiciando ao educando a expressão de seu pensamento crítico e de suas ideias provenientes do imaginário. Desta forma entendemos que o romance de ficção científica pode ser um meio para a concretização desse espaço no ambiente escolar.
Para Antonio Candido, a literatura é um fator indispensável na "humanização do homem" e reflete as aspirações das "crenças, sentimentos, impulsos e normas" de uma sociedade, sendo um instrumento de instrução e educação (CANDIDO, 1995, p. 243). Além disso:
Os valores que a sociedade preconiza, ou os que considera prejudiciais, estão presentes nas diversas manifestações da ficção, da poesia e da ação dramática. A literatura confirma e nega, propõe e denuncia, apóia e combate, fornecendo a possibilidade de vivermos dialeticamente os problemas (Ibid).
O acesso do estudante à literatura potencializa sua formação cultural e crítica. Nesse caso, o leitor-estudante identifica-se na personagem, construindo ao que Antonio Candido (2005, p. 55) chama de "sentimento de verdade e verossimilhança" refletindo sobre a realidade que o afeta. Esse "poder humanizador" possibilita que a estrutura da obra literária transcenda o "caráter de coisa organizada" e torna-se um fator que deixa o leitor mais capaz de "ordenar a própria mente e sentimentos" e consequentemente, mais capaz de "organizar a visão de mundo" (CANDIDO, 1995, p. 145).
A edificação de saberes é possibilitada pelo do papel crítico e humanizador da literatura. Dessa forma, a construção do conhecimento em sala de aula norteada pela leitura favorece ao estudante a construção de um espaço para o exercício do que Paulo Freire denomina de "curiosidade epistemológica", que possibilita ao estudante utilizar sua capacidade crítica para "se distanciar, observar e cercar" o objeto de estudo e dessa forma fazer comparações que lhe permitam o questionamento e a pergunta (FREIRE, 1995, p. 85).
Podemos nos remeter ainda a Freire os aspectos de que uma leitura, precede de uma "leitura de mundo" e que
De alguma maneira, porém, podemos ir mais longe e dizer que a leitura da palavra não é apenas precedida pela leitura de mundo mas por uma certa forma de "escrevê -lo" ou de "reescrevê -lo", quer dizer, de transformá-lo através da prática consciente (FREIRE, 2001, p.20).
Portanto, o estudante de educação básica ter acesso à leitura de um romance no espaço escolar o possibilita uma própria releitura de seu mundo. A "leitura de mundo" freireana neste caso, nos permite interpretar que a leitura do romance do estudante em sala de aula, mesmo quando é realizada pela primeira vez pelo educando, é uma releitura, tendo em vista que seu cotidiano e suas percepções influenciam a interpretação da obra literária.
Para a consolidação de um espaço de leitura em sala de aula, acreditamos que o papel de mediação do professor em sala de aula é fundamental. Sobre o
papel do professor-mediador, Romanelli (1996, p. 30) nos aponta que a " riqueza das relações emergentes do encontro entre professor, aluno e objeto de conhecimento depende do modo como o professor vai atribuir significado à ação do aluno e à sua própria". Já Ricardo, Slongo e Pietrocola afirmam:
[...] o professor que se coloca como mediador no processo de ensino, numa perspectiva dialética, percebe que a constituição do sujeito se dá nas relações entre os sujeitos, pois já temos nossa subjetividade, fruto das relações. Assim, o aluno não é mais visto como alguém que está "vazio" e precisa ser "preenchido" por conhecimentos. O senso comum do aluno é o ponto de partida para a aprendizagem e o professor deve convidálo a buscar o conhecimento científico, de modo que o aluno perceba a dinamicidade da Ciência como um processo em permanente construção e desenvolvimento, não se limitando a estudar apenas os resultados (RICARDO; SLONGO e PIETROCOLA, 2003, p. 158)
Dessa forma acreditamos que a formação um espaço de leitura em sala aula, em que o professor torna-se mediador dessa leitura, possibilita ao educando a reflexão e o debate na investigação de um conceito nas aulas de ciências, enriquecendo o processo de ensino aprendizagem, aprimorando seu vocabulário, sua visão crítica e sua reflexão conceitual .
