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SALA DE AULA DE CIÊNCIAS: O QUE UM SIMPLES DEBATE EM SALA DE AULA PODE DIZER DO ENSINO DE FÍSICA?

Lucas Jesus Bettiol Mazeti, Fernanda Keila Marinho Da Silva, Ana Lúcia Brandl

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XXII
Ano
2017
Data
23/01/2017
Linha de pesquisa
Materiais, Métodos E Estratégias De Ensino De Física
Tipo
Pôster

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Texto completo

## SALA DE AULA DE CIÊNCIAS: O QUE UM SIMPLES DEBATE EM SALA DE AULA PODE DIZER DO ENSINO DE FÍSICA?

## SCIENCE CLASSROOM: WHAT A SIMPLE DISCUSSION ON CLASSROOM MAY SAY ABOUT PHYSICS TEACHING?

## Lucas Jesus Bettiol Mazeti¹, Fernanda Keila Marinho da Silva , Ana Lúcia 2 Brandl 3

1 Programa de Pós Graduação Profissional em Ensino de Física/UFSCAR - Sorocaba, lucasmazeti@hotmail.com

2 UFSCAR - Sorocaba/Departamento de Física, Química e Matemática, fernandakeila@ufscar.br 3 UFSCAR - Sorocaba/Departamento de Física, Química e Matemática, albrandl@ufscar.br

## Resumo

O presente trabalho objetivou apresentar uma abordagem dialogada acerca da poluição sonora possibilitando uma reflexão sobre metodologia de sala de aula através das discussões realizadas pelos alunos no decorrer da leitura guiada de um artigo. Esse tema foi escolhido pela proximidade dos alunos para com esses eventos e, em sua maioria, e pelo total desconhecimento dos efeitos nocivos que pode ser causado por ela. Isso foi feito a partir de um recorte de uma sequência didática, onde se privilegiou o uso de um artigo informativo, com caráter de divulgação de aspectos relacionados à poluição sonora, nos quais os alunos foram estimulados a refletir em como as atitudes cotidianas e o convívio social em geral expõem as pessoas a um excesso de ruído causando danos para a audição. A expectativa era de que os alunos percebessem esse fenômeno no seu cotidiano, através de uma abordagem não tradicional. Antes dessa apresentação, foram trabalhados os conteúdos de acústica e ondulatória, para uma discussão satisfatória. Após esse momento, os alunos foram estimulados a fazer medições sonoras nos ambientes que frequentavam diariamente e a analisar os dados obtidos por essas medições, posteriormente entregando um texto com essas reflexões. A pesquisa é de natureza qualitativa, por meio de áudios gravados em sala. Enfatiza-se a reflexão pelo processo da sala de aula e por impressões dos alunos para que se possa, em seguida, discutir o papel da potencialidade de metodologias alternativas. Através dessas reflexões, dialoga-se sobre a importância dessas metodologias e perguntase de que forma ela podem ser significativas para o estudante.

Palavras-chave : ensino de física; poluição sonora, aula dialogada.

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## Abstract

This study aimed to present a dialogue-based approach about noise pollution allowing a reflection about the methodology on the classroom through discussions by the students during a guided reading of an article. This theme was chosen by the proximity of the students towards these events and, in most cases, completely unaware of the harmful effects that can be caused by it. This was made from a fragment of a didactic sequence based on the use of an informative article with aspects of divulgation of the character related to noise pollution, in which students were encouraged to think about their everyday attitudes and how social conviviality generally expose people to excessive noise causing damage to hearing. This approach enables students to realize this phenomenon in their daily lives, through a non-traditional way. Before this guided reading, previous contents like acoustic and waves theory were worked, being topics with major importance to understand why the noise pollution affects the hearing. We believe this care allows a better argued discussion. After this time, the students were encouraged to make sound measurements in environments frequented daily and to analyze the data obtained by these measurements, later producing a text with these reflections. This research is qualitative, through audio recorded in room, which emphasizes the reflection at the classroom process and impressions of the students so that we can then discuss the role of potential alternative methodologies. Through these reflections, we discuss about on the importance of these methodologies and how it can be act as modifiers for the student.

Keywords : physics teaching; noise pollution; dialogic class.

