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ABORDAGENS DA CIDADANIA EM PERIÓDICOS NACIONAIS DE ENSINO DE FÍSICA E DE ENSINO DE CIÊNCIAS

Frederico Augusto Toti, Alice Helena Campos Pierson

Evento
Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
Edição
XII
Ano
2010
Data
26/10/2010
Linha de pesquisa
Questões Teórico-Metodológicas E Novas Demandas Na Pesquisa Em Ensino De Física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## ABORDAGENS DA CIDADANIA EM PERIÓDICOS NACIONAIS DE ENSINO DE FÍSICA A E DE ENSINO DE CIÊNCIAS I .

## APPROACHES OF CITIZENSHIP IN NATIONAL JOURNALS OF PHYSICAL EDUCATION AND SCIENCE TEACHING

Frederico Augusto Toti 1 , Alice Helena Campos Pierson 2 .

1

UFG/CAJ , fred.toti@hotmail.com 2 UFSCar/r/DME/PPGE , apierson@ufscar.br

## Resumo

Apresentamos e discutimos abordagens de cidadania presentes em artigos de pesquisa em Ensino de Física em dois importantes periódicos nacionais da área (Caderno Brasileiro de Ensino de Física e Revista Brasileira de Ensino de Física) . Comparamos as abordagens localizadas nestes dois periódicos com abordagens localizadas em artigos de dois importantes periódicos da área de Educação em Ciências (Ciência e Educação e Revista Brasileira de Pesquisa em Educação em Ciências). Nosso objetivo foi buscar caracterizar diferentes compreensões ou idéias de cidadania presentes nas discussões nos artigos de periódicos de Ensino de Física e de Ensino de Ciências e conhecer os elementos que aparecem nas discussões de cidadania para estas duas áreas da Educação em Ciências. Apesar de existirem muitos objetivos comuns proclamados na área de Ensino de Ciências e no Ensino de Física quanto a uma Educação em Ciências, nem sempre estes artigos manterão noções de cidadania homogêneas ou compatíveis . Estas diferentes compreensões de cidadania são aparentemente esquecidas nas discussões em função da meta da Educação em Ciências freqüentemente proclamada "para o século XXI" -a "Educação em Ciências para a cidadania" . Apresentamos as compreensões de cidadania que caracterizam estas posições, a partir da análise dos artigos que mais se debruçaram sobre as relações entre cidadania e Educação em Ciências. Por fim argumentamos a partir de elementos de sociologia que a meta de uma Educação em Ciências para a cidadania precisa ser pensada de forma mais criteriosa tanto pela área de Ensino de Ciências quanto para o caso mais particular do Ensino de Física , tendo em vista duas circunstâncias: As diferentes compreensões suscitadas nas discussões, nem sempre compatíveis . E as poucas referências que encontramos nos artigos quanto ao emprego de recursos conceituais disponíveis nos estudos em cidadania consolidados no campo da sociologia.

Palavras -chave: Educação em Ciências, cidadania , Sociologia.

## Abstract

We present and discuss approaches to citizenship in present research papers in Physics Teaching in two major national journals in the area (Caderno Brasileiro de Ensino de Física and Revista Brasileira de Ensino de Física). We

compared the approaches located in these two journals with approaches located in two important articles in journals Science Education (Ciência e Educação e Revista Brasileira de Pesquisa em Educação em Ciências). Our objective was to characterize different understandings or ideas of citizenship in the discussions on articles in journals of Physics and Science Education and meet the elements that appear in discussions of citizenship for these two areas of Education Sciences. Although there are many common goals proclaimed in the area of Science Education and Teaching Physics as a Science Education, these articles do not always keep notions of citizenship homogeneous or compatible. These different understandings of citizenship are seemingly forgotten in the discussions depending on the goal of Education Sciences often proclaimed "for the XXI Century" - the "Science Education for citizenship." Present understandings of citizenship that characterized these positions, from the analysis of the articles that have focused more on the relationship between citizenship and Science Education. Finally we argue from elements of sociology that the goal of science education for citizenship must be thought out more carefully by both the area of Science Education and for the more particular case of the Physics Teaching in view two circumstances : Different understandings raised in discussions, not always compatible. And the few references found in articles regarding the use of conceptual resources available in consolidated in citizenship studies in sociology.

