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Participação de mulheres na ciência: explorando opiniões de docentes universitários de física do Rio de Janeiro.

Daniel De Azevedo Silva, Cristiano B. Moura., Andreia Guerra

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XXII
Ano
2017
Data
25/01/2017
Linha de pesquisa
Equidade, Inclusão Social E Estudos Culturais E O Ensino De Física
Tipo
Pôster

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Texto completo

## Participação de mulheres na ciência: explorando opiniões de docentes universitários de física do Rio de Janeiro

## Daniel de Azevedo Silva , Andreia Guerra , Cristiano B. Moura 1 2 3

- 1 Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca (CEFET/RJ) - Campus Petrópolis, Curso de Lic. Física, danieldeazevedosilva@gmail.com
- 2 Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca (CEFET/RJ) - Campus Maracanã, Depto de Pesquisa e Pós-Graduação, aguerra@tekne.pro.br
- 2 Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca (CEFET/RJ) - Campus Petrópolis, Depto. Ensino Médio / Depto. Lic. Física, cristiano.moura@cefet-rj.br

## Resumo

Estudos recentes mostram a baixa participação feminina na ciência e na física, em particular. Essa realidade tem sido associada por vezes ao ensino de física e sua divulgação que moldam em certa medida as representações sociais que se fazem dos cientistas. Pesquisadores defendem que a ciência é por si só uma construção cultural e social tendo em vista não ser possível ao cientista destituir-se de valores e crenças para fazer ciência. Por isso, as predominâncias de raça, gênero e etnia dentro da ciência empobreceriam as discussões envolvidas em sua construção. Neste artigo, discutiremos a relação de gênero com a ciência a partir da perspectiva de professores universitários do estado do Rio de Janeiro, procurando entender o que pensam os formadores de cientistas e professores de física, e quais são suas soluções para a problemática de gênero na ciência. Para tal, elaboramos um questionário que foi enviado eletronicamente para as instituições fluminenses. Os resultados apontam para a necessidade de promover mais discussões nas universidades sobre a questão de gênero de forma a complexificar a visão de ciência dos docentes, o que pode significar uma formação epistemológica mais completa dos estudantes de nível superior.

Palavras-chave : Estudos de Gênero, Epistemologia, Ensino de Física, Estudos Culturais.

## Introdução

Desde muito jovens as crianças do sexo feminino são pouco estimuladas a seguirem carreiras científicas. Nas escolas de Ensino Médio, por exemplo, muitas meninas não se veem representadas quando a física é abordada em sala de aula, pois as figuras mais importantes da física são majoritariamente masculinas, como por exemplo Galileu Galilei, Isaac Newton, Nicolau Copérnico, entre outros. A figura feminina que aparece frequentemente nos livros didáticos é Madame Curie, no entanto, não há garantias de que tal cientista seja explorada em sala de aula ou ainda que as meninas se sintam mais identificadas com a ciência que lhes é apresentada com este único exemplo de mulher na ciência.

Um possível efeito da sub-representação feminina ou da sub-exploração do tema no ensino de ciências pode ser observado nas futuras escolhas profissionais dessas crianças. A porcentagem de mulheres dentro das ciências é baixíssima, e quando esse aspecto é analisado dentro da física os resultados são ainda piores. Essa porcentagem é menor desde a graduação e conforme vai aprofundando-se o grau de especialização, como mestrado e doutorado, a participação das mulheres

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diminui consideravelmente, e isso é observado em toda a trajetória nessa carreira (BARBOSA; LIMA, 2013).