## Considerações gerais sobre o ensino da física escolar e objetivo do trabalho

Esse trabalho faz parte de uma dissertação de mestrado em andamento, cujo foco principal foi a criação de uma sequência didática para alunos do ensino médio voltada para o ensino de acústica. O recorte do presente texto envolverá uma aula debate sobre poluição sonora, utilizado um material menos convencional nas aulas de física: um artigo de divulgação científica.

- O pressuposto é de que a Física é uma das matérias que mais aproxima o aluno do mundo natural, pois ela é capaz de explicar como as tarefas que fazemos e a tecnologia que utilizamos funcionam. Utilizando de uma visão mais ampla, sendo a Física uma ciência, ela norteia toda uma produção científica orientando processos históricos e obras artísticas além de trazer para o cotidiano um pensamento mais racional, permitindo um diálogo mais inteligente com o cotidiano (ZANETIC, 1991).

Essa visão não é compartilhada pelos alunos. Mesmo tendo um início normalmente instigante, rapidamente a motivação apresentada pelos alunos acaba se diluindo de forma drástica. Isso transforma o processo de aprender Física, que deveria ser interessante e prazeroso, em uma desagradável disciplina que somente articula números e fórmulas. Esse contato negativo produz uma resistência muito grande à introdução de novas visões ou conceitos (BONADIMAN e NONENMACHER, 2007).

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E essa distinção de visões propicia um mau rendimento da disciplina por parte do corpo discente, pois sem o entendimento da importância da Física em suas vidas, a única finalidade para aprendê-la é ter o rendimento mínimo para ser promovido ao ano letivo seguinte. Com essa única finalidade, o ensino de Física ocorre na forma de memorização, sem correlação entre os fatos, gerando um péssimo índice nas avaliações externas. Um dos exemplos desse rendimento é o PISA, Programme for International Student Assessment aplicado pelo OECD (sigla em inglês para Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico), que avalia o desempenho de mais de 64 países em uma prova aplicada a estudantes de 15 anos que engloba matemática, leitura e ciências; no ranking de 2015, o Brasil se enquadra na 58ª posição (DESILVER, 2015).

As causas para esse fenômeno são diversas, porém uma das mais importantes é a forma a qual é ministrada a disciplina para os alunos: normalmente é exposta como um conjunto de regras matemáticas desconexas sem muita relação com o dia-a-dia do indivíduo. Esse tipo de exposição gera uma aversão dos alunos para com a disciplina, pois não conseguem enxergar uma utilidade para o ensino.

Inserido dentro dessa realidade, os conteúdos são trabalhados separadamente, e a alguns deles, altamente relevantes e presentes na vida de qualquer pessoa, se reserva apenas umas poucas aulas de exposição. Um dos temas nessa condição é o estudo da acústica, um subtema da ondulatória que compreende o estudo do som e suas qualidades; o qual é, muitas vezes, compactado por temas considerados mais relevantes.

- O ensino de acústica é normalmente construído da mesma forma que a grande maioria dos conteúdos em Física no ensino médio, isto é, uma abordagem matemática, menos conceitual e, geralmente, inarticulada com outros conteúdos. Para esse ensino é desconsiderada sua relação histórica e filosófica com a música, a qual confecciona a diferenciação entre ruído e música desde a Grécia antiga. Além do pensamento integrado com o raciocínio histórico, é ignorada a importância dessa disciplina na Biologia, Medicina, Sociologia, Música e Fisiologia. Essas integrações são omitidas desde o livro didático, tendo a grande maioria apenas o rigor matemático e umas poucas contextualizações aleatórias (MONTEIRO JR. e CARVALHO, 2011).
- A partir dessas considerações, o objetivo do artigo será apresentar uma abordagem dialogada acerca da poluição sonora e discutir o que, em princípio, poderia ser nomeado como algo inovador. Em outras palavras, tem-se também o objetivo de problematizar aquilo que normalmente é considerado 'inovador'.

Isso será feito a partir de um recorte de uma sequência didática, onde se privilegiou o uso de um artigo informativo, com caráter de divulgação de aspectos relacionados à poluição sonora.

A ideia em relacionar o ensino de acústica com uma temática que vêm se tornando grave indício de poluição ambiental vêm em função de uma perspectiva de apresentar a importância social de conceitos físicos trabalhados na sala de aula.