Keywords: Science Education, citizenship, sociology .

## Introdução e objetivos

Na sociologia a cidadania constitui-se um campo de estudo que emprega sofisticados recursos conceituais para se desenvolver. Em conjunto os estudos em cidadania já fizeram um impacto significativo no pensamento social e político e na prática constitucional bem como as políticas governamentais evidenciadas em numerosos livros, artigos e teses dedicadas ao tema (Isin e Turner, 2002).

Na Educação em Ciências de modo geral, inclusive no Ensino de Física, a cidadania é frequentemente citada, em geral, como uma das principais metas da Educação em Ciências (Santos e Mortimer, 2001). No entanto, argumentamos que a cidadania é mais frequentemente citada sem considerações pormenorizadas que permitam uma localização mais precisa da sua função na Educação em Ciências.

A cidadania constitui -se num conceito polissêmico e complexo do ponto de vista da sua dinâmica histórica e também do ponto de vista dos recursos teóricos que a envolvem. Assim, sua inserção na Educação em Ciências, um campo que emprega recursos teóricos polissêmicos (e enfrenta dificuldades advindas disto), precisa agregar elementos profícuos para o alcance de seus objetivos. Esta tarefa (inseri melhor as idéias de cidadania no contexto da pesquisa em Educação em Ciências) demanda esforços teóricos significativos e precisa ser colocada na agenda de pesquisa da área .

Diante da complexidade que envolve as idéias a cerca de cidadania, sua potencialidade enquanto recurso teórico em contato com a prática social e a sua significativa influência na Educação em Ciências, em particular na abordagem CTS, nosso objetivo neste trabalho é apresentar algumas características da cidadania em diferentes correntes teóricas, a partir r de autores da sociologia, realizando uma

comparação com abordagens da cidadania na Educação em Ciências com enfoque CTS.

Nosso objetivo será buscar caracterizar compreensões ou idéias de cidadania presentes nas discussões nos artigos de periódicos de Ensino de Física e de Ensino de Ciências e conhecer os elementos que aparecem nestas discussões de cidadania na subárea Ensino de Física de forma comparativa com o restante das subáreas da Educação em Ciências .

## Considerações teórico- metodológicas .

A partir de critérios de busca eletrônica, para os termos cidadania , ciudadanía e citizenship , selecionamos todos os artigos que citam um destes termos nos quatro periódicos objetos das análises (dois da área de Ensino de Física e dois mais gerais, da área de Ensino de Ciências), especificamente: Caderno Brasileiro de Ensino de Física, Revista Brasileira de Ensino de Física , Ciência e Educação e Revista Brasileira de Pesquisa em Educação em Ciências . Esta busca foi realizada para o intervalo de 2000 a 2010. Os intervrvalos efetivamente pesquisados estão indicados no quadro 1.

Quadro 1 - Distribuição os artigos selecionados e analisados (as referências completas dos artigos analisados encontram-se nas referências bibliográficas em "artigos analisados" ).

Os artigos localizados foram analisados a partir de leituras parciais a fim de identificar e agrupar os que tratavam de questões da cidadania, de forma mais detida, ou seja, com considerações mais densas em comparação com os demais artigos que atenderam ao critério da busca eletrônica, dentro do mesmo periódico.

Desenvolvemos uma análise micro -analítica destes artigos através dos Estudos em Cidadania (Citizenship Studies) desenvolvidos no campo da sociologia .

No quadro 2 apresentamos uma síntese das quatro principais teorias de cidadania, na abordagem sociológica. Resumimos as principais características da cidadania quando abordada mediante um enfoque sociológico, para que o leitor possa observar a diferença conceitual entre a abordagem sociológica e a abordagem dos artigos caracterizadores da amostra analisada.

Quadro 2 -As quatro teorias básicas acerca da cidadania - a partir de Janoski e Gran (2002).

## Resultados e discussões

De modo geral, a maioria dos artigos, conforme esperávamos, não utiliza recursos conceituais disponíveis na área da sociologia, como os exemplificados no quadro 2, ao fazer considerações acercada cidadania. Nos artigos específicos para a área de Ensino de Física, são mais raras considerações sobre cidadania que fujam de citações do documento do BRASIL (1999) e de uma noção de senso comum sobre a cidadania. Grande parte dos artigos que descartamos as análises citam a cidadania apenas no resumo ou até como palavra-chave sem, no entanto, dar tratamento as relações entre Educação em Ciências e cidadania ao longo do texto.

