CONDIÇÕES DE PRODUÇÃO INICIAIS DE ESTUDANTES DE LICENCIATURA SOBRE A FÍSICA MODERNA E CONTEMPORÂNEA
Thirza Pavan Sorpreso, Cézar Cavanha Babichak, Maria José Pereira Monteiro De Almeida
- Evento
- Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
- Edição
- XII
- Ano
- 2010
- Data
- 27/10/2010
- Linha de pesquisa
- Formação E Prática Profissional Do Professor De Física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## CONDIÇÕES DE PRODUÇÃO INICIAIS DE ESTUDANTES DE LICENCIATURA SOBRE A FÍSICA MODERNA E CONTEMPORÂNEA
## INITIAL CONDITIONS OF PRODUCTION TO UNDERGRADUATE STUDENTS IN PHYSICS TEACHING RELATED TO MODERN AND CONTEMPORARY PHYSICS
Thirza P . Sorpreso 1 , Cézar C . Babichak 2 , Maria José P. M. de Almeida 3
1 Unicamp/gepCE , thirza.ps@gmail.com
2 Unicamp/gepCE , babichak@hotmail.com
3 Unicamp/Departamento de Ensino e Práticas Culturais - gepCE , mjpma@unicamp.br
## Resumo
Neste trabalho nos preocupamos com a questão da introdução da Física Moderna e Contemporânea no Ensino Médio. Observamos que apesar de diversas pesquisas em ensino apontarem a necessidade dessa inclusão ela praticamente não é realizada nas salas de aula de ensino básico. Sendo assim, é importante que essa problemática seja estudada no âmbito da formação inicial de professores. Levantamos alguns aspectos do imaginário de estudantes de licenciatura em Física decorrentes de contatos que os mesmos já teriam estabelecido com a Física Quântica e a Física Nuclear r antes de cursarem a disciplina Conhecimentos em Física Escolar, em catálogo para estudantes no primeiro ano da licenciatura . Foi aplicado um questionário com questões abertas durante a primeira aula da disciplina buscando indícios do imaginário dos licenciandos no que diz respeito à Física e seu Ensino. Utilizamos como referencial teórico a Análise de Discurso tal como desenvolvida no Brasil por Eni Orlandi. Dentre outros aspectos, destacamos que apesar de indícios da Física Moderna e Contemporânea não ter sido abordada no Ensino Médio dos estudantes participantes desta pesquisa, os mesmos citaram diversos recursos , os quais acessaram, estabelecendo assim contato com a Física Quântica e a Física Nuclear . Consideramos que os resultados apontados são importantes para a estruturação de práticas, a serem desenvolvidas na formação de professores de Física. Práticas essas que auxiliem os futuros professores no momento de planejarem suas aulas, objetivando uma efetiva introdução da Física Quântica e da Física Nuclear no Ensino Médio.
Palavras -chave: Formação Inicial de Professores, Física Moderna e Contemporânea
## Abstract
In this work we discuss the introduction of Modern and Contemporary Physics in High School. Although many studies have shown the importance of this introduction, there are no changes in the classrooms. So, it is important think about this problem during the formation of Physics teachers. We tried to consider some aspects from the imaginary of undergraduate students in Physics Teaching, about Quantum Physics and Nuclear Physics, during the first year of graduation before they course the discipline " Conhecimentos em Física Escolar"r". In the first class the students answered a questionnaire, giving an idea about their imaginary related to Physics and Physics Teaching. It was used the Discourse Analysis developed in
Brazil by Eni Orlandi. Among other aspects, we detach that even with the evidence that the Modern and Contemporary Physics was not taught to these students, in High School, they showed some resources that was accessed to know Quantum Physics and Nuclear Physics. We believed that these results are important to organize and to improve the practices in the graduation, that will help the future teachers in the planning of their classes, aiming a effective introduction of Quantum Physics and Nuclear Physics in High School.
