O aquecimento global como contextualização do ensino e Física: o que dizem alguns professores
Wanessa Santos Santana, Simone A. Fernandes, Juvenal Caon
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXII
- Ano
- 2017
- Data
- 23/01/2017
- Linha de pesquisa
- Ensino E Aprendizagem Em Física
- Tipo
- Pôster
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Texto completo
## O AQUECIMENTO GLOBAL COMO CONTEXTUALIZAÇÃO DO ENSINO DE FÍSICA: O QUE DIZEM ALGUNS PROFESSORES
*Wanessa Santos Santana 1 , Juvenal Caon , Simone A. Fernandes 2 3
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UFES/ Departamento de Ciências Exatas/ wanessasantana@gmail.com 2 UFES/ Departamento de Ciências Exatas/ juvenalcaon@gmail.com UFES/ Campus de Alegre Departamento de Química e Física/ simonef.ufes@gmail.com
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## Resumo
Temas como o aquecimento global tem despertado o interesse de ambientalistas, da mídia em geral e também da população. A abordagem de temas de interesse político, econômico e social em aulas de física mostra-se capaz de atrair a atenção dos alunos e, consequentemente, proporcionar uma aprendizagem significativa sobre os assuntos em questão, contribuindo para a formação crítica e consciente dos estudantes de todos os níveis de ensino. Diante disso, este trabalho tem como objetivo avaliar se o tema aquecimento global é trabalhado ao se abordar conteúdos de Física, seja como forma de motivar o aluno, seja como forma de contextualização em seu sentido mais básico, seja como forma de inserir o aluno em um contexto histórico social, contribuindo para a sua formação enquanto cidadão. De forma geral, encontrouse como resultado que ao abordarem o tema aquecimento global durante o trabalho com os conteúdos de física, os professores focam a variação de temperatura e as mudanças climáticas, levando em questão, principalmente, o fato do homem ser o agente causador. Além disso, não desenvolvem um estudo mais elaborado com os alunos por consideram que os mesmos não têm maturidade para compreenderem o conteúdo.
Palavras-chave : Ensino de Física, aquecimento global, contextualização.
## Introdução
Temas como o aquecimento global tem despertado o interesse de ambientalistas, da mídia em geral e também da população. Esta última, talvez por desinformação, preocupa-se com as previsões catastróficas que veiculam nos meios de comunicação em massa. Considerando-se que os alunos com os quais lidamos fazem parte dessa população, torna-se importante a abordagem deste e de outros temas de forma a contribuir para a aquisição deste conhecimento bem como para o desenvolvimento de uma visão crítica a respeito. A abordagem de temas de interesse político, econômico e social em aulas de física mostra-se capaz de atrair a atenção dos alunos e, consequentemente, proporcionar uma aprendizagem significativa sobre os assuntos em questão, contribuindo para a formação crítica e 1
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consciente dos estudantes de todos os níveis de ensino. No entanto, para isso, cabe ao professor conhecimento e disposição para fazer da sua aula também um espaço de debate e de conhecimento Físico. Com base nisso, esse trabalho tem como objetivo apresentar e discutir o resultado de um questionário aberto aplicado a 12 professores de 4 escolas públicas de um município do norte do Espírito Santo com o objetivo avaliar se o tema aquecimento global é trabalhado ao se abordar conteúdos de Física, seja como forma de motivar o aluno, seja como forma de contextualização em seu sentido mais básico, seja como forma de inserir o aluno em um contexto histórico social, contribuindo para a sua formação enquanto cidadão.
## Referencial teórico
## Contextualização no Ensino de Física
Um dos objetivos essenciais do processo educacional é levar aos estudantes uma informação confiável do ponto de vista da ciência. Nesse sentido, professores e futuros professores de ciências e física deveriam compreender a física inerente às mudanças climáticas e suas questões, já que é um tema que tem sido amplamente disseminado e discutido no mundo todo nos últimos anos.
Os documentos oficiais que orientam a organização do currículo de Física para o Ensino Médio (DCNEM, PCNs) preveem um Ensino de Física que contribua para a construção do conhecimento científico, e promova no aluno, através do estudo de conceitos, leis, modelos e teorias, a compreensão do mundo que o cerca. Nesse sentido, apresentam como pontos principais, o desenvolvimento de habilidades e competências e a promoção da interdisciplinaridade e da contextualização.