Nos artigos dos periódicos da área de Ensino de Ciências, há também uma grande quantidade de trabalhos que citam os parâmetros curriculares nacionais (BRASIL, 1999 e 2002) ao mencionarem a cidadania, também não ultrapassando uma noção comum de cidadania. No entanto é possível localizar algumas considerações, que comparadas com os demais artigos oferecem mais elementos para uma discussão mais aprofundada sobre a cidadania, mas que ainda não emprega recursos conceituais significativos.

Apresentamos, a seguir, os artigos que julgamos mais densos em se tratando da abordagem da cidadania para cada um dos quatro periódicos , selecionamos estes, pois caracterizam bem a amostra analisada dos artigos que mencionam a cidadania .

## Periódicos de Ensino de Física -- Caderno Brasileiro de Ensino de Física e Revista Brarasileira de Ensino de Física .

No Editorial do terceiro número de 2005 da Revista Brasileira de Ensino de Física (RBEF), Studart (2005) faz algumas considerações que envolvem a cidadania e o Ensino de Física. Em uma dessas considerações o autor considera o aspecto do direito social a educação. "Educação é um direito de cidadania e o Estado não pode abdicar dessa obrigação devendo estabelecer as condições para programas abrangentes de ensino nos níveis fundamental, médio e superior (STUDART, 2005, p. 311) " . Em outra consideração o autor considera a informação científica algo necessário para o "pleno exercício da cidadania". " A complexidade da Ciência demanda esforços crescentes no sentido de manter a população minimamente educada para o pleno exercício da cidadania, sobre o significado da Ciência e suas implicações sobre a tecnologia. " (p. 312) .

Uma noção bastante difundida das relações entre Educação em Ciências e cidadania, tanto nos artigos de Ensino de Física quanto nos artigos de Ensino de ciências, é a citação dos parâmetros curriculares nacionais. Por exemplo: Ainda na RBEF, Ricardo, Custódio e Rezende Jr. (2007, p. 136), citam Brasil (2002): " Compreender a ciência e a tecnologia como partes integrantes da cultura humana contemporânea e reconhecer e avaliar o caráter ético do conhecimento cientifico e tecnológico e utilizar esses conhecimentos no exercício da cidadania".

A aceitação de que o conhecimento é condição indispensável, mas não única, ao exercício da cidadania é também outra idéia associada a cidadania em grande parte dos artigos considerados. Dias, Balestieri e Mattos (2006, p. 11), por exemplo , afirmam que

[...] apresentamos neste trabalho um exemplo de como o conhecimento científico pode ser usado como um dos critérios para a

alteração de atitudes visando o uso racional de energia. Está claro que esse não é o único quesito para essa mudança daí a apresentação das limitações dos modelos apresentados mas é inegável que, apesar de não ser única, o conhecimento é condição para se exercer a cidadania em um mundo cujas decisões políticas, muitas vezes, ferem até o bom senso.

Os autores defendem que a mudança de racionalização frente ao uso da energia de forma mais ampla e não apenas ligada a produção de energia elétrica. Os autores apresentam uma problematização da questão do transporte unitário em automóveis, como um exemplo de problematização que favorece condições para o exercício da cidadania.

Para Carvalho Jr. (2002), aos poucos se percebeu que o Ensino de Física como mera aplicação de equações não abre espaço para questionamentos da estrutura social. O autor apresenta idéias a partir de Freire e D'Ambrosio, dentre outros e analisa práticas pedagógicas, demonstrando que recentemente apareceu uma tendência no Ensino de Física, permitindo que a prática docente se articula em um nível conceitual com a realidade dos alunos e assim passa a ser considerada também um momento de construção de valores éticos a respeito da utilização de recursos naturais e das tecnologias decorrentes. Assim, o autor conclui, por exemplo:

Saber Física passa a significar ter instrumentos conceituais para dialogar com o mundo em vários níveis, que vão desde um melhor entendimento de notícias científicas veiculadas pela mídia, até a capacidade de prever resultados de situações experimentais complexas, passando pela emissão de juízos de valor a respeito da utilização de uma dada tecnologia que pode agredir o meio ambiente e causar danos à humanidade. Nota-se, assim, que esta maneira de trabalhar a Física representa uma contribuição para a construção da cidadania, ajudando a formar pessoas críticas, reflexivas, com embasamento técnico para se posicionar e questionar posicionamentos diversos. (CARVALHO, JR. 2002, p. 56).