Estudos feitos no Brasil demonstram que nos cursos de graduação em exatas o número de mulheres é muito pequeno e que não há projeção para crescimentos significativos como ocorrem em países que estão se desenvolvendo. Com relação a isso, encontramo-nos na mesma situação de países onde acontece a prática de aborto seletivo, em favor de bebês do sexo masculino, como é o caso da Índia (AGRELLO; GARG, 2009). Estudos indicam que o número de bolsas que são concedidas as mulheres nas universidades, dentro dessa área, são em menor número, proporcionalmente, em comparação às que são concedidas aos homens (AGRELLO; GARG, 2009; BARBOSA; LIMA, 2013)

A discussão sobre gênero nas ciências e educação em ciências é bastante atual. Pesquisas recentes (REZENDE; OSTERMANN, 2007; SOUZA, 2008) mostram que tal discussão é mais amadurecida na comunidade internacional que na nacional. Embora este quadro possa ter mudado nos últimos anos, acreditamos que essa tendência ainda permanece, a despeito de esforços recentes para incrementar a discussão, como o lançamento de um site pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) em julho de 2016 com o objetivo de 'trazer destaque para conquistas e enaltecer o papel das mulheres cientistas, evidenciando suas contribuições para as mais diversas áreas da ciência' (SBPC, 2016).

Tencionando mudar este quadro de pouca atenção aos estudos de gênero na educação em ciências, defendemos que é importante conhecer os posicionamentos a respeito do tema dos diversos atores envolvidos nos processos educativos: alunos, professores e formadores de professores. Sobre estes últimos, pesquisas (SILVA; QUEIROZ, 2015; MILICIC et al, 2007) apontam que suas crenças, valores e normas influenciam significativamente a ação destes docentes e, portanto, a formação dos futuros professores de física. Investigar, portanto, as posições que estes docentes formadores possuem sobre ciências pode ajudar a delinear ações futuras que visem a inclusão de discussões sobre gênero no ensino de física e na educação em ciências de maneira mais geral.

Sendo assim, o presente estudo tem o objetivo de investigar as posições de docentes universitários de física do estado do Rio de Janeiro no que concerne a importância da participação de mulheres na construção da física.

## Gênero, Ciência e Educação em Ciências

Desde a década de 60, com a ascensão dos estudos sociais da ciência estabeleceu-se de maneira bastante consolidada a ideia de que a ciência não se faz apenas dentro de laboratórios trancados e herméticos ao mundo, mas em intensa interação com questões sociais e culturais, porque a ciência mesma seria um construto social e cultural (MOURA; GUERRA, 2016). Embora na produção da área Educação em Ciências (no Brasil, especialmente, como mostram estudos citados na introdução) a presença dos estudos de gênero ainda seja bastante fraca, na filosofia da ciência, estudiosas como Sandra Harding, Helen Longino, Evelyn Keller e Donna Haraway têm trazido perspectivas dos estudos de gênero para entender a importância destes estudos para a compreensão da ciência (SOUZA, 2008).

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Os estudos de gênero (ou, em uma perspectiva mais política, estudos feministas) da ciência argumentam, de uma maneira geral, que o modo de fazer ciência que hoje impera (como imaginário ou como prática) ressalta o empreendimento científico como inadequado para mulheres por não serem independentes o suficiente ou por serem inábeis com a matemática (LONGINO, 1991). Além disso, traz uma série de assumpções como uma ciência sem valores envolvidos ou asséptica, que dirigem a uma ideia de que uma 'ciência feminista' seria uma proposta desarrazoada (LONGINO, 2005).

A despeito disso, há na literatura dos estudos de gênero proposições como as de Helen Logino (2005), que dão conta que é impossível conceber uma ciência livre da influência de valores dos cientistas. A autora argumenta que há na ciência a influência de dois tipos de valor: os valores constitutivos, que são internos à ciência e que determinam que tipos de práticas são consideradas como aceitáveis; e os valores sociais, pessoais e culturais, que pertencem ao contexto social e cultural dos quais a ciência faz parte (LONGINO, 2005). Além disso, a tese da subdeterminação em filosofia da ciência escancararia o papel dos valores nas escolhas dos cientistas (o que já foi estudado por Paul K. Feyerabend, por exemplo), sepultando de vez a possibilidade de se falar sobre uma ciência neutra e objetiva (no sentido de senso comum).