Key-words: Teachers' Initial Formation, Modern and Contemporary Physics, Imaginary
## Introdução
Nos últimos quinze anos têm sido desenvolvidos e publicados inúmeros trabalhos na área de Ensino de Física com diversos enfoques que se concentram na inserção da Física Moderna e Contemporânea (FMC) no Ensino Médio. Foram publicados trabalhos que apresentam reflexões sobre a inserção da FMC no Ensino Médio sob várias perspectivas. Foram produzidas diversas revisões bibliográficas sobre o tema e trabalhos de análise de livros didáticos, como, por exemplo: Ostermann e Moreira, 2000; Greca e Moreira, 2001; Ostermann e Ricci, 2002; Ostermann e Ricci 2004. Há propostas de trabalho desenvolvidas com professores e/ou alunos, porém conforme apontam alguns pesquisadores, essas correspondem ao menor número de trabalhos dentro dessa problemática (Ostermann e Ricci, 2005; Cavalcante e Tavolaro, 2001). Entre publicações que abarcam subsídios para facilitar o trabalho do professor em sala de aula; exemplificando apontamos: Santos (2006), Cavalcante et al. (2001) e Dias et al. (2002).
Alguns autores associam a inclusão dessa problemática na pesquisa com a Lei de Diretrizes e Bases de 1996 (LDB/96). De acordo com Ostermann e Ricci (2002) essa linha de pesquisa desenvolveu-se, de forma mais acelerada, a partir de uma tendência na nova legislação brasileira de promover a renovação curricular. Os autores afirmam que a LDB/96 recomenda que sejam abordados conteúdos mais próximos do cotidiano do aluno, propiciando o desenvolvimento de uma visão de mundo atualizada. Eles apontam que essa pressão legal refletiu-se, ainda que timidamente, nos livros didáticos de Física voltados para o Ensino Médio. Cavalcante e Tavolaro (2001) afirmam que a partir das recomendações da LDB/96 a questão da Física Moderna e Contemporânea no Ensino Médio tem sido abordada por diversos pesquisadores. Os autores observam que no Simpósio Nacional de Ensino de Física realizado em 1997 foram apresentados trabalhos, oficinas e cursos que enfocaram a temática, desde o estudo de planejamentos didáticos até propostas de experimentos para serem utilizados em sala de aula.
Quanto às justificativas para essa introdução , Arriassecq e Greca (2006) consideram que seria importante para que os estudantes compreendessem os desenvolvimentos recentes da Ciência, os quais têm influenciado o mundo em que vivem. Já Nascimento e Alvetti (2006) justificam essa introdução procurando conectar a problemática da seleção de conteúdos com um debate mais amplo sobre a relevância social, cultural e política do ensino de ciências. Consideram a importância dos conhecimentos para a inserção do cidadão no mercado de trabalho e para a compreensão de fenômenos da natureza e dos artefatos tecnológicos. Para os autores, a Ciência seria utilizada em decisões socialmente significativas de modo
a legitimar determinados discursos. Os autores argumentam que o reconhecimento de que a ciência é determinada e determinante sócio-historicamente faria com que o produto final dessa instituição deixasse de ser o foco principal do seu ensino. Diversas outras justificativas são apontadas por revisões bibliográficas realizadas e muitas delas podem ser encontradas nas publicações de Ostermann e Moreira (2000) e Greca e Moreira (2001)
Se as justificativas para a introdução da FMC no Ensino Médio são diversas, apontando certa unanimidade dentre os pesquisadores com relação à sua necessidade, não podemos dizer o mesmo quanto às formas e conteúdos apontados como possíveis para o trabalho com a FMC no Ensino Médio. Não há um consenso do que introduzir e nem como fazê-lo. Com relação aos conteúdos há trabalhos que focam aspectos diversos da teoria da relatividade, como, por exemplo, Ostermann e Ricci (2002) que ao focalizarem a contração de Lorentz- FitzGerald mostram que o assunto não recebe o devido cuidado nos livros didáticos; ou Santos (2006) que abordou os efeitos de dilatação do tempo e contração espacial. Outros trabalhos focam a abordagem da Física Quântica, como, por exemplo, o de Brockington e Pietrocola (2005) , sob uma perspectiva histórica e filosófica ou o de Cavalcante e Tavolaro (2001) , que abordam a dualidade onda-partícula.
