DA NECESSIDADE DE VALORIZAR A HISTÓRIA E A FILOSOFIA DA CIÊNCIA NA FORMAÇÃO DE PROFESSORES
José Claudio Reis, Andreia Guerra, Marco Braga
- Evento
- Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
- Edição
- XII
- Ano
- 2010
- Data
- 27/10/2010
- Linha de pesquisa
- Filosofia, História E Sociologia Da Ciência E O Ensino De Física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
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## DA NECESSIDADE DE VALORIZAR A HISTÓRIA E A FILOSOFIA DA CIÊNCIA NA FORMAÇÃO DE PROFESSORES THE NEED TO EXPLOIT THE HISTORY AND PHILOSOPHY OF SCIENCE IN TEACHER EDUCATION
José Claudio Reis 1 , Andreia Guerra 2 , Marco Braga 3
1 UERJ/Física Aplicada e Termodinâmica, Grupo Teknê, Escola Parque, guerrareis@tekne.pro.br
2 CEFET -
RJ, Grupo Teknê, aguerra@tekne.pro.br 3
CEFET - RJ, Grupo Teknê, braga@tekne.pro.br
## Resumo
O ensino de Física na escola básica é sabidamente instrumenta, não abrindo espaço para discussões sobre a Natureza da Ciência (NdC). Tal prática leva a um ensino de Física deturpado e de pouco valor para os estudantes, pois não discutir questões de NdC é retirar da Física que é ensinada sua parte mais significativa. De valerá para os alunos, que em sua maioria não seguirão carreiras científicas, serem treinados apenas na resolução de exercícios sem compreenderem como a Física se construiu ao longo da História? Quais as implicações filosóficas e culturais da Física? Essas são questões que devem estar presentes na escola básica para dar mais significado ao ensino de Física.
Para que isso ocorra será necessário atuarmos na formação dos futuros professores para que eles percebam a importância dessa temática e principalmente sintam -se seguros e instrumentalizados para abordar histórico-filosóficamente os temas de Física.
- O presente trabalho apresenta uma pesquisa feita com estudantes de licenciatura em Física, na disciplina Estágio Supervisionado II, sobre suas formações em História e Filosofia da Ciência. A pesquisa foi desenvolvida em quatro etapas onde buscamos levantar dados através de dois questionários e avaliamos aulas e trabalhos escritos como forma de identificar como eles colocam em prática seus discursos sobre o tema.
Infelizmente podemos constatar que ter cursado algumas disciplinas de História da Ciência e de Filosofia da Ciência não instrumentalizou esse alunos de licenciatura. Eles pouco conhecem sobre História e Filosofia da Ciência, não têm segurança para tratar desse assunto, seja teoricamente seja em uma aula sobre um assunto escolhido por eles.
Palavras -Chave: Formação de Professores, História e Filosofia da Ciência, Natureza da Ciência, Ensino de Física
## Abstract
The teaching of physics at the elementary school is known instruments, not making
room for discussions on the Nature of Science (NDC). This practice leads to a distorted teaching of physics and of little value to students because they do not discuss issues of NDC is drawn from physics that is taught its most significant. Of worth to students, who mostly will not follow scientific careers are trained only in solving exercises without understanding how physics has been built throughout history? What are the philosophical and cultural implications of physics? These are issues that must be present in primary schools to give more significance to physics teaching.
For this to occur will be necessary that we act in the training of future teachers so they understand the importance of this issue and especially to feel safe and used to address historical -philosophical themes of Physics. This paper presents a survey of undergraduate students in physics, the discipline Supervised Internship II, about his training in History and Philosophy of Science. The research was conducted in four stages where we try to collect data through two questionnaires and evaluate lessons and written assignments as a way to identify how they put into practice their speeches on the subject. Unfortunately we can see that the History of Science and Philosophy of Science class not gave the knowledge about the Nature of Science. They know little about history and philosophy of science, and don't have security to address this issue, either in theory or in a lecture on a topic chosen by them.