Segundo Ricardo (2011), a ideia de um ensino de Física contextualizado é bastante presente no discurso dos professores, mas isso não significa que seja uma prática instituída nas escolas, estando, na verdade, muito longe de acontecer. Além disso, segundo o autor, é comum que os professores associem a contextualização apenas ao cotidiano dos alunos e seu entorno físico (Ricardo, 2011). Nesse sentido, pode-se considera-la apenas como uma a prática pedagógica, metodológica que visa tornar o aprendizado efetivo ou motivar o aluno a partir da associação deste com experiências cotidianas.
Um estudo realizado por Kato e Kawasaki (2011) identificou 11 concepções de contextualização do ensino de Ciências: realidade, vida, vivência, mundo, cotidiano, trabalho, cidadania, contexto social, contexto histórico e cultural, conhecimentos prévios do aluno e disciplinas escolares. Os autores agruparam tais concepções 3 grupos principais: a) a que reúne as concepções relacionadas ao cotidiano do aluno; b) a que reúne as concepções relacionadas à(s) disciplina(s) escolar(es), e c) a que reúne as concepções relacionadas a contextos histórico, social e cultural.
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De acordo com Lopes (2002), um dos problemas está no processo de apropriação do conhecimento pela escola, o que retira os conceitos de sua historicidade e problemática, o que faz com que os saberes ensinados sejam apresentados sem produtores, origem, lugar e transcendentes ao tempo. Assim, segundo este autor, ensina-se apenas o resultado, isolando-os da história de construção do conceito, retirando-os do conjunto de problemas e questões que os originaram. Particularmente com relação ao ensino de Física, nesse contexto, os conteúdos são trabalhados de forma tradicional, centrados em 'fórmulas', desprovidos de qualquer contexto histórico, distante da vivência do aluno e do seu cotidiano permeado de tecnologias.
## Física e aquecimento global
As mudanças climáticas e o aquecimento global são temas que estão constantemente sendo divulgados pela mídia. Com o acesso fácil à internet, os alunos e a população em geral podem buscar informações a esse respeito, no entanto, nem sempre cientificamente corretas. Visto que um dos papéis da escola, e mais especificamente do ensino de Física, é contribuir para a formação do aluno enquanto cidadão atuante, cabe ao professor relacionar os conteúdos formais a questões como esta.
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A abordagem de temas de interesse político, econômico e social em aulas de física mostra-se capaz de atrair a atenção dos alunos e, consequentemente, proporcionar uma aprendizagem significativa sobre os assuntos em questão, contribuindo para a formação crítica e consciente dos estudantes de todos os níveis de ensino, afinal um dos objetivos essenciais do processo educacional e levar aos estudantes uma informação confiável do ponto de vista da ciência (MAGALHÃES, 2014)
A partir da análise de alguns trabalhos, (MAGALHÃES, 2010; CRETON, 2010; SOUTO, 2009) acredita-se que Efeito Estufa é um tema que, além de permitir uma abordagem do conteúdo tendo como 'pano de fundo' uma questão de relevância científica, tecnológica e social, é rico em conceitos físicos e permite uma abordagem contextualizada. Seja entendendo a contextualização como relacionada ao cotidiano imediato do aluno seja considerando-a dentro de uma abordagem histórico-social. Nesse sentido, cabe aos professores levantar discussões a respeito do tema, proporcionando ao aluno não só a aquisição do conhecimento físico como também um olhar crítico e questionador diante de um tema de abrangência e importância mundial.
## Metodologia
Este estudo foi realizado com 12 professores de Física de 4 escolas públicas do município de Linhares/ES. O instrumento de coleta de dados foi um questionário de resposta aberta composto por cinco questões, sendo (i) uma questionando se os alunos têm conhecimento sobre os fenômenos físicos relacionados ao tema Aquecimento global; (ii) duas questões a respeito de como o tema é introduzido aos alunos e como é realizada a abordagem do tema; (iii) uma referente à suficiência ou não dos materiais didáticos disponíveis e, por fim, (iv) uma questão sobre a abordagem de tópicos específicos pelo professor (radiação de corpos negros e modelos elementares, efeito estufa, forçamento radioativo e anomalias na temperatura).
