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Contribuições da pesquisa em educação e em ensino de ciências para a compreensão da evasão no ensino superior: Lacunas na pesquisa com respeito aos cursos de graduação em Física.

Paulo Lima Junior, Fernanda Ostermann

Evento
Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
Edição
XII
Ano
2010
Data
26/10/2010
Linha de pesquisa
Questões Teórico-Metodológicas E Novas Demandas Na Pesquisa Em Ensino De Física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

Contribuições da pesquisa em educação e em ensino de ciências para a compreensão da evasão no ensino superior: Lacunas na pesquisa com respeito aos cursos de graduação em Física.

Contributions of research on education and science teaching to understand attrition in higher education: Gaps in research regarding undergraduate courses on Physics .

Paulo Lima Junior 1 , Fernanda Ostermann 2 .

## Resumo

Evasão é o abandono do curso pelo discente e constitui um fenômeno que atinge todos os sistemas educacionais, mas, especialmente, os cursos de graduação em Física . Este trabalho é uma revisão da literatura realizada como parte de um estudo mais amplo e consiste de uma análise das contribuições da pesquisa em educação e em ensino de ciências com respeito à compreensão da evasão no ensino superior, em geral, e nos cursos de graduação em Física, em particular. Para realizar esta revisão foram consultados 20 periódicos, classificados em 2009 pelas áreas 46 (Ensino de Ciências e Matemática) e 38 (Educação) nos estratos A1 e A2 do Qualis, no período de 2000 a 2009 , em busca de artigos que abordassem especificamente o tema "evasão". ApApós essa busca foram encontrados somente 7 trabalhos . Assim, em primeiro lugar, é preciso destacar que, apesar da importância do tema, a evasão tem sido pouco explorada enquanto objeto de estudo tanto na pesquisa educacional quanto na pesquisa em ensino de ciências. A partir dos artigos encontrados, é possível sustentar r que a questão da evasão envolve fatores psicológicos, sociais e institucionais distintos que, geralmente, não se articulam sob a mesma teoria. Em parte, a evasão e a permanência no curso de Física podem ser relacionadas ao prazer que o estudante experimenta na busca pelo conhecimento. Por outro lado, questões sociais mais amplas tais como gênero e o capital cultural familiar podem cumprir um papel importante na determinação das disposições de cada estudante em evadir r ou permanecer r no curso. Enfim, pode ser considerado que, apesar da evasão ser significativamente pronunciada nos cursos de graduação em Física, há lacunas na literatura com respeito às particularidades da evasão no contexto desses cursos. Uma revisão mais ampliada a respeito das relações entre evasão, formação científica superior e políticas públicas para educação ainda é necessária.

Palavras -chave: Evasão, Revisão da literatura, Ensino superior .

## Abstract

Attrition is student drop out from the course and it is a phenomenon that affects all educational systems, but especially the undergraduate courses in Physics. This paper reports a review conducted as part of a broader research and consists of analyzing the contributions of research on education and science teaching regarding

the understanding of attrition in higher education and, particularly, in Physics ' undergraduate courses. To accomplish this review , 20 journals were searched for articles that approached attrition directly from 2000 to 2009. As a result, there were found seven papers on this subject. Hence, it is necessary to highlight that, despite the relevance of the subject, attrition has been underestimated as research object both in educational an science teaching fields of research. On the ground of literature, it is possible to assert that attrition involves psychological, social and institutional factors that, usually, do not fall into the same theoretical framework. In part, attrition and permanence on undergraduate Physics may be related to the pleasure that the student experiences while in the quest for knowledge. Moreover, broader social issues such as gender and family cultural capital can play an important role in determining the dispositions of each student to drop out or to stay y in the course . At last, it can be asserted that, despite attrition being more significant in Physics' undergraduate courses, there are gaps in literature regarding the specificities of attrition in these contexts. A broader review on the relationship between attrition, higher scientific education and public policies for education is still needed.

Keywords: A Attrition, Review, Higher education .

