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RECURSOS AUDIOVISUAIS COMO TEMÁTICA DE PESQUISA EM ENSINO DE FÍSICA EM PERIÓDICOS BRASILEIROS

Marcus Vinicius Pereira, Luiz Augusto Coimbra De Rezende Filho

Evento
Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
Edição
XII
Ano
2010
Data
26/10/2010
Linha de pesquisa
Questões Teórico-Metodológicas E Novas Demandas Na Pesquisa Em Ensino De Física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## RECURSOS AUDIOVISUAIS COMO TEMÁTICA DE PESQUISA EM ENSINO DE FÍSICA EM PERIÓDICOS BRASILEIROS

## AUDIOVISUAL RESOURCES AS A PHYSICS EDUCATION RESEARCH TOPIC IN IN BRAZILIAN JOURNALS

Marcus Vinicius Pereira 1 , Luiz Augusto Coimbra de Rezende Filho 2

1 Instituto Federal do Rio de Janeiro/Campus Maracanã, marcus.pereira@ifrj.edu.br

2

Universidade Federal do Rio de Janeiro/NUTES, luizrezende@ufrj.br

## Resumo

Este trabalho apresenta um levantamento de artigos da área de Ensino de Física , publicados em nove periódicos brasileiros nos últimos dez anos (2000-2009), os quais tenham como temática de pesquisa os recursos audiovisuais (RAV). Ainda que não se apresente com especial destaque, o audiovisual vem despertando o interesse de diferentes grupos: elaboradores de material didático, professores e pesquisadores etc. De um universo de quase dois mil artigos, nove trabalhos foram selecionados e apresentados com seus respectivos tópicos de pesquisa, tais como propostos por Tsai e Wen. Os artigos foram analisados à luz das questões de pesquisa, dos referenciais teóricos (principalmente se são da área de cinema, vídeo, audiovisual ou Comunicação), das recomendações de uso, e da concepção de audiovisual (explícita ou implícita). Os resultados da análise mostraram que a maior parte dos trabalhos não se caracteriza como pesquisa, e a implícita concepção de audiovisual indica que seu uso é considerado na perspectiva da instrumentalidade. Todos os artigos trazem algum tipo de recomendação para uso de RAVs, a maioria de caráter técnico. Não foram identificados questionamentos sobre problemas estéticos, históricos, epistemológicos ou culturais do audiovisual quando usados em situações de ensino-aprendizagem. Entre as conclusões, é possível dizer que a área de Ensino de Ciências carece de um diálogo mais estreito com referenciais teóricometodológicos do audiovisual, do cinema, ou da área de Comunicação, considerados relevantes ao se ter como temática de pesquisa o RAV. Nessa perspectiva, sugerem-se alguns referenciais que podem informar estudos, como a análise fílmica, a semiopragmática do cinema, os estudos culturais, e a teoria da recepção .

Palavras -chave: revisão de literatura; ensino de Física; audiovisual.

## Abstract

This text presents a survey of Physics Education papers whose main research subject are audiovisual resources (AVR). These papers have been published in the last ten years (from 2000 to 2009) in nine different Brazilian journals. Although audiovisual may not yet be considered an especially salient research subject, the interest of different groups, such as developers of teaching materials, teachers and researchers, has increased in the last decades. Nine papers, and their respective research topics (as proposed by Tsai and Wen), were selected from a

sample of about two thousand papers. The papers were analyzed in order to gather information about their research questions, theoretical frameworks (especially if they are located in the field of cinema, video, audiovisual or communication), recommendations of usage, and audiovisual conception (explicit or implicit). The results of the analysis indicate that most of the papers cannot be characterized as research, and the implicit audiovisual conception is located in the perspective of the instrumentality of its usage. The papers bring some recommendations about forms of using ARV in Physics classes, mostly technical. There is not much problematization of the aesthetic, historical, epistemological or cultural issues related to ARVs when used in teaching and learning. Among the conclusions, it is possible to state that Science Education needs a closer interchange with audiovisual, cinema and/or communication theoretical and methodological frameworks. In order to accomplish, in the future, such interchange and to inform Physics Education studies, some relevant frameworks are suggested, such as film analysis , semio -p -pragmatics of cinema , cultural studies and theory of reception .