## Poluição sonora: aspectos conceituais e problemáticos atuais.

Considera-se a acústica uma área da Física extremamente presente no cotidiano dos alunos, pois é indissociável a utilização do som em quase todos os

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afazeres rotineiros. Por isso, existem diversos temas que são utilizados nos livros didáticos para a introdução e contextualização dos conceitos envolvidos nessa área, tais como: música, instrumentos, ruídos, entre outros.

Porém, uma parte muito pouco analisada e observada da Acústica é a poluição sonora, segmento que vai estudar os problemas causados pelo som ao nosso corpo. Esse estudo é muito pouco trabalhado e analisado, pois se imagina, no senso comum, que os sons que podem causar danos à nossa saúde, seriam muito agressivos aos ouvidos. Porém como diz Bastos e Mattos (2008) '(...) atualmente não somos educados para uma discriminação auditiva'. Dessa forma, pela não percepção e consciência dos reais danos proporcionados pelo som, ele pode estar associado a diversos problemas identificados por uma boa parte das pessoas, pois o som causa muito mais danos quando o indivíduo é exposto a uma quantidade levemente elevada de intensidade sonora por muito tempo que por uma intensidade extrema por alguns minutos, segundo Souza (1992):

'O mais traiçoeiro [dos danos] ocorre em níveis moderados de ruído, porque mansamente vão se instalando estresse, distúrbios físicos, mentais e psicológicos, insônia e problemas auditivos. Muitos sinais passam despercebidos do próprio paciente pela tolerância e aparente adaptação e são de difícil reversão.' (Souza, 1992, on line )

Esses efeitos são tão severos pela enorme quantidade de ruídos que somos expostos diariamente nos centros urbanos, sempre acima do recomendado pela organização mundial da saúde, na qual o limite saudável é de 55 dB (World Health Organization (WHO, 1999), enquanto num dia comum, as avenidas registram sempre valores acima de 75 dB. Essa quantidade de decibéis não causa um incômodo direto ou um desconforto doloroso, provoca, geralmente, uma leve irritação, porém a presença constante desses níveis de intensidade sonora acarreta problemas muito severos.

Já nas salas de aula, podemos observar que o processo de ensino e aprendizagem pode ser muito prejudicado devido à poluição sonora que se instaura nas escolas e salas de aula. Os processos que ocorrem em uma sala de aula devem ter a garantia de uma série de variáveis e condições mínimas para que ocorra de maneira adequada, dentre elas um ambiente que favoreça a harmonia visual e auditiva. Essa característica é tão fundamental que segundo Johnson e Myklebust (1983), se essas condições não forem favorecidas para um estudante, mesmo que ele tenha um potencial excelente terá diversos tipos de deficiências na aprendizagem, justamente pelo fato do ambiente não estar adequado a esse processo. Mesmo com esses estudos, é muito comum, nas salas de aula do ensino público, uma média de 40 alunos em sala, proporcionando invariavelmente uma condição insalubre para o aprendizado do ponto de vista dessas integridades básicas necessárias. Partindo-se dessas informações, acredita-se que seja fundamental uma abordagem sobre os riscos presentes nas altas intensidades sonoras a que são submetidos os alunos em sala de aula. Isso é justificado pelos próprios Parâmetros Curriculares (PCNs):

'... a contextualização no ensino de ciências abarca competências de inserção da ciência e de suas tecnologias em um processo histórico, social e cultural e o reconhecimento e discussão de aspectos práticos e éticos da ciência no mundo contemporâneo ...'.(BRASIL, p. 31, 2002)

Da mesma forma, Bastos e Mattos (p. 2, 2008) reiteram:

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'Os sons fazem parte de nossa vida, assim, ao aprendermos física seria adequado que esse conhecimento fosse conectado com nossa vida cotidiana, principalmente quando os problemas que enfrentamos se referem a nossa saúde.'

A discussão apresentada a seguir não indica, pragmaticamente, a maneira correta de se apresentar o tema. De outro modo, representa um cenário para que, nas considerações finais, discutamos a potencialidade de práticas dialogadas considerando critérios definidos pelo professor e o necessário envolvimento com os aspectos conceituais e de ensino aprendizagem que envolvem o assunto.