Mas se a ciência é necessariamente permeada por valores, então a objetividade seria impossível? Para lidar com esse dilema, Longino (1991) propõe que na realidade a ciência deveria ser entendida como um conjunto de práticas que seria constituído não de vários indivíduos que, aplicando um método, chegam a um conhecimento validado como científico, mas sim como um conjunto de indivíduos que através do engajamento em diálogos críticos em que sustentam pontos de vista diferentes sobre fenômenos naturais chegam a consensos não-totalizantes e temporários sobre esses fenômenos. Estes pontos de vista carregariam, necessariamente, os conceitos e valores dos cientistas. O conhecimento científico, entendido como prática, não seria um ponto final da pesquisa científica, mas expressões cognitivas e intelectuais que mudam ao longo do tempo (LONGINO, 1991).

Sendo assim, seria fundamental que o pluralismo de representações sociais (diferentes classes, gêneros, etnias) fosse garantido para o sucesso do empreendimento científico (LONGINO, 1991). Segundo o pensamento de Helen Longino, portanto, uma maior participação de mulheres na ciência levaria a um aprimoramento no alcance de consensos em ciência, trazendo, portanto, uma forma diferente de fazer ciência que permitiria derrubar alguns mitos e imagens sobre a mesma.

## Metodologia

Para obter a maior abrangência possível, escolhemos elaborar um questionário simples com respostas fechadas e abertas , um 1 survey (GUNTHER, 2003), cujo principal objetivo foi saber como os docentes compreendem a relação da

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mulher com as áreas da Ciência, especificamente com a Física, e de que forma acham que a esta pode ser influenciada pela presença de mais mulheres em sua construção. O questionário foi remetido por e-mail a todas as instituições de ensino que possuem curso de física (licenciatura e bacharelado) no estado do Rio de Janeiro, com base em informações levantadas nas páginas eletrônicas das instituições.

Receberam o questionário as coordenações dos cursos de física das seguintes instituições: UFRJ, UFRRJ, UFF (Niterói, Sto. Antônio de Pádua e Volta Redonda), PUC-Rio, UERJ, IFRJ (Nilópolis e Volta Redonda), IFF (Centro e Cabo Frio), UENF, CEFET/RJ (Petrópolis e Nova Friburgo). Apenas docentes de 6 cursos responderam aos questionários, 4 docentes de uma instituição, 3 da segunda, 2 da terceira e 1 docente de cada uma das outras três. Não podemos afirmar com exatidão o número de docentes (e de quais instituições) efetivamente receberam o questionário a ser respondido (e optaram por não o responder, p. ex.). Por esse motivo, evitamos aqui inferências que se utilizem dessa observação.

Sendo este um questionário exploratório, a respeito de um tema pouco consolidado na educação em ciências, optamos por explorar neste trabalho apenas as respostas às questões abertas, contextualizadas com as respostas às questões de múltipla escolha. Utilizando o referencial de análise textual discursiva (MORAES, 2003), unitarizamos as respostas, procedemos ao agrupamento em categorias de análise, que nos permitiram construir significados a partir das respostas dos docentes participantes.

## Resultados

A respeito do gênero, os entrevistados são 6 homens e 6 mulheres. Todos atuam na Licenciatura em Física e alguns deles também atuam em outros cursos (três no Ensino Médio/Técnico e dois no Bacharelado em Física). Seis estão realizando pesquisa na área de ensino, três não estão pesquisando atualmente, dois pesquisam tanto na área de ensino quanto na área de física e um deles pesquisa estritamente na área de Física teórica e/ou Física experimental.

Codificamos e agrupamos as respostas dos entrevistados e as separamos em dois grandes temas. O primeiro está relacionado a forma como a ciência é feita. Analisamos o que os entrevistados disseram a respeito das mulheres no meio científico e agrupamos as respostas em três categorias, comentadas a seguir. No segundo tema, procuramos saber dos entrevistados quais alternativas suas universidades (ou o meio científico) poderiam adotar para contribuir com uma maior representação de gênero. Nesse tema, as respostas foram organizadas em 2 categorias emergidas da análise.