Keywords: literature review; physics education; audiovisual.

## 1. Introdução

A pesquisa em Ensino de Ciências no Brasil tem acolhido, especialmente nos últimos anos, diversas temáticas que se articulam às questões e problemas mais fundamentais e característicos da área. Um levantamento exploratório em periódicos e atas de eventos pode mostrar como muitos temas (formação de professores, educação não-formal, material didático, tecnologia, interações discursivas, entre outros) e áreas de conhecimento (Psicologia, Sociologia, História e Filosofia da Ciência, Estudos da Linguagem, entre outras) têm sido integrados à pesquisa da área em uma perspectiva multidisciplinar.

Nesse sentido, ainda que não se apresentem com especial destaque, os recursos audiovisuais (RAVs) vêm despertando o interesse de pesquisadores como uma temática relevante. Tal afirmativa, no entanto, carece de constatação. O trabalho de Santos e Arroio (2008) é um dos poucos encontrados que objetiva a identificação de tendências no ensino de Química em relação ao uso de recursos audiovisuais. Os autores realizaram um levantamento quantitativo e analítico dos trabalhos apresentados em cinco edições do Encontro Nacional de Pesquisa em Educação em Ciências (ENPEC), promovido pela Associação Brasileira de Pesquisa em Educação em Ciências (ABRAPEC), entre 1997 e 2005, identificando dados sobre data de publicação, nível escolar abrangido nas pesquisas, região brasileira e foco temático.

Levando em consideração a importância de se conhecer melhor as características de pesquisas em Ensino de Física envolvendo RAVs, o presente trabalho apresenta os resultados de uma revisão de literatura realizada nos periódicos brasileiros mais relevantes da área 46 da CAPES - Ensino de Ciências e Matemática - e de melhor avaliação Qualis. Tem-se como objetivos principais investigar as inter-relações construídas (ou em fase de construção) entre a área de Ensino de Física e os recursos audiovisuais e analisar como a área tem pensado, compreendido e/ou se apropriado do audiovisual como temática de pesquisa.

Dessa forma, esse levantamento visa à identificação de aspectos e dimensões do audiovisual que têm sido destacados e privilegiados nas pesquisas, à presença de contribuições teóricas e metodológicas do campo do audiovisual e/ou da Comunicação para tratar de temas afins à área, e à sinalização de eventuais lacunas. O audiovisual (que engloba cinema, televisão e vídeo), e, sobretudo, a Comunicação, constituem-se como áreas de conhecimento já consolidadas, e que, por esse motivo, poderiam contribuir a pesquisas da área de Ensino de Ciências.

## 2. Metodologia

Os trabalhos de revisão da literatura têm sido reconhecidos face ao "caráter inventariante e descritivo da produção acadêmica e científica sobre o tema que busca investigar" (FERREIRA, 2002, p.258).

A compreensão do estado de conhecimento sobre um tema, em determinado momento, é necessária no processo de evolução da ciência, afim de que se ordene periodicamente o conjunto de informações e resultados já obtidos, ordenação que permita indicação das possibilidades de integração de diferentes perspectivas, aparentemente autônomas, a identificação de duplicações ou contradições, e a determinação de lacunas e vieses. (SOARES, 1989 apud FERREIRA, 2002, p.259)

As possibilidades de elaboração de um trabalho de revisão de literatura no qual se pretende definir o estado da arte são inúmeras, já que a delimitação pode ser feita em artigos publicados em periódicos, trabalhos publicados em anais de eventos, dissertações e teses de programas de pós-graduação, ou ainda em uma combinação desses. A primeira etapa em levantamentos dessa natureza é aquela em que o pesquisador deve interagir com a produção acadêmica da área por meio da quantificação e identificação de dados bibliográficos com o objetivo de mapear essa produção em período e local definidos (FERREIRA, 2002, p.265).