## Procedimentos metodológicos

A atividade que será objeto desse artigo realizou-se no segundo semestre de 2015, junto a uma turma do 2º ano do Ensino Médio, em uma escola particular do interior paulista. A classe em que se desenvolveu o trabalho possui 21 alunos que em geral são participativos. Essa característica da sala tornou o trabalho mais enriquecedor. Esse trabalho tem foco na pesquisa participante, uma vez que um dos autores é professor da disciplina na escola em questão.

A sequência de atividades seguiu a seguinte organização: primeiramente os alunos tiveram aula sobre as qualidades fisiológicas do som, a qual inclui a intensidade sonora. Em seguida, trabalhou-se com o texto, com a tentativa de possibilitar debates e discussões sobre a temática. Por fim, os alunos mediram os ambientes frequentados e analisaram os dados obtidos, mas esse momento da aula não será aqui apresentado.

- O texto utilizado é um artigo educativo-informativo do professor Fernando Pimentel Souza, Professor Titular da Universidade Federal de Minas Gerais, especialista em Neurofisiologia e membro do Instituto de Pesquisa do Cérebro da UNESCO em Paris. Esse artigo tem por objetivo ilustrar os efeitos da poluição sonora no corpo para os alunos, utilizando dados estatísticos e inter-relacionando problemas de saúde com o alto nível sonoro que as pessoas estão submetidas diariamente e pode ser facilmente encontrada na web .
- A presente pesquisa é de natureza qualitativa porque importa destacar e compreender as formas de posicionamento dos estudantes em uma aula que pressupunha o debate e, a partir desse posicionamento, refletir sobre o potencial de metodologias mais participantes.
- O material de análise selecionado é composto pela gravação em áudio da aula (a gravação ocorreu após o consentimento dos responsáveis para que atividades dessa natureza ocorressem). Essa gravação foi cuidadosamente transcrita e as falas dos alunos serão representadas por letras, mantendo a integridade e o sigilo dos alunos, conforme consta no Termo de Consentimento Livre e Esclarecido assinado pelos responsáveis dos estudantes. Nas transcrições das gravações foram utilizadas pequenas adaptações a fim de não prejudicar o entendimento das frases que possuíam gírias excessivas.

A inclusão de um artigo voltado para a informação e alerta da população e com um caráter de divulgação tinha como proposta promover um debate guiado acerca dos perigos que a poluição sonora poderia causar aos alunos e o ambiente que vivem, além de fazer uso de textos que, normalmente não são utilizados em aulas de Física.

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## Abordagem do tema

O recorte que representa o objeto desse artigo ocorreu com a leitura pausada e coletiva do texto. O debate teve início após cerca de 2 minutos de leitura do artigo.

Professor: O fone é um veneno! Não sei se o celular de vocês tem, mas o meu mostra... Ficar com esse aparelho... escutar um som muito alto por muito tempo pode prejudicar...

Aluno GB: Você só aperta o OK e aumenta. 'Risadas'

Professor: No caso eu uso isso no carro, daí no carro não tá no ouvido...

Aluno RM: Mas então ficar ouvindo muito alto deixa a gente retardado?

Professor: Não, o que acontece... Você tá ficando surdo... aos poucos ficando surdo, o que acontece... Quer queira quer não o som tem uma melodia, a música tem uma melodia que nos agrada, seja ela qual seja, mas por exemplo uma britadeira (incompreensível) não tem melodia, você vai causando prejuízos.

Aluno GA - Mas, tipo, no nosso dia-a-dia assim pode causar alguns problemas psicológicos, tipo...mudança de humor. Quando alguém tá construindo alguma coisa perto de casa, se faz muito barulho, eu fico muito irritado

Professo: Sim! Sim! É galera... Eu acho que cheguei a contar pra vocês aqui, que a um mês, dois meses, os caras estavam cortando piso atrás de casa, então era insuportável (som de cortadeira). Esse é o problema, quando o som é ininterrupto você não liga tanto, se ele é constante. Por quê? Porque seu ouvido acostuma. O problema é... (barulho de cortadeira) (3 segundos de silêncio) (barulho de cortadeira), por que você não espera.