A Relatividade e a Física Quântica têm seus conteúdos mais explorados pelas pesquisas que se preocupam com a introdução da Física Moderna e Contemporânea no Ensino Médio, porém também foram produzidos trabalhos que se preocupam com outros temas como a Física Nuclear, por exemplo. Com relação a essa Física, Cavalcante et al. (2001) desenvolveram uma proposta de experimento e simulação computacional explorando o fenômeno de espalhamento de partículas alfa; já Dias et al. (2002) apresentaram um programa computacional que simula um detector de radiação. Podemos citar ainda trabalhos sobre partículas elementares e supercondutividade, como é o caso de uma publicação de Ostermann e Moreira (2001).
As formas de introdução que têm sido investigadas por trabalhos de pesquisa nessa área também são diversas. Observamos que o tema é explorado pelos pesquisadores através de várias linhas, aparentemente em concordância com seus referenciais teóricos. Como exemplo dessa diversidade, citamos um artigo de Brockington e Pietrocola (2005) dentro da perspectiva da Transposição Didática, outro fundamentado pela teoria de Representações Mentais de autoria de Arriassecq e Greca (2006) e ainda um associado à Análise de Discurso desenvolvido por Sorpreso e Almeida (2008) .
São também bastante diversas as abordagens e os recursos utilizados nas inúmeras publicações. Dentre as abordagens predominantes estão a História e a Filosofia da Ciência, como é o caso, por exemplo, das publicações de Cavalcante e Tavolaro (2001) , Brockington e Pietrocola (2005), Ostermann e Ricci (2005), Arriassecq e Greca (2006). Com relação aos recursos podem ser encontrados trabalhos relacionados à divulgação científica e/ou leitura, incluindo a de originais (Almeida e Queiroz, 1997; Nascimento e Alvetti, 2006; Dias e Almeida, 2009) , trabalhos que apresentam experimentos, simulações e animações (Santos, 2006; Cavalcante et al., 2001; Dias et al., 2002), dentre outros. Apesar da diversidade, ressaltamos que em todos os casos procura-se privilegiar uma abordagem mais conceitual em detrimento de uma abordagem mecânica , exclusivamente baseada em cálculos e que as propostas se aproximam da História e Filosófica da Ciência,
também procurando diminuir o formalismo matemático ou criticando a ênfase nos exercícios.
Notamos assim um quadro frutífero na área de pesquisa em Ensino de Física no que diz respeito à introdução da FMC no Ensino Médio, principalmente se pensarmos na diversidade de recursos/abordagens/auxílios que essas publicações podem oferecer . Se considerados apenas os livros didáticos, como todo recurso , estes têm suas possibilidades, mas têm também suas limitações, algumas delas apontadas por Ostermann e Ricci (2002) , Arriassecq e Greca (2006), ou Nascimento e Alvetti (2006) . É igualmente importante que nas aulas, com essa diversidade de recursos, seja diminuído o trabalho com cálculos que tem sido exclusivo no Ensino de Física conforme apontam alguns autores (Brockington e Pietrocola, 2005; Sorpreso, 2008) .
Em concordância com o que foi colocado até aqui é necessário que a formação inicial de professores aborde a questão da introdução da FMC no Ensino Médio e em especial aproxime os futuros professores das diversas pesquisas já desenvolvidas sobre essa problemática.
