ENSINO DE FÍSICA EM ESPAÇOS NÃO FORMAIS: UM RECORTE DA CONTRIBUIÇÃO DE UM CENTRO DE CIÊNCIAS
Maria Das Graças De Oliveira, José Roberto Tagliati
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXII
- Ano
- 2017
- Data
- 23/01/2017
- Linha de pesquisa
- Divulgação Científica E Educação Não Formal
- Tipo
- Pôster
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Texto completo
## ENSINO DE FÍSICA EM ESPAÇOS NÃO FORMAIS: UM RECORTE DA CONTRIBUIÇÃO DE UM CENTRO DE CIÊNCIAS
## Maria das Graças de Oliveira 1 , José Roberto Tagliati 2
- 1 Universidade Federal de Juiz de Fora/Mestrado Nacional Profissional em Ensino de Física/Escola Estadual Nyrce Villa Verde Coelho de Magalhães, profgracajf@gmail.com
- 2 Universidade Federal de Juiz de Fora/Departamento de Física, tagliati@fisica.ufjf.br
## Resumo
Os espaços não formais são instrumentos importantes e relevantes para auxiliar de maneira efetiva a construção do conhecimento. Sendo pouco utilizado na rede publica de ensino de Juiz de Fora como em outras redes de ensino no país, reconhecer e explorar esses espaços, transformando-os em locais que favoreçam a obtenção de saber constitui um desafio no enriquecimento e desenvolvimento de maneira a promover de maneira eficaz o ensino de Ciências com ênfase na Física. Esse trabalho considera observações e reflexões após visita de estudantes do Ensino Básico de uma escola pública de Minas Gerais ao Centro de Ciências da Universidade de Juiz de Fora. Observa-se como o comportamento dos alunos se modifica de maneira significativa de modo que seu comportamento em sala de aula sofre melhora substancial. As observações quanto à mudança de postura dos estudantes corrobora o fato de os espaços não formais influenciarem positivamente no processo de ensino-aprendizagem, contribuindo para a formação de um cidadão consciente e crítico, além de criar no jovem um imaginário científico mais realista. Ainda possibilita fazer com que se possa vislumbrar um horizonte no sentido de melhorar a qualidade da Educação Básica no país.
Palavras-chave : espaços não formais, centro de ciências, ensino de física.
## Introdução
A divulgação científica não se dá apenas no espaço formal da escola. Ela pode acontecer em diversos outros ambientes e momentos através da educação não formal. A educação não formal é aquela que ocorre de maneira espontânea ou semi-estruturada, em diversos espaços como centros e museus de ciências, museus em geral, jardins botânicos, zoológicos, parques ecológicos, observatórios astronômicos, eventos e feiras (como Semana Nacional de Ciência e Tecnologia), centros culturais, teatros, cinemas ou mesmo dentro de casa através da mídia.
Os espaços científico-culturais, caracterizados como espaços de educação não formal, são importantes fontes de aprendizagem e de contribuição para a aquisição e o aperfeiçoamento do nível de cultura da sociedade. Além disso, têm com vantagem incluir tanto aqueles que estão na escola, como os que não tiveram essa oportunidade, e os que já não fazem mais parte dela (COSTA, 2009; VALENTE, 2009, apud Cazelli e Coimbra, 2008). De acordo com Cazelli e Coimbra (2008),
A educação não formal, por ter uma organização espaço-temporal flexível, tem um importante papel como facilitador do trabalho educativo formal. E diante dos desafios que a educação enfrenta hoje é fundamental uma cooperação entre diferentes instituições educativas. As instâncias de educação não formal devem atuar em
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parceria com as escolas, as instituições sociais com maior capacidade de sistematizar o trabalho educativo da aprendizagem de conteúdo, e que são avaliadas pelo aprendizado apresentado por seus alunos (CAZELLI; COIMBRA,2012, p. 3).
