A CONSTRUÇÃO DE BRINQUEDOS DIDÁTICOS COMO CRITÉRIO DE AVALIAÇÃO DA DISCIPLINA DE FÍSICA APLICADA DO CURSO DE DESIGN DE MÓVEIS
Rodrigo Caetano, Tereza Maria Rolo Fachada Levy Cardoso
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXII
- Ano
- 2017
- Data
- 24/01/2017
- Linha de pesquisa
- Materiais, Métodos E Estratégias De Ensino De Física
- Tipo
- Pôster
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Texto completo
## A CONSTRUÇÃO DE BRINQUEDOS DIDÁTICOS COMO CRITÉRIO DE AVALIAÇÃO DA DISCIPLINA DE FÍSICA APLICADA DO CURSO DE DESIGN DE MÓVEIS
## Rodrigo Caetano 1 , Tereza Maria Rolo Fachada Levy Cardoso 2
1 Instituto Federal do Sudeste de Minas Gerais/Núcleo de Física/rodrigo.caetano@ifsudestemg.edu.br 2 CEFET-RJ/Departamento de História/fachada@gmail.com
## Resumo
Conhecer os alunos e promover atividades motivadoras podem tornar a prática docente proveitosa, tanto para os alunos quanto para o próprio professor. Nesse trabalho é descrito o processo de avaliação realizado com os calouros do curso técnico de Design de Móveis oferecido pelo Instituto Federal do Sudeste de Minas Gerais, no campus de Juiz de Fora e como foi a reação deles e o impacto que teve acerca da Física e a sua aplicação na atividade profissional e no dia-a-dia com uma forma diferente de avaliação. A mudança da perspectiva e da maneira como seriam avaliados, desenvolvidos e apresentados os conceitos de Estática, Equilíbrio e Resistência de Materiais, tópicos da ementa, ocorreram devido à dificuldade dos alunos em compreender esses conceitos e a circunstâncias atenuantes, como a greve dos professores e técnicos administrativos após a primeira semana de aula que fez boa parte dos alunos desistir. Foi feita uma pesquisa qualitativa para conhecer o perfil do público matriculado através de um questionário descrito ao longo do texto, assim também, como a escolha da forma da avaliação (criação de brinquedos didáticos com materiais de baixo custo) e como ela está relacionada ao desempenho e aptidões dos discentes, visando à realização de uma atividade interdisciplinar, contextualizada e motivadora.
Palavras-chave : Avaliação, Brinquedos Didáticos, Design de Móveis, Interdisciplinaridade.
## Introdução
Buscar formas de atrair o interesse dos alunos pela Física e motivá-los é um grande desafio para o professor, ainda mais por conta da visão de uma ciência pragmática e tomada por um formalismo matemático desprovida de significado que permeia a visão da maioria dos alunos e pessoas que já passaram pela escola (NASCIMENTO, 2007).
Assim, procurar maneiras de trabalhar o conteúdo e mostrar como ele se relaciona com as demais matérias - principalmente as de Ciências Humanas mediante um viés interdisciplinar, conforme é sugerido pelos parâmetros curriculares nacionais (PCN's) -, possuem o potencial para quebrar essa 'barreira' e atrair o discente, apresentando um campo de conhecimento rico e importante para o desenvolvimento humano do ponto de vista social e cultural, presente no dia-a-dia de qualquer pessoa.
Entretanto, para estabelecer essa conexão entre a Física e as outras disciplinas, se faz necessário conhecer os alunos e a realidade na qual eles estão inseridos, fazendo a contextualização da prática docente para o ensino e revendo inclusive a maneira pela qual os alunos são avaliados.
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Uma Física cujo significado o aluno possa perceber no momento em que aprende, e não em um momento posterior ao aprendizado. [...] Para isso, é imprescindível considerar o mundo vivencial dos alunos, sua realidade próxima ou distante, os objetos e fenômenos com que efetivamente lidam ou os problemas e indagações que movem sua curiosidade. (BRASIL, 2009, pág. 23)
Reconhecendo a importância dessas abordagens além do campo do ensino regular básico, este trabalho tem o intuito de descrever as atividades realizadas com a turma de calouros do curso técnico em Design de Móveis do Instituto Federal do Sudeste de Minas Gerais (IFSUDESTE-MG), em Juiz de Fora, durante o segundo semestre de 2015, e como elas contribuíram para a compreensão da Física por parte dos alunos e os motivaram em relação à disciplina obrigatória do currículo.
