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Física e Super-heróis: uma pesquisa sobre interesse

Willian De Campos Vieira, Kaluti Rossi De Martini Moraes

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XXII
Ano
2017
Data
24/01/2017
Linha de pesquisa
Divulgação Científica E Educação Não Formal
Tipo
Pôster

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Texto completo

## Física e Super-heróis: uma pesquisa sobre interesse

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## Willian de Campos Vieira , Kaluti Rossi De Martini Moraes

1 PUCRS/Faculdade de Física , willian.vieira@acad.pucrs.br

2 Homeschool Annabel, kaluti.moraes@acad.pucrs.br

## Resumo

Há algum tempo, se enfrenta uma dificuldade no ensino de física, pois o mesmo, geralmente, se encontra desatualizado e desinteressante. Diante desse cenário, os jovens têm demonstrado desinteresse devido à falta de sentido dos conteúdos do modelo tradicional. Com o presente artigo, pretende-se apresentar uma possibilidade de abordagem da Física utilizando filmes de super-heróis, tema que atualmente tem alcançado uma grande repercussão na mídia. Foi desenvolvida uma oficina com estudantes do Ensino Médio de Porto Alegre que envolveu Cinema e Física. A proposta consistiu na análise de filmes de super-heróis escolhidos pelos estudantes, partindo das explicações dos jovens sobre os conceitos físicos presentes nas cenas dos filmes e formalizando estes conceitos segundo mediação dos professores pesquisadores. No último dos encontros, foi realizada uma entrevista semiestruturada com os participantes para avaliar quais elementos influenciaram o interesse em participar da atividade desenvolvida. Nas respostas dos participantes apareceram alguns elementos como: transcender os conceitos curriculares, tratar de temas da cultura, considerar o protagonismo por parte do aluno.

Palavras-chave : Super-heróis; Interesse;Cinema

## Introdução

Há algum tempo, os professores têm enfrentado dificuldades no ensino de física, pois, normalmente, não despertam o interesse nem motivam seus estudantes. Os formatos de aulas, tradicionalmente propostos, devem ter relevância neste contexto. As atividades desenvolvidas são normalmente baseadas em aulas expositivas, resolução de exercícios e, com menor incidência, uso de experimentos (OLIVEIRA 2006). Essa opção metodológica pode ter um importante papel na desmotivação dos estudantes quanto ao ensino de ciências. Quando se trata de ensino, os planejamentos devem ser voltados para os alunos, tornando assim, a aprendizagem mais prazerosa (ARDENTE 2010).

Neste trabalho foi desenvolvida uma proposta pedagógica capaz de transcender as limitações da aula tradicional. A fim de motivar os estudantes, a proposta envolveu a exibição de filmes de super-heróis. O objetivo do presente trabalho foi avaliar quais elementos influenciam o interesse dos estudantes na participação da proposta de discutir as cenas dos filmes sob uma perspectiva conceitual da Física.

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23 a 27 de janeiro de 2017

## Fundamentação Teórica

O cinema foi criado no final do século XIX pelos irmãos Lumière, essa grande revolução do modo de ver, mudou o mundo em diversos aspectos. E assim como toda tecnologia, o cinema também evoluiu muito nesses últimos anos. Atualmente grandes produções, que movimentam valores monetários vultosos, são lançadas todos os anos. Neste panorama são lançados filmes de super-heróis, os quais, em diversas oportunidades, foram os mais assistidos nos cinemas de todo o mundo. Com o aumento de filmes envolvendo esse bombardeio cinematográfico nos últimos anos, esse tema se tornou ainda mais presente na vida dos adolescentes. Se tornando assim, um material com potencial de ser trabalhado em sala de aula.Portanto, é motivador que o professor se apodere de ferramentas audiovisuais no desenvolvimento de suas aulas. Com um grande bombardeio da cultura, desde a infância, as crianças acompanham os super-heróis e muitos se interessam por estes. Super-heróis sempre foi um tema que 'circulou' na mente dos adolescentes (OLIVEIRA 2006).Muitos autores utilizaram métodos que envolveram filmes e ensino, tais como (OLIVEIRA 2006); (ARDENTE 2010) (SILVA 2014) (OLIVEIRA 2010) (XAVIER 2010) (SILVA 2012).