Pesquisadores do Grupo de Pesquisa ao qual pertencem os autores deste estudo têm desenvolvido um trabalho junto à formação inicial de professores de Física no qual procuram aproximar pesquisas e recursos produzidos pelos pesquisadores da área de Ensino de Física da realidade dos futuros professores. Dentre os recursos apontamos a necessidade de não exclusividade do livro didático , já que ele tem suas potencialidades, mas também suas limitações. Tais recursos compreendem a leitura de originais de cientistas, utilização de textos de história da ciência e de divulgação científica, dentre outros, recursos esses que abarcam elementos nem sempre contemplados pelo livro didático. Apontamos ainda a importância da formação de professores gerar reflexões e proporcionar o contato dos licenciandos com recursos como imagens, simulações e animações, também não levados em conta num ensino com o livro didático como único recurso.
Por outro lado, no trabalho com a problemática da introdução da FMC no Ensino Médio na formação de professores, como afirmamos anteriormente, são destacadas diversas dificuldades. Ao pensar o Ensino Médio , Brockington e Pietrocola (2005) apontam as características do próprio sistema de ensino como um dos limitantes para essa introdução e Arriasecq e Greca (2006) levantam a questão da falta de compreensão profunda dos conceitos por parte dos professores ou futuros professores.
Consideramos que é necessário ressaltarmos que o futuro professor passou grande parte de sua vida nesse mesmo sistema de ensino com características que dificultam sua modificação, sendo assim, é nesse contexto que os licenciandos desenvolvem seu imaginário a respeito do ensino . Imaginário esse, em geral, ligado a um ensino de Física puramente matematizado, a-histórico, sem processo, que visa exclusivamente fazer com que o aluno "passe no vestibular". O futuro professor de Física, em geral, tem passado muitos anos numa escola tradicional, formando seu imaginário do que vem a ser esta escola, do que vem a ser seus objetivos educacionais, incluindo os objetivos para se ensinar ciências no ensino médio. E sabendo que o imaginário do professor é determinante na interação do aluno com sua educação, acreditamos que haja a necessidade de que temas, recomendados para serem ensinados no nível médio, devam estar presentes desde o início da formação do futuro professor de Física.
Diferentemente das propostas de licenciatura que dispõem disciplinas da educação apenas para o final do curso, e também diferentemente de qualquer proposta que tentasse discutir a necessidade de se levar a FMC ao Ensino Médio somente após o aluno passar por disciplinas como 'Estrutura da Matéria' ou mesmo 'Física Quântica', acreditamos que haja a necessidade do aluno ir refletindo sobre questões educacionais específicas do conteúdo que vai ensinar ao longo de todo o seu curso, até para que possa ser crítico quanto às metodologias a que é submetido nas disciplinas que cursa na universidade.
Acrescentamos ainda que a falta de compreensão profunda apontada por Arriasecq e Greca (2006) pode se originar ao longo da história anterior dos futuros professores que tendo seus imaginários constituídos em um contexto no qual a Física é exclusivamente baseada em cálculos, acabam, significando-a como puramente matemática nas suas práticas em sala de aula. Ao pensar a formação inicial de professores devemos ter em mente que o futuro professor passou grande partrte de sua história na mesma escola que hoje as pesquisas propõem que ele modifique. Dentro de perspectivas como a da Análise de Discurso, essa história anterior do professor também constitui seu imaginário e interfere na forma como ele significa a sua prática escolar. Sendo assim é importante que a formação de professores leve em consideração o imaginário dos licenciandos constituído em situações de ensino divergentes daquele ensino objetivado pelas pesquisas, e procure, além disso, criar situações que provoquem deslocamentos nesse imaginário.