Araújo e Bastos Filho (2004) consideram que idéias como a crítica política de Chomsky e a epistemologia de Piaget ajudam a fundamentar o sentido das categorias "autonomia" e "cidadania", quando consideram, respectivamente, a importância da dignidade lingüística, única de cada indivíduo e a existência de conhecimentos prévios.

[...] não somos simplesmente registros simples de observações desprovidos de teorias prévias é de fundamental importância para nos encorajar, tanto para contestar a teoria da mente, como balde vazio (dos empiristas empedernidos), quanto para combater a da mente como balde cheio de conhecimento que já se encontrava na nossa alma imortal (tal como na teoria da reminiscência). Piaget e Chomsky têm razão quando nos ajudam a concluir que essas adoções filosóficas não são nada gentis com a nossa capacidade humana de sujeitos cognoscentes ativos [...]. E acreditar nisso é essencial para que categorias como autonomia e cidadania possam adquirir sentido.[...] [as estruturas de poder denunciadas] [...] por Chomsky em vários de seus ensaios políticos [mostram que tais] não contribuem para a paz e a justiça no mundo. No nosso modo de entender, essas estruturas de poder não estão em prol de um mundo saudável e sustentável e, muito menos, de uma cidadania planetária que implique a necessária autonomia, tanto ao que diz respeito aos povos, quanto no que se refere às pessoas, nas suas singularidades e anseios. (ARAÚJO e BASTOS FILHO, 2004, p. 371).

Trouxemos estes exemplos para ilustrar um resultado da análise dos artigos dos periódicos de Ensino de Física. Podemos perceber facilmente uma maior

criticidade dos artigos publicados no Caderno Brasileiro de Ensino de Física em relação aos publicados na Revista Brasileira de Ensino de Física.

## Periódicos de Ensino de Ciências -Ciência & Educação e Revista Brasileira de Pesquisa em Educação em Ciências

De modo geral, a maioria dos artigos dos periódicos de Ensino de Física apresentam uma abordagem da cidadania como elementos para uma justificativa do desenvolvimento de uma Educação em Ciências mantendo uma perspectiva da Ciência enquanto cultura.

Santos e Mortimer (2001) argumentam sobre a importância de se procurar desenvolver a capacidade de tomada de decisões na formação para a cidadania, não bastando para isso acrescentar informações sobre questões de Ciência e Tecnologia na tentativa de engajamento dos estudantes em questões sociais. Ainda segundo os autores, também não basta ensinar passos para que os estudantes tomem decisões. Para os autores, a educação para a cidadania precisa ultrapassar o ensino conceitual chegando a uma educação comprometida com a ação social responsável, na qual figuram preocupações com a formação de atitudes e valores.

No entanto Santos e Mortimer (2001) também salientam que a idéia de cidadania ainda não está bem esclarecida nos trabalhos com esse enfoque. Segundo os autores, falta, por exemplo, esclarecer que cidadão se pretende formar.

Angotti, Bastos e Mion (2001), tomando a perspectiva dialógica e libertadora da educação proposta por Paulo Freire, abordam a relação CTS como possibilidade de construção de uma conscientização em uma direção inversa ao determinismo tecnológico. A partir da escolha de objetos tecnológicos como objetos gerados de um conhecimento físico ressignificado, defendem a aprendizagem do funcionamento de objetos tecnológicos, mediante uma abordagem epistemológica e metodológica reflexiva sobre tais objetos, numa perspectiva educacional na qual educar é conscientizar e "conscientizar também é educar para a construção da cidadania" (p.190).