O curso que tem duração de três semestres e visa preparar o aluno para desenvolver, criar, planejar e projetar móveis, oferece todos os anos cinquenta vagas; sendo que metade no primeiro semestre para os interessados em fazer o curso no período vespertino, à tarde, e a outra metade para o período noturno, começando no segundo semestre, período no qual o público dessa pesquisa faz parte.
A necessidade de uma proposta diferente da avaliação tradicional surgiu nos primeiros encontros após o recesso ocorrido pela greve, quando no começo do período de aulas, em julho do mesmo ano, exatamente uma semana depois do fim das férias, os professores da rede federal paralisaram os trabalhos e atividades letivas por dois meses. Um problema que desmotivou alguns dos alunos e levou boa parte da turma a desistir, pois das dezessete pessoas inicialmente matriculadas, apenas dez retornaram e seguiram até o final.
Com o retorno das aulas e determinado o novo calendário da instituição, percebeu-se a dificuldade dos alunos, daqueles que continuaram, em compreender os conceitos de Estática, Equilíbrio e Resistência de Materiais; enfoque principal da disciplina de Física Aplicada ao Design de Móveis.
As constantes queixas sobre a complexidade do conteúdo e o receio por parte da turma de serem reprovados, podendo levar a um aumento da evasão, induziu a uma reflexão acerca do tipo de avaliação a ser aplicada.
A relação com a turma e a proximidade nos momentos de conversas informais contribuiu para perceber o interesse de alguns dos alunos por artes, como desenhos de moda, por exemplo, além de observar que alguns deles já tinham uma formação técnica ou até mesmo superior, como era o caso de uma das alunas, formada em Artes pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), enquanto que ao mesmo tempo, havia também indivíduos que cursavam o curso de Arquitetura e outros que já trabalhavam no ramo de marcenaria e buscavam uma melhor qualificação no mercado de trabalho com a formação técnica.
Portanto, o objetivo passou a ser o seguinte: desenvolver uma metodologia no decorrer do semestre que pudesse explorar o potencial, a criatividade e o interesse dos alunos, aproximando dos temas abordados e indicados pela ementa, assim como fazer uma ponte com o conteúdo presente nas demais disciplinas da grade, tal qual as que envolviam a construção de maquetes, projeção e desenho. Foi nesse cenário que surgiu a ideia de produzir brinquedos didáticos com materiais de baixo custo, como forma de avaliação, mediante o envolvimento deles com a atividade, e a divisão do trabalho feito em duas etapas: 1) Apresentação do
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conteúdo teórico; 2) Escolha dos projetos que seriam fabricados e dos materiais a serem utilizados.
Abaixo estão as imagens dos brinquedos produzidos:
Figura 1: À esquerda a balança de torção e à direita a torre de Pisa inacabada
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Figura 2: Imagem de todos os brinquedos construídos. Da esquerda para à direita: balança de torção, cubos para razão e proporção, catapulta (marrom), torre de Pisa e mesa de força.
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No final do semestre os alunos responderam a um questionário (cujas perguntas estão listadas a seguir), para saber quais foram os efeitos que esse tipo de abordagem ocasionou e como ela respondeu as demandas apresentadas na Introdução , tal qual a interdisciplinaridade, a contextualização e a motivação, fazendo uma análise qualitativa dos efeitos da proposta apresentada, ao mesmo tempo em que se procurou conhecer melhor o perfil de cada discente e o interesse pelo curso de Design de Móveis. Sendo que a sondagem também inquiriu a respeito da idade dos alunos.
- 1) Qual é o seu nível de formação escolar?
- 2) Quais foram os motivos e interesses que levaram você a querer cursar o curso técnico em Design de Móveis?
- 3) Qual era a sua visão e o que esperava da disciplina de Física Aplicada quando se matriculou no curso?
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- 4) A metodologia aplicada na segunda parte da disciplina contribuiu para o entendimento dos conceitos físicos estabelecidos na ementa? A abordagem com a construção dos experimentos contribuiu de alguma forma para que o seu interesse mudasse?
## Fundamentação Teórica e Justificativa
Para justificar uma mudança na forma de avaliação e ratificar a importância de iniciativas interdisciplinares, foram consultados alguns trabalhos, bases para o referencial teórico e respaldo da metodologia escolhida para avaliar a turma de Design de Móveis.