Keywords: Teacher Education, History and Philosophy of Science, Nature of Science, Physics Teaching
## Introdução
Pesquisas apontam que professores de ensino fundamental e médio apresentam visões deformadas da ciência com a qual trabalham (GIL-PÉREZ et al., 2001; McComas, 1998). O olhar distorcido para a produção do conhecimento científico é apontado como um dos fatores responsáveis pela baixa qualidade do ensino de ciências (Guilbert e Meloche, 1993; Furman, 2008; Pozo e Crespo, 2009). Na verdade, essa visão está respaldada por um ensino que tanto a nível médio quanto universitário prioriza a aprendizagem de conteúdos científicos, seguindo algoritmos de resolução de problemas apresentados e respondidos pelo professor. Fora isso, muitas vezes a título de facilitar a aprendizagem dos algoritmos, os professores e muitos livros didáticos acabam por trabalhar metáforas e estórias que apresentam aos alunos a ciência sem discutirem seu processo de construção. Dessa forma, não se desnuda aos alunos o fato de que a ciência não é portadora de uma verdade absoluta e que os cientistas não seguem um método científico, objetivo e único para construir suas teorias.
Essa visão deturpada da ciência acaba por colocar os alunos diante de uma ciência dogmática, onde só os cientistas são capazes de falar com a propriedade devida de seus objetos de trabalho. Esse posicionamento perante os especialistas afasta os estudantes do exercício da cidadania, uma vez que essa concepção favorece uma postura de transferência de poder, onde os alunos delegam, enquanto cidadãos, aos especialistas a decisão dos problemas que afetam diretamente seu cotidiano.
Percebe -se que o ensino de ciências que não contemple a problematização da visão de ciências dos alunos acaba por interferir no desenrolar da sociedade como um todo. Um dos caminhos para concretizar essa problematização é trazer à tona discussões em torno a Natureza da Ciência (NdC). Mc Commas et al (1998) destacam que a NdC é um domínio hibrido que abrange vários aspectos dos estudos sociais da ciência, incluindo a historia, a sociologia, e a filosofia da ciência, mas, também, aspectos da ciência cognitiva tal qual a psicologia. De forma que o trabalho com a NdC permite uma rica descrição da ciência, capaz de revelar como os cientistas trabalham e como eles operam como um grupo social e como a sociedade reage aos esforços científicos. Seguindo essa perspectiva, muitos pesquisadores da área de ensino de ciências apontam que a inclusão de aspectos da NdC no currículo de ciências é fundamental à instrução cientifica. (McComas et al., 1998; McComas and Olson, 1998; McComas 1998, Lederman e Abd-El-Khalick, 1998; Osborn et al. 2003).
## A licenciatura como um espaço reflexivo sobre a ciência.
Um dos possíveis caminhos para trazer à sala de aula reflexões em torno a NdC é trabalhar os temas científicos através de uma abordagem históricafilosófica. Nesse ponto, esbarra-se com a precária formação dos professores em História e Filosofia da Ciência. Na busca de superação desse quadro constrói-se materiais pedagógicos para serem usados pelos professores em sala de aula que contenham estratégias para se trabalhar HFC com vistas a problematizar a NdC. Procurando superar a deficiência de formação dos professores, devemos habilitá-los para operarem com tais instrumentos. Porém, pesquisas mostram que os professores frequentemente adaptam os materiais pedagógicos que recebem à sua realidade (Lederman et al., 2003). Na verdade, isso explicita o caráter dinâmico da sala de aula e, portanto, que um instrumento mesmo que muito bem planejado e avaliado não consegue dar conta das diversidades de alunos e ambientes escolares.