## A ficção científica e a filosofia da diferença
Caracterizar um gênero literário, como avalia Tzevan Todorov, está relacionado ao grau de abstração que assumimos em relação ao texto (TODOROV, 2004, p. 12). Podemos assumir que essa caracterização depende da subjetividade e histórico de leitura do leitor. No caso da ficção científica podemos destacar r alguns elementos que a diferenciam da ficção tradicional.
Para Allen a ficção científica promove no leitor a suspensão da incredibilidade , que resulta na aceitação da perspectiva do autor r pelo leitor, permitindo que o escritor construa um sentido de verossimilhança, tornando-a real e verdadeira . Para isso a ficção científica possui a característica de extrapolar a ciência em algumas obras ou a de construir uma ciência imaginária em outras obras, isso torna a ciência da ficção científica diferente da ciência em simpósios e congressos (ALLEN, 1974, p. 256).
Umberto Eco nos remete a ficção científica como um gênero autônomo em que a especulação contrafactual é extrapolada em algumas tendências em relação ao mundo real, em uma possibilidade de mundo futurível, assumindo uma forma de antecipação numa conjetura a partir de linhas de tendências da realidade. E afirma ainda:
Naturalmente o que fica entendido num sentido lato é justamente o termo "ciência": ou seja, que não devemos somente pensar em conjeturas concernentes às ciências físicas, mas também às ciências humanas, como a sociologia ou a história ou a lingüística (ECO, 1989, p. 168).
Nesse trecho podemos perceber que o pensador italiano fornece uma leitura sobre a importância das humanidades na ficção científica e adotando essa postura entendemos que a ficção científica poderia estabelecer um diálogo entre os aspectos filosóficos e sociológicos que tangem às ciências físicas. Eco afirma que a ciência cria hipóteses ou leis, procurando imediatamente possibilitar r condições para confirmação ou contestação dessas. Já a ficção científica remete essa contestação
ou confirmação para o infinito (ECO, 1989, p. 171). Nesse sentido, essa abertura ao infinito pode ser levada em sala de aula, sendo mediada pela filosofia da diferença.
Para Gilles Deleuze e Félix Guattari a filosofia, a arte e a ciência traçariam formas de esboçar um plano sobre o caos , resultando no pensamento e no conhecimento . A filosofia delinearia um plano de imanência que limitaria o infinito sob a ação de personagens conceituais. A A ciência , nessa situação, renunciaria ao infinito para que assim ganhasse referência a partir de proposições referenciais, o que nos remete à afirmação elucidada por Umberto Eco. Já a arte criaria um finito que procuraria " restituir o infinito, traçando um plano de composição através de figuras estéticas " (DELEUZE e GUATARI, 1997, p.253). Desse ponto de vista interpretamos que as conjecturas que permeiam a ficção científica estimulariam a subjetivação da física pelos alunos, sendo que essa ciência atingiria o status s de arte no espaço dialógico múltiplo proporcionado pelo professor-mediador.
Deleuze e Guattari afirmam que a filosofia, a ciência e a arte são geradoras de pensamentos e a última privilegia a geração de afectos e perceptos:
Os perceptos não mais são percepções, são independentes do estado daqueles que o experimentam; afectos não são mais sentimentos ou afecções, transbordam a força daqueles que são atravessados por eles. As sensações, percepções e afectos, são seres que valem por si mesmos e excedem qualquer vivido.
[...]
A obra de arte é um ser de sensação, e nada mais: ela existe em si (DELEUZE e GUATTARI, 1997, p. 213).
