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A INFLUÊNCIA DA LINGUAGEM VERBAL NO ENSINO DE FÍSICA E SEUS CONCEITOS: DO COTIDIANO PARA A SALA DE AULA.

Deborah S. Franco, Emely Giron Dos Santos, José Roberto Tagliati

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XXII
Ano
2017
Data
25/01/2017
Linha de pesquisa
Cultura, Linguagem E Cognição No Ensino De Física
Tipo
Pôster

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Texto completo

## A INFLUÊNCIA DA LINGUAGEM VERBAL NO ENSINO DE FÍSICA E SEUS CONCEITOS: DO COTIDIANO PARA A SALA DE AULA.

## Deborah S. Franco 1 , Emely Giron dos Santos , José Roberto Tagliati 2 3

- 1 Universidade Federal de Juiz de Fora/Departamento de Física, deborahsfranco@gmail.com
- 2 Universidade Federal de Juiz de Fora/Departamento de Física, emelygiron@hotmail.com
- 3 Universidade Federal de Juiz de Fora/Departamento de Física, tagliati@fisica.ufjf.br

## Resumo

Este trabalho é o prefácio de um estudo que está sendo realizado no projeto de Mestrado Nacional Profissional em Ensino de Física (MNPEF), do Polo da Universidade Federal de Juiz de Fora, em conjunto com o Instituto Federal do Sudeste Mineiro - MG. Com motivação nas ideias de Bakhtin, influente filósofo da linguagem, pode-se afirmar que a palavra sempre estará carregada de um sentido particular, de acordo com cada pessoa, da vivência de cada indivíduo e do seu contexto histórico e social. Assim sendo, pode-se dizer que o aluno adere significados às palavras por ele ouvidas, o que pode ser relevante em seu processo de ensino. Deseja-se, então, através desse trabalho, apresentar uma pesquisa realizada com alunos da rede pública e privada de Juiz de Fora, a qual posteriormente foi analisada em forma de gráficos, buscando identificar quais são os conceitos e palavras cujo entendimento, pela perspectiva dos estudantes, é de difícil entendimento. Observou-se, nessa pesquisa, que as palavras que apareceram com mais frequência são justamente aquelas utilizadas no dia a dia dos alunos, mas com um significado diferente do que lhes é apresentado na disciplina de Física. Com isso, é perceptível o quanto a linguagem pode vir a interferir no processo de assimilação de um determinado conteúdo. Posteriormente, com os resultados da pesquisa realizada, será proposta uma mediação a fim de contribuir no ensino e na aprendizagem de Física.

Palavras-chave: Física; Ensino; Linguagem; BNCC.

## Introdução

Este trabalho se enquadra dentro da proposta do Mestrado Nacional Profissional em Ensino de Física (MNPEF), do Polo UFJF/ IF Sudeste MG, que busca capacitar professores da educação básica, atuantes tanto no Ensino Médio quanto no Ensino Fundamental, com ênfase nos conteúdos de Física e nas estratégias em sala de aula. A experiência aqui relatada foi desenvolvida no primeiro semestre do ano de 2016, em escolas de caráter público e particular, incluindo cursos preparatórios para vestibulares. Trata-se de um trabalho investigativo em forma de pesquisa, procurando identificar as palavras ou termos correspondentes à Física considerados de difícil entendimento na perspectiva dos alunos.

- O processo de aprendizagem requer discurso, e todo discurso é uma construção social. Em acordo com Bakhtin(2009), toda palavra procede de alguém e se dirige para alguém; toda palavra "serve de expressão a um em relação ao outro"

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(BAKHTIN/VOLOCHÍNOV, 2009, p.117), ou seja, ela constitui um instrumento de pensamento do ser humano e também a capacidade de abstração de conceitos, dos mais simples aos complexos. Posto isso, percebe-se que a Física tem uma linguagem científica, característica da disciplina, com a qual os alunos não estão habituados; em geral, eles não são capazes de explicar ou expressar determinado teorema ou conceito. Muitas vezes, ocorre de o indivíduo não conseguir comunicar em palavras as experiências vivenciadas em seu cotidiano, não sendo capaz de interpretar os signos comuns a ele. Nesse contexto, como se pode esperar que ele interprete de maneira simplória os signos da ciência, que é apresentada de modo formal na escola, e cujo conteúdo parece desvinculado de seu dia a dia?