Em acordo com essa perspectiva, o universo de pesquisa delimitado nesse trabalho, quanto ao local, foram os periódicos nacionais da área de Ensino de Ciências, e quanto ao tempo foi o período compreendido entre os anos de 2000 e 2009, perfazendo os dez (10) últimos anos de produção acadêmica.

- O levantamento foi realizado em nove (9) periódicos, listados na Tabela 1 a 1 seguir, juntamente com um código identificador e suas avaliações Qualis CAPES 1 para a área de Ensino de Ciências e Matemática (ECM) e para a área de Educação (ED). Foram excluídos periódicos cuja área explícita fosse outra que não Física ou Ciências (Matemática, Saúde, Astronomia etc.), assim como todos os periódicos de extrato Qualis equivalente a C. Na tabela, também são apresentados os volumes de cada periódico (Vol.) para o período 2000-2009 com a respectiva quantidade de números (Núm) e de artigos (Art.) que compuseram o universo pesquisado.

Tabela 1 - Periódicos pesquisados.

Os periódicos foram pesquisados em suas versões online, e o critério de busca foi a presença nos títulos ou resumos dos artigos 5 dos termos cinema (cinematográfico), vídeo, audiovisual (audiovisivo), filme (filmar, filmagem), imagem (imagético) ou televisão (TV, televisivo), considerados relevantes em trabalhos que abordem a temática de RAVs. Esses termos também foram buscados com flexão de número e de gênero, quando possível.

## 3. Resultados

O mecanismo de busca utilizado retornou muitos artigos que constavam nos resultados apenas pelo fato do termo vídeo, em geral mencionado no resumo, referir -se ao método de vídeo -gravação utilizado pelo pesquisador, ou apenas a menção do termo vídeo como recurso de informática. A leitura dos resumos permitiu fazer a exclusão desses artigos, assim como a seleção daqueles que abordavam especificamente a temática dos RAVs no ensino de Física. O Quadro 1 abaixo apresenta o título, o(s) autor(es), o ano e o periódico em que foi publicado cada um dos nove (9) artigos considerados na análise subsequente.

Os artigos selecionados, doravante referenciados pela letra identificadora na primeira coluna do quadro acima, concentram-se na Revista Brasileira de Ensino de Física (RBEF) e no Caderno Brasileiro de Ensino de Física. Salienta-se que apenas quatro (4) artigos, retornados nos mecanismos de busca, apresentavam como temática de pesquisa os recursos audiovisuais relacionados a outras ciências da natureza, que não a Física propriamente dita, o que indica carência dessa temática nas pesquisas da área de ensino de ciências.

Quadro 1 - - Artigos selecionados.

## 4. Tópicos de Pesquisa

Os artigos foram classificados em seu principal tópico de pesquisa. Os tópicos apresentados são uma adaptação dos propostos por Tsai e Wen (2005) em um trabalho que analisou artigos em três dos mais importantes periódicos da área 6 de ensino de Ciências 6 , em consonância com as temáticas dos principais eventos brasileiros da área. O Quadro 2 a seguir mostra a quantidade de artigos classificados em cada tópico. Chama-se atenção para a ausência de trabalhos em três tópicos de pesquisa: Políticas Públicas, Currículo e Avaliação; Abordagens Cultural, Social e de Gênero; Educação Não-Formal.

Quadro 2 - - Classificação dos artigos por tópico de pesquisa

A seguir, é feita uma discussão dos artigos, a partir da leitura completa dos mesmos, segundo o tópico em que foram classificados.

## 4.1. Formação de professores

- O artigo I, único classificado nesse tópico, faz referência à exibição de vídeos em programas de formação inicial ou continuada de professores. Em apenas três páginas é relatada a utilização de trechos do filme Sonhos de Kurosawa , exibidos para estudantes de licenciatura e para professores de Física em serviço, como mediadores da reflexão sobre ciência e seus papéis em nossa sociedade. O autor afirma que os RAVs trazem a possibilidade de troca de opiniões entre pares e podem "abrir caminho" para outras atividades.