O professor introduz o problema da intensidade sonora e principalmente, da exposição constante a um ruído, tornando o dano imperceptível. E, justamente, caracterizando-se como o principal agente da perda paulatina da audição. Os alunos mostram certa apropriação desse problema, na medida em que relacionam a mudança de humor à poluição sonora.

Figura 1Fonte: Elaborada pelos autores

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Com a mesma temática, a aula segue:

Professor: O problema está em barulhos constantes, já que eles que agridem o ouvido silenciosamente. Que acabam causando estresse

Aluno RM : professor, então o som causa stress?

Professor: sim, causa. É uma das causas.

Aluno RM: Mas é de qualquer tipo? De qualquer frequência?

Professor; Imagina você na sua casa, domingo, daí tem uma construção atrás da sua casa...

Aluno RM: Causa estresse

Professor: Então e o excesso de estresse causa o que?

Aluno LR : Morte

Professor: E eu estou falando de algo simples, é alto, mas é pontual. E quando você tá na cidade grande e tem barulho dia inteiro? É severo, a gente não enxerga.

Aluno MB: Quando você era do barulho e vive em um lugar que não tem nada, a falta de barulho me irritava, o balançar da janela me irritava, me incomodava a falta do barulho de ambulância.

Aluno LR: Eu já me senti bem melhor, em São Paulo eu era muito estressada.

Em uma aula sobre poluição sonora, parece interessante ter surgido a cidade de São Paulo, que reconhecidamente, registra níveis desse problema acima do permitido por lei (ANDRADE, 2015). Esse problema vivido por moradores das grandes cidades foi abordado em outros trechos da aula, os quais não serão apontados.

## Mais um trecho da mesma aula:

Professor: Pessoal façam o teste, quando vocês estiverem com o decibelímetro, coloquem do lado do fone no volume normal que vocês escutam... Vocês vão assustar.

Aluno GL: Quanto é o normal.

Professor: 55 dB

Após a discussão guiada, na qual houve relativa participação dos alunos, eles foram orientados a produzir uma tabela indicando os valores de intensidade sonora que se apresentava nos lugares mais comuns do cotidiano de cada um e, a partir dessa tabela, montar uma análise sobre qual era a presença da poluição sonora no dia-a-dia de cada um e quais os riscos que eles percebiam.

## Discussão e Considerações finais

Não há dúvida de que tendências didáticas de natureza mais construtivistas representam um imenso avanço no ensino aprendizagem de Ciências. Dentre outras situações, as pesquisas mostraram a importância do contexto dos problemas apresentados na construção dos conceitos por parte dos estudantes (MORTIMER, 1996). A ideia de dialogar com os estudantes a partir de um texto tinha por meta promover a fala dos alunos e, nesse movimento, facilitar a compreensão do professor acerca do que os alunos estavam se apropriando. A breve discussão realizada entre o professor e alunos sinaliza que, na mesma medida que a preocupação com a contextualização e a utilização de materiais mais diversos seja

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algo desejável, ainda deve ser inserida em contextos mais prolongados, para que a continuidade das atividades conduzam o professor a uma reflexão da potencialidade efetiva dos instrumentos mais 'diferentes'.

Reconhece-se que a pequena discussão auxiliou no processo de problematização do artigo/assunto, pois seria de pouca valia que os alunos percebessem que a poluição é prejudicial e não conseguissem identificá-las no seu dia-a-dia. Perceberam que a exposição ao risco ocorria em situações bem corriqueiras e muito próximas. Os alunos reconhecem que a tendência das pessoas expostas a ruídos de duração prolongada é acostumar-se com o 'grande barulho'. Assim, puderam analisar que quando submetidos a sons constantes, o corpo tende a se acostumar com essas intensidades sonoras, não percebendo o dano causado, justamente por ter se adaptado. Isso implica num dos maiores problemas relacionados à poluição sonora.

Essa aula foi antecedida por aulas que abordaram diferentes conceitos. De modo tradicional, abordou-se a introdução ao tema de 'ondas', o que envolve formação, tipos de ondas e velocidade. Posteriormente, o professor abordou conceitos de intensidade, altura e timbre. Não encontramos, nas falas selecionadas dos alunos (nem tampouco nas outras), menção mais explícita a conceitos físicos, salvo a conclusão de GL (Embora seja um ruído o dano é silencioso.) e de Aluno RM (Aluno RM: Mas é de qualquer tipo? De qualquer frequência?). GL indica apropriação ao dizer que embora seja um ruído (que na linguagem comum indica um 'barulho baixo'), o dano existe. Por sua vez, Aluno RM usa o termo 'frequência' em um momento em que a discussão parecia indicar o termo 'intensidade' como o mais adequado.