Neste estudo analisamos as respostas a um conjunto de questões abertas formuladas no primeiro dia de aula da disciplina Conhecimentos em Física Escolar, procurando compreender o imaginário dos estudantes sobre dois temas que seriam posteriormente estudados na disciplina, a qual é oferecida no catálogo da licenciatura em Física no diurno, no segundo semestre do curso, momento em que os estudantes têm oportunidade de optar pela licenciatura, numa das três universidades paulistas. Os temas focalizados para análise foram as relações que os licenciandos em Física já haviam estabelecido com elementos de FMC, em especial sobre Física Quântica e Nuclear, ou seja, com quais elementos já haviam entrado em contato e de que forma.
## Apoio Teórico
Neste trabalho utilizamos como apoio teórico a Análise de Discurso tal como desenvolvida no Brasil por Eni Orlandi. Essa vertente considera a não transparência da linguagem, que " se manifesta pela consideração do equívoco, como constitutivo da linguagem. Ou seja, a ambigüidade, a não unicidade do sentido, a possibilidade de interpretação, são inerentes à linguagem" (Almeida, 2004, p.36).
Entender o discurso como algo funcionando implica em estabelecer suas condições de produção. De acordo com Orlandi (2005), as condições de produção:
- [...] compreendem fundamentalmente os sujeitos e a situação. Também a memória faz parte da produção do discurso. A maneira como a memória 'aciona', faz valer, as condições de produção é fundamental [...]. Podemos considerar as condições de produção em sentido estrito e temos as circunstâncias da enunciação: é o contexto imediato. E, se as considerarmos em sentido amplo, as condições de produção incluem o contexto sócio -histórico, ideológico. p30
Ao considerar as condições de produção , estamos tratando também da memória de outros discursos, ou do interdiscurso . O interdiscurso materializa -se nos dizeres através do imaginário, mecanismo constituído a partir de relações com diversos discursos produzidos em diferentes momentos e situações sócio-históricas. Através do imaginário, os já ditos, esquecidos na memória e que carregam em si sentidos pré-constituídos antes das enunciações, são trazidos para os dizeres atuais.
- O mecanismo imaginário produz imagens do sujeito e do objeto do discurso, dentro de um contexto sócio -histórico. Através do mecanismo imaginário o locutor se posiciona, posiciona seu interlocutor e o objeto do discurso. Essa perspectiva faz parte do funcionamento da linguagem, condicionando os sujeitos na produção de discursos, incluindo aqueles que se inserem nas mediações em sala de aula. Compreendendo aspectos do imaginário e suas relações com as condições de produção em que se constituem e são evidenciados, compreendemos o modo como o discurso está sendo produzido.
Essa perspectiva nos sustenta ao supormos que as condições imediatas do Ensino Básico e Superior contribuem para constituir r o imaginário de licenciandos em Física, muitas vezes de forma a fazer com que os licenciandos considerem que há necessidade exclusiva de se trabalhar com cálculos e exercícios durante as aulas dessa disciplina. Dentro dessa perspectiva a partir do conhecimento de elementos do imaginário dos licenciandos no início da disciplina é possível criarmos condições de produção imediatas, durante a formação inicial de professores, que gerem deslocamentos em seus imaginários .
## Condições de Produção da Disciplina
Conforme explicitado antes, os resultados aqui apresentados referem-se a uma pesquisa desenvolvida na disciplina Conhecimentos em Física Escolar. No semestre de realização da pesquisa a disciplina contou com a participação de vinte e nove alunos. A ementa da disciplina propõe a análise de questões específicas do ensino da Física e de campos e conhecimentos envolvidos em propostas de solução para essas questões. E devemos assinalar que embora ela esteja em currículo do primeiro ano de curso, vários estudantes optam por fazer licenciatura depois de já terem cursado várias disciplinas do bacharelado
Do questionário respondido pelos estudantes de licenciatura, no primeiro dia de aula, constavam as seguintes perguntas:
- 1.Você já ouviu falar em, ou leu algo sobre, Física Moderna e Contemporânea? O quê?
- 2.Já estudou, leu algo ou ouviu falar em: A) Mecânica Quântica? B) Física Nuclear? O quê? Onde?