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## Resultados e conclusões
Este é um estudo inicial que será melhorado e aprofundado. Como resultados preliminares, pode-se dizer que, em sua maioria, os professores afirmam que quando relacionam o tema aquecimento global à abordagem do conteúdo de física focam a variação de temperatura e as mudanças climáticas, levando em questão, principalmente, o fato do homem ser o agente causador. Como exemplo pode-se destacar as respostas dos professores A e B:
- ' (i) Existe sim, este tipo de abordagem ressaltando as variações de temperaturas, influencias climáticas, crises hídricas e energéticas; (ii) É sempre bem atrativo, tento buscar a pratica deles o que já sabem sobre o assunto, A maioria deles conhecem superficialmente;(iii) Não mesmo (iv) A crise energética gerou discursões que direcionaram a esses assuntos, mas no meu caso trabalho com as 1º series, então não dá para aprofundar, por não terem uma base elementar de conhecimento da física, tem que ser muito introdutório senão você fala..' (Professor A)
- ' (i) leva-se em consideração o que o homem faz para contribuir com aquecimento global. Queima de gases, queimadas... É importante a questão da interdisciplinaridade e a questão do ser humano como agente causador; (ii) vídeos e recortes... Durante o processo de aprendizagem ele vai evoluindo com sua aprendizagem; ;(iii) A estrutura física é ideal, pode-se trabalhar com vídeos em sala, recortes, entre outros.(iv) Não é abordado em sala de aula, não é assunto para ser abordado em ensino médio. Talvez como curiosidade para os alunos.' (Professor B)
O material didático fornecido pela escola não é suficiente para trabalhar o tema com os alunos, assim, os professores buscam meios interativos como: vídeos, revistas e internet. Não foram citadas as fontes de busca (nome das revistas, endereço dos sites, etc), portanto, em um trabalho futuro, vale a pena investigar se tratam-se de fontes confiáveis e se o professor tem conhecimento suficiente para avaliar as informações ali contidas. Assim, foram percebidas possíveis deformações nestas informações, o que acaba prejudicando o ensino da Física. Informações erradas, com caráter sensacionalista e pobres em abordagem de conceitos científicos, particularmente conceitos físicos, em nada contribuem para a
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aprendizagem do aluno e a formação de um cidadão com conhecimentos capazes de lhe permitir ser crítico e participativo. Além disso, podem, inclusive, reforçar concepções erradas.
O tema efeito estufa permite, além da abordagem do conteúdo de física, levantar discussões relativas ao desenvolvimento científico, tecnológico e sua relação com questões de cunho social. Acredita-se que a sua abordagem nessa perspectiva seja de suma importância. No entanto, percebeu-se que não é adotada pelos professores, que afirmam que durante a abordagem em sala de aula utilizam métodos que façam o aluno falar do problema do seu ponto de vista e criar possíveis soluções para os mesmos. Além disso, como as escolas não costumam desenvolver projetos sobre este tema com o intuito de levar conhecimento também à comunidade, sua discussão fica restrita à abordagem em sala de aula.
Os professores foram unanimes em dizer que assuntos como: radiação de corpos negros e modelos elementares, efeito estufa, forçamento radioativo e anomalias na temperatura não são abordados em sala de aula. Perde-se a oportunidade de se utilizar o tema como meio de abordar conceitos físicos que tradicionalmente são trabalhados desprovidos de sentido para os alunos, uma vez que não percebem sua aplicabilidade em situações reais. Nesse sentido, concordando com o que é apresentado por Ricardo (2011), a contextualização apresenta-se apenas como uma a prática pedagógica/metodológica que visa motivar o aluno a partir da associação do conteúdo com experiências cotidianas. O principal argumento apresentado refere-se ao fato de acreditarem que os alunos de Ensino Médio não têm maturidade para compreender esses fenômenos físicos. Embora saibamos que existe uma relação entre as dificuldades apresentadas por professores e a não abordagem de certos conteúdos em sala de aula, não houve afirmações que mostrassem que os professores se sentem despreparados para trabalhar com esses tópicos.
