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O PROJETO ASTROEM II E O ENSINO DE ASTRONOMIA: A CONSTRUÇÃO DE UMA LUNETA

Claudia Celeste Celestino, Wesley Góis, Claudia De Oliveira Lozada, Maria Cecília F. P. S. Zanardi, Rafael Arsuffi Marcon

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XXII
Ano
2017
Data
24/01/2017
Linha de pesquisa
Materiais, Métodos E Estratégias De Ensino De Física
Tipo
Pôster

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Texto completo

## PROJETO ASTROEM II E O ENSINO DE ASTRONOMIA: A CONSTRUÇÃO DE UMA LUNETA

Claudia Celeste Celestino , Wesley Góis , Claudia de Oliveira Lozada , Maria 1 2 3 Cecília F.P.S Zanardi , Rafael Arsuffi Marcon 4 5

- 1 Universidade Federal do ABC/ claudia.celeste@ufabc.edu.br
- 2 Universidade Federal do ABC/ wesley.gois@ufabc.edu.br
- 3 Universidade Federal do ABC/cld.lozada@gmail.com

## Resumo

Neste trabalho apresentamos um relato de experiência sobre o Ensino de Astronomia e que abrange a construção de uma luneta com material de baixo custo, desenvolvida pelo Projeto Astroem II, uma iniciativa da Universidade Federal do ABC. O Projeto Astroem II tem como propósito a popularização da Ciência, a divulgação científica, a alfabetização científica e tecnológica e a melhoria do Ensino de Ciências na Educação Básica, além de diminuir a distância entre a Universidade e as escolas. A atividade de construção da luneta foi realizada durante a execução do Projeto Astroem II em uma escola pública da região do grande ABC com a participação de alunos do Ensino Médio. Os resultados demonstram que as atividades práticas experimentais ensejam uma aprendizagem significativa dos conceitos de Astronomia e a utilização de material de baixo custo para a confecção dos artefatos torna o fazer Ciência na sala de aula mais acessível. Por outro lado, gera impactos positivos tanto para a postura docente quanto para a postura discente no que se refere às aulas de Ciências e ao processo ensino-aprendizagem.

Palavras-chave : Ensino de Astronomia; Construção de luneta; Projeto Astroem II.

## Introdução

Em geral, os conceitos principais de Astronomia são ensinados durante o Ensino Fundamental acompanhados de uma abordagem histórica, o que facilita a compreensão do contexto no qual muitas descobertas foram feitas e muitos artefatos foram criados. No Ensino Médio, os tópicos de Astronomia, tem uma abordagem bastante reduzida e ligada ao desenvolvimento de conceitos físicos, com suporte matemático na resolução de questões centradas nesses conceitos. O contexto histórico fica em segundo plano, e muitas vezes, sequer é citado, assim como as atividades práticas são realizadas com baixíssima frequência, o que exclui a possibilidade do aluno de construir e manipular instrumentos utilizados pelos astrônomos, além de experienciar situações semelhantes àquelas que ensejaram as descobertas astronômicas.

Por outro lado, deve-se considerar que a temática Astronomia ainda é pouco abordada nos cursos de Licenciatura, conforme coloca Assis (2010, p. 47), explicando que '(...) nas 46 instituições de ensino superior do país (67% públicas e

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33% privadas), apenas 54 cursos ofereciam a disciplina específica de Astronomia.' Certamente, essa questão influencia na baixa abordagem deste conteúdo em sala de aula pelos professores, embora seja largamente citado nos Parâmetros Curriculares Nacionais como conteúdo fundamental a ser desenvolvido em sala de aula, pois permite um trabalho interdisciplinar.

Uma forma de tentar sanar esta lacuna são as visitas aos planetários e museus de ciências que possuem espaços destinados à Astronomia. No entanto, a quantidade desses espaços ainda é bastante reduzida no Brasil e geralmente concentram-se nas capitais, o que dificulta o acesso do público escolar de cidades do interior. Também são poucos os museus de ciências itinerantes no Brasil, o que inviabiliza de certa forma, o contato do público escolar de regiões afastadas com diversos conhecimentos científicos, experimentos e interatividade com os objetos da exposição museal.