Trabalhos como o de Ryder e Leach (2006) reforçam esse posicionamento. Esses pesquisadores acompanharam as aulas de sete professores que utilizavam pela primeira vez um material, construído pelos autores da pesquisa, com um objetivo claro de suscitar em sala de aula discussões epistemológicas em torno à NdC. A conclusão dos autores foi que os professores usaram bem o material, no que tange ao fato de não terem tido posições equivocadas em relação à ciência. Mas destacam, também, que os docentes que conseguiram desenvolver bem as discussões epistemológicas com os alunos foram aqueles que não se limitaram ao instrumento propriamente dito. Esses professores, nos momentos de discussão com a turma, exploraram exemplos históricos não contidos no instrumento. Como conclusão da pesquisa, eles apontam para a necessidade de prover os professores de fontes de História da Ciência capazes de ampliar seus conhecimentos histórico e filosófico. Juntando essa conclusão com as de outras pesquisas (Beeth & Hewson, 1999; Smith et al., 1997) que apontam que o professor com sólida experiência na reflexão e ensino de epistemologia é capaz de levantar as concepções dos alunos sobre ciência e trabalhar sobre elas de forma adequada, concluímos que a formação básica do professor, aquela que ocorre na graduação, deve propiciar estudos de Historia e Filosofia da Ciência capazes de permitir refletir sobre a NdC e fornecer -lhe uma rica descrição da ciência (McComas, 1998).
## Mas como dar uma sólida formação histórico-filosófica ao professor?
Para responder essa questão, é importante considerar que a história da Ciência pode ser abordada pelo menos de duas formas diferentes: internalista (onde o mais importante é analisar documentos e artigos científicos que mostrem como as teorias se construíram no escopo da física) ou externalista (onde o entendimento do processo de construção da ciência se dá a partir do estabelecimento de um diálogo com o contexto da época em que a teoria científica em questão foi construída).
Será uma abordagem externalista que possibilitará aos futuros professores uma formação diferenciada e mais sólida sobre os conteúdos. O estudo da ciência através de um viés externalista permitira aos licenciados compreender que o conhecimento científico faz parte da cultura da humanidade, numa relação simbiótica de constante diálogo com outras formas de conhecimento. Dessa forma, eles ganharão familiaridade com uma abordagem interdisciplinar capazes de capacitá-los a compreender o conhecimento científico e particularmente o físico. Como afirma o físico Max Jammer no prefácio à primeira edição, de 1953, de seu livro: Conceitos de Espaço: a historia das teorias do espaço na física.
Creio que o estudo da história do pensamento científico é essencial à plena compreensão das diversas facetas e conquistas da cultura moderna. Não se chega a essa compreensão discorrendo sobre problemas da prioridade na história das descobertas, os pormenores da cronologia das invenções ou mesmo a justaposição de todas as histórias de cada ciência em particular. É a história do pensamento científico, em sua perspectiva mais ampla, cotejada com o pano de fundo cultural da época, que tem importância decisiva para a mente moderna. (p13, 2010)
Considerando a importância do estudo histórico-filosófico na formação do futuro professor, muitas grades curriculares dos cursos de formação de Licenciatura em Física apresentam disciplinas (uma ou duas) de História e Filosofia da Ciência, que visam iniciar o licenciado na área. Apesar da pertinência dessas disciplinas, é importante refletirmos se o estudo de HFC em disciplinas específicas é suficiente para fazer o licenciado incorporar em sua futura prática uma abordagem históricofilosófica.
Procurando construir subsídios para essa reflexão, desenvolvemos uma pesquisa com o objetivo de responder a duas questões:
- -Qual a importância dada a História e a Filosofia da Ciência pelos licenciandos?
- -Como eles articulam o discurso em torno a HFC com sua a prática?
## A pesquisa
A pesquisa foi desenvolvida com oito alunos de Estágio Supervisionado II, uma disciplina de sexto período de uma Universidade Pública do Rio de Janeiro. Até esse período os alunos já estudaram toda a mecânica clássica, o eletromagnetismo, a óptica, a física matemática, a termodinâmica e começaram a estudar a estrutura da matéria.