Para os filósofos franceses do pós-estruturalismo, os afectos são forças que " modulam a sensações " forma alheia aos sentimentos (RODRIGUES, 2007, p. 162) e os perceptos, no caso de um romance, seriam o cenário em que ocorrem as percepções do personagem (DELEUZE e GUATARI, 1997, p. 219).
Pensamos que a ficção científica como uma obra de arte poderia gerar esses afectos e perceptos como a filosofia da diferença nos propõe. Portanto, os conceitos inerentes à física poderiam ser abstraídos dessa forma pelo aluno de ensino médio.
Sobre a utilização da filosofia da diferença em processos de ensinoaprendizagem, o filósofo da educação Sílvio Gallo nos aponta que reterritorializar conceitos da obra de Deleuze e Guattari no campo da educação pode ser bastante interessante e produtivo:
...na medida em que esses conceitos passam a ser dispositivos, agenciamentos, intercessores para pensar os problemas educacionais, dispositivos para produzir diferenças e diferenciações no plano educacional, não como novos modismos, ou repito, o anúncio de novas verdades, que sempre nos paralisam, mas como abertura de possibilidades, incitação, incentivo à criação (GALLO, 2005, p. 64) .
Nesse ponto de vista acreditamos que uma mediação baseada em afectos e em perceptos possibilitaria direcionar a análise conceitual da física de forma que ofereça aos estudantes, conforme nos mostra João Zanetic , " um pouco do sabor do saber científico " (ZANETIC, 2009, p. 288).
## Isaac Asimov v e a série Lucky Starr
- O russo, naturalizado estadunidense Isaac Asimov (1920-1992) possuía formação em bioquímica, entretanto seus ensaios científicos permeavam temas inerentes à astronomia, à física e as ciências humanas 1 . Sobre a Física afirma:
O mundo físico é um lugar grande e maravilhoso, mas também confuso, e há muito acerca dele que ninguém entende de fato. Existem ainda muitos fenômenos que alguns de nós entendemos bastante bem, ao passo que de outros não conhecemos nada (ASIMOV, 1991, p.11) .
Além de sua publicação acadêmica e de divulgação científica, Asimov possui notoriedade principalmente como autor de ficção científica. Seus livros norteiam temas científicos e tecnológicos imersos numa reflexão social e existencial. O autor torna -se notável nesse gênero a partir da publicação do conto "O cair da noite" na revista Astounding Science Fiction em 1941. Desde então , foi celebrado ao editar sagas de ficção científica com uma vasta produção. Entre suas séries podemos destacar três: Fundação , Robôs s e Lucky Starr. r.
A série Fundação foi publicada entre 1950 e 1953, possuindo como eixo temático a relação entre o homem, a ciência e a tecnologia do ponto de vista sociocultural. Sua alegoria é declaradamente inspirada na queda do Império Romano e é a obra com maior reconhecimento autoral tanto pela crítica literária, quanto pela crítica especializada em ficção científica.
A incursão no tema robótica acompanhará diversos contos e romances em sua carreira, sendo que sua consagração ocorre com a publicação da coletânea de contos Eu Robô , em 1950. Para David Allen , a série de livros envolvendo a robótica traça o desenvolvimento dessa engenharia, desde a sua gênese um tanto grosseira até a sua crescente sofisticação (ALLEN, 1976, p. 56). Apesar de não estar inserido nessa série, O Robô de Júpiter r se valida das hipóteses estabelecidas pela robótica .
- O Robô de Júpiter foi publicado originalmente em 1957, esse livro faz partrte da série Lucky Starr, r, que são seis livros publicados entre 1952 e 1958 , apresentando aventuras espaciais destinadas ao público infanto-j-juvenil. As histórias que envolvem esse tipo de narrativa são denominadas space opera.
Esse subgênero de ficção científica possui sua gênese nas histórias de faroeste e de guerra, e suas narrativas em alguns momentos reproduziriam esses gêneros apenas com a substituição de pistolas e fuzis por armas a laser ou cavalos e tanques de guerra por naves espaciais (PIASSI, 2007, p. 110). Outro aspecto a ser ressaltado é que seus protagonistas seriam explicitamente caracterizados em heróis e vilões.