Fragilidades e deficiências são encontradas na educação cientifica formal, nas escolas. O ensino de Ciências em diferentes níveis, tem apresentado lacunas preocupantes, de acordo com pesquisas nacionais e internacionais. Em diversas avaliações mostram que o desempenho dos jovens brasileiros em ciências, na maioria das vezes, esta aquém do desejado. Associada a falta de interesse dos alunos por carreiras cientificas e o desânimo dos jovens nas matérias cientificas esta a didática das ciências nas salas de aulas, ligadas à forma como elas são ensinadas, em geral, podre de recursos, desestimulantes e desatualizado.
Nesse contexto, os métodos da educação não formal podem ser usados como contraponto à educação formal das escolas, dando ênfase ao lúdico e ao prazer obtido na própria atividade, promovendo motivação para o aprendizado. Assim, a educação não formal tem um importante papel como facilitador do trabalho educativo formal e, diante dos desafios que a educação enfrenta hoje, é fundamental uma cooperação entre diferentes instituições educativas.
## O Centro de Ciências da Universidade Federal Juiz de Fora
FIGURA 01 : estudantes na entrada de acesso ao Centro de Ciências da UFJF
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O Centro de Ciências da Universidade Federal de Juiz de Fora tem como meta atender o público acadêmico de todos os níveis de ensino, bem como a sociedade em geral. Inaugurado no dia 26 de agosto de 2006, o Centro de Ciências foi criado a partir de iniciativas das Pró-Reitorias de Pesquisa e de Extensão da UFJF, e de professores dos Institutos de Ciências Exatas e de Ciências Biológicas, do Colégio de Aplicação João XXIII e da Faculdade de Engenharia.
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A equipe técnica do Centro é constituída por professores, pesquisadores, técnico-administrativos e estudantes da Universidade Federal de Juiz de Fora, com participação ativa do Colégio de Aplicação João XXIII e do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Sudeste de Minas Gerais (IF Sudeste MG). Abrange as áreas de Biologia, Química, Engenharia Civil, Engenharia Elétrica, Ciência da Computação, Geografia, História, Turismo, Física, Matemática, Artes, Design, Comunicação Social, além de outras áreas que de alguma forma interajam com as atividades do Centro.
Tem como prioridade estabelecer elos e parcerias entre a UFJF e escolas de ensinos básico e superior, e quaisquer outras instituições que mostrem interesse em apresentar projetos compatíveis com as atividades e objetivos do Centro de Ciências. A divulgação e disseminação da Ciência e Tecnologia é o grande interesse, de modo a contribuir para o despertar de vocações, bem como fazer da popularização da Ciência uma forma de tornar nossa sociedade mais consciente de suas potencialidades.
- O espaço oferece atividades, cursos e programas de formação continuada para professores da Educação Básica. Para estudantes da Educação básica, Feira de Ciências e exposições de materiais pertencentes ao seu próprio acervo ou ao de outros Centros de Ciências, com acompanhamento de estagiários que orientam durante toda a visita.
## Missão
- Levar os visitantes a perceberem a importância da prática de investigação científica ao longo da história da humanidade.
- Despertar um olhar para a ciência com mais curiosidade, consciência, rigor e espírito crítico.
- Fazer ver que a ciência não é constituída de respostas prontas, mas resultado de muito trabalho de observação, experimentação, análise e investigação.
## Objetivo
- Desenvolver atividades relacionadas à Educação Científica em todos os níveis de ensino, com a participação de docentes e acadêmicos de diversas Unidades Acadêmicas da UFJF.
- Contribuir para a formação inicial de professores para a Educação Básica em todas as áreas do conhecimento, apoiando atividades de Educação Científica e o trabalho docente em geral. Oferece atividades, cursos e programas, desenvolvendo atividades relacionadas à Educação Científica não formal e à divulgação das Ciências e da Cultura Científica, dirigidas tanto ao público escolar quanto à sociedade como um todo.
- Realizar eventos e facultar o uso de suas instalações e recursos disponíveis para as Escolas de Educação Básica, além dos diversos cursos e áreas da UFJF e de outras instituições.
- Investigar questões relacionadas à Educação Científica e desenvolver inovações, recursos e materiais pedagógicos, fomentando o interesse na população e nos estudantes pela atividade científica, despertando talentos e
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facilitando ações de divulgação e popularização da ciência, tecnologia e cultura.