Santos e Mortimer (2001), apresentam em diversos parágrafos noções de cidadania que derivam de contribuições de abordagens CTS no Ensino de Ciências. Para os autores o principal objetivo das abordagens CTS é a "[...] formação da cidadania para uma ação social responsável." (p.95). Compreendem que a educação para a cidadania não apresenta soluções prontas para os estudantes, tampouco fórmulas para emissão de juízos, mas sua função é "[...] apontar os critérios negativos do juízo, permitindo ao indivíduo que ele determine o que é inaceitável. A decisão, no entanto, é do indivíduo inserido no grupo." (p.110). Os autores consideram ainda, que cursos de educação ambiental vinculados com processos reais de tomada de decisões desenvolvem dimensões de uma consciência ecológica que compõem uma cidadania planetária favorável "[...] formação de valores e atitudes para o desenvolvimento sustentável, o que contrasta com os valores consumistas que imperam na sociedade atual" (p.103).

Os autores destacam que para ocorrer uma Educação em Ciências para a Cidadania, comprometida com a tomada de decisões, é preciso ir além do ensino conceitual, rumo à formação de atitudes e valores, e para isso é necessário que as questões estejam diretamente vinculadas aos alunos, sendo colocadas em debate situações reais de natureza CTS. Por fim, alertam para o risco de aspectos ligados ao ensino de visões deformadas da ciência levar r a um ensino contrário aos valores

democráticos: " Uma educação científica que se pretende neutra é ideologicamente tendenciosa. Ela, ao invés de preparar o cidadão para participar da sociedade, pode reforçar valores contrários ao ideal de democracia e de cidadania, ao não questionálos." (p.107).

Moniz dos Santos (2004) enfatiza que "[...] mobilizar o ensino cognitivo de ciências no sentido da promoção da cidadania não é um simples devaneio inconsequente, é um ideal que se confronta com uma realidade didáctica que se pretende mudar - propósito deliberado da "concepção CTS de ensino das ciências". (p.77) . Moniz dos Santos (2004), ao tratar da cidadania nos materiais didáticos traz uma importante contribuição para a área de Ensino de Ciências ao tratar as relações pedagógicas entre cidadania e Ensino de Ciências. Neste artigo Moniz dos Santos (2004) apresenta uma matriz original para o dimensionamento da questão pedagógica e da cidadania na Educação em ciências.

Santos (2004) analisa as relações cidadania e educação, sugerindo uma "matriz tripartida" para a consolidação do projeto de "educação para a cidadania". Segundo a autora, a "educação para a cidadania" precisa se pautar numa matriz mais ampla com três componentes: - a educação para a cidadania, que consiste em "ensinar a cada potencial cidadão o indispensável que lhe permita torna-se cidadão de fato", ou seja, dar condições para uma leitura atenta da rerealidade social, para que tenha vontade de participar ativamente desta sociedade; - a educação em Cidadania que consiste na aquisição de uma "literacia política" e instrumentos e recursos vindos de aprendizagens ao longo de processos de que envolvam o exercício da cidadania; - e a educação pela cidadania (ou através da cidadania), que envolve o aprender fazendo (na prática cidadã), trata-se de uma abordagem experiencial, ou seja, a construção da cidadania através de atividades concretas que se relacionem dialeticamente com as outras duas componentes. Esta matriz tripartida é extensível tanto a Educação em/para/como pela ciência (Santos 2004).

Assim como Santos (2004), Farias e Carvalho (2007), utilizam recursos conceituais bastante significativos ao abordar a cidadania na Educação em Ciências , quando comparamos os elementos suscitados no artigo com o quadro 2. Farias e Carvalho (2007) têm como principal referencia para a sua discussão da questão do direito ambiental na Educação em Ciências a obra de T. H. Marshall, sintetizada no quadro teórico (quadro 2) e Santos (2004). Farias e Carvalho (2007) argumentam a favor da importância de se inserir na ação educativa ambiental a dimensão do direito ambiental, por sua complexidade e potencial de mobilização das questões científicas, sociais e éticas.