Uma alternativa para estimular o ensino de Astronomia nas escolas é a construção de instrumentos de observação com material de baixo custo. Torna-se uma atividade dinâmica, lúdica e desperta a atenção dos alunos para o Universo. Nesse sentido, este trabalho destaca a construção de uma luneta com material de baixo por alunos participantes do Projeto Astroem II, desenvolvido pela Universidade Federal do ABC em uma escola pública da região do Grande ABC (SP) e de que forma esta atividade impactou nas práticas pedagógicas e na participação dos alunos nas aulas de Física.

## Apontamentos sobre o Ensino de Astronomia e a construção de uma luneta com material de baixo custo

Na literatura do Ensino de Ciências podemos encontrar diversos relatos sobre a construção de lunetas e como esta atividade impactou no processo ensinoaprendizagem de conceitos de Astronomia. Iachel et al (2009) narra a experiência da construção de luneta com material de baixo custo em uma oficina destinada aos professores do Ensino Médio. Os professores tiveram aulas teóricas sobre conteúdos de Física e Astronomia básica que antecederam a construção da luneta. Os autores destacam as dúvidas colocadas pelos professores acerca da diferença entre luneta e telescópio refletor, além da ênfase na abordagem histórica de conceitos de Astronomia. Professores participantes do curso utilizaram os conceitos de Astronomia de modo interdisciplinar e utilizaram a luneta em suas aulas, constituindo-se como um elemento motivador para aprendizagem de Astronomia.

Nogueira e Canalle (2009) lançam em 2009 com apoio do Ministério da Educação e da Agência Espacial Brasileira, um volume da Coleção 'Explorando o Ensino' destinado ao Ensino de Astronomia para o Ensino Fundamental e Médio e abordam a construção de uma luneta com material de baixo custo. O livro traz uma série de conteúdos de Astronomia e atividades na perspectiva hands on com a utilização de materiais de baixo custo, presentes no cotidiano dos alunos.

Amon et al (2009) relatam sobre um projeto que aborda a construção de telescópios e lunetas nas escolas com material de baixo custo, sendo que esta atividade foi precedida de análise de imagens astronômicas, aulas teóricas, observação do céu e visita ao Observatório Abrahão de Moraes em Valinhos (SP). Os autores partem de uma fundamentação teórica baseada nos trabalhos de

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Vygotski e enfatizam no relato que 'a Astronomia desperta certo fascínio nos estudantes o que é uma enorme motivação para o estudo das leis da Física e aplicação da Matemática.' (op. cit, p. 11)

Por sua vez, Germinaro, Silva e Roberto Junior (2012) consideram a construção de luneta para o ensino de Astronomia como algo motivador. Scalvi et al (2012, p. 10) destacam a importância da construção de lunetas para o ensino de conceitos de Física utilizando materiais de baixo custo e acessíveis:

A construção das lunetas permite relacionar cada etapa do processo com os conceitos da óptica física e geométrica, tais como formação de imagens em lentes e espelhos, ocorrência de aberração esférica e cromática, dispositivos e alinhamento óptico, entre outros tópicos abordados na sequência do texto, de forma resumida.

Bernardes, Iachel e Scalvi (2008) colocam que a utilização de instrumentos astronômicos, como lunetas e binóculos no ensino de Astronomia, deve ser posterior à observação do céu a vista desarmada. Canalle e Souza (2005) explicam que o material de baixo custo utilizado na construção de lunetas estimula o aluno a construir a sua própria luneta, pois a aquisição do material torna-se mais acessível.