## Introdução

A evasão é o abandono do curso pelo discente e constitui um fenômeno que atinge em larga escala e em diversas medidas os sistemas educacionais de todo o mundo. Em geral, o abandono da educação formal pode acarretar r prejuízos não somente para o aluno, mas para sua família, para a instituição de ensino e, de maneira mais indireta, para toda a sociedade. A evasão, quando ocorre como resultado do fracasso acadêmico, pode prejudicar a auto-estima do estudante. Tanto na rede pública quanto na rede particular, o abandono do curso representa perda dos recursos investidos - com prejuízo para todos os cidadãos que financiam direta ou indiretamente a própria educação e a educação dos seus f familiares .

A evasão é um dos possíveis eventos terminais de uma série de acontecimentos que constituem a trajetória acadêmica dos estudantes. Embora ela seja, por definição, uma decisão individual, a atenção às circunstâncias concretas a partir das quais os estudantes decidem permanecer ou abandonar a educação formal são muito importantes para compreender a evasão. Diversos estudos têm justificado abordar a evasão como resultante da interação entre características individuais (seus interesses, sentimentos e expectativas) e as condições concretas de existência dos estudantes (seu trabalho, sua família e suas experiências acadêmicas).

Os primeiros estudos sobre evasão nos cursos de graduação em ciências no Brasil remontam à década de 70, quando foram abertas as primeiras linhas de pesquisa associadas aos programas de pós-graduação em ensino de ciências neste país (NARDI, 2005). Entretanto, desde essa época, a pesquisa em ensino de ciências não tem se comprometido a atacar o problema da evasão nos cursos de graduação de maneira consistente e sistematizada .

A partir da década de 90, o estabelecimento do neoliberalismo na política brasileira produziu um aumento na pressão realizada pelos operadores da máquina pública em direção à redução dos gastos em setores básicos tais como a educação.

Um dos efeitos específicos desse processo político foi o aumento do interesse pelo monitoramento da evasão e da retenção escolar tanto na educação básica quanto nas instituições de ensino superior (PALHARINI, 2004).

Recentemente, com o estabelecimento do Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais - chamado REUNI (BRASIL, 2007) - o cenário das instituições federais de ensino superior parece ter mudado novamente. Devido às pressões externas para aumento de vagas, criação de cursos com redução das taxas anuais de evasão, diversas instituições federais têm vivido um momento propício para a discussão das razões que levam à evasão e suas relações com a qualidade do ensino superior.

Embora o problema do abandono do curso pelo discente atinja em diversos níveis os sistemas educacionais de todo o mundo, os cursos de graduação em Física são historicamente conhecidos por apresentar as maiores taxas de evasão. Paralelamente, essas altas taxas de evasão tendem a ser encaradas com alguma naturalidade. Sob um ponto de vista que pode ser dito tradicional, a evasão tende a ser tratada como um indicador de qualidade (e não de falta de qualidade) do curso. Nessa perspectiva, a evasão seria justificada como resultado da combinação entre os altos padrões de avaliação praticados pela instituição e a baixa competência acadêmica dos ingressantes.

Buscando um pouco de distanciamento dessa perspectiva tradicional, que presume ser sempre obrigação do sujeito adaptar-se à instituição de ensino, é possível sustentar que a evasão em massa caracteriza um mau funcionamento do sistema educacional, gerando prejuízos em larga escala que poderiam ser evitados, tanto para os estudantes, quanto para toda a sociedade.

Esta breve revisão da literatura é parte de um projeto de doutorado que tem por objetivo acrescentar ao conhecimento que se tem a respeito da evasão nos cursos de graduação em Física, contribuindo para a fundamentação de programas de fomento à permanência nesses cursos .