Para Dewey o interesse não se restringe a infância dos seres humanos, ela acontece continuamente sempre que somos expostos a situações problemas impostas no curso das atividades que estão a ele atrelada. Como as situações problemas que são por esses jovens encontradas em sua rotina, que poderiam ser utilizadas como meio de orientar suas atividades estudantis, relacionando as atividades que geram seu interesse com os componentes impostos na grade curricular do ensino tradicional.(WESTBROOK & TEIXEIRA 2010).

Quando a criança inicia sua escolaridade leva em si, quatro impulsos natos, o de se comunicar, construir, indagar e expressar (WESTBROOK & TEIXEIRA 2010). Sendo que, dentro do atual sistema de ensino, esses aspectos não são estimulados e por mais que os estudantes se interessem pelos mistérios da ciência ou o modo como ela 'funciona', não terão o menor problema em dizer que entretenimento e diversão não fazem parte da autêntica aula de Física (SECCO & TEIXEIRA 2007). O cenário formulado pela escola tradicional, normalmente, afasta estudantes do meio científico.

## Metodologia

## Desenvolvimento da Pesquisa

O projeto foi realizado em uma instituição não formal de ensino, que durante a semana tem uma proposta de acompanhamento pedagógico no contraturno escolar, localizada na zona norte de Porto Alegre. O local tem uma sala de convivência que dispunha de recursos audiovisuais.

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A oficina foi ofertada presencialmente para todos os estudantes regulares do Ensino Médio, de diferentes escolas privadas de Porto Alegre, que frequentam a instituição. Houve a possibilidade de convidar amigos, também estudantes do ensino médio, além de ter sido ofertada para ex-estudantes. Logo, foi criado um evento no Facebook, onde estava disponível uma enquete com 23 filmes, dos quais seriam escolhidos democraticamente aqueles a serem assistidos durante a oficina. Esta se deu da seguinte forma: o filme foi exibido de forma integral e na sequência foram apresentadas cenas pertinentes, previamente selecionadas, para incitar a discussão no grupo. A dinâmica da atividade sobre as cenas envolveu a apresentação das impressões dos estudantes mediada pelos professores pesquisadores. Neste contexto, foram vinculados os conceitos de Física importantes para cada situação, com elementos do discurso dos estudantes no primeiro momento. Na sequência a conversa foi orientada para uma conclusão mais formal dos conceitos. Os estudantes tiveram a liberdade de conduzir a exploração do filme: relacionando diferentes cenas, sugerindo análise de outros trechos não selecionados previamente, bem como o momento de pausa/reprodução.

As oficinas foram realizadas aos sábados no turno da manhã, tendo início às 9h e com previsão de término às 12h e 30min. No primeiro encontro estiveram presentes quatro estudantes, já no segundo participaram seis, além dos quatro da semana anterior. Em um terceiro encontro foram colhidas as entrevistas que serviram de base para a análise deste trabalho. O grupo era constituído de estudantes do Ensino Médio, frequentadores de escolas privadas, com idades variando entre 15 e 18 anos.

Ao longo da oficina, foram trabalhados os filmes Guardiões da galáxia e Vingadores a Era de Ultron. Onde foram discutidos temas de mecânica como: conservação de momento angular e linear, colisões, gravitação, torque e algumas ideias de dinâmica. Enquanto outros tópicos como o limite da frequência do visível, campo magnético e o funcionamento do eletroímã.

## Métodos e técnicas de coleta e análise de dados

Após o término das duas oficinas foram realizadas entrevistas com os alunos participantes, essas entrevistas serviram de fonte para uma pesquisa qualitativa, optou-se por esse delineamento, pois ela demonstra seu valor para analisar questões que são difíceis de quantificar, como sentimentos humanos, motivações e atitudes individuais. Tendo em vista que o objetivo do trabalho é o interesse dos estudantes. (GOLDENBERG 2003).

