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Astronomia pelo olhar de Lima Barreto: Literatura e Física.

Silvana S. Lima, João Eduardo Ramos

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XXII
Ano
2017
Data
25/01/2017
Linha de pesquisa
Cultura, Linguagem E Cognição No Ensino De Física
Tipo
Pôster

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Texto completo

## ASTRONOMIA PELO OLHAR DE LIMA BARRETO: LITERATURA E FÍSICA.

## Silvana S. Lima , João Eduardo Ramos 1 2

- 1 Instituto Federal de São Paulo (IFSP) - Campus São Paulo, siluminista@gmail.com
- 2 Instituto Federal de São Paulo (IFSP) - Campus São Paulo, joaoeframos@gmail.com

## Resumo

Literatura e ciência não são conhecimentos separados, o conhecimento científico adquirido pode ser trabalhado com outras áreas do conhecimento. Neste trabalho, apresentamos o resultado de uma intervenção onde foi utilizado um conto literário. O conto 'Congresso Pan-Planetário' foi escolhido pelo conteúdo sobre astronomia e por ser um autor nacional. Neste conto estão presentes suas preocupações sociais e políticas de sua época, onde o mesmo carregou uma inquietação permanente sobre os problemas das contradições sociais. O autor utiliza de seus conhecimentos científicos para o enredo, onde Júpiter quer se sobrepor a galáxia. E traz elementos da ciência para justificar cada personagem que, no caso, são os planetas. A intervenção foi realizada com alunos do primeiro ano do ensino médio técnico do curso de elétrica do Instituto Federal de Ciência, tecnologia e Educação de São Paulo. Onde o conteúdo de física, previsto, é a astronomia, e contou com a leitura da história seguida da produção de um desenho que resumisse o conto. Acreditamos que o conto pode ser o ponto de partida para o conhecimento sobre o sistema solar, escalas astronômicas e também constelações. Por fim, esta abordagem permitiu que o aluno tivesse conhecimento da ciência através de outras áreas do conhecimento de forma cultural e artística.

Palavras-chave : Literatura, astronomia, conto.

## Introdução

A literatura é uma área do conhecimento que pode dialogar com a ciência e fornecer ferramentas, interpretações e diferentes visões para o desenvolvimento do conteúdo didático. Entendemos que o caráter cultural da física passa pela leitura e que o ato de ler não é exclusividade da disciplina de português. Assim, concordamos com o a tese de Ezequiel Theodoro da Silva de que 'Todo professor, independente da disciplina que ensina, é professor de leitura, e esta pode ser transformada numa atividade interdisciplinar...'. (apud ZANETIC, 1989, p.22).

De maneira que, a literatura ao favorecer o imaginário do aluno também consegue alcançar alunos que identificam a física como algo separado das demais áreas do conhecimento. Logo, física e a literatura é uma ponte para construção do saber científico deste aluno.

A leitura neste caso vai além do 'somente decodificar e engolir as mensagens dos múltiplos textos estudados' (PIASSI e Pietrocolla, 2007, p.1). Entendemos a leitura como exercício de reflexão e cultura inerente a vida do aluno.

Com isso este trabalho teve como objetivo utilizar um conto de literatura para desenvolver o conteúdo de astronomia, mais especificamente, o sistema solar.

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- O conto selecionado foi o Congresso Pan-Planetário do escritor brasileiro Lima Barreto. Sua escolha se deu pela importância da literatura nacional, e por ser uma literatura com um vocabulário não contemporâneo, e que os alunos desconhecem muitas vezes e acabam não se interessando pela leitura. Foi escolhido também devido aos elementos científicos presentes no conto.

Para a realização de nossa pesquisa, nos baseamos em uma metodologia que pode ser dividida em três etapas:

- - Seleção e estudo do conto;
- - Elaboração da atividade;
- - Realização da intervenção;
- - Análise dos materiais entregue pelos alunos e da atividade.

A atividade contou com a distribuição prévia do conto aos alunos em sala. No momento da atividade foi realizada a discussão e contextualização do texto com informações sobre o autor e trabalhado os conceitos de astronomia presentes no conto. Por fim, foi solicitado um trabalho final.

- A opção de o texto ser entregue anteriormente para leitura em casa foi devido ao tempo limitado da aula de física, porque o professor da disciplina disponibilizou somente duas aulas para o desenvolvimento da intervenção.
- A discussão do texto e analise dos elementos científicos foi feito através da participação dos alunos e imagens em slides que foram escolhidas devido ao conteúdo de astronomia abordado em sala.

## Lima Barreto e o congresso planetário

Afonso de Lima Barreto nasceu em 1881 e faleceu em 1922, passando assim por momentos históricos significativos que influenciou sua literatura. Como a abolição da escravatura e a mudança do sistema político de monárquico para republicano.