## A construção da luneta

O Projeto Astroem é desenvolvido pela Universidade Federal do ABC em parceria com escolas públicas da região do grande ABC e tem como objetivo a popularização da Ciência, a divulgação científica, a alfabetização científica e tecnológica do público escolar e a melhoria do Ensino de Ciências na Educação Básica. A segunda edição do Projeto Astroem ocorreu em 2014 e abrangeu apenas uma escola pública, onde foram desenvolvidos os módulos de Astronomia, Astronáutica e Mecânica Aplicada. Os alunos do Bacharelado em Ciência e Tecnologia e das Engenharias são os multiplicadores desses conhecimentos para o público escolar e são supervisionados por professores pesquisadores da UFABC para a elaboração das aulas, do material didático utilizado no projeto e dos kits de experimentação.

A construção da luneta está inserida nas atividades práticas do Projeto Astroem II no módulo de Astronomia e foi desenvolvida com uma turma do Ensino Médio de uma escola participante do Projeto. Estas atividades são precedidas de aulas teóricas nas quais os alunos revisitam diversos conceitos e aprendem outros. Os alunos tiveram uma aula sobre instrumentos de orientação antes de construírem a luneta. Este experimento possibilitou a interdisciplinaridade com História, Geografia e Matemática.

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Figura 1: Aulas teóricas do Projeto

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Os alunos foram divididos em grupos e receberam o material para a construção da luneta. Este material é bastante acessível e de baixo custo: Tubo de PVC 40cm x 50mm; Tubo de PVC 10cm x 50mm partido e furado; Tubo de PVC 40cm x 40mm; Luva 50mm; Feltro; Lente 2+ esférica; Lente biconvexa de monóculo fotográfico; 1 rolha; 3 parafusos pequenos; 3 porcas borboleta; 2 cantoneiras; Tesoura; Fita adesiva; Garrafa PET. Esta atividade foi supervisionada pela Equipe Astroem que auxiliou os alunos em relação às dúvidas durante a montagem da luneta

Figura 2: A construção da luneta pelos alunos

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As lentes devem ser limpas para que não prejudiquem a visibilidade, assim como os tubos de pvc, de modo que não existam obstáculos ao encaixe da lente. Em seguida, o feltro é colado nos tubos de pvc (na parte externa da extremidade e na parte interna). O próximo passo é encaixar os tubos de pvc e colocar a lente do monóculo dentro do encaixe. A lente 2+ esférica deve ser posicionada no interior da luva, por meio da extremidade com diâmetro menor e deste modo a parte convexa ficará voltada para a extremidade que possui diâmetro maior. É necessário construir um suporte para a luneta e, para tanto, foi utilizada as duas cantoneiras com um parafuso e uma porca borboleta, que posteriormente deverão ser unidos ao tubo de pvc por um furo. A garrafa PET deverá ser encaixada neste ponto e assim servirá de suporte à luneta. Os alunos podem colocar adesivos na parte externa do tubo de pvc, com figuras, seus próprios nomes, ou nomear a luneta, customizando e personalizando as suas lunetas.

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Figura 3: A luneta construída e fixada num suporte

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Os alunos devem ser alertados de que não devem apontar a luneta diretamente para o sol, para evitar danos à visão, assim como devem escolher lugares altos e com pouca iluminação artificial para que possam observar de modo mais nítido o céu. Interessante também observar a construção detalhada da luneta proposta por Canalle (1994), que foi um trabalho pioneiro na difusão de recursos didáticos para o ensino de Astronomia utilizando material de baixo custo.

## Considerações finais

Participar ativamente das atividades experimentais nas aulas de Física e deixar de ser apenas espectador é fundamental no processo ensino-aprendizagem. Além de desenvolver diversas habilidades, permitem que os alunos explorem o material que comporá o artefato e questionem novas possibilidades de melhorar a construção do artefato, como foi o caso da luneta relatado neste trabalho. Desta forma, constitui-se como um resgate da utilização de materiais concretos e de manipulação nas aulas de Física. Por outro lado, a construção da luneta estimulou os alunos a observarem o mundo que os cerca, hábito este que vem perdendo espaço ao longo dos anos, devido à preferência pelas mídias digitais.