## Metodologia da Revisão

Para esta revisão, foram selecionados 20 periódicos dentre os classificados em 2009 pelas áreas 46 (Ensino de Ciências e Matemática) e 38 (Educação) nos estratos A1 e A2 do Qualis. Os periódicos selecionados foram revisados no período de 2000 a 2009, buscando por artigos que abordassem especificamente a questão da evasão tanto na educação superior quanto na educação básica, com atenção especial ou não à educação científica superior. Apesar do escopo desta revisão ser extenso, ele não esgota todos os periódicos mais importantes dessas áreas, mas os artigos encontrados podem ser ditos representativos dos trabalhos de maior qualidade da pesquisa recente em educação e ensino de ciências.

A caracterização dos artigos foi feita a partir da leitura atenta de seus títulos. Nos casos em que o título gerou dúvida, o resumo foi levado em consideração. Como resultado desse procedimento, 7 artigos foram localizados. As revistas revisadas e a quantidade de artigos sobre evasão escolar localizados em cada uma podem ser visualizadas na Tabela 1.

Tabela 1. Periódicos revisados.

Como é possível perceber, a quantidade de artigos encontrados é muito pequena se comparada ao escopo da revisão. Assim, é preciso destacar que, embora a evasão seja um problema tradicional e atual, há pouca publicação nesse sentido nas áreas de educação e de ensino de ciência.

Encerrada a procura por artigos, as publicações selecionadas foram lidas buscando -se distinguir quatro aspectos fundamentais: (1) contexto e objetivo da pesquisa; (2) fundamentação teórica; (3) métodos utilizados; (4) conclusões. Após leitura e análise dos artigos encontrados , eles foram organizados nas seções que constituem esta revisão.

## Descrição quantitativa da evasão dos cursos de graduação

Conforme antecipado, a evasão escolar é um fenômeno que pode ser relacionado a diversos tipos de prejuízo; dentre eles, encontra-se o prejuízo econômico para as pessoas (ou dispositivos públicos) que financiam o sistema educacional. Assim, mesmo sem problematizar a relação entre evasão e qualidade na educação, a questão das trajetórias estudantis é fundamental para avaliar a efetividade dos investimentos realizados sobre os sistemas educacionais.

Atualmente, a evasão discente e outros aspectos da educação superior brasileira têm sido monitorados por meio do Censo da Educação Superior (BRASIL, 2008). Os dados oficiais referentes a esse monitoramento encontram-se disponíveis na página do Inep (www.inep.gov.br) . Com o objetivo de apresentar um panorama da evasão na educação superior brasileira, Silva Filho et al. (2007) calcularam taxas

anuais e taxas anuais médias de evasão de 2001 a 2005: (1) no conjunto de todas as instituições brasileiras de ensino superior; (2) por forma de organização acadêmica; (3) por categoria administrativa; (4) por região geográfica; (5) por área do conhecimento e por cursos.

Segundo Silva Filho et al. (2007), é preciso diferenciar dois tipos de taxas de evasão: (1) a taxa de evasão anual, representada pela fração dos estudantes que, matriculados em um curso, não se formam e não se matriculam no ano seguinte; e (2) a taxa de evasão total, que corresponde ao complemento do índice de titulação, ou seja, é igual a 1 unidade menos a fração dos ingressantes em um curso que, após certo período, obtém diploma. Qualitativamente, a taxa de evasão total pode ser compreendida como um efeito cumulativo da taxa de evasão anual, entretanto, a relação precisa entre esses dois indicadores é bastante complexa.

Usando recursos simples de estatística descritiva, os autores puderam concluir que: (1) entre 2001 e 2005, a taxa anual média de evasão observada nas instituições brasileiras de ensino superior r foi de 22%; (2) a evasão anual média é maior nas instituições privadas; (3) as taxas de evasão em faculdades são quase duas vezes superiores às taxas de evasão em universidades e centros universitários; (4) a região norte apresentou as menores taxas de evasão do país; (5) enquanto as áreas de Serviços e Ciências, Matemática e Computação apresentaram as maiores taxas de evasão, as áreas de Educação, Agricultura e Veterinária e de Saúde e Bem -Estar Social apresentaram as menores taxas; (6) cursos de Física e Matemática mantiveram taxas anuais de evasão bastante superiores à média nacional e estão colocados entre os 5 cursos de maior evasão no país no ano de 2005; (7) Não é possível afirmar que a situação da evasão nas instituições brasileiras de ensino superior seja melhor ou pior que em outros países; (8) altas taxas de evasão parecem estar relacionadas a áreas do conhecimento com baixa demanda.