Dois motivos levaram à escolha desse momento. O primeiro refere-se ao fato dos alunos matriculados na disciplina terem cursado as disciplinas de HFC da grade curricular da licenciatura. O outro motivo relaciona-se com a própria metodologia da disciplina. No Estágio Supervisionado II, os alunos são obrigados a ministrar aulas para o professor regente da disciplina e para o restante da turma. Essas aulas que são discutidas e avaliadas pelo professor mostraram-se uma ferramenta fundamental para a pesquisa aqui relatada. Isto porque a metodologia escolhida pelo licenciado para desenvolver o tema e o caminho escolhido para discorrer o conteúdo permitiu avaliar o quanto os licenciados incorporaram em suas "aulas" discussões em torno a História e Filosofia da Ciência.
Realizamos uma pesquisa qualitativa (Ludke, 1986). O professor da disciplina foi um dos pesquisadores do grupo que desenvolveu o trabalho. Assim, os dados para análise foram obtidos a partir da construção de um diário de anotações pelo professor/pesquisador, da filmagem das "aulas" dos licenciados e do registro de áudio das discussões geradas na sala de aula. Os dados obtidos por esses meios foram discutidos por todo o grupo de pesquisa e serviram de base para reorientação das atividades previamente planejadas para a pesquisa e para o curso. Esse aspecto foi muito valorizado no decorrer do trabalho, por tratar-se de uma pesquisaintervenção, onde um dos objetivos é a reorientação das atividades desenvolvidas durante o curso, com vistas a interferir na visão de NdC dos alunos.
Quatro atividades foram propostas aos licenciados como forma de coletar as informações para análise:
- 1 -questionário inicial sobre ser professor de física e o que isso significa;
- 2 -questionário específico sobre a utilização de HFC no ensino de Física.
- 3 -atividade sobre introdução de temas de Física Moderna e Contemporânea (FMC) na escola básica;
- 4 -aula sobre um tema de Física Clássica onde cada licenciado escolheu livremente o tema da aula que ministrou para os outros licenciandos e o professor.
Na primeira aula do curso, os alunos responderam ao questionário inicial que continha 14 perguntas. Essa atividade teve por propósito coletar dados sobre o que os licenciandos pensavam sobre ser professor e particularmente professor de Física e também gerar, a partir do confronto das respostas dos alunos, um debate em torno ao papel do professor de Física e aos limites e possibilidades do conhecimento científico.
- Gostaríamos de destacar inicialmente a pergunta: Para que serve aprender Física?
- A análise de sete respostas evidencia pouca reflexão sobre o significado do estudo de Física, uma vez que eles repetem ideias expostas em livros didáticos de Física do Ensino Médio. Não aparece em seus discursos, a exceção do aluno que identificamos como A, nenhuma compreensão mais complexa do que significa aprender Física.
Aluno B "Conhecer fenômenos físicos."
Aluno C "Tentar entender um pouco sobre os fenômenos da natureza."
Aluno D "Porque tudo que nos cerca é física"
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Ou ainda.
Aluno E "Aprender só por aprender já seria válido, pois estudando Física você desenvolve o pensamento crítico, o raciocínio lógico, a agilidade na resolução de problemas (não só matemáticos), o autoconhecimento e conhecimento do mundo em que vivemos."
A escrita do aluno A se diferencia da dos sete restante:
"Para ampliar a visão de "mundo". E assim mudar a maneira de estar no "mundo", ou seja no planeta terra".
Apesar de não repetir as ideias contidas nos livros didáticos, o texto do aluno A não deixa claro o que ele engloba por "visão de mundo". Porém confrontando esse texto com as falas desse aluno durante o curso podemos afirmar que ele apresentou preocupação em usar o ensino da Física para possibilitar aos seus futuros alunos maior e melhor compreensão da realidade, não apenas dos fenômenos físicos que os rodeiam.
Essa sondagem inicial evidenciou a relevância de discutir com aqueles licenciandos o que vem a ser a ciência e a importância de seu estudo para estudantes que não seguirão carreiras científicas ou tecnológicas e nem mesmo ingressarão na universidade.