Justificando as razões pela qual o professor deve conhecer os seus alunos e os interesses individuais de cada pessoa, pode-se citar o trabalho feito por Assis et. al. (2015), que apresenta uma pesquisa quantitativa sobre o aproveitamento dos estudantes do Instituto Federal de Minas Gerais (IFMG), campus de Ouro Preto, em outras disciplinas além da Física.
Levando em consideração o medo de reprovação e fatores como envolvimento emocional, conhecimento prévio e classe socioeconômica, os autores foram em busca de traçar um paralelo entre a dificuldade de aprendizado da Física e o desempenho dos alunos em outras disciplinas, tanto das ciências da Natureza quanto das Humanas, justamente por conta de dois pontos indicados como principais alvos de dificuldade por parte dos estudantes, e que atrapalhavam a compreensão da Física: raciocínio matemático e interpretação de texto.
Com os dados colhidos e feitas as correlações, os autores concluíram que o ensino básico deve ser pensado a partir da interdisciplinaridade, embora eles não tenham feito a diferenciação entre aprendizado e desempenho, no caso da Física, porém o aproveitamento dos alunos com bons resultados em Química e Biologia de forma geral era melhor por haver uma maior correlação, chegando assim a seguinte conclusão:
- [...] o trabalho contribui para que sejam repensadas estratégias que favoreçam a interdisciplinaridade [...], já que, como indicam os resultados, bons rendimentos em uma disciplina/eixo temático podem contribuir para, também, bons desempenhos em outras áreas de conhecimento. Sendo assim, outra perspectiva de análise dos dados seria separar estas concepções e avaliar as novas correlações, uma vez que o desempenho dos estudantes é fortemente influenciado por diversos fatores... (ASSIS et. al., 2015, pág. 6)
Logo, compreender o cotidiano dos alunos e saber as predisposições para aprender determinado assunto, pode levar a um maior desenvolvimento e aprendizado. Por outro lado, atividades interdisciplinares mexem com o motivacional, não apenas do docente, como também dos alunos.
Levando em consideração a motivação nas realizações de práticas educativas, Andrade et. al. (2015) salienta no seu periódico, publicado nos anais do último Simpósio Nacional de Ensino Médio, em 2015, como as relações entre alunoaluno e professor-aluno podem estimular para uma prática mais bem qualificada, tanto para quem está na posição de estudante quanto para quem está lecionando. Simultaneamente, apesar das dificuldades, o trabalho defende a necessidade dos profissionais da educação de se reinventarem de acordo com as adversidades que surgem no cotidiano escolar.
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O professor na sua prática educativa enfrenta diversos desafios, os quais deveriam estimulá-lo a repensar continuamente sua prática. As dificuldades que afligem a classe docente são inúmeras, tais como: ausência das famílias na educação dos filhos, má formação acadêmica, falta de reconhecimento profissional (status profissional), baixo piso salarial, dentre outros. (ANDRADE et. al., 2015, pág. 1)
Os dois trabalhos citados mostram uma pesquisa quantitativa e outra qualitativa, sendo que a primeira endossa a interdisciplinaridade e a segunda as motivações. Portanto, a escolha da construção dos brinquedos didáticos se fez mediante a necessidade de procurar outra forma de avaliar o aluno e explorar as potencialidades dos calouros de Design. Portanto, ambos os trabalhos alicerçam bem as questões presentes quando foi decidida essa forma de abordagem metodológica e exemplificam a necessidade que o professor tem de conhecer os estudantes e de adequar o conteúdo a realidade ao seu redor.
## Análise dos Resultados
Dentre as respostas da primeira pergunta do questionário, descobriu-se que apenas um dos alunos ainda estava cursando o ensino médio, enquanto os demais já haviam concluído essa etapa, sendo que dois deles cursavam Arquitetura e uma das alunas possuía ensino superior completo em Artes.
Quanto à segunda pergunta do questionário, as respostas mostraram uma divergência de interesses entre os alunos mais velhos e mais novos em relação ao curso. Para os dois mais jovens, o curso chamava a atenção pelas disciplinas de desenho oferecidas no currículo e que estavam diretamente ligadas aos seus interesses pessoais, tais como a predisposição para desenhar e o desejo de cursar uma determinada faculdade, conforme duas das respostas citadas abaixo, de dois membros da turma, um com dezoito anos e outro com dezesseis, respectivamente:
O primeiro motivo foi o incentivo da família e de amigos e o segundo foi porque eu sabia desenhar, então eu resolvi tentar (o processo de seleção) e acabei passando.
O curso de design oferece uma base para o curso que quero fazer na faculdade, isso me levou a escolhê-lo.