Segundo Raul Fiker esse subgênero privilegia a ação e a diversão em um plano superior à construção de elementos inerentes à tecnologia e à ciência, porém em certos graus de sofisticação, ele pode servir como algo que transcenda essas limitações, inclusive tornando-se uma possibilidade didática (FIKER, 1985, p.41).
Mesmo possuindo uma alegoria centralizada na ação espacial, outros autores como o já citado David Allen, consideram a série Lucky y Starr como hard
science fiction devido ao fato de que as informações astronômicas utilizadas por Asimov foram baseadas no conhecimento científico de ponta, da época em que foi publicado (ALLEN, 1976, p. 26). A hard science fiction é um subgênero que é caracterizado pela exploração das ciências exatas, pressupondo a existência de um universo ordenado, cujas leis são constantes e passíveis de descobertas (ALLEN, 1974, p. 21). Sendo assim os conceitos científicos exerceriam um papel crucial para o desenvolvimento do texto literário.
Essa dificuldade em definir r a série Lucky Starr em um subgênero, e consequentemente O Robô de Júpiter, r, pode ser um ponto que facilite a sua utilização em sala de aula, pois os elementos de aventura e mistério acompanham todo o enredo e os conceitos físicos e astronômicos norteiam toda a narrativa , contribuindo para o interesse do aluno na leitura do livro.
Devida à sua data de publicação, alguns conceitos pertinentes à astronomia foram superados. Sobre isso o autor fez algumas observações no prefácio das reedições dos livros da série na década de 1970. Sobre O Robô de Júpiter r pondera:
Nos anos 50 escrevi uma série de seis heróicas histórias sobre David "Lucky " Starr e suas batalhas contra malfeitores dentro do sistema Solar. Cada uma delas tinha lugar numa diferente região do sistema, e em cada caso, eu fazia uso dos fatos astronômicos - como era então conhecido.
[...]
Espero que meus Gentis Leitores gostem do livro, de qualquer modo, como de uma história de aventuras, mas, por favor, não se esqueçam de que o avanço da ciência pode superar mesmo o mais consciencioso escritor de ficção científica, e que minhas descrições astronômicas não são acuradas em todos os aspectos (ASIMOV, 1981, p. 7).
O enredo de O Robô de Júpiter trata de uma aventura situada num satélite do planeta Júpiter, o satélite Júpiter Nove. Nessa lua - inclusive a tradução literal da obra seria Lucky Starr e as Luas de Júpiter - está sendo desenvolvido um projeto denominado Agrav que controlaria a energia gravitacional (ASIMOV, 1981, p. 29). O protagonista, o herói Lucky Starr , é solicitado para desvendar uma possível conspiração que esteja ocorrendo durante os testes da tecnologia Agrav .
Apesar de a obra possuir r mais de 50 anos de publicação, acreditamos que sua utilização no ensino de física é justificável pelo fato de possuir uma temática de aventura e mistério - - além de tratar explicitamente de fenômenos conceituais da física - que possivelmente despertaria o interesse pela leitura no aluno. Não pretendemos fazer uma atualização conceitual dos fenômenos já superados pela ciência contemporânea e sim analisar alguns conceitos físicos inerentes à obra sob o olhar r da filosofia da diferença, de forma que a ficção científica possibilite discutir a física incentivando o imaginário do aluno.
## Aspectos conceituais sob o olhar da Filosofia da Diferença
Como em toda sua produção em ficção científica, Isaac Asimov fundamenta suas narrativas a partir de diversos temas científicos, nesse trabalho daremos destaque aos conceitos astronômicos e físicos. No caso da física essa obra privilegia temas relativos à energia, às diversas formas de movimentos e as interações de forças. Apesar da predominância da mecânica, podemos encontrar outros assuntos - física térmica, óptica, ondulatória, eletromagnetismo e física moderna - que fundamentam as situações vividas pelos heróis da história.