Outro aspecto importante a relatar é que nenhum aluno, quando questionado, mencionou conhecer algum projeto de ensino de física, como Harvard, PSSC, GREF, ou outros. Esse desconhecimento não pode ser desconectado do padrão de respostas à primeira pergunta. Isto porque esses alunos mostraram desconhecer qualquer proposta educacional diferente daquela encontrada nos livros didáticos.
O último aspecto que gostaríamos de analisar diz respeito à pergunta: Que propostas você tem para o ensino de Física quando passar a atuar como professor?
Aluno A "Desconstruir o mito existente na sociedade de que ciência é difícil e que o cientista é um gênio."
Aluno D "Não vou completamente contra o ensino tradicional, mas acho que o ensino de Física pode ser visto como algo mais divertido e "leve", não aquela matéria difícil que só os gênios sabem."
Aluno E "A proposta que tenho é tentar melhorar o ensino de Física."
Aluno F "Tentar sempre trazer a natureza, os fenômenos físicos para a sala de aula."
(Aluno G)"Não mostrar essa disciplina como só aplicação de fórmulas."
Só um aluno (aluno B) fez referência a uma abordagem filosófica diferente dos aspectos técnicos enfatizados pelos outros alunos.
"Penso em dar aulas baseadas em filosofia da ciência explorando conhecimentos e opiniões de alunos."
Vale observar que esse aluno não é o mesmo que na primeira pergunta apresentou uma visão mais ampla sobre o ensino de física. Essa primeira atividade revelou que esses alunos apresentam uma visão ingênua sobre o ensino e mesmo uma falta de conhecimento do que é possível ser feito numa sala de aula de Física de Ensino Médio.
Depois de concluída a primeira atividade, implementamos uma pesquisa mais específica sobre os conhecimentos em História e Filosofia da Ciência desses alunos e sobre como percebiam a possibilidade de uma abordagem histórico -filosófica em sala de aula.
Os alunos receberam um questionário com 18 perguntas. Após responderem por escrito as questões, realizamos um debate em sala para confrontar as diferentes opiniões. O debate possibilitou novos dados para a pesquisa. A análise das respostas aos questionários e das discussões ocorridas em sala sobre a importância de conhecer História e Filosofia da Ciência para atuarem como professores de Ensino Médio mostraram que para os licenciados o tema é importante, mas difícil de ser usado em sala de aula. Um dos obstáculos apontados para um curso de física com abordagem histórico-filosófica foi a constatação de que possuem conhecimento insuficiente de História e Filosofia da Ciência para desenvolverem práticas pedagógicas com esse enfoque. Três relatos são significativos.
Aluno A "É importante se conhecer a história e filosofia para que o aluno tenha o entendimento de como se formula o conhecimento, de quais passos foram dados para se chegar ao ponto presente e termos ainda mais um meio de despertar seu interesse pela matéria lecionada. Em história meu conhecimento é pouquíssimo, bem como em filosofia, porém neste assunto já li um pouco sobre Kuhn e sua ciência normal e sobre Popper que vai contra as ideias indutivistas do positivismo."
Aluno D "A apresentação de um conceito a partir de como e quando ele foi pensado, lhe dá credibilidade. Mostra que não é uma coisa solta, uma conta inútil, mas sim uma questão que já foi o grande objeto de estudo de algum cientitista reconhecido. A visão da ciência como uma atividade humana, facilita a aproximação dos alunos, a torna mais acessível e menos dogmática. Conheço pouco. Estudei principalmente as teorias para o movimento dos planetas, modelos geocêntricos e heliocêntricos, gravitação, pois fiz um curso de férias, e outro à distância, no Observatório Nacional. Alguma coisa sobre acústica, os harmônicos e a teoria pitagórica, mas isso também estudei fora da universidade, na escola de música, e posteriormente estudei mais um pouco na iniciação científica".