## 4.2. Ensino -aprendizagem/recursos

A utilização de RAVs no processo educativo para exposição de um tema, acompanhado ou não de uma estratégia, reflete a preocupação de autores que consideram o audiovisual como recurso em sua essência, ou seja, sob a perspectiva da instrumentalidade, considerando o vídeo "apenas como mais um recurso didáticopedagógico", "animador da velha educação, que rapidamente se desfaz, uma vez que o encanto pela novidade também deixa de existir" (PRETTO, 2005, p.112).

- O artigo C discute a função dos RAVs, ao partir do pressuposto que a sociedade contemporânea se caracteriza pelo uso do som/imagem, mas isso não significa que os alunos saibam olhar um filme só porque estão acostumados a ver televisão. Uma seção, que ocupa metade do artigo, dedica-se à prescrição do uso de RAVs na escola, com regras gerais, uso adequado do vídeo e da televisão, uso do retroprojetor e transparências, do projetor de slides s e de recursos multimídias. Não é clara a relação entre tal prescrição e o quadro teórico apresentado (Piaget, Vygotsky e Ausubel). Como conclusão, o autor menciona que pretendeu ajudar o professor a melhor decidir sobre a utilização ou não de recursos audiovisuais e, em decidindo utilizá -los, deles tirar melhor proveito.

A produção de um vídeo sobre refração da luz a partir de cenas de outros vídeos didáticos e a sua utilização em turmas de ensino médio é relatada no artigo B. Os autores pressupõem que a escola está defasada quanto ao uso de novos recursos tecnológicos e que esses seriam de importante contribuição para a interação professor/aluno/material didático. A ideia geral é verificar a importância do uso de RAVs em atividades de ensino e avaliação da aprendizagem de Física com tais recursos.

No artigo F apresenta-se uma proposta de produção e divulgação de filmes educativos de curta metragem. É feito um breve histórico sobre os vídeos feitos por projetos internacionais, como o PSSC, entre outros. Os autores discutem a vantagem do uso de animações para compor vídeos de curta duração, afirmando, sem fundamentação, que a popularização dos recursos eletrônicos permitiu o aumento da produção de vídeos nas escolas.

Os autores do artigo G relatam a utilização de trechos de filmes cinematográficos como elemento motivador para o ensino de fluidos. Relata-se a aplicação da proposta e a avaliação qualitativa da experiência, mencionando, ao final, que não há diferença significativa ao comparar os resultados das provas escritas entre turmas experimentais e de controle. Os autores apresentam como principal conclusão, sem fundamentação, o maior interesse e motivação dos alunos

para estudo da Física, além de passarem a adotar uma postura mais crítica como espectadores de filmes.

## 4.3. Ensino -aprendizagem/processo

Esse tópico de pesquisa relaciona-se a ideia do audiovisual sob a perspectiva da fundamentalidade, na qual se objetiva aguçar a imaginação do estudante por meio de uma nova forma de pensar e agir (PRETTO, 2005). Nessa perspectiva o espaço escolar é visto como um centro irradiador de conhecimento e o professor como um articulador, um comunicador de diversas fontes de informação.

No artigo E discute-se as possibilidades de uso do vídeo de forma complementar às atividades escolares, em especial no laboratório didático de Física, com a criação de vídeos digitalizados e análise das cenas por meio de softwares específicos. Porém, os autores não apresentam resultados de pesquisa realizada em sala de aula. Ao final, apontam como satisfatórios os resultados obtidos com o programa desenvolvido para a análise de imagens, considerando-o uma ferramenta bastante interessante para uso didático.

Os artigos D e H apresentam uma alternativa para o estudo de movimentos através da captação da imagem com câmeras digitais com função filmadora: o primeiro em situações clássicas no estudo da mecânica e o segundo em dois casos especiais. Ambos sugerem a utilização, pelos alunos, do programa VirtualDub 7 7 para manipulação dos vídeos obtidos, e o artigo D apresenta também a possibilidade de criação de fotografias estroboscópicas, objeto de estudo do trabalho, através do 8 programa ImageJ 8 .

