ETNOFÍSICA: SABERES-FAZERES SOBRE O ''PUXAR E EMPURRAR DAS ÁGUAS" DOS PESCADORES ARTESANAIS NA ILHA DAS PEDRAS EM AUGUSTO CORRÊA-PARÁ
Cleidiane Silva, Hugo Cuité, Sergio Cardoso
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXII
- Ano
- 2017
- Data
- 24/01/2017
- Linha de pesquisa
- Ensino E Aprendizagem Em Física
- Tipo
- Pôster
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Texto completo
## ETNOFÍSICA: SABERES-FAZERES SOBRE O 'PUXAR E EMPURRAR DAS ÁGUAS' DOS PESCADORES ARTESANAIS NA ILHA DAS PEDRAS EM AUGUSTO CORRÊA-PARÁ
*Cleidiane Silva , Hugo Cleiton Reis Cuité , Sergio Ricardo Pereira Cardoso 1 2 3
1 IFPA/Estudannte/Campus Bragança, annefeitosa15@gmail.com
2 IFPA/ Estudannte/Campus Bragança, hugocuite@gmail.com
3 IFPA/ Pesquisador/Campus Bragança sergio.ricardo@ifpa.edu.br
## Resumo
O presente trabalho faz parte de uma pesquisa de TCC cuja temática principal é Etnofísica, relacionando o saber tradicional com o saber acadêmico. As pesquisas estão sendo realizadas na comunidade da Ilha das Pedras, situada na cidade de Augusto Corrêa Pará. Entre os objetivos, destacamos o intuito de registrar os conhecimentos empíricos dos pescadores sobre a remagem e suas principais técnicas. Metodologicamente, privilegiou-se as técnicas da etnografia, partindo de diálogos informais, observações participativas assim como pesquisas documentais para embasamento teórico. Dessa forma, adquirirmos resultados que nos mostram a importância do uso do remo na pesca artesanal. Por fim, procurou-se fazer um paralelo entre os saberes empíricos dos pescadores e os saberes acadêmicos, mostrando que mesmo com as tecnologias mais modernas, como o caso do 'motor rabeta', o uso do remo torna-se ainda indispensável na prática da pesca artesanal; mas está diminuindo vertiginosamente devido à falta de uso e de transmissão destes saberes para as próximas gerações.
Palavras-chave : Etnofísica; Saberes-fazeres tradicionais; Técnicas de remar.
## Introdução
Ao observar os pescadores guiando as canoas ao longo do rio Urumajó , no 1 município de Augusto Corrêa, um estranhamento nos instigou: a forma como elas são levemente guiadas e direcionadas pelo remo, que é responsável por puxar e empurrar a água em tempos e espaços diferentes, realizando manobras que lhes possibilitam chegarem aos diversos lugares. Essas muitas maneiras de puxar e empurrar as águas são saberes-fazeres dos pescadores tradicionais passados de geração a geração, sendo por isso, denominadas de saberes-fazeres tradicionais.
'[...] grupos humanos culturalmente diferenciados, vivendo há no mínimo, três gerações em um determinado ecossistema, historicamente reproduzindo seu modo de vida, em estreita dependência do meio natural
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para sua subsistência e utilizando os recursos naturais de forma sustentável' (BARRETO FILHO, 2006, p. 135).
Em meio a esse deslumbramento nos veio a intenção de registrar tais saberes-fazeres sobre modos de remar empregadas pelos pescadores artesanais, bem como indagações do tipo 'existe só uma forma de remar ou este saber-fazer muda com o tempo?' 'Nos tempos de barcos a motor, o que acontece com esses saberes-fazeres?' Uma coisa é certa e factível, com o avanço da tecnologia o uso remo vem tornando-se menos frequente, no entanto os esses saberes-fazeres sobre a remagem, são indispensáveis na pesca artesanal.
Sendo assim, surge a seguinte problemática: como os pescadores artesanais do município de Augusto Corrêa na comunidade da Ilha das Pedras, dominam as técnicas de remagem sem ter noção teórica da mecânica newtoniana?
Para responder a esta questão, vamos lançar mão da Etnofísica, uma área que ainda tem poucos trabalhos referentes, onde nossa pesquisa somará para o conhecimento dessa área que vem crescendo no campo do saber e ainda servirá de suporte teórico para trabalhos posteriores relacionados à Etnofísica.