## Referencial teórico
Leon S. Vygotsky nos traz uma visão sobre o processo de aprendizagem onde o meio (físico e social) tem forte influência sobre a qualidade dessa aprendizagem. Para Vygotsky as características do desenvolvimento humano não estão presente desde o nascimento, nem são simplesmente resultados das relações homem e sociedade, pois quando o homem transforma o meio na busca de atender suas necessidades básicas, ele transforma-se a si mesmo. Percebemos então a importância da interação do sujeito com objetos e outros sujeitos para conseguir atingir uma aprendizagem, sendo os centros de ciências locais onde ocorrem as interações sócio culturais responsáveis pelo desenvolvimento cognitivo e aprendizagem.
David Paul Ausubel parte do princípio que 'O fator isolado mais importante que influencia a aprendizagem é aquilo que o aprendiz já conhece'. Ele incita aos professores que descubram aquilo que o jovem sabe e, a partir daí, planeje aquilo que se pretende ensinar. Basicamente, tudo aquilo que o jovem já sabe de sua experiência diária com o mundo é,não apenas útil, mas fundamental para que ele possa aprender novos conhecimento
A característica principal da aprendizagem significativa é a interação, a idéia básica da teoria de Ausubel é a de que os conhecimentos prévios dos alunos precisam ser valorizados.
Segundo a teoria de David Ausubel (Moreira & Masini, 2001), novas idéias e informações podem ser aprendidas e retidas na medida em que conceitos relevantes e inclusivos estejam adequadamente claros e disponíveis na estrutura cognitiva do indivíduo. O desenvolvimento de aulas em espaços não formais pode possibilitar a integração de informações oriundas da intervenção e interpretação do ambiente para a associação com os conceitos já interiorizada na estrutura cognitiva do aprendiz.
## Visitando o Centro de Ciências da Universidade Federal Juiz de Fora
Segundo Gaspar, 'A preocupação com a aprendizagem em centros de ciências é uma constante [...] todo objeto ou experimento exposto é pensado e projetado com o objetivo de transmitir algum tipo de informação ou conteúdo' (Gaspar 1993, p.52).
Escolhemos realizar a visita ao Centro de Ciências com alunos da Escola Estadual Almirante Barroso das turmas do 1º ano do ensino médio, em um numero de quarenta cinco alunos, devido ao fato dos alunos depararem com atividades diferenciadas levando-os a um olhar mais amplo dos conceitos físicos ali abordados.
Durante a visita ao Centro de Ciências os alunos mostraram curiosidade e maior interesse pelas aplicações científicas nas diversas situações vivenciadas no Centro de Ciências. Observamos diversos questionamentos deles, o que permitiu uma continuidade em sala de aula de discussões sobre os conteúdos científicos
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tratados por ocasião da visita, gerando contribuição significativa para o processo de ensino e aprendizagem.
Após a visita ao Centro de Ciências os alunos tornaram-se mais participativos nas aulas, motivados e interessados, melhorando sensivelmente os resultados das avaliações, além de perceptível otimização do relacionamento professora-aluno.
Muitos alunos relataram com entusiasmo suas impressões e visível aumento de interesse pela ciência após a visita. Porém, optamos por registrar aqui o relato da aluna Brenda Stefane que apresenta uma leve deficiência intelectual:
' Noi aprendeu muitas coisas legal. E bom pra nois seqi a vida qe nois tem. Muito legal pra nois no estudos ja ajudava a mais.Muito divertido nei cei oqe dizer de legal. Eu ate fis uma esperiencia na escola muito teresante '
Embora, devido à sua limitação cognitiva, esta aluna apresente dificuldades na escrita, vale a observação de como ela se mostra entusiasmada alegando em sua fala questões de rotina, diversão e aumento no conhecimento, quando enfatiza a realização de uma experiência. Esse fato, por si só, acreditamos justificar nosso relato.
Um exemplo interessante de como um experimento simples pode modificar significativamente o interesse pelo conhecimento científico, é o episódio de se deitar sobre a cama de pregos (figura 02). A situação intrigante de não sentir dor e de não se ferir abre uma possibilidade forte de se discutir e permitir entender melhor a ideia do que seja a grandeza pressão, o que aconteceu com propriedade e de forma crítica na sala de aula.
