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A GINCANA DE RECEPÇÃO DOS CALOUROS DOS CURSOS DE FÍSICA DA UFSCAR COMO INÍCIO DO PROCESSO DE INCLUSÃO DO ESTUDANTE NO CONTEXTO UNIVERSITÁRIO

Aline Fioranelli De Sá¹, Nathália Mendes Marques Luiz¹, Thaís Christina Moreira Elias¹, Maksuell Nicula¹, Matheus Pereira¹, Alice H. C. Pierson2

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XXII
Ano
2017
Data
25/01/2017
Linha de pesquisa
Equidade, Inclusão Social E Estudos Culturais E O Ensino De Física
Tipo
Pôster

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Texto completo

## A GINCANA DE RECEPÇÃO DOS CALOUROS DOS CURSOS DE FÍSICA DA UFSCAR COMO INÍCIO DO PROCESSO DE INCLUSÃO DO ESTUDANTE NO CONTEXTO UNIVERSITÁRIO

Aline Fioranelli de Sá¹, Nathália Mendes Marques Luiz¹, Thaís Christina Moreira Elias¹, Maksuell Nicula¹, Matheus Pereira¹ , Alice H. C. Pierson 2

- 1 Universidade Federal de São Carlos, Licenciatura em Fìsica, petlif@gmail.com

2 Universidade Federal de São Carlos, Departamento Metodologia do Ensino, apierson@ufscar.br

## Resumo

O ingresso em uma universidade é um acontecimento importante na vida de um indivíduo, é a passagem para uma nova etapa. Infelizmente, em muitos casos ela é marcada por trotes que reforçam um sistema de hierarquia entre veterano/calouro através de atividades constrangedoras e violentas. Com o intuito de contribuir para a mudança desta realidade e oferecer um melhor acolhimento para os recém-chegados, o grupo PET-LIF em parceria com o Diretório Acadêmico de Física (DAF), criou a 'Gincana de recepção', que teve seu início em 2013 e em 2016 foi reformulada. O novo formato trabalhou em conjunto com outro projeto de integração ('Apadrinhamento'), foram incluídas atividades mais dinâmicas para que calouros e veteranos trabalhassem em conjunto favorecendo a integração e reforçando a ideia de igualdade entre os participantes. Comparando com os anos anteriores as adaptações se mostraram efetivas, pois se notou uma maior participação dos discentes e um número reduzido de desistências durante a gincana.

Palavras-chave : Trote universitário, recepção de calouros, interação calouros/veteranos.

## Introdução

Muito se fala sobre as atividades praticadas no recebimento dos calouros nas universidades brasileiras, os famosos 'trotes'. Nos principais noticiários nacionais, em todo início de ano acadêmico há notícias sobre trotes e a violência neles praticada. Entre os casos mais populares está o do jovem Edison Tsung-Chi Hsueh, calouro em 1999 da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), encontrado morto em uma das piscinas da instituição depois da 'brincadeira' (como muitos estudantes encaram o trote). Esse caso, em particular, levantou uma discussão sobre as práticas realizadas em todo o Brasil, chamando atenção para a violência praticada, muitas vezes de forma velada, pelos veteranos sobre os calouros. Esse tipo de violência é chamada por Araújo (2004) de violência simbólica, podendo esta ser descrita como sendo 'um tipo de violência instituída e presente no dia-a-dia que é aceita, incorporada e reproduzida pelas pessoas, sem, na maioria das vezes, a percepção de sua existência. ' (Araújo, 2004).

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## Para Odalia:

(...) o ato violento se insinua, frequentemente, como um ato natural, cuja essência passa desapercebida. Perceber um ato como violento demanda do homem um esforço para superar sua aparência de ato rotineiro, natural e como que inscrito na ordem das coisas. (Odalia,1993)

Algo a se notar nas pesquisas sobre o assunto (ZUIN, 2002; COLLOCA, 2003) é o fato de que o calouro não enxerga o 'trote' como um ato violento e sim como um rito de passagem tradicional de integração com seus colegas de turma e os veteranos, onde a humilhação própria, como o rosto pintado e cabelo raspado, revela sua conquista (ingressar na universidade) à sociedade.

## Segundo Colloca:

Os trotes universitários fazem parte do ritual de entrada na universidade. Suas atividades tradicionais, como pintura do corpo e do rosto, pedágios nas ruas da cidade, gritos, não são consideradas agressivas, humilhantes, mas 'brincadeiras' inofensivas que fazem parte desta tradição. Estas atividades são justificadas pela necessidade de exibição das marcas de uma mudança que deve ser mostrada para que todos reconheçam aquela pessoa como universitário. (Colloca, 2003)

A partir desse ponto surge a discussão principal para a realização da Gincana do PET: como oferecer aos calouros dos cursos de Física - Licenciatura ou Bacharelado, Licenciatura em Física e Engenharia Física da UFSCar uma atividade de integração com seus colegas de turma e com alunos mais velhos dos cursos que não perpetuasse a violência estabelecida nos 'trotes tradicionais' e que, ao mesmo tempo, contribuísse para essa nova etapa de suas vidas?