A Republica que vai ter ideias do Positivismo, onde Lima Barreto é adepto de início e depois se desvencilha desta filosofia. Estudou no Liceu de Niterói, onde nesta época entra em contato com o autor Júlio Verne. Depois começa seus estudos na Politécnica. Abandona os estudos após complicações financeiras advinda da impossibilidade de seu pai trabalhar devido a sua saúde. Assume o sustento da família aos 22 anos de idade. Inscreve-se em uma prova de admissão e passa a trabalhar no Ministério da Guerra. Trabalha no jornal Correio da Manhã, onde sua escrita e investigação jornalística afloram.

De 1900 a 1918, escreve 170 crônicas. É em 1921 que Lima Barreto tem mais crônicas publicadas, são 77. Em 1920, faz 72 crônicas; em 1919 também; em 1922, escreve 59. (SANTA ANNA, 2008, p.90) Neste período muito aconteceu no país: a segunda candidatura de Rodrigues Alves à presidência, as campanhas de Rui Barbosa e Nilo Peçanha, a criação do Partido Comunista, entre outras.

- O conto Congresso Pan Planetário foi publicado em 1920, onde a identificação do teor político é bem forte. O conto, conta a história do planeta Júpiter que pretende convencer os outros planetas do sistema solar a se sobrepor ao espírito estelar, ou seja, a galáxia. Júpiter já exerce uma forte influência de poder

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sobre os outros planetas, de forma não democrática, e se irrita com estrelas que estão distantes por debochar do sistema solar. Assim, mesmo com o fracasso de seu plano, sua dominação política com relação aos outros planetas prevalece. E sua ideia de superioridade se dá somente em relação aos planetas.

Podemos verificar isso nestes excertos: 'formar um espírito planetário, em contraposição ao espírito estelar' (BARRETO, 2012, p.88), 'Todos os outros não viram bem esse propósito de Júpiter; mas este lhes venceu a resistência, convencendo-os de que deviam ser originais e chamar a atenção do Universo' (BARRETO, 2012,89), e,

'A terra banalizou-se; Marte perdeu a inteligência; Vênus, o amor desinteressado; Netuno, a bravura generosa; os gatos de todos os planetas, contudo, vieram a gozar dos benefícios das instituições jupiterianas, isto é, foram expulsos da comunhão dos patrícios' (BARRETO, 2012, p.92)

Além destas partes política presente no conto, a ciência é encontrada, por exemplo, nas seguintes passagens: 'Era unicamente Júpiter que estava assim: o resto dos satélites do Sol vivia sofrivelmente...' (BARRETO, 2012, p.88). Neste trecho, podemos discutir o sistema heliocêntrico, assim como o significado de satélite. Em outro trecho:

'Como porém, houvessem descoberto que todos eles estavam ligados por uma força oculta que, embora influindo mutuamente sobre todos eles pesava mediocremente sobre os destinos particulares de cada um' (BARRETO, 2012, p.88).

Nesta passagem identificamos uma menção a força gravitacional. No trecho seguinte, são apresentadas outras estrelas:

'Todos os outros não viram bem esse propósito de Júpiter; mas este lhes venceu a resistência, convencendo-os de que deviam ser originais e chamar a atenção do Universo... O mundo estelar não nos debocha? Altair não está sempre a rir-se sarcasticamente de nós? Aldebaran não nos ameaça com seu rubor? Sírios não nos desdenha? Havemos de lho mostrar.' (BARRETO, 2012, p.88).

- O que possibilita uma discussão sobre distância, localização do sistema solar e tamanho dos planetas. Por fim, uma passagem sobre mitologia:

'Se tais produtos não estavam completamente envenenados, foram, no entanto, deletérios. A terra banalizou-se; Marte perdeu a inteligência; Vênus, o amor desinteressado; Netuno, a bravura generosa...' (BARRETO, 2012, p.92).

Com isso pode ser identificado no texto muito elementos da astronomia, mitologia e política que pode ser explorado como ponte para construção do conhecimento.

## Elaboração da intervenção

A proposta da intervenção foi elaborada nas aulas de oficina e estágio. Uma das disciplinas do curso de licenciatura em física no Instituto Federal de Ciência, Tecnologia e Educação de São Paulo. O professor orientador João F. Ramos, que trabalhou o tema de mídias como ferramenta de estimulo e desenvolvimento nas aulas de física. Neste caso a mídia escolhida foi literatura.

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Esta intervenção foi elaborada durante observações no período de estágio com os alunos do ensino médio técnico desta mesma instituição. A turma foi do curso técnico de elétrica do primeiro ano FSC-132, com 24 alunos.

As observações foram importantes para investigação do gosto pessoal dos alunos, onde expressavam em camisetas, estampas de cadernos e livros seu gosto cultural. A participação dos alunos nas aulas e conversa com o professor de física da turma foi crucial, para saber os conhecimentos prévios dos alunos sobre astronomia. E também a questão da literatura, pois o professor desta turma já havia trabalhado um texto com os alunos.

- A duração da intervenção foi pensada para duas aulas, não sendo necessário conhecimento prévio de astronomia, pois os mesmo seriam abordados durante a atividade. O conto foi entregue para leitura em casa, para as que as duas aulas de 45 minutos ficassem somente para aplicação da atividade.