Logo no início de seu romance Isaac Asimov descreve como seria o referencial do ponto de vista de um satélite de Júpiter:
Júpiter apresentava-se quase como um círculo exato de luminosidade opaca, metade do diâmetro aparente da Lua vista da Terra, mas com apenas um sétimo de claridade lunar face à grande distância do Sol. Mesmo assim era uma visão de rara beleza (ASIMOV, 1981, p. 9).
A complexidade envolvida nesse segmento inicial da obra nos aponta uma afetação em que suas afecções seriam determinadas em sensações consequentes das percepções do personagem. Esse afecto surge na estética e na comparação , seus sentidos presenciam o fenômeno e confrontam com o que é inerente ao herói . Essas sensações também se estendem ao leitor.
Poderíamos nesse ponto de vista estabelecer alguns questionamentos intrínsecos à localização espacial. Como a percepção estabelecida pelo narrador é consequente de sua analogia às observações de corpos celestes a partir da Terra, poderíamos utilizar o imaginário para transcender essa limitação visual, ou seja, a leitura proporcionaria ao estudante uma imersão nesse meio cósmico delineada pela narrativa.
No caso da investigação científica, Gurgel e Pietrocola afirmam que o imaginário tem um papel importante no criar científico:
Em um processo imaginativo o sujeito tem um papel maior na criação científica, pois mesmo a percepção de uma regularidade ou a proposição de uma simetria pode ser criada por ele e não demonstrada pela natureza. A principal diferença entre a criação e a indução reside no foco da ação. Neste sentido, a palavra "descoberta" como normalmente a utilizamos privilegia o objeto, que está pronto em suas regularidades à espera que alguém construa um caminho de acesso até ele. Já a palavra criação (ou invenção) demonstra uma maior subjetividade, pois envolve uma nova forma do indivíduo olhar uma parcela do mundo, fazendo com que ele tenha uma participação ativa no processo (GURGEL e PIETROCOLA, 2004, p. 5).
Esse processo imaginativo que permeia a ação científica transformaria o processo de ensino-aprendizagem de física, tornando o professor um mediador de um espaço dialógico, em que os educandos se referenciem de suas experiências de vida, aliadas ao seu imaginário pessoal e trazendo à tona a sua visão sobre os fenômenos físicos. Nesse caso o papel de professor-mediador torna imprescindível para que o aluno supere seus obstáculos conceituais e principalmente, citando o referencial bachelardiano de João Zanetic, problematizando os obstáculos epistemológicos, transformando-os numa " rica experiência pedagógica " (ZANETIC, 2006, p. 53).
Continuando a análise conceitual da obra, verificamos que os conceitos de movimento relativo, pontos de referências e situações inerciais acompanham grande parte das ações dos protagonistas, como se é esperado em histórias sobre viagens espaciais. Observemos o trecho:
Bigman olhou novamente para baixo. Cair em velocidade constante não era exatamente o mesmo que cair livre no espaço. No espaço tinha-se a impressão de que nada tinha movimento. Uma espaçonave poderia estar viajando numa velocidade de centenas de milhares de quilômetros por hora e ainda assim permaneceria a impressão de imobilidade total ao redor. As estrelas distantes nunca se movem (ASIMOV, 1981, p. 31).
Podemos perceber nesse excerto algumas relações que permitem uma análise pela filosofia da diferença. A velocidade seria o afecto, ratificando o cair em
inércia, instaurando no leitor a analogia da queda livre pela ação da gravidade. O percepto seria evidenciado pela sensação do imóvel, que atingiria a subjetividade do aluno, caracterizada por associar o movimento relativo ao visível deslocamento dos corpos materiais.