## 4.4. História, filosofia, epistemologia e natureza da ciência

As visões de ciência presentes em desenhos animados são investigadas no artigo A, no qual se discute essas representações como alternativa para o debate sobre a construção do conhecimento científico em sala de aula. É feita uma análise documental, a luz de pensadores da Filosofia da Ciência, de alguns episódios dos desenhos Jimmy Nêutron e O Laboratório de Dexter. r. Como conclusão, sugere-se o uso de desenhos animados, pois podem motivar r a discussão sobre o papel da ciência por meio das visões veiculadas nos meios de comunicação.

## 5. Análise

Para se entender como pesquisas da área de Ensino de Física concebem o audiovisual, analisaram-se as questões de pesquisa que caracterizam os artigos, os referenciais teóricos utilizados (principalmente se são da área de cinema, vídeo, audiovisual, ou Comunicação) e a concepção de audiovisual presente ou implícita nos artigos. Como foram encontradas com frequência, também analisaram-se as recomendações sobre o uso de RAVs feitas pelos autores.

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## 5.1. Questões de pesquisa

Dos nove artigos analisados, seis não se caracterizam como trabalhos de pesquisa e/ou não apresentam questões claras de pesquisa, e os outros três desenvolvem parcialmente, com maior ou menor clareza, algumas questões ao longo do texto.

O artigo I é um relato de experiência de exibição de filme, no qual se supõe um caráter intrinsecamente motivador das atividades com vídeo, sem que, no entanto, essa conclusão seja fundamentada. Os artigos D, E, F e H são relatos de experiências de desenvolvimento de produção de vídeos ou de softwares que utilizam RAVs, tendo como objetivo apresentar a aplicação de um recurso tecnológico em aulas de Física. O artigo G, ao fazer uso de trechos de filmes, também se caracteriza como uma experiência de ensino, porém são expostas algumas preocupações quanto ao ensino-aprendizagem no que diz respeito à motivação dos alunos e à promoção do entendimento do mundo físico.

As questões de pesquisa situadas em três artigos colocam-se claramente no âmbito do ensino de Física. No artigo C busca-se entender qual o papel dos RAVs no ensino -aprendizagem de ciências, o que, segundo o autor, implica em saber a melhor forma de usá -los e para quê, relacionados, a partir do referencial vygotskyano, à influência de fatores culturais. Em B são apresentadas, como conclusão, algumas contribuições dos RAVs para a aprendizagem, demonstradas, no entanto, por meio de resultados quantitativos sem tratamento estatístico e sem relação com um quadro teórico específico. Apesar de o artigo A manter a questão do ensino -aprendizagem como um problema de fundo, uma questão mais específica é posta: a representação do cientista em desenhos animados. Os artigos A e C se organizam mais como ensaios do que como trabalhos de pesquisa, já que expressam pontos de vista, apresentados de forma mais ou menos clara, sem uma necessária fundamentação.

## 5.2. Referenciais teóricos

Em nenhum dos artigos foi encontrado um referencial teórico da área de cinema, vídeo ou audiovisual, mas foram encontradas três referências da área de Comunicação: em A, dois autores nacionais que estudam a televisão - Leal Filho (2006) e Rocco (1999); em C, M. McLuhan (1968), mas para criticar o autor e não como referencial teórico. Os dois artigos que se aproximam mais diretamente da análise de filmes, A e I, não apresentam um referencial conceitual ou de análise que se refira ao audiovisual. Também são encontrados nos artigos, ainda que nem sempre utilizados como referencial, autores consagrados como Vygotsky, Ausubel, Bachelard, Kuhn, entre outros.

Por outro lado, foi possível notar que os artigos B, C, E e F foram citados por autores de alguns dos outros artigos analisados, o que indica um tipo de autoreferência no que diz respeito ao modelo teórico (ou ausência desse) de alguns trabalhos da área de Ensino de Física que abordem RAVs. Não se acredita, no entanto, que tais trabalhos representem referenciais teóricos consolidados e próprios da área de ensino de Ciências para estudos que visem à abordagem do audiovisual.