Aluno H "Sim. Através da História da Ciência é possível abranger determinadas questões (como motivação do trabalho científico, aspectos sociais em determinado contexto histórico) que acabam sendo ignorados no currículo de ciências. A historia da ciência não foi tomada como um prioridade durante minha graduação. Grande parte do meu conhecimento partiu de um estudo autodidata, pois não são temas exigidos com rigor na graduação. Avalio ainda como ruim meu nível de conhecimento, pois ainda não seria capaz de abranger variados temas do currículo de ciências."
Como seus conhecimentos são insuficientes, dito por eles mesmos, os alunos não conseguem ter uma visão clara e crítica de como utilizar a História e a Filosofia da Ciência em suas aulas.
Aluno C "Não abordaria pois não tenho conhecimento suficiente do assunto."
Aluno D " Como uma introdução aos temas, como justificativa ao estudo de cada assunto, como um caminho a ser percorrido até chegar às contas."
Aluno G "Intermeando esses assuntos com os temas a serem estudados, fazendo com que isso chame a atenção dos alunos e tornando a aula mais interessante."
Aluno H " Antes de cada conteúdo contar como os grandes cientistas pensaram para construí-í-lo."
Um aspecto importante a ser destacado da análise das respostas é que os alunos percebem a História e a Filosofia da Ciência apenas como um apêndice ao conteúdo tradicional, uma mera motivação e não como forma de abordagem que dá significado ao conhecimento científico estudado na escola básica. Esse olhar dos alunos articula -se de forma indesejada com o que discutimos inicialmente sobre a NdC. Professores que não refletem sobre o significado da ciência que estão aprendendo e que terão que ensinar não poderão fugir de uma abordagem sem significado histórico-filosófico, ficarão apenas no tecnicismo tradicional.
Sendo assim, a formação de professores deve construir caminhos para que os futuros professores tenham vivenciado em suas formações reflexões e práticas problematizadores sobre o significado da ciência. Dessa forma, eles poderão ter práticas diferenciadas quando atuarem como professores no ensino básico.
Os resultados da primeira e segunda etapa da pesquisa vão contra as conclusões de pesquisadores em ensino de física, no sentido de que muitos defendem que é fundamental que o ensino de física propicie práticas capazes de possibilitar aos alunos de Ensino Médio compreender a física como parte da cultura humana. Para eles, é importante que os estudantes compreendam que a Física não serve apenas para entender a tecnologia que nos rodeia; o como as coisas funcionam (Zanetic, 1989). Isto porque para que esse objetivo se concretize é preciso que o professor tenha essa percepção, o que só correrá se ele tiver tido uma formação histórico-filosófica sólida.
A análise dos resultados iniciais da pesquisa trouxe a urgência de planejar atividades para o curso com vistas a problematizar a visão de ensino e de ciência desses licenciandos. Nesse sentido, solicitamos a construção de uma proposta de aula, para discutir com seus supostos alunos a entrada em funcionamento do LHC. A proposta foi apresentada por escrito e discutida com o professor. Os licenciandos não ministraram as aulas planejadas. Essa atividade teve por finalidade investigar e, principalmente, instrumentalizar futuros professores a aproveitarem temas de grande apelo para os estudantes da escola básica em suas salas de aula. Com isso o ensino de Física ganha importância para a compreensão de temas contemporâneos, trazendo a cultura científica contemporânea para a sala de aula.
Para orientar a construção da proposta por parte dos alunos foi solicitada a leitura do texto: O cinza, o branco e o preto - - da relevância da História da Ciência no Ensino de Física de Manuel Robilota (1988). Numa aula previamente marcada, o conteúdo do texto, ou seja, a necessidade de utilização da História e Filosofia da Ciências nas aulas de Física foi discutido com os alunos. Seis deles simplesmente concordaram com o autor sem uma análise crítica maior. Dois alunos questionaram sobre a real possibilidade de abordagens histórico-filosóficas em sala de aula, devido ao pouco tempo e a capacidade de compreensão dos alunos. Esses licenciandos não tiveram conhecimento ou discutiram anteriormente no curso de licenciatura práticas educacionais que mostrassem a possibilidade de abordagens históricas dos conteúdos de Física. Para eles parecia não existir realidades
diferenciadas que impõem a necessidade de práticas pedagógicas também diferenciadas.