Diversos termos que aparecem no contexto escolar já estão inseridos no dia a dia do aluno, porém, possuindo um sentido diferente do sentido a eles atribuído cientificamente. Assim sendo, acredita-se que a palavra depende de cada indivíduo e da impressão que ele tem sobre o mundo. Cada aluno tem um conhecimento de mundo diferente, o que imbrica conhecimentos prévios também diferentes. Portanto, um aluno que ouve o tempo todo que precisa fazer um trabalho da escola, ou até mesmo que sua mãe precisa ir para o trabalho, certamente terá um pré-conceito ou uma imagem pronta quando o professor, em sala de aula, falar sobre o trabalho de uma força.

Os conceitos e modelos da Física nos ajudam a descrever e a interpretar o mundo à nossa volta, sejam sistemas naturais ou equipamentos tecnológicos. Como corpo organizado de conhecimentos, a Física representa uma maneira de dialogar com o mundo, uma forma de 'olhar o real', que apresenta características peculiares, como a proposição de representações, modelos, leis e teorias com alto grau de abstração, sofisticação, consistência e coerência internas; o uso de metodologias e de linguagem próprias; a busca de relações de causa e de efeito. (BNCC, 2016).

Como visto acima, no trecho retirado da Base Nacional Comum Curricular, o ensino de Física possui, como um de seus pilares, a função de promover os estudantes no contexto cultural, social e histórico no qual eles estão envolvidos, não deixando de destacar que a Física se refere a uma linguagem. O presente trabalho irá apresentar as principais palavras e os termos escolhidos pelos alunos e discutilos através de diálogos, de acordo com as competências contidas na BNCC.

## Metodologia

A pesquisa em questão foi obtida através de um questionário objetivo, contendo palavras acerca do conteúdo de Física, abordadas durante o primeiro ano do Ensino Médio, dentro da nova proposta da BNCC, que traz como unidades de conhecimento (UCF) do componente curricular do primeiro ano: UC1F - Movimentos em sistemas e processos naturais e tecnológicos; UC2F - Energia em sistemas e processos naturais e tecnológicos.

De acordo com Tuckman(2000), as fontes de obtenção de dados podem ser utilizadas em um estudo de caso e são, normalmente, caracterizadas por três tipos: (1) entrevistas, (2) documentos vários e (3) através da observação. Sendo assim, foi utilizado o questionário, que se enquadra em documentos vários, a fim de identificar e contabilizar a ocorrência de cada uma das palavras.

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O questionário foi aplicado a um total de 142 alunos, sendo 77 de escola particular e 65 de escola pública, no município de Juiz de Fora - Minas Gerais. Todos os estudantes estavam cursando ou já haviam cursado o terceiro ano do Ensino Médio e realizaram a pesquisa apresentada abaixo sem qualquer intervenção do professor.

Figura 01: Pesquisa distribuída aos alunos

## Resultados obtidos

Com a análise da pesquisa, foi elaborado um gráfico geral que relaciona as palavras utilizadas no questionário com o número de vezes que as mesmas foram marcadas pelos alunos. Este gráfico revela que determinadas palavras foram escolhidas com maior frequência que outras. Pode-se perceber, por exemplo, que a palavra 'Tração' foi selecionada por, aproximadamente, 64% dos alunos; 'Tensão', por aproximadamente 62%; 'Impulso', assim como 'Partícula', foram marcadas por 49,3%; 'Potência', por 43%; 'Inércia', por 40,8%; 'Energia', por 37,3%; 'Trabalho' e 'Atrito', por 35,2%. A ocorrência das demais palavras pode ser observada no gráfico 01 que se encontra a seguir.

As palavras destacadas acima foram as que, de acordo com o gráfico, tiveram um maior número de ocorrências. É notório que, das nove palavras em destaque, sete já estão presentes no vocabulário dos alunos, são palavras que eles utilizam em seu cotidiano.

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Gráfico 01: Gráfico Geral das Palavras versus Número de Ocorrências

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Foram elaborados, ainda, dois gráficos com a intenção de apresentar as mesmas palavras com suas respectivas ocorrências, mas, desta vez, analisadas de acordo com o caráter público ou privado da escola. O resultado obtido mostra que, salvo em algumas palavras, como, por exemplo, 'Inércia' - que obteve uma ocorrência de 30% para 54% -, e 'Energia' que apareceu em 46% por 26%, na escola privada e pública respectivamente, não há muita discrepância entre os dois gráficos. É necessário recordar que o número de alunos de cada escola é diferente.

Gráfico 02: Gráfico das Palavras versus o Número de Ocorrências na Escola Pública

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Gráfico 03: Gráfico das Palavras versus Número de Ocorrências na Escola Particular

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O questionário possuía, ainda, um espaço livre onde o aluno pôde evidenciar as palavras que ele acredita não conhecer. Novamente, 'Tensão' e 'Tração' aparecem como as mais citadas, com dez e oito citações, respectivamente. É de se estranhar que apareça a palavra 'Energia', mas dois alunos disseram não conhecer essa palavra.