'De maneira geral, podemos entender Etnofísica como referência aos saberes populares acerca do conhecimento físico' (PRUDENTE, 2010).
- O trabalho sobre os saberes-fazeres tradicionais dos pescadores artesanais no Município de Augusto Corrêa faz parte dos poucos trabalhos relacionados com o ensino de Física na região Amazônica, dessa forma a elaboração de um trabalho voltado para essa pesquisa, contribuirá para trabalhos posteriores.
Nesse sentido, esta pesquisa se justifica pela importância de registrar o conhecimento tradicional sobre os modos de 'puxar e empurrar as águas' presente 2 nessa comunidade, guardando memórias e saberes-fazeres, deixando para a posteridade e, por conseguinte, evitando a perda dos referidos saberes-fazeres.
## Metodologia
No primeiro momento do trabalho, realizamos uma pesquisa bibliográfica com livros e trabalhos acadêmicos que estão relacionados ao tema escolhido e a temas paralelos como a Etnofísica, etnografia, saberes tradicionais e princípios Fundamentais da Mecânica, que estão diretamente ligados com a pesca e a utilização do remo nas atividades dos pescadores artesanais.
Nesse sentido, estão sendo realizadas leituras para esclarecimento e orientação referente a pesquisas qualitativas, ao campo de pesquisa e também fundamentação teórica, que contribuirá no decorrer do desenvolvimento e construção do trabalho.
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A pesquisa será predominantemente qualitativa, onde os sujeitos da pesquisa são os pescadores que residem há mais tempo na Vila da Ilha das Pedras e consequentemente tem uma grande experiência com a atividade pesqueira. Até o momento, foram realizadas entrevistas semiestruturadas com dois sujeitos, mas 3 pretende-se realizar entrevistas com mais três pessoas. Além das entrevistas, utilizamos o diálogo informal com perguntas relacionadas aos aspectos culturais, social e econômico dos sujeitos.
Nas entrevistas e diálogos informais, priorizou perguntas voltadas diretamente para o uso do remo, tais como: aquisição do remo, aprendizagem da remagem, técnicas de utilização, benefícios e malefícios, sendo empregados recursos como gravadores de áudio, câmaras fotográficas e diário de campo.
Também estão sendo realizadas observações participativas, vivenciando a prática das atividades dos sujeitos da pesquisa na utilização do remo, focando características importantes que envolvem essa técnica, tais como: o 'puxar e o empurrar das águas' pelos pecadores, fazendo com que a embarcação entre em movimento e seja guiada para as diferentes direções, assim como, a própria fabricação do remo.
## Resultados e Discursões.
O remo é um instrumento tecnológico inventado pelo homem para lhe proporciona muitas utilidades na pesca, dentre essas muitas utilidades destacamos em nossa pesquisa a remagem, esse é um processo em que é preciso ter força física, coordenação motoro, habilidade ou como os pescadores costumam dizer: precisa ter 'jeito' para remar.
Os entrevistados relataram que o remo é constituído do por duas partes fundamentais. A primeira é caracterizada como uma vara maciça em forma cilíndrica de 1.20m de comprimento e na parte inferior uma parte achatada quase semicircular. Essas partes são conhecidas como cabo e a folha. (Figura 01). Conforme o depoimento do entrevistado a seguir para definir o remo.
'[...] A folha do remo num...pode fazer a folha do remo até com um metro, se o caba suber trabalhar com ela, rema. Mais aaa folha do remo, a par do remo acho que no mínimo é o que é uns 20cm, 30cm.... é uns 30cm mas ou menos , 40cm [...]' (Entrevistado)
Figura 01: Remo fabricado pelos pescadores
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O remo pode ser adquirido no comércio, onde o pescador precisa deslocar-se até a sede do município, para conseguir comprar nas lojas que fornecem acessórios de pesca, ou podem conseguir por meio de artesoes vilas vizinhas que também comercializam o remo. O preço do remo varia de acordo com a qualidade da madeira, variando de 25 a 40 reais e possuem durabilidade de muitos anos. Segundo o depoimento do pescador a seguir.
'a gente acha até de vinte e cinco reais trinta conforme também o tipo da madeira porque té então madeira melhor são os mais caros'. (Entrevistado).