Embora seja possível, em nenhum momento foi percebida a presença de uma abordagem histórica, histórico-social ou cultural do tema, demonstrando que há um distanciamento entre a ciência física e a física ensinada (MAGALHÃES, 2010; CRETON, 2010; SOUTO, 2009; KATO e KAWASAKI, 2011). Assim como apontado por Lopes (2002), a escola retira os conceitos de sua historicidade e problemática fazendo com que os saberes ensinados sejam apresentados sem produtores,
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origem, lugar e transcendentes ao tempo. Isola-se o conceito da história de sua construção e do conjunto de problemas e questões que os originaram.
O avanço tecnológico e científico foi ampliado a partir de interesses políticos, e sua divulgação ainda é feita de forma superficial nas escolas e sociedade. A preocupação com as questões ambientais faz parte do cotidiano nos dias atuais, o que gera uma preocupação a pesquisadores e professores. Ainda assim, a forma de abordagem não é adequada aos alunos, as discussões ainda são restritas, e a busca da informação pela sociedade no geral ainda é insuficiente.
## Considerações finais
Esse trabalho tem o intuito de promover reflexão a respeito do ensino de física, associando o conceitos e fenômenos que envolvem o processo de aquecimento global. Tem-se a finalidade de mostrar a importância da compreensão cientificamente correta desse assunto, no sentido de que, do contrário, não há sentido na sua abordagem e divulgação por parte do docente.
Há que se levantar discussão sobre o distanciamento entre o que propõem os PCNs e as políticas educacionais e o trabalho que é desenvolvido em sala de aula, além de se considerar questões referentes à formação dos professores. Como discutido anteriormente, é fundamental importância a compreensão correta dos fenômenos relacionados à física e sua articulação com questões relacionadas ao meio ambiente, tecnologia e questões sociais, uma vez que a ciência física é construída em um contexto e influencia esse mesmo contexto. Para isso, faz-se necessária uma boa formação dos professores, condições adequadas de trabalho e interlocução com a comunidade, para que o conhecimento escolar não se restrinja aos muros da escola.
A importância de problematizar a abordagem do tema efeito estufa em sala de aula tem por finalidade contribuir para a melhoria do ensino de Física e identificar possíveis falhas no processo de aprendizagem, que podem comprometer o processo educativo em todos os níveis de escolaridade. Formar indivíduos críticos exige da escola muito mais que transmissão e acumulo de informações. O senso crítico cientificista requer incorporação de vivências e incorporar o que se aprende em novas vivências.
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## REFERÊNCIAS
CRETON, J. C. Conceitos Físicos Envolvidos na Temática do Aquecimento Global na Perspectiva CTS: Uma Proposta de Material Paradidático. Dissertação de mestrado. Centro de Ciência e Tecnologia da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro, 2010.
KATO, D. S.; KAWASAKI, C. S. As concepções de contextualização do ensino em documentos curriculares oficiais e de professores de ciências. Ciência & Educação, v. 17, n. 1, p. 35-50, 2011
LOPES, A. C. Os parâmetros curriculares nacionais para o ensino médio e a submissão ao mundo produtivo: o caso do conceito de contextualização Educação & Sociedade, Campinas, v. 23, n. 80, p. 386-400, 200
MAGALHAES, D.A., Aquecimento global: Uma abordagem para Ensino de Física. Revista brasileira de Ensino de Física, São Paulo, v.36 n.4 p. 4502. 2014.
RICARDO, E. R. Problematizalção e contextualização no Ensino de Física. In:CARVALHO, A. M. P. (org). Ensino de FSão Paulo: Cengage Learning, 2010. pp29 - 45
SOUTO, T. V. S. ; ANDRADE, N A.; ANDRADE, M. O uso de hipermídias para o ensino de termodinâmica contextualizado com o fenômeno do aquecimento global. In: ATAS DO XVIII Simpósio Nacional de Ensino de Física. Vitória, ES. 2009
MOREIRA, M. A. Mapas Conceituais e Aprendizagem Significativa. Porto Alegre: Instituto de Física, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 1998.10p (adaptado e atualizado, em 1997, de MOREIRA, M.A. Mapas Conceituais e Aprendizagem Significativa. O Ensino, Pontevadra/Espanha e Braga/Portugal, n.23 a 28, 1988, p. 87-95).
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