Em sala de aula poderíamos questionar os alunos se essa queda em velocidade constante no espaço causaria alguma sensação de movimento, inclusive questioná-los onde poderíamos evidenciar, além do espaço sideral, o movimento inercial. Quanto à aparente imobilidade relatada pelo narrador, identificar com os alunos qual seria a noção de distância no espaço e associá-la à ilusão que temos quando estamos nos deslocando numa estrada e observamos os corpos distantes - árvores, montanhas , etc. - em aparente repouso.
Um fator interessante no trecho analisado anteriormente é de que o autor se preocupa em descrever a situação de forma didática, isso é comum nas space opera justamente para explicitar ao leitor sobre os fenômenos, facilitando assim sua imersão na jornada espacial. Esse didatismo pode ser evidenciado ainda no seguinte trecho:
Um objeto, como esta peça que estou segurando, e que está sob influência de um campo gravitacional, mas não tem condições de mover-se, diz-se que tem uma energia potencial. Se eu a soltasse, entretanto, essa energia potencial seria convertida em movimento... ou energia cinética, como é chamada. Um a vez que continua sob a influência do campo gravitacional à medida que cai, sua velocidade tenderá a aumentar sempre mais e mais. - Nesse momento deixou -se cair a ficha do jogo (ASIMOV, 1981, p. 70).
O principal aspecto que poderia ser identificado nesse segmento é a afirmação de que o objeto não teria condições de se mover, estando sua energia limitada à sua potencialidade, gerando dessa forma um percepto. O afecto transformaria essa situação, sua ação converteria essa potencialidade, tornando o movimento possível, como verificamos quando o personagem deixa a ficha cair.
Esse trecho da obra de ficção evidencia a temática de transformação de energia e suas multiplicidades geradas no texto didático sugerem uma ação experimental. Nesse aspecto poderia ser questionado aos alunos o fato de como os objetos parados sobre suas mesas poderiam transformar sua energia potencial em movimento , identificando o que seria essa energia potencial. Nesse caso o professor-mediador poderia sugerir que os alunos retirassem o obstáculo que não permite que o objeto se movimente - uma mesa que impede a queda de uma borracha escolar, por exemplo - e identifique o trabalho realizado para fazê-lo, identificando suas transformações de energia.
Os assuntos transformação de energia e gravitação delineiam grande parte da obra, não só pelo fato dessa ficção científica abordar fenômenos astronômicos, mas principalmente por conta do tema norteador da obra é o desenvolvimento de uma tecnologia alteraria a potencialidade do campo gravitacional e consequentemente, sua energia potencial.
Lucky tinha profunda consciência de que, apesar de toda a sua experiência no espaço, era inexperiente com o tipo de imponderabilidade usado no Agrav, que não era uma imponderabilidade absoluta, como no espaço, mas algo podia ser alterado à vontade (ASIMOV, 1981, p. 40).
A ideia de imponderabilidade pode ser geradora de um percepto que emula novamente o estado de liberdade do campo gravitacional. Entretanto o texto no indica que esse possível controle da gravidade suscitaria diferentes afecções. Essa
complexidade tangeria o absoluto e o controlável, permitindo com que o leitor r fosse imerso numa situação dualista entre a liberdade e o limitado, o primeiro seria relacionado à imponderabilidade total e o segundo seria resultado da ação do campo gravitacional.
No cotidiano escolar falar sobre o estado de imponderabilidade incita a exploração do imaginário do aluno. Apesar de alguns dos estudantes estarem familiarizados com imagens da Estação Espacial Internacional ou com os filmes que discutem a exploração espacial, esse fenômeno requer um tratamento conceitual e um cuidado com as analogias a serem debatidas. Nesse caso o professor-mediador poderia exemplificar a simulação desse fenômeno no cinema ou nos parques de diversões, que é evidenciada pela queda livre. Entretanto essa liberdade proporcionada por essa imponderabilidade artificial deveria ser como consequente da ação do campo gravitacional e esse não provocaria o mesmo efeito no espaço. No segmento do livro , esse fenômeno tangenciaria as duas situações e a utilização de elementos extrapolativos na narrativa - o homem controlando a gravidade através de uma tecnologia e não apenas mais uma reprodução do fenômeno - possibilita na linha que tange o imaginário e o real.