## Levantamento das Respostas
De 27 estudantes que responderam ao questionário inicial 17 (63%) afirmaram já ter ouvido falar, ou ter lido, algo sobre Física Moderna e Contemporânea. Nove deles (33%) afirmaram não conhecer a Física Moderna e Contemporânea e um dos estudantes (4%) não respondeu. Apresentamos esses dados no gráfico a seguir:
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## Apresentamos a seguir algumas das respostas.
[...] entendo por Física Moderna a Física desenvolvida no começo do século XX, especialmente a Relatividade Geral, Específifica e Quântica e a Física Contemporânea a Física desenvolvida desde então até agora (incluindo o Modelo Padrão, a Física de Partículas, etc.)
Nos últimos cursos, venho ouvindo falar bastante da Física Moderna e suas aplicações, em particular da Mecânica Quântica
[...] sobre Relatividade, Física Quântica e Nanotecnologia
Já li textos sobre Física Moderna. Fiz uma disciplina de Física Moderna (Estrutura da Matéria). Atualmente estou cursando uma disciplina sobre o desenvolvimento da Física Moderna. Também fiz a disciplina Epistemologia da Física que tratou de questões referentes à Física Moderna.
De acordo com estas e outras respostas dos estudantes constatamos que os temas mais citados foram: Relatividade, Física Quântica e Física de Partículas; e em menor quantidade do que as três primeiras: Astronomia e Cosmologia. Em apenas uma das respostas foi citada a Nanotecnologia.
Os cientistas lembrados pelos estudantes foram Einstein, Planck, Bohr e Schröedinger. Notamos que esses cientistas foram citados por estudantes que já haviam cursado disciplinas sobre Física Moderna e Contemporânea na Universidade, conforme observamos a seguir. O restante dos estudantes não se referiu a nomes de cientistas.
Tive Física 4 e Estrutura da Matéria, que falam um pouco de Física Moderna e Contemporânea. Partículas, Luz, ondas, Modelo de Bohr, Schröedinger e outros
Ouvir falar é difícil; mas dentro da Universidade já estudei Física Moderna. O estudo de Física Moderna, acredito eu, grosso modo pode ser considerado como o início da Física Quântica, com Planck e com a Relatividade Especial de Einstein
É interessante notarmos que apenas um dos alunos ao se manifestar sobre o que já teria ouvido falar sobre Física Moderna e Contemporânea associou-a com a filosofia. Na resposta desse estudante notamos referência a vários tipos de leitura, incluindo textos de divulgação científica:
Sim, li os livros do Hawking: 'Uma Breve História do Tempo' e 'Universo Numa Casca de Nós'; entre papers, teses de mestrado e documentários na TV Escola. Nessas fontes li sobre buracos negros, teoria de campos, relatividade, física de partículas, filosofia, física do estado sólido, teoria unificada e eletromagnetismo quântico
Nos depoimentos a seguir, observamos que alguns dos temas que foram citados não são constituintes da Física Moderna e Contemporânea, como é o caso da Mecânica Geral e Termologia, talvez indicando desconhecimento desses alunos sobre o que trata essa Física. Observamos ainda que foi citado um tema que não
corresponde à área de Física, mas que tem utilizado conhecimentos da Física Quântica em suas pesquisas, a Neurociência.