FIGURA 02 : visitante deitada na cama de pregos
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## Considerações sobre o aprendizado científico nesse contexto
Percebemos, após a visita ao Centro de Ciências da Universidade Federal de Juiz de Fora, um maior interesse nos estudantes pela atividade científica. Auxiliando no processo de ensino e de aprendizagem, possibilitou tornar os temas de Física mais interessantes, e mais contextualizados e significativos para o aluno. Segundo nossa avaliação, essa atividade auxilia de modo efetivo na formação do cidadão consciente e capaz de atuar de forma mais consciente na sociedade, despertando em todos a ideia de que ciência se faz com a curiosidade e sobretudo buscando respostas.
Pudemos constatar também que após a visita os alunos ficaram mais dispostos a apreender e trazer para as aulas assunto relacionados com a ciência, fato constatado em suas atuações nas avaliações. Percebemos melhora considerável nos resultados obtidos nestas, além de grande desenvoltura em participação na feira de ciências promovida pela escola. Sem dúvida os alunos passaram a se interessar mais pelo Ensino da Física, e sua motivação durante a feira de ciências permitiu ao publico visitante se interessar mais por conhecimentos científicos e sua aplicação no dia a dia.
Diante das observações, constatações e modificações no comportamento dos estudantes, cada vez mais nos convencemos, enquanto professora de física e educadora, que o conhecimento só é integrado à cultura dos indivíduos quando em ligação com o mundo que nos cerca. Nesse contexto o papel dos espaços não formais é uma das alternativas mais que viáveis para que esta possibilidade se efetive.
FIGURA 03 : vista parcial do salão do Centro de Ciências da UFJF
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## Referências
AUSUBEL, D. P. A aprendizagem significativa: a teoria de David Ausubel. São Paulo: Moraes, 1982.
CAZELLI, S.; COIMBRA, C. A. Q. Pesquisas Educacionais em Museus: desafios colocados por diferentes audiências. 1º Workshop Internacional de Pesquisa em Educação em Museus. Geenf, USP. São Paulo, 2012. Disponível em: <http://www.geenf.fe.usp.br/v2/wp-content/uploads/2013/01/Sibele-protegido.pdf>. Acesso em: 21 Mar. 2013.
CAZELLI, S.; COIMBRA, C. A. Q. Avaliação formal na educação não formal. Associação Brasileira de Avaliação Educacional - ABAVE , Rio de Janeiro - RJ, 18 a 20 de junho de 2008. Disponível em: <http://www.fiocruz.br/omcc/media/EVCV\_CAZELLI\_COIMBRA\_Avalicao\_formal\_na \_educacao\_nao\_formal.pdf>. Acesso em: 22 Mar. 2013.
GASPAR,Alberto. Museus e Centros de Ciências conceituação e proposta de um referencial teórico. 1993. Tese (Doutorado) - Faculdade de Educação, Universidade de São Paulo, São Paulo, 1993.
MARANDINO Martha. et al. A Educação Não Formal e a Divulgação Científica: o que pensa quem faz? Atas do IV Encontro Nacional de Pesquisa em Ensino de Ciências - ENPEC , Bauru, 2004.
MOREIRA, M. A & MASINI, E. F. S. Aprendizagem significativa: a teoria de David Ausubel . São Paulo: Centauro, 2001.
NORBERTO ROCHA, J. A Cultura Científica dos professores da Educação Básica: a experiência de formação à distância pela UAB/UFMG . 2013. Dissertação (Mestrado em Divulgação Científica e Cultural) - Instituto de Estudos da Linguagem, Universidade Estadual de Campinas, São Paulo, 2013.
QUEIROZ , Glória et al. Construindo saberes da mediação na educação em museus de ciências: o caso dos mediadores do museu de astronomia e ciências afins/ Brasil. Revista Brasileira de Pesquisa em Educação em Ciências. v. 2, n. 2, p. 77-88, 2002
VIGOTSKY, Lev Semenovich, 1896-1934. Linguagem, desenvolvimento e aprendizagem - São Paulo - Ícone - Ed. Universidade de São Paulo - 1998.
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