## Tema 1: Processo de construção da ciência vs. Questões de gênero

1.A - 'As questões de gênero definitivamente não são importantes para pensarmos sobre a forma como a ciência é construída. '

R 1.1: 'Ciência não é feita por raças, credos e tão pouco gêneros, mas sim por seres pensantes, que refletem sua existência e a natureza ou ambos. '

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R1.2: 'Na verdade, nesse sentido, a questão homem/mulher não é determinante. Essa precisa vir alinhada com outras características como perfil, formação, etc.'

R1.3: 'Imaginar o que mudaria no meu departamento com uma maior ou menor participação de indivíduos do sexo feminino ou masculino, é algo muito superficial, uma vez que existe muitas outras qualificações individuais com influência intra e interpessoal realmente significativas nas relações de trabalho, de convivência e no fazer ciência. '

Quando dizem que os valores de cada indivíduo que estão por trás da ciência não interferem em sua construção (R1.1, R1.2 e R1.3), ou seja, de que a ciência é algo neutro, estão em contradição com os estudos que foram discutidos neste artigo que discutem a ciência como não só permeada por esses valores, mas dependente dos mesmos para o seu desenvolvimento. É exatamente por essa questão que a própria ciência se torna uma construção cultural/social onde apesar de características pessoais influenciarem nesta relação, gêneros também influenciarão, assim como diversos grupos sociais e etnias diferentes. Nesse sentido, estes resultados mostram que os entrevistados manifestam um pensamento que tende a perpetuar a estrutura atual, predominantemente masculina, sem que haja alguma mudança.

## 1.B - 'A questão de gênero pode ser importante, mas existem outros fatores que talvez sejam mais importantes'

R1.4: 'Não sei se de fato haveria mudança na ciência, mas acho importante o movimento de promover a ideologia de que lugar de mulher é onde ela quiser e isto vale para carreiras profissionais. Ou seja, acredito que o mais importante seja o empoderamento feminino. '

As respostas que estão contidas neste item colocam a questão de gênero como um fator não tão importante para a ciência. Como pode ser visto na R1.4, ela afirma que talvez não fosse tão importante para a ciência, de fato, mas sim para o movimento feminista. Porém, segundo Longino, uma maior representação de mulheres na ciência não é só importante como também necessário.

## 1.C - 'A questão de gênero é importante de forma absoluta, sem condicionais ou restrições'

R1.5: 'Maior diversidade de ideias e perspectivas sobre a pesquisa e o próprio ensino de Física/Ciência'

R1.6: 'Acho que a maior participação das mulheres alteraria como a divulgação da Ciência é feita, que por sua vez pode, com o tempo, influenciar as representações sociais da Ciência no Brasil. '

Segundo Longino, quanto maior for a diversidade de perspectivas/subjetividades dentro do meio científico, maior será a sua representação social para a sociedade. A resposta R1.5 aponta ideias que vão nessa direção ao mencionar a repercussão no ensino de física como algo que possibilita uma maior participação de gênero. Essa perspectiva será apontada no próximo tema, no item 2.A, como uma das medidas que as universidades poderiam tomar para melhorar este quadro, como por exemplo nas respostas R2.2 e R2.4.

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## Tema 2: Medidas para superar a falta de representatividade feminina na ciência

- 2.A -'Há alguma medida que poderia ser adotada para o aumento da representatividade de gênero.'

R2.1: 'Estimular uma educação emancipadora e para todos as "cores", credos ou gêneros, sobretudo desde a educação fundamental, incluindo a educação básica e se mantendo na educação superior. '

R2.2: 'O debate sobre gênero deve começar entre os professores das universidades e membros das sociedades científicas. [...] Semestre passado, as alunas desse curso compilaram em cartazes, o que ouvem dos professores (#meuprofessordisse)... coisas do tipo: "você não é capaz de fazer isso por ser mulher" ou "você é tão bonita, quanto burra" etc . Acho que colocar essas questões 2 de forma explícita também ajudaria a abordar o tipo de relação que muitos professores têm com seus alunos (independente de gênero, raça, origem social) que acaba sendo de depreciação intelectual devido às dificuldades do curso - frases como 'sua dúvida é idiota".