Neste contexto vem sendo realizada desde 2013 a Gincana do PET, que tem por objetivo apresentar ao calouro o campus da UFSCar - São Carlos de forma divertida, fazendo com que pequenos grupos formados pelos novos alunos trabalhem em equipe e encontrem alguns pontos que serão importantes durante a graduação espalhados pelo campus.

Inicialmente, a gincana era realizada apenas pelos calouros, mas, a partir de 2016, passou a integrar também os veteranos dos cursos de Física. Em conjunto com os alunos participantes do programa de apadrinhamento proposto pelo Diretório Acadêmico da Física (DAF), discutido por (Pierson et al, 2016), a gincana passou a ter novas atividades que deveriam ser realizadas pelos calouros em conjunto com os veteranos, fazendo com que, dessa forma, todos se enxergassem como iguais e passassem a trabalhar em conjunto em busca de um objetivo maior (ganhar a gincana).

## Metodologia

A Gincana é uma atividade que acontece em conjunto com a Calourada, esta última realizada pelo diretório acadêmico da física (DAF). Durante uma semana são oferecidas várias atividades que ajudam na integração dos alunos, dentre elas destacamos as rodas de conversa, mesas redondas com os coordenadores dos cursos envolvidos, apadrinhamento e a Gincana.

O Apadrinhamento é uma atividade realizada pelo DAF, em conjunto com o PET-LIF, na qual veteranos se tornam 'padrinhos' de um certo número de calouros,

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com o objetivo de ajudá-los no início da vida universitária, buscando tornar melhor e mais fácil esse início de curso. No presente ano, os padrinhos foram apresentados aos seus afilhados em uma reunião que ocorreu momentos antes do início da gincana que, para tornar mais fácil a integração, mudou o seu formato anterior a fim de possibilitar que calouros e seus padrinhos participassem em conjunto.

O antigo formato da gincana consistia em dividir os calouros em grupos que passariam em uma determinada ordem por pontos importantes da universidade. Em cada ponto era colocado um membro do PET responsável por fornecer dicas que levassem o grupo para a próxima estação. O grupo que completasse o trajeto em menor tempo era o vencedor. No ponto de chegada era realizada uma confraternização chamada 'cachorrada' onde eram distribuídos cachorros quentes e refrigerantes.

Este ano, devido à inserção dos padrinhos na atividade, o PET teve que planejar uma nova maneira para que o grupo passasse de um ponto para o outro, já que como os padrinhos eram veteranos e eles conheciam bem a universidade, estes não teriam dificuldades em achar as novas estações com as 'dicas'. A solução para este problema foi a criação de atividades e desafios, nos quais os padrinhos realizariam em conjunto com seus afilhados. O intuito destas atividades era além de promover a integração padrinho/afilhado, reforçar que não havia hierarquia entre os graduandos.

Deve-se ressaltar que para a realização da atividade o grupo teve que se organizar, pesquisar e criar atividades, arrecadar verba com patrocinadores e verificar locais para que as atividades pudessem ser realizadas, ou seja, para os membros do PET-LIF a gincana foi importante para que os membros aprendessem a organizar pequenos eventos, desde a etapa de elaboração até a parte financeira.

A gincana contou com aproximadamente 50 participantes organizados em sete grupos com em média 5 calouros e 2 padrinhos em cada. No início da atividade cada grupo recebeu um conjunto de pulseiras de identificação, um mapa da universidade (com os pontos por onde eles iriam passar em branco para serem completados) e um questionário que deveria ser respondido de acordo com o que fosse encontrado ao longo do percurso.

Na tabela abaixo, são apresentadas as diferentes atividades que foram realizadas pelos grupos durante a gincana.

Tabela 01: Postos de provas da Gincana e descrição da atividade realizada.

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Os grupos demoraram, em média, 1h30min para completarem a gincana. Os postos foram pensados e colocados de forma estratégica para que os participantes pudessem se deslocar de um lugar ao outro evitando um movimento 'zig-zag', (as dicas dadas os levariam diretamente ao próximo posto). Isto foi para que nossos calouros conhecessem o campus, com o objetvo principal de apresentar os locais que são essenciais para a vida academica do ingressante, conhecer estes locais e o funcionamento da universidade como um todo, contribuindo assim para uma maior autonomia do ingressante nos seus deslocamentos futuros.