Desses resultados, destacamos a alta taxa anual de evasão nos cursos de Física de todo o país e a relevância da demanda por vagas para predizer a evasão nos diversos cursos da educação superior. Tradicionalmente, cursos de graduação em Física apresentam altas taxas de evasão. Por outro lado, a baixa competência acadêmica dos estudantes (decorrente da falta de competitividade para ingressar no curso) é o fator mais freqüentemente evocado pelos professores para justificar a evasão nos cursos de Física.

## Análises quantitativas das razões que levam à evasão

Além dos esforços em quantificar a evasão na educação superior, há estudos que buscam caracterizar quantitativamente os fatores relacionados à desistência do curso pelo discente. Palharini (2004) e Braga et al. (2002) são exemplos desse tipo de investigação.

Visando determinar as possíveis causas da evasão nos cursos graduação de uma universidade, Palharini (2004) elabora e aplica questionários com escalas tipo-Likert a 546 estudantes evadidos de 34 cursos oferecidos pela UFF . Esses questionários foram enviados pelo correio a uma amostra um pouco superior de alunos e continham diversos fatores que possivelmente teriam influenciado os estudantes a abandonar o curso. O objetivo da aplicação do questionário era discernir quais fatores, na perspectiva dos estudantes evadidos, seriam mais relevantes e quais seriam menos relevantes.

As afirmações inseridas no questionário podem ser agrupadas em três categorias: (1) fatores individuais - tais como falta de vocação para a carreira e dificuldade de obter bom desempenho acadêmico; (2) fatores externos - por exemplo, problemas de ordem familiar e despesas com a vida universitária; (3) fatores institucionais - tais como decepção com a qualidade do curso e falta de oferta de disciplinas no horário noturno.

Os fatores mais apontados pelos estudantes como determinantes da evasão foram: (1) o horário do curso não permitir o exercício de outras atividades; (2) a falta de oferta de disciplinas no horário noturno; (3) intervalos grandes entre as disciplinas no mesmo dia. Os itens de menor destaque são: (1) a dificuldade de obter bom desempenho por falta de conhecimento; (2) a falta de vocação para a carreira; (3) o desconhecimento da realidade do curso. Enfim, o principal resultado dessa pesquisa é que os estudantes evadidos não atribuem sua decisão a fatores pessoais ou às limitações do seu contexto sócio-econômico, mas à insuficiência das facilidades oferecidas pela instituição .

Com o objetivo de questionar em que medida a evasão do curso noturno de Química está relacionada ao gênero e às condições sócio-econômicas de estudantes de graduação, Braga et al. (2002) realizam uma análise estatística dos registros discentes dos ingressantes no curso noturno de química da UFMG no período de 1994 a 1998. Os resultados dessa análise foram comparados com um estudo anterior a respeito do curso diurno de Química na mesma instituição .

Dentre os resultados da análise, destacam-se os seguintes: (1) As taxas de evasão para o curso noturno de Química da UFMG estão relacionadas ao gênero, condição sócio-econômica e desempenho no início do curso; (2) As taxas de evasão não parecem estar relacionadas ao desempenho no vestibular; (3) A variável sexo relaciona -se tanto com a evasão quanto com o desempenho acadêmico, sendo a evasão bem menor entre as mulheres e o desempenho acadêmico pior entre os homens; (4) O tempo médio de integralização do curso é menor para as mulheres que para os homens.

Por se tratar a evasão de um fenômeno de larga escala de quantificação relativamente simples, é fundamental destacar a importância das abordagens estatísticas à questão da desistência do curso pelo estudante. Entretanto, talvez por herança da tradição positivista de pesquisa, dois dos estudos discutidos até agora (BRAGA et al., 2002; SILVA FILHO et al., 2007) não apresentam nenhum vestígio de suporte teórico com o qual o pesquisador articula seus pressupostos e conclusões .