A outra forma de adquirir o remo e da forma artesanal, onde as técnicas aprendidas por meio da pratica lhes proporcionam produzir o seu próprio remo. É importante ressaltar que os entrevistados disseram que não compram remo, pois sabem fazer os seus remos artesanalmente, ou melhor, sabem dar formar a madeira. Depoimento dos pescadores entrevistados para esclareceram que eles produzem seus próprios remos:
'faz de loro, faz de piquiá, faz de jaqueira quando tem, faz de tapiririca, faz de bacuri' (Entrevistado).
'é é...a gente faz, a gente faz... as vezes quando a gente não da tempo de fazer que a agente não da tempo né e quando a gente tem o dinheiro que da pra gente comprar a gente compra né, mas quando a gente não tem pra comprar a gente faz feio ou bonito mas a gente tem que fazer'. (Entrevistado).
'é assim, quando a gente sabe fazer a gente mermo faz, agora tem muitos por aí que é comprado mermo, eles compram, não sabem fazer. Eu ainda faço, eu sei fazer, pego a madeira e faço' (Entrevistado)
'é, eu mermo faço[...] . Tem remo que a gente faz' (Entrevistado)
Perguntamos para os pescadores como eles faziam para remar, eles começaram a dizer que para remar é preciso ter 'jeito' e nos esclareceram que a força física não é o mais importante, no entanto ela é essencial para a remagem.
'pra remar é depende o jeito do braço, né? O jeito do braço...' (Entrevistado)
Segundo os pescadores a prática da remagem não é comum por todos da comunidade ou por todos de uma família de pescadores, isso é algo praticado por poucas pessoas, pois o aprendizado da remagem não ocorre em pouco tempo, pois isso requer tempo e pratica. Quando perguntamos para eles como eles aprenderam a remar, os entrevistados disseram que essa aprendizagem iniciou na infância, pois eles participavam da pesca com seus pais. Nesse momento de participação direta na pesca eles observavam como os mais experientes manuseavam o remo, assim como todas as técnicas que envolviam a prática de remar.
Outro aspecto importante para a aprendizagem da remagem por estes pescadores estava nas orientações que eles recebiam para realizar determinadas técnicas que não era possível aprender apenas olhando o jeito que os mais
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experientes remavam e por isso eram repassadas de pais para filhos por meio do saber tradicional. Também foi relatado que a prática constante do manuseio do remo foi de fundamental importância para essa aprendizagem.
O remo também tem a função de leme, os pescadores apropriam-se dessa utilidade para guiar a canoa para os diversos caminhos. A pessoa que está na popa (parte de trás da canoa), chamado de copeiro é responsável de fazer com que o remo sirva de leme. Se o copeiro quiser que ela siga para frente, ele dá o comando com o remo, se for para fazer a curva da canoa, do mesmo modo, sempre puxando ou empurrando a água.
' Agora o ultimo de trás, é o que a gente chama de copeiro, esse que é o dono da viagem, pra onde botar a canoa pra lá vai.' ( Entrevistado )
Figura 02: pescadora fazendo uso das técnicas da remagem
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Outra função do remo pode ser destacada na hora de armar a rede de pesca. Nesse momento o pescador precisa colocar a rede bem posicionada para capturar o pescado, e é aí que o remo entra como apoio para conduzi a canoa enquanto a rede é posicionada da maneira correta, por que se a rede for armada indevidamente, não terá uma pesca satisfatória, e assim acontece na pesca com o espinhel, com a tarrafa e manzuá, instrumentos usados por pescadores artesanais na hora da pesca.
Os pescadores artesanais entrevistas já fazem uso do motor nas canoas. Pois este facilita a locomoção da embarcação, independentemente de estar indo contra ou a favor da maré. Segundo os entrevistados, o motor veio como meio facilitador para a prática da pesca artesanal. Em muitas situações, o motor tem deixado os pescadores em condições não favoráveis, onde o remo foi o instrumento fundamental para o retorno de sua viagem, conforme o relata dos pescadores.