- R2.3: 'Fazer propagandas massivas dos cursos voltadas especificamente para o público feminino, incentivando meninas que cursam o ensino médio e proporcionando conhecimento sobre cientistas mulheres importantes na história, por exemplo.'

R2.4: 'Na divulgação científica, buscando romper com a visão "deformada" de cientista sempre homem caucasiano e mostrar que não é uma coincidência a ausência de mulheres ou outros gêneros na ciência. É preciso mostrar que se trata de uma construção histórica da ciência.'

Nas universidades é possível perceber uma grande mobilização das questões de gêneros pelos alunos, há uma grande parcela que se preocupa em discutir, seja fazendo rodas de conversa, palestras ou movimentos em redes sociais e buscam por empoderamento dentro do espaço universitário, como apontado em R2.2. Ainda conforme apontado por R2.2, deve haver um movimento de conscientização dos próprios professores, para que essas ideias não continuem a serem propagadas. Dentro desta linha de pensamento, podemos destacar a resposta R2.1. É necessário que esta educação sobre igualdade de gêneros seja discutida nos diversos níveis de ensino. Além disso, o papel da divulgação científica também é ressaltado por R2.3 e R2.4.

## 2.B - 'Não há nenhuma medida que sua universidade poderia adotar para que mudasse este quadro da representatividade de gênero.'

R2.5: 'Os meios de acesso aos cursos, ENEM ou vestibular, são abertos para todos, sem restrições. O indivíduo, o ser humano (homem ou mulher) dever ser livre para escolher o curso que desejar. '

Conforme apontado por pesquisas (BARBOSA; LIMA, 2013) a falta de representativdade do gênero feminino na ciência deve ser encarada como um problema. Como dito em R2.4 do item anterior, não podemos ver a falta de mulheres na ciência como uma coincidência ou acaso. Países desenvolvidos que tinham a mesma estrutura cientifica que temos hoje em dia, aplicaram políticas e estratégias

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de ensino que estão demonstrando-se serem eficazes pois a porcentagem de mulheres nos cursos de ciência e nas bolsas de produção estão aumentando (SAITOVITCH; LIMA; BARBOSA, 2015), ainda que lentamente. No Brasil, um processo parecido ocorre, mas o único aumento significativo se deu no nível de pósdoutorado.

A respeito do tema 1, 4 entrevistados foram classificados na categoria 1.A, afastando-se do pensamento de Helen Longino, apresentado no marco teórico. Outros 4 entrevistados apresentaram opiniões que se encaixam na categoria 1.B, onde admite-se a importância da representatividade feminina, mas não como algo indispensável, o que ainda se afasta um pouco das ideias apresentadas na discussão teórica. Por último, 4 entrevistados manifestaram opiniões que se alinham bastante à discussão apresentada sobre a importância das mulheres na construção da ciência.

Sobre o tema 2, 9 entrevistados manifestaram opiniões que se encaixam na categoria 1, ou seja, apontando medidas que poderiam ajudar na superação desse quadro e 1 entrevistado apontou que não há nenhuma medida que poderia ajudar nesse sentido. Outros 2 não souberam opinar.

## Considerações Finais

Através da análise dos dados que fizemos anteriormente, é possível observar que a maioria dos entrevistados acham que a questão de gênero não seja importante ou que não seja um fator determinante para a ciência, porém no item 2A a maioria apresentou propostas para que isso fosse mudado dentro das universidades. Isto além de apontar uma possível incoerência por parte dos entrevistados que responderam que a ciência independe (ou não depende de forma decisiva) da representatividade de gênero, pois se assim fosse, não deveria haver propostas para uma maior participação feminina dentro das universidades. Embora esse aspecto da incoerência pudesse ficar mais claro em uma entrevista, por exemplo, onde explorar-se-ia nuances do discurso, podemos esboçar aqui essa rápida análise.