Nessa atividade sobre utilização de temas de FMC apresentamos o seguinte roteiro para que os alunos desenvolvessem o trabalho:
"Os jornais noticiaram com bastante alarde a entrada em funcionamento do LHC nos últimos dias de março. Sendo inclusive destaque na 1ª página do jornal O Globo do dia 31 de março. Só que infelizmente o programa de física não aborda temas de Física Moderna e Contemporânea (FMC), entretanto os alunos ficam curiosos em relação a esses temas. Só que a divulgação que se faz na mídia é muitas vezes repleta de erros conceituais e cheia de um sensacionalismo próprio de quem quer vender uma notícia, seja ela de que campo for.
Considere que você está dando aulas de física em uma das séries do ensino médio e quer aproveitar o interesse dos seus alunos para discutir com alguma profundidade os conceitos físicos de FMC, que estão presentes quando falamos do LHC. Como você planejaria as aulas para tratar desse tema? Responda a essa questão levando em consideração o seguinte roteiro:
- 1 -Que pré-requisitos você levaria em consideração? Justifique.
- 2 -Que assuntos você considera importantes de serem abordados nessas aulas? Justifique.
- 3 -Como seria a estrutura de apresentação dos conteúdos?
- 4 -Como conectar os assuntos da física clássica que faz parte do conteúdo que você tem que abordar com os assuntos relevantes para entender o funcionamento do LHC?
- 5 -Você considera que é importante esse tipo de abordagem? Justifique."
Nenhum aluno se preocupou em discutir a NdC como forma de abordar as diferenças entre a Física Clássica e a Contemporânea. Apenas dois alunos fizeram menção em abordar a História da Ciência como forma de melhorar a aprendizagem de conceitos novos.
Em momento nenhum as diferentes interpretações filosóficas sobre a Física Clássica e a Moderna foram colocadas em questão como um aspecto importante da abordagem. Nenhum aluno destacou que as implicações filosóficas da Física Moderna para a compreensão da realidade são completamente diferentes da da Física Clássica. Os licenciandos mostraram desconhecer tal fato, o que os impediu de reconhecer que o momento de transição da Física Clássica para a Moderna é privilegiado para a discussão em torno da NdC.
O quarto momento de coleta de informações da pesquisa foi a observação e análise das aulas dadas pelos licenciandos sobre um tema da Física Clássica. Eles puderam escolher qualquer tema, desde que o mesmo não fosse relacionado à Mecânica. Fizemos esse recorte, porque nas discussões geradas em sala todos os exemplos apresentados pelos alunos versavam sobre Mecânica. Os temas escolhidos por eles foram os seguintes: Calorimetria, Refração, Gases, Introdução à Óptica Geométrica, Reflexão, Carga Elétrica e Transmissão de Calor.
Como desejávamos fazer os licenciandos procurarem caminhos diferentes dos livros didáticos para introduzir o tema por eles escolhidos, no roteiro de apresentação da atividade propusemos que construíssem uma "aula criativa".
Apenas dois alunos fizeram referência a algum aspecto histórico na execução das aulas e dos planejamentos entregues. Cabe ressaltar, entretanto, que a menção histórica apresentada foi muito pontual. Por exemplo, o aluno C , que escolheu o tema calorimetria, apenas citou que no passado o calor era entendido como uma substância chamada calórico. Fez esse comentário no início da aula e não o relacionou a nada que apresentou em seguida. O aluno A A tentou falar um pouco mais sobre aspectos ligados à história da óptica, mas acabou confundindo-se sobre como Platão entendia o fenômeno luminoso e depois também se confundiu ao explicar como Eratóstenes utilizou a formação de sombra para medir a circunferência da Terra.