Os impactos gerados por esta atividade no comportamento dos alunos são inúmeros, a citar: motivação para aulas de Física; perceber-se como protagonista do processo ensino-aprendizagem; desenvolvimento do hábito de pesquisa e da argumentação; desenvolvimento de atitudes de cooperação, colaboração e gestão de grupos; reconhecimento da interdisciplinaridade por meio da relação entre as disciplinas do currículo; percepção de que o 'fazer Ciência' pode dispor de materiais simples e presentes no dia a dia; despertar da criatividade e da curiosidade. Em relação aos professores, os impactos gerados foram os seguintes: reflexão sobre a prática pedagógica e a forma de avaliação do processo de aprendizagem dos conhecimentos científicos; percepção de múltiplas abordagens dos conteúdos das aulas de Física; mudança na dinâmica das aulas (tempo das atividades, configuração do espaço escolar com a divisão em grupos e atividades externas); utilização de materiais de baixo custo em atividades práticas; possibilidade de realização de atividades experimentais na sala de aula.

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Darroz e Santos (2013) inclusive afirmam que as atividades experimentais promovem a aprendizagem significativa, pois proporcionam o contato com material potencialmente significativo, como pudemos observar nesta atividade do Projeto Astroem II, devendo ser planejadas para que não se desviem para um caráter meramente lúdico desconectado da aprendizagem dos conhecimentos científicos.

## Referências

AMON, M. C. I.; SOUZA, O.; PEREIRA, V. J. S.; HETEM, J. G. Ensino de ciências com o projeto de telescópios na escola . 2009. Disponível em: http://www.telescopiosnaescola.pro.br/congressos/Enast12.pdf. Acesso em: 15 ago. 2016.

ASSIS, J. N. M. Tópicos de astronomia no ensino médio: uma investigação a partir de um curso informal. 2010. 160 f. Dissertação (Mestrado em Ensino de Ciências e Matemática) - Universidade Estadual da Paraíba, Campina Grande, Paraíba, 2010.

BERNARDES, T. O.; IACHEL, G.; SCALVI, R. M. F. Metodologias para o ensino de astronomia e física através da construção de telescópios. Cad. Bras. Ens. Fís., v. 25, n. 1: p. 103-117, abr. 2008.

CANALLE, J. B. G. A luneta com lente de óculos . Caderno Catarinense de Ensino de Física , v. 11, n. 3, p. 212-220, dez. 1994.

\_\_\_\_\_\_.; SOUZA, A. D. C. F. Simplificando a luneta com lente de óculos. Cad. Bras. Ens. Fís ., v. 22, n. 1, p. 121-130, abr. 2005.

DARROZ, L. M.; SANTOS, F. M. T. Astronomia: uma proposta para promover a aprendizagem significativa de conceitos básicos de Astronomia na formação de professores em nível médio. Cad. Bras. Ens. Fís ., v. 30, n. 1: p. 104-130, abr. 2013.

GERMINARO, D. R.; SILVA, V. A.; ROBERTO JUNIOR, A. J. A construção de uma luneta de baixo custo como eixo motivador para o ensino de física. Disponível em: http://www.unifal-mg.edu.br/sspibid/sites/default/files/file/S02796.pdf. Acesso em: 16 ago. 2016.

IACHEL, G.; BACHA, M. G.; PAULA, M. P.; SCALVI, R. M. F. A montagem e a utilização de lunetas de baixo custo como experiência motivadora ao ensino de astronomia. Revista Brasileira de Ensino de Física, v. 31, n. 4, p. 4502-4502-7, 2009.

NOGUEIRA, S.; CANALLE, J. B. G. Astronomia: ensino fundamental e médio. Brasília: MEC, SEB ; MCT ; AEB, 2009. - (Coleção Explorando o ensino; v. 11)

SCALVI, R. M. F.; IACHEL, G.; BACHA, M. G.; ANDRIATTO, A. A. Construção e utilização de lunetas no ensino da astronomia. São Paulo: Cultura Acadêmica: Universidade Estadual Paulista, Pró-Reitoria de Graduação, 2012.

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Texto extraído automaticamente do PDF: podem existir erros de conversão, especialmente em fórmulas, tabelas e figuras.