'O motor é muito bom, mas tem um tempo que...tem vez que ele deixa a gente na mão, né? Tem viagem que a gente dá com ele aí, tem vez que pode acabar uma gasolina, quando não pode dar um prego, entupi uma arrulha do carborador, ai o jeito é vim no remo.' (Entrevistado)
' mesmo que vá com o motor, mas o remo tem que tá lá, por que o motor já sabe, vacilou , pra ele bronquiar é bem ligeiro. Tem que ter o remo. Comigo aconteceu, do motor bronquiar e de lá vim no remo. ' (Entrevistado)
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No entanto, esses mesmos pescadores afirmam que, mesmo com o uso do motor o remo não caiu em desuso. Visto que em qualquer viagem pesqueira o remo precisa estar acompanhando o pescador, dentro da embarcação. Pois, os pescadores artesanais fazem uso dele desde a saída da viagem, assim como no decorrer do trajeto ao longo do rio, na hora da pesca, até o retorno da viagem
' Não, esse um, o remo nunca fica abandonado. Tem que ter diariamente na canoa.' (Entrevistado)
## Conclusão
Na pesquisa realizada, foi possível perceber a importância dos 'jeitos' de remar para o autoconsumo da comunidade e como esses 'jeitos' de remar ainda estão presentes, mesmo com o desenvolvimento da tecnologia.
- O conhecimento sobre a remagem está presente na comunidade como saber - fazer ensinado ao longo do tempo de pais para filhos, através do diálogo e da pratica facilitando a aprendizagem da remagem e indispensável para a pesca.
Esse conhecimento sobre o 'puxar e empurrar das águas' pode ser facilmente relacionado com os princípios físico da ação e reação da mecânica newtoniana, onde toda a ação tem por consequência a reação. Quando o pescador apropria-se do remo para aplicar uma força na água, a água por sua vez aplicar um força coma mesma intensidade, mas sentido oposto ao remo que por consequência consegue vencer a resistência da água sobre a canoa fazendo com que a canoa entre em movimento.
Ao levar esse saber -fazer para a sala de aula, estaremos atuando no campo da aprendizagem significativa, fazendo com que o conhecimento esteja voltado para realidade do aluno. É importante apresentar para o docente que os fenômenos físicos estão presentes em nosso dia a dia de maneira tão simples e de fácil percepção, conforme o exemplo da remagem praticada pelos pescadores. Ao colocarem o remo na água, os pescadores estarão praticando uma ação que pode ser explicado pela primeira lei de Newton. Dessa forma, trabalharemos a associação direta do conteúdo com a realidade dos alunos.
A transposição do saber popular para o conhecimento científico procuramos chamar de 'transposição acadêmica' em alusão à 'transposição didática' de Yves Chevallard (2001), fazendo com que o conhecimento nas aulas de física, esteja diretamente associado com a realidade dos alunos, proporcionando uma aprendizagem significativa. Mas são ações futuras de nossa pesquisa sob a perspectiva etnofísica.
## Referências
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BARRETO FILHO, Ênio T. Populações tradicionais: introdução à crítica da ecologia política de uma noção. In: ADAMS, Cristina; MURRIETA, Rui; NEVES, Walter (orgs.). Sociedades caboclas amazônicas : modernidade e invisibilidade. São Paulo: Annablume, 2006. (p. 109-143).
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CHEVALLARD, Y.; BOSCH, M.; GASCÓN, J. Estudar Matemáticas : O Elo Perdido entre o Ensino e a Aprendizagem. Porto Alegre: Artes Médicas, 2001.
CLAUZET, M.; RAMIRES, M.; BARRELLA, W. Pesca artesanal e conhecimento local de duas populações caiçaras (Enseada do Mar Virado e Barra do Una) no Litoral de São Paulo, Brasil. Revista Multiciência , Campinas, n. 4, p. 122, maio 2005.
PRUDENTE, Thaise Cristiane de Abreu. Etnofísica: uma estratégia de ação pedagógica possível para o ensino de física em turmas de EJA. Centro Científico Conhecer, Goiânia , v. 06, n. 10, p. 01-13, 2010.
MANZINI, E.J. Considerações sobre a elaboração de roteiro para entrevista semi-estruturada. In: MARQUEZINE: M. C.; ALMEIDA, M. A.; OMOTE; S. (Orgs.) Colóquios sobre pesquisa em Educação Especial . Londrina:eduel, 2003. p.1125.
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