## 5.3. Concepção de audiovisual

Em geral, a concepção de audiovisual presente nos artigos não é clara, limitada a considerações sobre o uso dos RAVs, baseadas em pressuposições que

não são respaldadas por resultados de pesquisa. Nessa linha, há autores que salientam, por exemplo, o potencial motivador do audiovisual, e sua capacidade de estimular e despertar o interesse dos alunos (B, G, H e I). Outros autores veem os RAVs como veículos para apresentação/ilustração de conteúdos, favorecendo sua compreensão (B, C, D e F). Percebe-se também uma visão que enfatiza a dimensão técnica do RAV em trabalhos que fazem recomendações sobre produção e/ou utilização (C, D, E, F, G e H). No artigo C (e de forma implícita em D) apresenta-se uma definição do audiovisual como representações bidimensionais que codificam a realidade.

Pode -se considerar que todos os artigos caracterizam-se por uma concepção instrumental dos RAVs, ou seja, uma "ferramenta útil e versátil" no ensino da Física, já que o objetivo principal da apropriação é a instrumentalização para alguma função pedagógica. Apesar de não serem incomuns trabalhos que transpareçam uma visão instrumental de outros recursos (informática, jogos etc.), acredita -se que tal visão, pelo menos em relação ao audiovisual, limita as possibilidades do recurso em suas especificidades. Isso conduz a uma pseudoigualdade do potencial de recursos distintos, como, por exemplo, o vídeo e a informática, ideia presente no artigo E no qual o audiovisual é considerado como mais um recurso multimídia.

A ausência de um questionamento e de uma visão acerca da especificidade dos meios audiovisuais indica que, na área de Ensino de Física, esses meios são compreendidos como um instrumento já conhecido, cujas relações entre concepção e utilização não precisam ser discutidas ou problematizadas como objeto de reflexão do pesquisador ou do professor. Nessa compreensão há implícita a visão de que imagens são transparentes e permitem um acesso direto à realidade.

## 5.4. Recomendações

Todos os artigos apresentam alguma recomendação sobre o uso de RAVs, dirigida, com maior ou menor ênfase, ao professor. Em seis artigos, no entanto, essas recomendações são predominantemente técnicas, ainda que, em alguns casos, combinadas a algumas recomendações pedagógicas. Seções inteiras do artigo C são dedicadas a recomendações e regras técnicas sobre o que o professor deve ou não fazer em se tratando de RAVs em aulas de ciências. O autor enumera procedimentos que dizem respeito, por exemplo, à disposição das carteiras, à posição da tela, à verificação prévia do equipamento disponível, ou ainda, às orientações sobre a necessidade de passar o vídeo duas vezes e/ou aplicar uma ficha de análise do vídeo para garantir a assimilação do conteúdo.

Nos artigos D, E, F e H são feitas recomendações técnicas tais como cuidados com a produção do vídeo (os passos fundamentais para a produção) e/ou especificações técnicas de softwares e equipamentos. Os autores do artigo G citam recomendações presentes em C, D e F.

Nenhum artigo apresenta qualquer consideração sobre questões estéticas da produção de vídeos, como as possibilidades de variados usos de recursos de expressão e composição audiovisual ou as consequências estéticas da escolha entre essas alternativas. A dimensão estética, inerente à produção de uma obra audiovisual, parece ser negligenciada ou minimizada nas pesquisas apresentadas nos artigos analisados, seja porque tal dimensão é considerada irrelevante, seja pela dificuldade de relacioná -la aos interesses/objetos de pesquisa.

Recomendações pedagógicas, difusas e fragmentadas, podem ser encontradas em A e I com a sugestão de uso de filmes (ou trechos) para suscitar discussões e despertar a motivação dos alunos. Em B há citação de C ao destacar a necessidade de participação ativa e de preparação do professor para o uso do vídeo, bem como para advertir que um vídeo não deve ser o único recurso didático presente nas aulas de Física.

A ênfase nas recomendações, sejam elas técnicas ou pedagógicas, sugere que, de forma geral, considera-se a formação do professor deficiente para uso de RAVs. Em parte, o papel dos artigos fica dividido entre a apresentação de concepções sobre a pedagogia de um RAV e a de recomendações sobre seu uso.