Observando as respostas dos entrevistados, ainda é possível perceber (como apontado por R2.2) que existe mesmo entre os professores a circulação de discursos inadequados do ponto de vista da questão de gênero e que precisam ser discutidos dentro do ambiente universitário. Além disso, se a importância de tal questão não é uma unanimidade entre os próprios docentes, pode-se inferir que tampouco tal debate é promovido por estes docentes na formação dos futuros profissionais físicos ou docentes, possibilitando a manutenção das relações de gênero da forma em que se encontram.

Além disso, algumas respostas que se afastam do pensamento de Longino apontam para a inadequação da visão de docentes, pois ao negar ou minimizar a importância da representatividade de gênero na ciência, o fazem a partir do discurso de que ciência é neutra, posicionamento amplamente refutado por estudos feministas (e não-feministas) sobre a ciência.

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Conclui-se então que é fundamental produzir debates nos ambientes acadêmicos, nos quais os professores e professoras tomem parte, para que tais visões sejam problematizadas e possam promover uma efetiva discussão sobre a ciência na formação dos licenciandos e futuros bacharéis em física.

## Referências

AGRELLO, Deise; GARG, Reva. Mulheres na física: poder e preconceito nos países em desenvolvimento. Revista Brasileira de Ensino de Física, Brasília, v. 31, n. 1, p. 1305-4 - 1305-6, 2009.

BARBOSA, M. C.; LIMA, B. S. "Mulheres na Física do Brasil: Por que tão poucas? E por que tão devagar?", In: Trabalhadoras: Análise da Feminização das Profissões e Ocupações, Ed. S. C. Yannoulas, Editorial Abaré, 2013.

GÜNTHER, Hartmut. Como elaborar um questionário. Brasília: UnB, Laboratório de Psicologia Ambiental, 2003.

LONGINO, Helen E. Multiplying subjects and the diffusion of power. The Journal of philosophy, p. 666-674, 1991.

LONGINO, Helen. Can there be a feminist science. Feminism and science, p. 45-57, 1989.

MILICIC, B.; SANJOSÉ, V.; UTGES, G.; SALINAS, B. La cultura académica como condicionante del pensamiento y la acción de los profesores universitarios de física. Investigações em Ensino de Ciências. v. 12. n. 2, p. 263 - 284, 2007

MORAES, Roque. Uma tempestade de luz: a compreensão possibilitada pela análise textual discursiva. Ciência & Educação, v. 9, n. 2, p. 191-211, 2003.

MOURA, C. B.; GUERRA, A. História Cultural da Ciência: um caminho possível para a discussão sobre as práticas científicas no Ensino de Ciências? Preprint: Revista Brasileira de Pesquisa em Educação em Ciências, 2016.

SAITOVITCH, E. ; LIMA, B. S.; BARBOSA, M.C. . Mulheres na Física: uma análise quantitativa. In: E. Saitovitch, R. Z. Funchal, M. C. B. Barbosa, S. T. R. Pinho, A. E. Santana. (Org.). Mulheres na Física. 1ed. São Paulo: Editora da Física, p. 245-259, 2015.

SANTOS, Flavia Rezende Valle dos; OSTERMANN, Fernanda. A questão do gênero no ensino de ciências sob o enfoque sociocultural. In: Simpósio Nacional de Ensino de Física. São Luis - MA, 2007.

SBPC Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Ciência e Mulher. Disponível em < http://www.cienciaemulher.org.br/>. Acesso em 02/09/2016.

SILVA, D. A. M.; QUEIROZ, G. R. P. C. Posições epistemológicas de pesquisadores iniciantes em física: a influência dos bacharéis sobre os licenciandos em física. In: Simpósio Nacional de Ensino de Física. Uberlândia MG, 2015

SOUZA, A. M. F. L. Ensino de ciências: onde está o gênero?. Revista FACED, n. 13, p. 149-160, 2008.

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