Já li sobre Mecânica Geral, l, Mecânica Quântica, Termologia
Sim, Astronomia, Física Quântica e Neurociência
As formas com as quais os estudantes afirmaram ter entrado em contato com a Física Moderna e Contemporânea corresponderam, em sua maioria, a meios não exclusivamente escolares ou universitários. Esses meios citados foram: livros de divulgação científica, revistas, filmes e documentários. No entanto notamos que artigos científicos e teses foram citados. Transcrevemos abaixo um desses depoimentos, no qual um tema , então recorrente na mídia (o Large Hadron Collider, LHC) , foi lembrado pelo estudante:
Já ouvi falar e já assisti alguns documentários sobre isso, principalmente sobre o LHC e a tentativa de descoberta de novas partículas ou dimensões
Com relação àqueles estudantes que se posicionaram de forma negativa, as respostas dadas foram apenas 'não', com exceção dos dois depoimentos que transcrevemos abaixo:
Não muito, basicamente estudo mais óptica e holografia. E também sobre laser e aplicações
Não. Porém é o título do livro de ensino médio que consultei algumas vezes para estudar
Com relação ao segundo depoimento acima, é interessante notarmos que pode ter r havido uma preocupação no que diz respeito à introdução da Física Moderna e Contemporânea no Ensino Médio, já que o livro didático citado pelo estudante continha o nome dessa Física em seu título, porém de fato ela não teria sido abordada, já que esse mesmo estudante afirmou que estudava pelo livro em questão, mas nunca leu nada sobre Física Moderna e Contemporânea.
Os licenciandos responderam também uma questão que se referia mais especificamente à Física Nuclear e à Física Quântica. Foi-lhes questionado se já haviam estudado, lido ou ouvido falar, em Mecânica Quântica e Física Nuclear, o que e onde. Observamos que das 27 respostas a essa questão cinco alunos (18,5%) afirmaram não conhecer a Mecânica Quântica e quatro (14,8%) afirmaram não conhecer a Física Nuclear o restante (aproximadamente 80%) afirmou conhecer esses temas.
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Dentre os 22 alunos que afirmaram já ter contato com a Mecânica Quântica nove declararam ter sido através da universidade apenas e nove declararam ter sido através de meios não formais apenas (não universitários ou escolares), dois afirmaram ter sido através de meios formais e não formais, um afirmou ter sido através da universidade e da escola e um afirmou ter sido no Ensino Médio.
Dentre os 23 alunos que afirmaram ter r contato com a Física Nuclear 11 declararam ter sido através de meios não formais apenas (não universitários ou escolares), oito declararam ter sido através da universidade apenas, dois afirmaram ter sido através de meios formais e não formais, um afirmou ter sido através da universidade e da escola e um afirmou ter sido no Ensino Médio. Assim observamos que no caso da Física Nuclear o contato maior foi através de meios não formais, e no caso da Mecânica Quântica prevalece o contato através da Universidade.
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Transcrevemos abaixo algumas de suas respostas.
Muito pouco. A)não muito mais do que filmes e o livro Tao da Física, temas digamos que não muito acadêmicos. B) já ouvi falar, r, mas não busquei conhecimento sobre o tema.
Sim, na faculdade mesmo, matérias do curso que tratam sobre.
O que ouvi foi nas matérias que fiz na [U[Universidade] e muito pouco em leituras.
Não. Acho que estuda os átomos e núcleos, interações entre eles, sei disso por professores do ensino médio .
Dentre os recursos apontados para esse contato estão: livros (citados por nove licenciandos); internet e revistas (três licenciandos cada recurso); documentários (dois licenciandos); filmes e jornais (um licenciando cada recurso) , teses e artigos científicos (um licenciando). Os livros intitulados pelos licenciandos foram: O Tao da Física; O Universo numa Casca de Noz; Alice no País do Quantum. A revista intitulada por um dos licenciandos foi a Scientific American .
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Transcrevemos a seguir algumas de suas respostas:
Sim, gato de Schrödinger, escola. Não.
A)Não estudei, mas sei que é um ramo da física que é atual e trabalha com átomos e suas interações, leis que regem seus movimentos e forças. B) Não estudei, penso que trabalhe com uma área semelhante à Mecânica Quântica.
Sim, incerteza, emaranhamento, etc. Fissão nuclear, Fusão nuclear, física de partículas, raios cósmicos, tokamaks, reatores, aceleradores de partículas,... Em livros, documentários, jornais, internet e revistas.