A presença e o apoio dos veteranos teve papel importante no resultado da gincana, ajudando na otimização do percurso, fazendo com que os calouros não se perdessem e pudessem se desmotivar, como havia ocorrido em algumas das edições anteriores. Foi observado que os veteranos demonstraram interesse e participaram de forma efetiva nas tarefas que lhes foram designadas. Vale ressaltar que mesmo com o mal tempo (chuva/frio) as desistências praticamente não existiram.

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Durante a gincana, a desistência de um dos membros da equipe era penalisada com perca de pontos para o grupo. Algumas atividades eram pontuadas de acordo com o tempo de realização, enquanto outras pela realização exclusivamente, e ainda, como no caso do Posto 6, pela aproximação de um resultado previamente estabelecido. Após o encerramento da gincana, realizamos uma confraternização onde foram distribuidos lanche (cachorro quente) e refrigerante aos participantes.

No posto 10, onde um membro do grupo deveria subir uma parede de escalada para conseguir uma pista, a atividade não foi possível de ser realizada por causa da chuva (os equipamentos de escalada não podem funcionar em tais condições climáticas).

## Análise e Considerações Finais

É importante ressaltar a importância que esse momento de integração tem para os calouros, que consideram essa recepção como um rito de passagem e celebração de uma grande conquista - a entrada na universidade. É aqui que se encontra o maior desafio de mudar a 'tradição' do trote: como oferecer ao calouro um momento de integração e acolhimento, fazendo com que este se sinta pertencente ao ambiente universitário sem submetê-lo a momentos vexatórios e de violência física e psicológica.

Nesse sentido a Gincana do PET trouxe elementos que possibilitaram integrar os novos alunos aos antigos, os colocando em posição de igualdade na realização das atividades propostas. Consideramos importante quebrar o paradigma de que o veterano possui alguma forma de autoridade sobre o calouro e reforçar a ideia de igualdade entre todos e a necessidade de acolhimento.

Durante a realização da Gincana foi possível observar o empenho da maioria dos participantes para realizar, da melhor forma possível, todas as atividades propostas. O auxilio e a presença dos veteranos proporcionou aos calouros uma otimização do tempo de percurso, evitando que os calouros se perdessem no caminho e também os motivando na realização das tarefas propostas. As mudanças realizadas na dinâmica da gincana diminuiram o número de desistências durante o percurso (que normalmente ocorriam pelo cansaço) e a nova forma de pontuação fez com que os participantes ficassem até a chegada do último grupo para saber qual deles venceria, aumentando o tempo de confraternização e integração entre os participantes.

Consideramos outro ponto importante para o ingresso do calouro a apresentação do campus da UFSCar, mostrando os principais locais onde os alunos precisarão ir e as melhores formas de se locomover até lá. Além disso, algumas das atividades da gincana visaram ensinar ao novos alunos como utilizar alguns recursos oferecidos pela universidade, como a biblioteca e a secretaria de informática e também o modo de funcionamento do ônibus circular.

Desde seu início em 2013 atividades como a gincana aqui descrita vem possibilitando que o calouro, hoje de diferentes espectros sociais e aportando elemento de diferentes culturas (contamos hoje com alunos indígenas, refugiados e negros) tenham maior oportunidade de se sentirem parte da comunidade acadêmica, gozando dos mesmos direitos, em contraposição à atividades anteriormente desenvolvidas que, independente da intenção dos propositores, com

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frequência faziam os calouros se sentirem alunos ainda não totalmente aceitos como todos os outros da instituição. Entendemos que propostas como essas devem ganhar maior espaço na programação das atividades de recepção aos calouros particularmente em uma instituição na qual questão de diversidade e equidade são parte estruturante de seu Plano de Desenvolvimento Institucional.

## Referências

ADORNO, T. W. Educação após Auschiwtz. In: COHN, G. Theodor W. Adorno. São Paulo: Ática, 1994.

ARAÚJO, M.J. Dossiê as múltiplas faces da violência - A Violência simbólica: uma difícil percepção. UNIMONTES CIENTIFICA, Montes Claros, v.6, n.2 - jul./dez. 2004

COLLOCA, V.P. O trote universitário: o caso do curso de Química da UFSCar. 2003. Dissertação (Mestrado em Educação) - CECH - UFSCar, São Carlos, SP. ODALIA, N. O que é violência. Coleção Primeiros Passos. São Paulo: Editora Brasiliense, 1993.

PIERSON, A. H. C., BUSSI, B., INACIO, E. M., PINTO, F. A., SOUSA, F. B., TEIXEIRA, H.J. Integração calouros e veteranos: O 'apadrinhamento' colaborando para o desenvolvimento dos alunos no curso de física. SUDESTEPET, 2016.

ZUIN, A. A. S. O trote no curso de pedagogia e a prazerosa integração sadomasoquista. Educação & Sociedade, ano XXIII, no 79, Agosto/2002

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Texto extraído automaticamente do PDF: podem existir erros de conversão, especialmente em fórmulas, tabelas e figuras.