Outra característica dos estudos discutidos até agora é que, com respeito às possibilidades de análise da metodologia quantitativa, eles permanecem limitados ao emprego tímido da estatística inferencial. A possibilidade de que as variações observadas nos estimadores da evasão sejam resultantes de flutuação estatística , por exemplo, não é testada em nenhum momento . Não que a ausência desses testes seja muito comprometedora, porém, sendo realizada uma análise mais elaborada, outros resultados de pesquisa poderiam ser acrescentados aos que foram obtidos.

## Evasão e o prazer na relação com o conhecimento

Visando abordar a evasão como resultado do processo psicológico individual e dando especial atenção ao prazer que o estudante busca na relação com a Física ,

Arruda e Ueno (2003) recorrem ao referencial psicanalítico para avaliar as motivações que alunos de graduação em Física apresentam para permanecer ou abandonar o curso.

Segundo os autores, o pressuposto cecentral das pesquisas que se aportam à psicanálise para analisar dados referentes à educação científica está na asserção de que o aprendizado de ciências não é somente aquisição de conhecimento científico, mas uma atualização da relação com esse conhecimento. Nesse contexto, a questão do desejo e a busca pelo prazer são consideradas fundamentais. Para a psicanálise, é por meio da sublimação que o sujeito se desloca do investimento em sua pulsão sexual original para as atividades escolares e para o conhecimento. Assim, é a busca pelo prazer que caracteriza a mobilização do sujeito na série de atividades que constituem o curso .

A partir dessa perspectiva, foram realizadas diversas entrevistas não estruturadas com estudantes de graduação do curso de Física em que se buscou identificar as motivações que influenciaram esses alunos a ingressar, permanecer e abandonar o curso. Segundo os autores, os dados colhidos indicam que dois dos fatores que mais motivam os alunos a ingressar no curso de Física são: (1) o prazer relacionado à resolução de problemas matemáticos; e (2) a curiosidade a respeito das razões por trás dos fenômenos da natureza, também chamada pulsão epistemofílica.

Sob essa perspectiva teórica, o desejo pelo conhecimento físico resulta da sublimação das pulsões sexuais originais e está relacionado a uma escolha inconsciente da qual resulta a persistência e o esforço necessários para manter o estudante mobilizado nas atividades do curso. Assim, embora possam existir razões extrínsecas ao sujeito, os autores (ARRUDA, UENO, 2003) sustentam que a permanência no curso pode ser compreendida, em diversos casos, como resultado do processo psicológico individual constituído pela pulsão epistemofílica intrínseca ao indivíduo .

## A história social do estudante como condicionante da evasão

Dando atenção à questão de como a história social dos indivíduos repercute sobre sua disposição a permanecer no sistema educacional até a conclusão da educação superior, é possível localizar análises da sociologia da educação relevantes à evasão. Ferreira (2003), Piotto (2008) e Viana (2005) são exemplos desse tipo de pesquisa . No caso dos artigos separados para esta revisão destacamse: (1) a questão do gênero; e (2) a questão do capital cultural (BOURDIEU, 1996) da família - geralmente identificada pela quantidade de educação formal adquirida pelos pais.

A pesquisa de Ferreira (2003) trata sobre a relação entre gênero e evasão em cursos de pós-graduação na área de ciências oferecidos por uma grande universidade americana . Tendo observado que, nesses cursos, as taxas de evasão eram significativamente superiores para as mulheres, Ferreira adotou o objetivo de analisar o papel do contexto social desses departamentos na propensão das mulheres em abandonar o curso. Para tanto, foram realizadas entrevistas com 32 estudantes, homens e mulheres, matriculados nos referidos programas de pósgraduação e foi aplicado um questionário constituído de escalas tipo-Likert sobre 170 estudantes desse programa.