Já Teixeira (2003) desenvolve sua perspectiva de cidadania no Ensino de Ciências com enfoque CTS amparada na concepção humanista da Pedagogia Histórico -Crítica, que por sua vez, busca essa concepção na Economia Política marxista. Ao analisar pontos de convergência entre o "movimento CTS" e a Pedagogia histórico-crítica, passando por diversos autores que trabalham com a temática CTS,o autor conclui que, em se tratando da concepção de cidadania:

[...] há mais radicalidade nas proposições da Pedagogia HistóricoCrítica, pois ela não deixa dúvidas em suas asserções de que essa cidadania está diretamente vinculada a um movimento que busca sérias transformações na sociedade injusta e excludente que hoje se apresenta. (TEIXEIRA, 2003, p.184)

A defesa de uma cidadania amparada numa perspectiva revolucionária é uma preocupação do autor que a defende enquanto importante fundamento para a abordagem CTS na Educação em Ciências, para a sala de aula. Ao analisar a concepção de professores de ciências sobre cidadania em pesquisa empírica, Teixeira (2003) conclui que ao manter uma noção despolitizada da cidadania: "[...] A visão de cidadania desses professores não implica, necessariamente, a formação de agentes que organizadamente possam participar da construção de um novo modelo de sociedade." (p.187).

Acevedo et al (2005) e Praia, J.; Gil-Pérez, D. e Vilches, A. (2007) apresentam justificativas semelhantes para o Ensino da Natureza da Ciência, que perpassam a formação para a cidadania. Os autores enfatizam que numerosos especialistas em didática das ciências utilizam um argumento democrático para sustentar a idéia uma alfabetização científica e tecnológica para todos, com uma melhor compreensão da natureza da Ciência, "[...] permite tomar decisões mais refletidas sobre questões tecnocientíficas de interesse social, o que contribuiria para tornar mais possível a participação na cidadania." (p.4).

Acevedo et al (2005) especificam aspectos para uma Educação em Ciências atenta a natureza da Ciência enquanto elemento curricular, destacando diferentes contextos de contato da Ciência, da Tecnologia e da cidadania voltada para a tomadas de decisões em sociedade em diferentes situações.

Por exemplo, se o que se pretende é educar para tomar melhores decisões cívicas no mundo atual - educação para a participação na cidadania na sociedade civil - , possivelmente é mais importante conhecer os aspectos da natureza da tecnociência que os da ciência acadêmica, pois, sem dúvida, a primeira é a que mais afeta a sociedade; para pequenas decisões da vida cotidiana, certamente é essencial uma melhor compreensão da natureza correspondente à tecnologia do tipo menos sofisticado; para satisfazer necessidades estéticas pessoais, poderia ser mais interessante o conhecimento da natureza da ciência acadêmica. (p.7)

Vieira e Vieira (2005) ao discutirem a construção de práticas didáticopedagógicas com orientação CTS, passam ao longo de texto por diversas noções de cidadania associando -as a uma Educação Científica com enfoque CTS. Inicialmente os autores enfatizam que o desenvolvimento de uma cidadania responsável, no âmbito de competências pessoais e sociais que possibilitem ao cidadão lidar com problemas de aspecto científico-tecnológico, está diretamente orientado para a perspectiva CTS (VIEIRA e Vieira, 2005, p. 192). Na sua revisão de literatura, os autores apresentam ainda idéias que contém elementos conflitantes acerca da função da literacia científica combinada com a cidadania, citando outros autores:

A ênfase atribuída à literacia científica nesta mudança de milênio deve-se, por um lado, à velocidade em que se produzem as novas revoluções científicas e, por outro, à incidência que a ciência e a tecnologia têm na configuração de uma cidadania responsável capaz de atuar r com poder na recondução de movimentos sociais (p.193).

Por outro lado, os autores apresentam a seguinte idéia: "defende-se, ainda, que a literacia científica é um componente importante no mundo do trabalho e, conseqüentemente, no crescimento econômico em um quadro de cidadania efetiva e responsável." (VIEIRA e Vieira, 2005, p. 193). Entendendo que em geral, muitos movimentos sociais com origem na sociedade civil organizada se opõem a um simples "crescimento econômico", reivindicando mais do que isso, e até acima disso,

um "desenvolvimento sustentável", concluímos que em princípio trata-se de cidadanias vistas com diferenças importantes.