A) Sim, dualidade onda partícula presente na matéria, física de partículas, incerteza de Heisenberg, etc. Em livros como O Universo em uma Casca de Noz, Alice no País do Quantum, em vídeos documentários, e revistas (S(Scientific American)n). B) Acredito que a física nuclear seja uma área comercial de Física Quântica, nunca procurei nada específico, mas sei do que se trata.
Dentre os assuntos citados pelos licenciandos como estando relacionados à Mecânica Quântica estão: incerteza; emaranhamento; gato de Schrödinger; átomos e interações, leis que regem seus movimentos e forças; dualidade onda partícula; Física de Partículas. Dentre os assuntos citados pelos licenciandos como estando relacionados à Física Nuclear estão: fissão; fusão; partículas; raios cósmicos; tokamaks; reatores; aceleradores de partículas; átomos, núcleos e suas interações; sub -partículas atômicas e ressaltamos que um deles afirmou que a Física Nuclear seria uma área comercial da Física Quântica, talvez por influência da mídia .
## Considerações Finais
Apoiados na Análise de Discurso , consideramos que o imaginário de licenciandos em Física é efetivo ao interferir na atribuição de sentidos em seus discursos sobre a prática escolar, elaborados durante a formação inicial. Com base nesse pré-suposto conferimos importância ao levantamento de elementos de suas memórias, principalmente ao considerarmos que a história anterior dos estudantes de licenciatura constitui esse imaginário, para que a partir daí pudéssemos estruturar condições de produção que provocassem deslocamentos no mesmo .
Conseqüentemente, neste estudo analisamos as respostas a um conjunto de questões abertas que se referiam às relações que os licenciandos em Física já haviam estabelecido com elementos de FMC, em especial sobre Física Quântica e Nuclear, ou seja, com quais elementos já haviam entrado em contato e de que forma.
Pudemos notar grandes diferenças nas respostas dos estudantes. Grande parte deles já havia entrado em contato com a Física Moderna e Contemporânea . Notamos ainda que aqueles estudantes que já haviam cursado disciplinas sobre a FMC na graduação foram específicos quanto a cientistas citados. Já alguns dos licenciandos se referiram a temas que não pertenciam à Física Moderna e Contemporânea como se pertencessem, indicando um provável desconhecimento sobre o que trata essa Física.
É interessante notar que a mídia pareceu ter influência no imaginário dos licenciandos, através de referência explícita a esse meio ou referências a assuntos da Física tratados por veículos de informação na atualidade.
Por outro lado, obtivemos indícios de que a abordagem da Física Quântica e Nuclear praticamente não foi realizada no ensino médio cursado por esses estudantes . No entanto, conforme já afirmamos anteriormente, grande parte desses
licenciandos já tinha entrado em contato com a Física Moderna e Contemporânea na Universidade quando optaram por r fazer licenciatura.
Observamos que a maior forma de contato entre os licenciandos e a Física Nuclear apontada pelos mesmos foi não formal, ou seja, não realizada através da escola ou universidade, enquanto para a Mecânica Quântica foi através da universidade e meios não formais igualmente. É importante lembrarmos que a Física Nuclear é um tema recorrente em meios de comunicação enquanto a Física Quântica não, talvez por isso o maior contato não formal com a primeira .
Já os recursos mais utilizados pelos licenciandos participantes dessa pesquisa para o contato com a Física Moderna e Contemporânea foram os livros, seguidos pela internet e revistas.
Esses resultados são significativos no sentido de auxiliarem na estruturação de aulas na formação inicial de professores de Física nas quais se busque trabalhar a problemática da introdução da Física Moderna e Contemporânea no Ensino Médio. É importante que os formadores conheçam os estudantes para que possam ser estruturadas aulas dialógicas visando que os licenciandos utilizem seus conhecimentos e familiaridade com recursos para planejar suas futuras aulas.
## Referências
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