## Considerações Finais
Para Deleuze e Guattari a ficção possui algumas essencialidades do gênero literário que podem ser caracterizadas. No caso do romance, as questões que poderiam organizar a narrativa, estariam expressas no tempo passado, suscitando questionamento sobre esses eventos e propondo o interesse do leitor em acompanhar a obra. No caso dos contos, a ação permearia o tempo futuro, que focaria a leitura em suscitações sobre os eventos que acontecerão. O romance integraria esse dois elementos da novela e do conto.
Nesse aspecto, o romance policial é um gênero particularmente híbrido, visto que, muito freqüentemente, alguma coisa = x, da ordem de um assassinato ou de um roubo, aconteceu, mas o que aconteceu será descoberto e isso no presente determinado pelo policial-modelo. (DELEUZE e GUATTARI, 1996, p. 64).
Apesar de não escreverem especificamente sobre ficção científica, podemos interpretar que a hibridez acentuada pelos filósofos pode ser também aplicada a O Robô de Júpiter, r, pois a trama apresenta elementos do gênero policial em sua narrativa - inicialmente tem a presença do mistério na possível conspiração e posteriormente ocorre um assassinato. Essa dinâmica da obra poderia proporcionar um possível interesse para o aluno concluir a leitura do livro.
Propomos a utilização dessa obra na 1ª ano do ensino médio, devida à narrativa possuir seus conceitos e contrafactualidades - baseados na temática da mecânica - em sintonia com o que é previsto pelos Parâmetros Curriculares Nacionais nessa série. Acreditamos que uma leitura parcial e comentada em sala de aula possibilitaria o interesse inicial para a conclusão do livro pelos alunos. A análise conceitual como propusemos nesse trabalho ficaria para as aulas seguintes, quando o professor-mediador faria uma análise conceitual dos fenômenos descritos no livro .
A leitura em sala de aula não é uma atividade simples de se realizar, mas é uma opção em discutir a física como um percurso formativo de seus alunos (MENEZES, 2009). João Zanetic afirma que esse diálogo entre Literatura e Física permite combater a dois tipos de analfabetismo: o literário e o científico (ZANETIC,
2006, p.54). Não pretendemos com essa atividade inspirar o aluno a ser um leitor de ficção científica e sim propor uma alternativa aos métodos tradicionais de ensino de Física .
Quando levamos um texto de ficção científica em sala de aula não devemos priorizar a análise superficial de seus fenômenos, restringindo por muitas vezes a apenas discussão dos erros conceituais (PIASSI e PIETROCOLA, 2009, p.527). Devemos considerar suas transformações externalizadas à sociedade e suas possíveis consequências nas relações humanas. Nesse aspecto, conforme nos relata Umberto Eco, a ficção científica nos remete ao infinito (ECO, 1989, p.171). É esse infinito que buscamos encontrar quando analisamos seus conceitos de forma que sejam mediados sob o olhar r da filosofia da diferença.
Não pretendemos de forma alguma esgotar as possibilidades didáticas da obra Asimov nesse texto e sim apontar algumas alternativas que ultrapassem algumas limitações enraizadas na prática docente.
## Referências Bibliográficas
ALLEN, L. D . No mundo da ficção científica. Tradução de Antônio Alexandre Faccioli e Gregório Pelegi Toloy. 1ª Ed. São Paulo: Sumus Editorial, 1974. ASIMOV. I. O Robô de Júpiter r Tradução de Lindbergh C. de Oliveira. São Paulo: Editora Hemus, 1981.
- \_\_\_\_\_\_. 111 questões sobre a Terra e o Espaço. Tradução de Ieda Moriya. 1ª Ed. São Paulo: Nova Cultural, 1991.
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