Já do ponto de vista dos mais velhos, o curso serviria para agregar valor a sua formação e permitiria uma possibilidade de ascensão no mercado de trabalho, como no caso da aluna formada em Artes que deu a seguinte resposta a essa questão:
Minha intenção é unir os conhecimentos adquiridos na faculdade de artes plásticas e no curso técnico de design de móveis para criar móveis agradáveis esteticamente e funcionais.
No que tange as expectativas acerca da disciplina de Física Aplicada, houve um consenso e a espera de um conteúdo apresentado de forma expositiva, conceitos matematizados e resolução de exercícios, somente. Sendo que a aluna graduada em Artes descreveu também a importância dos conceitos e como as definições de resistência de materiais e equilíbrio tinham relevância para o curso e a projeção de móveis.
Essa visão de certa forma era esperada, por conta do perfil do público ser mais velho e por já ter tido contato com a matéria antes de ingressar no curso, e como foi observada ao longo das aulas, essa intervenção para mudar a visão dos
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alunos e explorar o conteúdo de forma mais objetiva e próxima à realidade deles foi necessária, tanto na apresentação teórica da parte de Estática e Equilíbrio quanto no final, quando o tempo de aula foi reservado para produção dos brinquedos, por conta do curso ser à noite e uma parte dos alunos trabalharem e estudarem em outros períodos do dia, corroborada pela frequência com que a Física era vista de forma negativa nas respostas da sondagem. Mas com o novo padrão de avaliação proposto, houve uma melhora das expectativas da turma em relação à disciplina. O que pode responder a pergunta: ' Como uma nova forma de avaliação contribui para motivar e mudar o interesse dos alunos pela Física?'.
Abaixo está uma resposta dada a questão quatro por uma aluna de vinte e dois anos de idade:
Acredito que sim. Pois essa metodologia fez com que os alunos do curso enxergassem melhor como os conceitos da física podem ser aplicados no curso de Design. Além disso, a abordagem da construção dos experimentos trouxe um pouco da física para o campo real; o que, até então, só conhecíamos na teoria.
É interessante que a mesma aluna demonstrou não entender o porquê do curso ter uma disciplina de Física Aplicada, já que no seu entendimento a formação em Design de Móveis cabia no grupo dos conhecimentos ligados à área de Ciências Humanas, conforme descrito por ela na terceira questão que mostrou uma mudança de perspectiva em relação à Física e como o conteúdo dessa matéria se faz importante no momento da criação e da projeção de móveis, ou seja, é de extrema relevância na sua formação:
Primeiramente, não vi muita razão em termos essa matéria no curso, já que se trata de um curso da área de humanas; mas logo depois entendi que muitos conceitos estudados em física seriam de grande utilidade para nosso curso de design.
Portanto, conclui-se que a mudança dos critérios da avaliação e o direcionamento da disciplina para atividades ligadas à criatividade e à elaboração dos brinquedos conseguiu atrair os alunos e mudar o seu entendimento sobre a Física. Embora tenha sido aplicada a uma turma de apenas dez alunos após as desistências ao fim do período de greve, esse tipo de prática docente que busca conhecer os alunos e trabalhar em torno da turma, não mostrando um conteúdo de forma expositiva que aparenta ter um fim em si mesmo, tem potencial para trazer resultados positivos e motivação, alinhados com a contextualização dos temas tratados e com a valorização da interdisciplinaridade.
## Referências
ANDRADE, Kênia Rodrigues; VIEIRA JÚNIOR, Edvaldo; GENOVESE, Luiz Gonzaga; FURTADO, Wagner Wilson. SIMPÓSIO NACIONAL DE ENSINO DE FÍSICA , XXI, 2015, Uberlândia. Práticas Docentes Motivadoras no Ensino de Física.
ASSIS, Cristiano Carlos Borges; COSTA JÚNIOR, Édio da; SILVA, Marucs Vinícius Duarte. SIMPÓSIO NACIONAL DE ENSINO DE FÍSICA , XXI, 2015, Uberlândia. Um estudo de correlações entre o aproveitamento dos alunos em Física e seus desempenhos em outras disciplinas.
BRASIL. Ministério da Educação. Parâmetros Curriculares Nacionais . Brasília: 2009.
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NASCIMENTO, Benjamin Gomes do; Análise da Astronomia kepleriana no Ensino Médio - A História da Ciência a favor da Aprendizagem , 2007, 122 p . Dissertação de Mestrado, PPCEM/CEFETRJ, Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 2007.
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