Cassab (2008) considera que as discussões acerca da Ciência e Tecnologia na democracia precisam ser enfáticas ao evidenciar que os trabalhos científicos e tecnológicos são desenvolvidos em meios sociais com condicionantes humanos, políticos, ideológicos e econômicos. Neste sentido, desautorizar o cidadão comum a agir, tomar decisões e intervir na pauta de trabalho dos especialistas, significa produzir uma forma de compreensão da ciência oposta às formas democráticas de interação da ciência com os cidadãos.

Ainda segundo Praia, Gil-Pérez e Vilches (2007), é preciso analisar com cuidado os argumentos contrários à possibilidade de uma educação científica capaz de tornar os cidadãos melhor preparados para tomadas de decisões tecnocientífica, citando exemplos reais desse processo em que a participação de cidadãos com uma visão da Ciência norteou caminhos que se mostraram promissores e adequados. Ressaltam que a educação científica para a cidadania "se impõe como uma dimensão essencial de uma cultura de cidadania, para fazer frente aos graves problemas com que há de enfrentar-se a humanidade hoje e no futuro" (p. 145).

Os autores também argumentam que os profundos conhecimentos específicos dos especialistas não garantem a adoção de decisões adequadas, mas vem exigir que se leve em conta perspectivas mais amplas, que avaliem repercussões a médio e em longo prazo sob o olhar de vários campos do conhecimento. Neste sentido, argumentam que os "não especialistas" podem acrescentar contribuições mais significativas ao apresentarem perspectivas e interesses mais amplos, levando em conta atitudes e valores, mas ressaltam a necessidade de um mínimo de conhecimentos científicos específicos sobre a problemática em questão para que seja possível compreender as opções que estão em questão e fundamentar decisões.

## Considerações finais

Comparando os elementos do quadro teórico (quadro 2 -Janoski e Gran (2002)) vemos que, de modo geral, tanto na sub-área de Ensino de Física como nas demais sub -áreas da Educação em Ciências, as categorias que emergem ao ser considerada a cidadania não são relacionáveis diretamente com as categorias centrais da cidadania nos "citizenship studies". As categorias centrais nos "citizenship studies" são: Indivíduo e consenso; Grupos; Direitos e obrigações; Instituições políticas; Comportamento ideal (ou resultados esperados). Nos artigos de Ensino de Física as categorias que mais emergiram ao se falar em cidadania foram: Direito social à educação; direito à informação científica; compreensão da ciência e tecnologia; ética na utilização de recursos naturais; autonomia (crítica política); questionamento da estrutura social, compreensão das veiculações da mídia. Já nos periódicos de Educação em Ciências, as categorias mais recorrentes foram: ação social responsável; atitudes e valores; "conscientização"; participação em tomadas de decisões CTS; dimensionamento pedagógico para Educação em Ciências; direito ambiental; politização; decisões para o futuro da humanidade. De modo geral, em ambos os casos, consideram-se muitas categorias, ou ainda, há uma dispersão de categorias.

As referencias a cidadania nos artigos das revistas de Ensino de Física, são bastante básicas em relação as referencias encontradas nos artigos de periódicos da área de Ensino de Ciências. Porém, em ambos os casos estes elementos não se

aproximam significativamente de referenciais da sociologia, apresentados no quadro 2, com exceção para o artigo de Moniz dos Santos (2004) e Farias e carvalho (2007) .

A partir das leituras nos foi possível perceber diferentes compressões de cidadania no contexto da educação científica as quais procuramos ilustrar com alguns exemplos. O critério de escolha para trazer aqui estas referências foi em razão da necessidade que sentimos de providenciar algum nível de sistematização dessas idéias, buscando-se uma compreensão mais ampla no sentido de permitir, numa apresentação breve, a identificação de um cenário com uma diversidade de compreensões, as quais ainda não temos indícios de convergência a não ser sob seus aspectos mais óbvios, tais como a necessidade da cidadania estar em pauta, a pertinência dessa discussão no contexto social e da crise ambiental, do consumo exacerbado etc., segundo a ênfase de cada autor.

Assim, parece relevante avançarmos nos estudos acerca da cidadania, mas sem perder de vista os recursos conceituais já disponíveis no campo dos estudos em cidadania na área de sociologia, como forma se evitar uma perda de sentido para a meta da Educação em Ciências para a cidadania, tanto no Ensino de Física como no Ensino de Ciências, de modo geral.

## Referências Bibliográficas

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## Artigos citados e analisados

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