Como resultado, a análise desse corpus mostrou que: (1) as razões para a evasão de mulheres são diferentes nos dois departamentos; (2) no departamento de Química , a questão da evasão parece estar relacionada tanto à falta de mulheres entre os professores os estudantes mais bem sucedidos quanto à cultura de competitividade individual e agressividade dentro dos laboratórios; (3) no departamento de Biologia, embora exista um maior número de mulheres, sua presença parece ter aumentado a percepção do conflito entre as exigências da vida acadêmica e a vida pessoal. A falta de alternativa às mulheres que buscavam equilibrar a vida pessoal e a acadêmica parece ter contribuído para sua opção pela evasão .

Em uma reflexão teórica a partir de diversas pesquisas sobre a relação entre as práticas sociais de famílias de baixa renda e a permanência de estudantes no sistema educacional, Viana (2005) aborda a problemática das formas de presença das famílias populares na escolarização dos filhos nos casos em que esses últimos logram permanecer no sistema educacional até o nível superior.

Ao longo da revisão realizada por essa autora, são apresentados estudos que, embasados em dados empíricos, sustentam a tese de que as escolaridades prolongadas em meios populares supõem uma forte mobilização familiar. Tal mobilização se manifestaria concretamente no investimento dos recursos familiares em cursos particulares, na vigilância do estudo extra-classe, em uma intensa solidariedade material entre os membros da família e no esforço em localizar exemplos de sucesso escolar na memória familiar.

Essas estratégias de mobilização são esforços conscientes e relativamente planejados por meio dos quais algumas famílias populares investem na formação dos seus filhos no sentido de compensar os efeitos produzidos pela distribuição desigual do capital cultural segundo Bourdieu (1996): filhos de pais pouco instruídos são propensos a obter menos êxito escolar e a permanecer r por menos tempo nos sistemas educacionais.

Viana (2005) avança ao argumentar que os processos de socialização familiar - mesmo aqueles que são predominantemente arbitrários e não planejados - têm forte poder de engendrar nos filhos disposições facilitadoras (ou dificultadoras) do êxito escolar. Assim, as experiências de vida concretas que constituem o processo de socialização familiar - ou, mais precisamente, a congruência entre essas experiências e a cultura escolar - não estão necessariamente ligadas a um processo organizado de mobilização familiar, mas são potencialmente capazes de explicar os casos dos jovens de famílias populares que logram trajetórias educacionais prolongadas, concluindo o ensino superior.

Com o objetivo de acrescentar às reflexões sobre as condições que possibilitam trajetórias escolares prolongadas nas camadas populares e ilustrar suas conclusões com a entrevista com um jovem estudante de psicologia na USP nascido em família pobre, Piotto (2008) realiza uma análise cuidadosa da qual se conclui que: (1) o sucesso escolar é influenciado , mas não está condicionado exclusivamente ao capital cultural da família; (2) para que o capital cultural familiar seja transmitido, são necessárias condições afetivas e efetivas específicas; (3) o sucesso escolar de estudantes pobres está relacionado ao desenvolvimento de uma "inteligência institucional", ou seja, à capacidade aprender e jogar as regras do campo escolar; (5) o trânsito do estudante pobre para as esferas mais

especializadas de escolarização nem sempre é vivido como uma ruptura, mas como um prolongamento da sua experiência de vida.

Enfim, há na literatura diversos detalhamentos sobre as questões de gênero e questões da transmissão do capital cultural familiar, mas essas questões não esgotam o que referenciais da sociologia da educação podem oferecer para a compreensão profunda dos processos implicados na evasão escolar. Como é possível perceber, salvo pela questão de gênero, que tem sido abordada consistentemente pela pesquisa em educação científica (eg. CRONIN, ROGER, 1999), a literatura sobre evasão - além de rara - apresenta lacunas com respeito às particularidades da evasão no contexto dos cursos de graduação em Física apesar de serem mais elevados os índices de abandono nesses cursos.