A sequência dessa aula deve ser um convite a diversos questionamentos: dar continuidade ao tema seguinte, tradicionalmente elencado, no caso, fenômenos sonoros? Fazer a aula experimental/prática? Continuar usando textos informativos? Esses alunos que participaram da aula podem apresentar problemas conceituais existentes para os outros alunos? Dentre outros... Importa afirmar, nos fins desse artigo, que a prática docente deve ser pensada de modo a desnaturalizar toda e qualquer metodologia que, em princípio, se nomeia inovadora. Há discussão e colocação dos alunos, permitindo reconhecer a potencialidade da leitura, mas uma metodologia não é, em si, inovadora ou tradicional se não contar com a reflexão contínua do docente acerca do que o discente aprendeu. Em outras palavras, a comunicação é interindividual, mas a reflexão do docente deve se estender para uma dinâmica mais complexa que é intraindividual. As palavras de Cazden (1991) são aqui bem colocadas: 'Dadas as dificuldades de analisar a relação pensar-falar, como abordar essa relação em aula?'. Com essa discussão, só se pretendia atentar a essa dificuldade.

## Bibliografia

ANDRADE, P. R. Poluição sonora está acima do permitido por lei . Disponível em: &lt; http://comunicacao.fflch.usp.br/node/1724&gt;. Acesso em: 3 jul. 2015.

BASTOS, P. W.; MATTOS, C. R. Física e poluição sonora: uma proposta de dinâmica do perfil conceitual . In: XI Encontro de Pesquisa em Ensino de Física, 2008, Curitiba. A pesquisa em ensino de física e a sala de física e a sala

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de aula: articulações necessárias. São Paulo : Sociedade Brasileira de Física, 2008. v. 1. p. 1-12. Disponível em http://www.cienciamao.usp.br/dados/epef/\_fisicaepoluicaosonorauma.trabalho.p df. Acesso em 31 out 2016.

BONADIMAN, H.; NONENMACHER, S.E.B. O gostar e o aprender no ensino de física: uma proposta metodológica. Cad. Bras. Ens. Fís., v.24, n.2, p.194-223, 2007.

BRASIL, Secretaria da Educação Média e Tecnológica. PCNEM: Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino Médio. Brasília: MEC, 2002.

CAZDEN, C. B. En discurso en el aula . México: Ediciones Paidós, 1991.

DESILVER, D. U.S. students improving - slowly - in math and science, but still lagging internationally . Disponivel em: &lt;http://www.pewresearch.org/facttank/2015/02/02/u-s-students-improving-slowly-in-math-and-science-but-stilllagging-internationally/&gt;. Acesso em: 30 jun. 2015.

JOHNSON, D. J.; MYKLEBUST, H. R. Distúrbios de Aprendizagem . São Paulo: Pioneira, 1983.

MONTEIRO JÚNIOR, F. N.; CARVALHO, W. L. P. de. O ensino de acústica nos livros didáticos de física recomendados pelo PCLEM: análise das ligações entre a física e o mundo do som e da música. HOLOS , [S.l.], v. 1, p. 137-154, mar. 2011. ISSN 1807-1600. Disponível em: &lt;http://www2.ifrn.edu.br/ojs/index.php/HOLOS/article/view/516&gt;. Acesso em: 31 out. 2016.

MORTIMER, E. F. 1996. Construtivismo, mudança conceitual e ensino de ciências: para onde vamos? Investigações em Ensino de Ciências v. 1, n. 1, p. 20-39, 1996.

SOUZA, F. P. A poluição sonora ataca traiçoeiramente o corpo . Disponível em http://labs.icb.ufmg.br/lpf/2-14.html. Acesso em 31 out 2016.

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ZANETIC, J. Qual o papel da ciência na formação básica? Atas do IX Simpósio Nacional de Ensino de Física, p. 9/10, 1991.

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