Essas aulas nos mostram que os licenciandos não utilizaram a abordagem porque não a valorizam realmente, apesar do que declararam ou, o que deve ser mais provável, não se sentiram seguros para a utilização de História e Filosofia da Ciência em suas aulas. As aulas dos licenciados foram bastante tradicionais tanto na escolha dos temas quanto das abordagens. Eles optaram, em seus planejamentos de iniciar o tema a partir r de definições de conceitos e apresentação de aplicações. O único que não iniciou o tema por definições foi o aluno A, porém seu pequeno conhecimento histórico do assunto escolhido não o permitiu ministrar a aula com segurança.
A pesquisa aqui apresentada mostra que esses futuros professores estão pouco capacitados para enfrentar a sala de aula, pois não dominam minimamente conhecimentos importantes para tornar suas futuras aulas mais significativas e atraentes. Não possuem recursos para abordagens diferenciadas dos conteúdos. Essa conclusão é preocupante uma vez que demonstra que futuros professores ingressarão no mercado de trabalho, ou sem o domínio de um recurso didático importantíssimo para a melhoria do ensino de Física ou sem o reconhecimento de que abordagens histórico-filosóficas da Física são fundamentais para que sua aprendizagem ganhe significado para a compreensão da realidade.
## Comentários Finais
A pesquisa que empreendemos com esses alunos de licenciatura aponta para a necessidade de interferirmos em suas formações histórico-filosóficas para que sejam capazes de atuar no ensino básico discutindo a NdC com seus futuros alunos.
A inclusão de disciplinas específicas de HFC é um caminho, porém, apesar da pertinência dessas disciplinas, o estudo em dois semestres não permite ao futuro professor uma formação aprofundada de HFC capaz de permiti-lo construir práticas pedagógicas que tragam às salas de aula discussões de HFC capazes de construir reflexões sobre NdC. Na verdade, para que haja uma sólida formação em HFC é necessário que outras disciplinas de conteúdo básico abram espaço para a reflexão histórico -filosófico. Não se pretende com isso propor a transformação de todas as disciplinas da licenciatura em disciplinas de História da Ciência, mas
destacar a necessidade de apontar momentos estratégicos em diferentes disciplinas para discussões histórico-filosóficas aprofundadas.
- O estágio supervisionado é um momento privilegiado para fortalecer a formação histórico-filosófica dos licenciandos, porque nessa disciplina os alunos podem colocar em prática seus conhecimento em aulas que são avaliadas e discutidas. Devemos provocar os estudantes a desenvolverem em seus estágios atividades diferenciadas que abordem aspectos de NdC. Nesse momento, eles terão espaço para discutir suas inseguranças quanto a utilização desse tipo de abordagem. Os encontros devem servir para a montagem de aulas que tenham um caráter diferenciado do que poderíamos chamar de tradicional. (Martins,2008)
Com o aumento da carga horária mínima exigida para o estágio supervisionado temos que fazer com que os futuros professores busquem aprofundar e articular o conhecimento específico da Física com o da sua epistemologia e história.
A pesquisa realizada mostra que o discurso em torno à importância da abordagem histórico-filosófica não é suficiente para dar aos futuros professores segurança capaz de permiti-los construir práticas pedagógicas com esse perfil. Assim, para melhorar a formação de professores em História e Filosofia da Ciência precisamos mostrar-lhes as reais possibilidades de abordagens histórico filosóficas. Mostrar essas possibilidades passa pelo conhecimento de práticas inovadoras que temos relatos nas revistas de ensino de Física e também pela observação e acompanhamento durante o estágio de aulas de professores inovadores, irrequietos e criativos.
Esse último aspecto nem sempre pode ser controlado pelo professor de estágio supervisionado, mas deve ser posto como objetivo tentar possibilitar o estágio em locais instigantes, onde o licenciando se sinta desafiado a trabalhar e ser criativo percebendo que existe espaço para inovações no ensino de Física na escola básica.
## Referências
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