Foram realizadas entrevistas semiestruturadas, pois além de ser o modo mais comum de entrevista qualitativa, não segue um roteiro rígido. O entrevistador tem uma concepção do que deve ser perguntado, podendo adequar suas perguntas e atitudes de forma não uniforme para todas as entrevistas (SILVERMAN 2009), (Yin 2016), (LÜDKE 2013) e (MANZINI 2016). Neste trabalho as perguntas foram separadas em três grandes blocos. Cada bloco apresentava uma ideia central que era relevante para o trabalho. O primeiro bloco tinha como objetivo trabalhar o assunto super-heróis, de uma maneira menos formal, no intuito do aluno sentir-se

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## XXII Simpósio Nacional de Ensino de Física - SNEF 2017

mais à vontade no decorrer da entrevista. O segundo bloco era composto com perguntas de caráter metodológico das aulas do aluno, focando em questões como o interesse pelas aulas, não apenas as de física, mas também de outras matérias. Além de investigar sobre o engajamento da turma perante as aulas, o modo como estas decorrem e focando principalmente no seu interesse pelas matérias, pelas aulas ministradas e pelos professores. O terceiro bloco relacionava os dois blocos anteriores, trazendo as questões sobre interesse e engajamento para a realidade da oficina ministrada. Portanto, este último bloco foi de fundamental importância como fonte de dados para a análise do presente trabalho. Todas as entrevistas foram gravadas e transcritas segundo o referencial de (SILVERMAN 2009).

## Resultados e discussões

## Ensino tradicional

A aula tradicional geralmente encontra dificuldades em motivar os estudantes durante seu processo de ensino, devido à manutenção da aula expositiva onde cabe ao mesmo o papel de ouvinte (DA CUNHA 1989). É coerente imaginar que aqueles professores capazes de transcender os conteúdos disciplinares em sala são indivíduos com maior propensão a convocar seus pupilos ativamente para as atividades propostas. É interessante apontar para a irrelevância de métodos demasiadamente elaborados ou tratar de temas com maior aprofundamento para despertar o interesse neste contexto. Em muitas situações, faz-se suficiente a evocação de elementos da cultura dos jovens ou discussão sobre temas que aproximam os conteúdos da disciplina com a realidade dos estudantes. Percebemos no discurso dos entrevistados que não eles não experimentam uma grande variedade metodológica em suas aulas nas respectivas escolas. Algumas falas evidenciaram esta descrição devido à surpresa expressa nas respostas frente à pergunta sobre a ideia da oficina:

- "A ideia de trabalhar com Super-heróis foi criativa, inusitada" (B)
- "A ideia de envolver Física e Super-heróis é muito criativa e muito boa" (C)

Um recorte interessante que demonstra a motivação nas próprias aulas de Física está possivelmente atrelada à iniciativa dos professores em não ater-se aos conteúdos curriculares, mas acabar conversando sobre outros temas em sala. Podemos observar esta questão na fala de quem afirmou gostar de suas aulas de Física quando convocamos a descrever como elas se dão:

"É uma aula de Física/Vida!" (A)

"Olha, às vezes é uma aula de política, às vezes é uma aula de física, às vezes é uma aula de matemática, às vezes uma aula

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de história, é assim!" (B)

Há diversos trabalhos que apontam críticas à maneira tradicional de ensinar Física, todos apresentam métodos diferentes, mas concordam que o modo tradicional acaba priorizando aqueles que já apresentam preferência pela disciplina (OLIVEIRA 2006) (OLIVEIRA 2010) (SILVA 2012). Em muitas instituições de ensino persevera a crença na eficiência do método tradicional, em detrimento da maioria dos alunos. Em contrapartida, observamos que a aula expositiva falha em despertar o engajamento do estudante, mesmo quando ele tem afinidade pela disciplina em si. Percebemos este comportamento no discurso de um dos entrevistados:

"Física é uma matéria que eu gosto, mas acho as aulas chatas e desinteressantes" (C)

## Cultura

Dentre todos os entrevistados, percebemos uma convergência em torno dos dois eixos centrais da nossa oficina: Física e Super-heróis. Apareceu em todos os relatos o gosto pela disciplina, bem como o interesse particular no tema trabalhado. Uma preocupação que tivemos foi avaliar o quão relevante era o universo dos Super-heróis para a vida dos participantes, com o intuito de pensar em perspectiva se algum dos eixos tinha uma preponderância sobre o outro no despertar para a participação da oficina. Foi possível perceber que não estávamos trabalhando com fãs aficionados pelo tema, sugerindo que o sucesso de atividades com essa característica não está vinculado essencialmente ao elemento da cultura escolhido.