## Considerações finais

A evasão é um fenômeno de larga escala que atinge, de diversas maneiras, os sistemas educacionais do mundo todo. No contexto dos dados oficiais, os altos níveis de evasão nos cursos de graduação das áreas de ciências e matemática - particularmente no curso de Física - justificam abordar tais cursos em separado, buscando identificar as razões específicas que tornam suas taxas de evasão superiores. Por outro lado, a partir desta revisão, é possível perceber que algumas razões da evasão são transversais tanto aos cursos de graduação quanto ao sistema de ensino como um todo . Assim, propor ações concretas e teoricamente fundamentadas para o controle da evasão nos cursos de graduação em Física envolve considerar aspectos específicos e não específicos desses cursos de graduação .

Observa -se que, dentre os quatro trabalhos que se referem a um curso específico, três pertencem à área da ciência (BRAGA et al., 2002; ARRUDA, UENO, 2003; FERREIRA, 2003). Entretanto, como também é possível perceber, esses trabalhos estão bastante isolados uns dos outros e, no que diz respeito à pesquisa em ensino de ciências, não permitem teorizar sobre as particularidades da evasão no contexto dos cursos de graduação em Física ou em áreas afins. Nisto consiste a lacuna da literatura com respeito à evasão nos cursos de graduação em Física: além de haver pouca pesquisa de qualidade a respeito da evasão tanto nos periódicos da educação quanto nos periódicos do ensino de ciências, a pesquisa existente não permite apresentar de maneira fundamentada e consistente as particularidades da evasão nos cursos de Física.

Uma revisão mais ampla ainda é necessária, mas, sobretudo, é necessário que se faça mais pesquisa sobre as particularidades desse problema concreto e relevante que é a evasão nos cursos de graduação em Física.

## Referências

ARRUDA, S.M.; UENO, M.H. Sobre o ingresso, desistência e permanência no curso de Física da Universidade Estadual de Londrina: Algumas reflexões. Ciência & Educação, v. 9, n. 2, 2003.

BOURDIEU, P. Razões práticas: Sobre a teoria da ação. São Paulo: Papirus, 1996.

BRAGA, M.M.; PEIXOTO, M.C.L.; DINIZ, L.F.; BOUGUTCHI, T.F. A evasão no ensino superior noturno: O caso do curso de Química da UFMG. Avaliação, v. 7, n. 1, p. 49 -72. 2002.

BRASIL . Decreto n° 6.069, de 24 de abril de 2007. Institui o Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais -REUNI. Diário Oficial da União, Poder Executivo, Brasília, 7 abr. 2008 .

BRASIL . Decreto n° 6.425, de 4 de abril de 2008 . Dispõe sobre o censo anual da educação . Diário Oficial da União, Poder Executivo, Brasília, 25 abr. 2007.

CRONIN, C.; ROGER, A. Theorizing Progress: women in science, engineering, and technology in higher education. Journal of Research in Science Teaching, v. 36, n. 6, p. 637 -661, 1999.

FERREIRA, M. Gender issues related to graduate student attrition in two science departments. International J Journal of Science Education, v. 25, n. 8, p. 969-989. 2003.

NARDI, R. Memórias da educação em ciências no Brasil: A pesquisa em ensino de Física. I Investigações em Ensino de Ciências, v. 10, n. 1, p. 63-101. 2005.

PALHARINI, F.A. Elementos para a compreensão do fenômeno da evasão na UFF. Avaliação, v. 9, n.2, p. 51-80. 2004.

PIOTTO, D.C. Trajetórias prolongadas nas camadas populares. Cadernos de Pesquisa, v. 38, n. 135, p. 701 -707. 2008.

SILVA FILHO, R.L.L.; MONTEJUNAS, P.R.; HIPOLITO, O.; LOBO, M.B.C.M. A evasão no ensino superior brasileiro. Cadernos de Pesquisa, v. 37, n. 132, p. 641 -659. 2007.

VIANA, M.J.B. As práticas socializadoras familiares como locus de constituição de disposições facilitadoras de longevidade escolar em meios populares. Educação e Sociedade, v. 26, n. 90, p. 107-125. 2005 .

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