## 6. Considerações Finais

Os artigos analisados parecem não refletir uma situação consolidada da pesquisa em Ensino de Física sobre recursos audiovisuais, seja porque, na maior parte dos casos, os trabalhos não apresentam claramente questões de pesquisa, seja porque precisam adotar uma visão geral em que é necessário, em cada trabalho, retomar, do princípio, os fundamentos que orientam a pesquisa sobre a temática, como um constante "recomeçar do zero".

A maior parte dos artigos concebe o audiovisual em sala de aula como recurso auxiliar do processo de ensino-aprendizagem em aulas teóricas, refletindo uma visão instrumental. Todos associam aos RAVs maior interesse e motivação por parte dos alunos e, por essa razão, recomendam sua utilização pelo professor.

- O uso de um recurso como o vídeo no processo educativo e a pesquisa sobre esse uso, quando privilegiam somente a perspectiva da instrumentalidade, não levam em consideração um contexto escolar em que o aluno poderia ser visto como ator social, sujeito interativo, participante e colaborador, e não como sujeito passivo. A ênfase no conteúdo dos vídeos, presente nos trabalhos analisados, é um indicativo dessa visão instrumental recorrente.

A eficiência da aprendizagem com os RAVs limita-se à afirmação de que estes funcionam ou têm seu uso aprovado pela maioria dos alunos, não se preocupando em entender, por exemplo, porque e/ou como funcionam, ou se há relações com a composição ou escolhas estéticas dos vídeos ou com o contexto cultural em que a aprendizagem ocorre. Não se questiona a existência de problemas estéticos, históricos, epistemológicos ou culturais nos RAVs utilizados didaticamente.

As considerações anteriores sugerem uma falta de interdisciplinaridade entre questões e referenciais teóricos do Ensino de Ciências e do campo teóricometodológico do audiovisual. Não se encontra, por exemplo, um referencial claro que identifique sob que perspectiva se concebem os RAVs. Os conhecimentos produzidos pelas áreas do audiovisual e da Comunicação poderiam contribuir aos trabalhos da área de Ensino de Física com aportes teórico-metodológicos que consolidariam a temática de pesquisa em questão.

Nessa perspectiva, estudos que, por exemplo, se dediquem à produção e/ou análise de materiais audiovisuais disponíveis na mídia poderiam ser informados por referenciais de análise fílmica, que iluminariam questões relativas à estética e à

construção da linguagem/significação audiovisual. Estudos sobre a inserção de RAVs em contextos educativos poderiam utilizar referenciais que tratam da questão do espectador (o aprendiz como espectador), entre eles a semiopragmática do cinema, que estão relacionados ao modo como os filmes constroem o espectador e/ou ao modo como espectadores constroem e/ou subvertem os filmes segundo diferentes atitudes de leitura em diferentes contextos de recepção audiovisual. A sala de aula poderia, nesse sentido, ser estudada como espaço de recepção, e, nessa perspectiva, situam-se referenciais dos estudos culturais s e da teoria da recepção, que poderiam contribuir às questões relacionadas ao consumo do audiovisual.

A área de Ensino de Ciências ainda não dialoga de forma consistente com um conhecimento externo ao tratar de questões referentes ao audiovisual, como acontece, em alguma medida, com outras temáticas de pesquisa que se aproximam mais de áreas de conhecimento como Psicologia, Linguística, Sociologia, entre outros. Entende -se que, ainda que a busca não tenha sido feita em todos os periódicos da área de Ensino de Ciências, os artigos dos periódicos selecionados constituem uma amostra representativa. Por outro lado, uma compreensão mais ampla das questões aqui discutidas remete a uma ampliação a outras esferas da produção acadêmica. Abordagens dos RAVs também podem estar presentes em artigos publicados em periódicos das áreas de Educação, Comunicação ou Tecnologia Educacional. Há ainda necessidade de realizar a busca em periódicos internacionais e em trabalhos de eventos da área.

## 7. Referências

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