"Eu acompanho só os filmes, os quadrinhos é muita mão procurar. Eu só não acompanho (desenho animado) porque não passa na TV" (A)

"Sim, filmes eu acompanho. Quadrinhos nem tanto" (C)

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A combinação de um elemento próprio da cultura dos jovens com o ensino de Física teve um papel relevante no engajamento dos participantes da oficina. É importante destacar a opção metodológica, com o uso das cenas dos filmes, como um aspecto contribuinte para o sucesso em atingir o interesse dos estudantes em discutir conceitos da Física, afinal o cinema faz parte da realidade dos mesmos. Percebemos a importância desses aspectos nos seguintes relatos:

"Eu gosto de super-heróis e de Física, e tipo, a oficina era comentando a Física com base nos filmes de super-heróis, e tipo perfeito assim." (A)

"Muito legal, porque tipo, quando tu está no cinema, assistindo, não presta muita atenção nos detalhes do filme. Aí depois, tu para assim pra rever, muito bala!" (A)

## Protagonismo

É incoerente a concepção atual na qual o ensino escolar se foca no repasse do conhecimento, como se simplesmente este fosse algo capaz de ser transmitido entre as pessoas. Na realidade, é bem menos ingênua a ideia de que o conhecimento seja construído através das experiências em sala de aula. Esta questão se reflete no contexto da motivação das pessoas durante o processo de ensino. Garantir um papel de protagonista para o aluno, reconhecendo o aluno como sujeito do processo de ensino-aprendizagem, consiste em uma estratégia relevante para o despertar do interesse (DEMO 2000).

A proposição dos encontros considerou o protagonismo dos participantes, visto que os mesmos decidiam o andamento da exploração das cenas, bem como tinham a liberdade de sugerir outras partes do filme que não tinham sido previamente selecionadas. O poder de decisão esteve presente desde o momento da escolha do filme a ser trabalhado, visto que foi colocada uma lista extensa de possibilidades para votação. Percebemos a importância que os estudantes conferiram para esta questão quando perguntados sobre a impressão que tiveram do formato da oficina ofertada:

"Achei bacana poder escolher porque é uma experiência que a gente não tem muito no dia a dia, é diferenciado." (A)

"Eu achei legal a gente opinar, democracia né?" (C).

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## Considerações finais

Ao analisar as entrevistas realizadas percebemos a heterogeneidade das motivações apresentadas pelos estudantes em participar da oficina desenvolvida. É difícil a tarefa de ordenar a importância dos elementos que foram aparecendo no discurso deles. Faz mais sentido imaginar que eles contribuem de maneira sinérgica para despertar o interesse dos participantes, ponderados pelas suas particularidades. A participação de uma atividade não obrigatória, sem viés curricular para os envolvidos, que contou com encontros aos sábados pelo período matutino, revelou muito sobre o engajamento nas atividades propostas. A frequência aumentou entre os encontros, apesar da curta duração.

Inicialmente, os estudantes se propuseram a participar, possivelmente, devido ao fato de gostarem de Física, bem como de Super-heróis. Mas, fomos capazes de perceber como as motivações acabaram transcendendo este contexto. Reconhecemos no discurso deles a importância dada à figura do professor, ao formato de aula que não se limita à exposição dos conteúdos, ao tratamento de temas próximos à sua realidade, bem como a liberdade e o poder de decisão que experimentaram no decorrer das atividades.

Interesse é uma questão complexa de se compreender, mas é importante reconhecer estratégias capazes de otimizar o processo de motivação para o ensino de Física. Em geral, estas estratégias consistem em distanciar a metodologia de ensino da aula tradicional, assim como compreender que o momento da aula pode ser também um espaço para discussão de temas que transcendam os componentes curriculares. Também é relevante resgatar elementos da cultura dos jovens. É ingenuidade imaginar a possibilidade de se chegar a um formato ideal de aula, capaz de mobilizar a todos os envolvidos, mas podemos nos balizar pelos aspectos que estiveram presentes nos relatos analisados.

## Referências

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GOLDENBERG, M. A arte de pesquisar: como fazer pesquisa qualitativa em Ciências Sociais. 7. ed. Rio de Janeiro: Record, 2003

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