Foi solicitado aos alunos que durante a leitura grifassem os elementos da física presente no conto, os personagens e palavras que não conheciam. Assim o início da atividade se deu com a discussão da leitura e destas palavras e interpretações dos alunos sobe o conto.

A outra parte foi explicar quem foi Lima Barreto, suas principais obras e seu contato com a ciência. Onde é um autor que não escreve ficção cientifica, e mesmo assim elaborou um conto com elementos da ciência, evidenciando assim, a interdisciplinaridade na atividade.

Após o conto foi explorado com explicação dos elementos da astronomia presente como: os planetas, sistema solar heliocêntrico e geocêntrico, a galáxia e as constelações que aparecem no conto, entre outras.

Por último foi solicitado aos alunos que fizessem uma representação do sistema solar que representasse o conto, e o que eles tinham entendido. Esta parte foi separada em grupos de afinidades dos alunos, que tinha grupos de 6 e 3 alunos, da turma de 24 ao todo.

## Resultados

Todos os alunos participaram e a leitura realizada foi percebida pelas palavras grifadas e dúvidas iniciais antes do início da intervenção.

A ideia de mostrar que outros autores poderiam utilizar elementos da ciência para escrever histórias mesmo não sendo considerados autores de ficção científica foi bem recebida. As passagens do texto mostrando elementos do sistema solar como Júpiter, o maior planeta, e por isso era o personagem principal do conto, foi entendido assim como outros elementos. Sobre a ideia de Júpiter se sobrepor a galáxia os alunos fizeram uma analogia política com o comentário que este planeta parecia o E.U.A.

A cooperação dos alunos se deu através de grupo para realização da atividade final que foi a construção do sistema solar que representasse conto.

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Figura 01: Representação do sistema solar feita pelo grupo 1

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Nesta figura, vemos que o grupo seguiu a representação correta do sistema solar, portanto, não alterando a ordem dos planetas, nem inserindo as características presentes no conto. O que achamos curioso foi que nesta representação Saturno está maior que Júpiter, o que não ocorre na história, nem no nosso sistema solar. Isso evidencia a possibilidade de realizada a atividade, retomar a configuração do sistema solar e problematiza-la.

Figura 02: Representação do sistema solar feita pelo grupo 2 O próprio grupo entregou uma explicação para o sistema em questão:

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o sistema solar foi representado dessa forma seguindo a lógica do conto, que aponta júpiter como o principal (desenhado em tamanho maior por causa disso), Netuno como o mais inteligente (desenhado perto de Júpiter devido a isso), e aponta Vênus como o mais 'bronco' (?). O sol foi desenhado no centro, por eles serem 'superiores'. O Sistema Solar foi desenhado de forma lanças para representar a 'superioridades' dos planetas Júpiter e Netuno. As outras estrelas não foram representadas porque não cabiam no desenho, por serem maiores do que júpiter.

Nesse caso, o grupo tentou ser mais fiel a proposta do conto, captando inclusive, as principais diferenças entre os planetas.

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Por fim, o terceiro grupo desenhou o sistema solar em sua ordem correta inserindo na imagem características dos planetas de acordo com a história. Na imagem é possível, por exemplo, notar os autofalantes da Terra.

Figura 03: Representação do sistema solar elaborada pelo grupo 3

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## Considerações finais

Este trabalho foi realizado com alunos do ensino médio técnico e, mesmo sendo turmas que têm o hábito de leitura, o autor não era de conhecimento de todos, e a interdisciplinaridade foi o fator que chamou atenção para trabalhar os elementos de físicos presentes. Onde houve manifestação de interesse de mais aulas como esta oficina.

Astronomia é algo que fascinam os alunos e mesmo eles achando difícil um pouco a compreensão do texto, relataram interesse em mais contos do autor, ou outros contos que abordasse o tema.

Este trabalho deve ser continuado, de maneira que os elementos de astronomia e abordagem da interdisciplinaridade sejam aplicados com outras turmas, assim como em outras escolas.

## Referências

BARRETO, Lima. A nova Califórnia e outros contos. São Paulo: Ed. UNESP, 2012.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia . São Paulo: Paz e Terra, 1996. 21-45p

PIASSI, Luís P. e PIETROCOLA, Maurício. Quem conta um conto aumenta um ponto também em física: contos de ficção científica na sala de aula. In : Atas do XVII Simpósio Nacional de Ensino de Física . Maranhão, 2007.

SANTA ANNA, Cristina N. de. O cronista político Afonso de Lima Barreto . Niterói: UFF 2008. 130f. Tese (Mestrado em Educação) - Programa de pósgraduação em ciência política mestrado em ciência política, Universidade Federal Fluminense, Niterói 2008.

ZANETIC, João. Física também é cultura . Tese de doutorado. São Paulo: Faculdade de Educação da USP, 1989.

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Texto extraído automaticamente do PDF: podem existir erros de conversão, especialmente em fórmulas, tabelas e figuras.