Pensando em tudo que foi apresentado até aqui, identifica-se que a maior parte das palavras escolhidas pelos alunos são aquelas que estão presentes na sua rotina. Como as palavras possuem sentido de acordo com o momento histórico, social e cultural do indivíduo, a aprendizagem no âmbito escolar precisa levar em consideração o conhecimento prévio do aluno, que pode ser transformado, uma vez que o sentido da palavra se altera de acordo com a vivência. Como afirma Freitas (1994, p. 103), 'O conceito espontâneo abre caminho para o conceito científico e este fornece estrutura para o desenvolvimento daquele, tornando-o consciente e deliberado.' Assim sendo, evidencia-se, aqui, o quanto é necessário ter consciência de que o aluno possui um conhecimento de mundo a respeito dos termos apresentados e que esse conhecimento pode interferir e até mesmo confundir o aprendizado de seu significado científico.

Ao tratar os termos abordados anteriormente como uma linguagem especifica da Física, deixa-se para trás as experiências vividas pelos alunos, as quais podem intervir tanto positiva quanto negativamente no ensino do conteúdo. Logo, julga-se importante que o professor tenha em mente, no momento de introduzir tais conceitos, que palavras como 'Impulso', 'Trabalho', 'Tensão', entre outras, não possuem um sentido único e nem são novidade para os educandos. É de extrema importância que o professor explore esse vocabulário e até mesmo seja capaz de estabelecer um elo entre o significado coloquial e o científico, obtendo, assim, uma maneira de trazer o aprendiz a uma maior proximidade com o que está sendo aprendido, fazendo-o participar do processo de aprendizagem.

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## Conclusão

Em acordo com Bogdan e Biklen (1994), quando afirmam que a investigação em educação pode tirar partido da relação de proximidade existente entre o investigador e o objeto de estudo, acredita-se que o questionário aplicado aos alunos foi capaz de revelar com clareza o que se pretendia. As palavras por eles marcadas não dizem respeito a dificuldades nas fórmulas matemáticas, mas sim aos conceitos e sentido de cada uma.

Com base nos gráficos apresentados, podemos perceber que os alunos participantes do levantamento conhecem diferentes termos que, na disciplina de Física, possuem significados bem definidos. Considerando as discussões teóricas apresentadas, podemos assumir que, uma vez que os alunos já possuem conhecimento de muitos termos utilizados na Física, há uma inegável influência dos significados que os alunos já assumem sobre os termos, no processo de assimilação e aquisição de conhecimento.

Tendo consciência de que a palavra depende de cada indivíduo e da impressão que ele tem sobre o mundo, acredita-se que a compreensão da linguagem auxilia, de forma significativa, no processo de elaboração dos conceitos científicos. Uma vez que a linguagem - entendida como um signo verbal ou não verbal - e a ciência são frutos de uma construção histórica, elas são inseparáveis ao sujeito; uma palavra é capaz de provocar, no ser humano, sensações, emoções, lembranças e imagens, e assim se dá também com o aluno, ao ouvir e tentar dar sentido ao que seu professor expôs.

Esse relato é apenas o início de um trabalho de dissertação de mestrado. Em um passo posterior à pesquisa aqui apresentada, serão propostos programas e intervenções a fim de, em conjunto com esse estudo, auxiliar a aprendizagem e o ensino da disciplina de Física, tornando-a mais acessível e buscando quebrar o desgosto, por parte da grande maioria dos alunos, à disciplina.

## Referências

BAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal. Trad. Maria E. G.G. Pereira. São Paulo. Martins Fontes, (1992 [1979]).

BAKHTIN, M. (VOLOCHÍNOV). Marxismo e filosofia da linguagem. Problemas fundamentais do método sociológico na ciência da linguagem. Trad. Michel Lahud e Yara Frateschi Vieira. 13 ed. São Paulo: Hucitec, 2009 [1929].

BOGDAN, R.; BIKLEN, S. - Características da investigação qualitativa. In: Investigação qualitativa em educação: uma introdução à teoria e aos métodos. Porto, Porto Editora, 1994.

BRAIT, BETH. Bakhtin: Conceitos - chave. São Paulo, 5ª edição, 2ª reimpressão, 2014, Editora Contexto, 2005.

FREITAS, Maria Teresa de Assunção. Vygotsky e Bakhtin: psicologia e educação: um intertexto. São Paulo: Ática, 1994.

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http://basenacionalcomum.mec.gov.br/documentos/bncc-2versao.revista.pdf Acessado em 20/07/16.

http://portal.mec.gov.br/par/195-secretarias-112877938/seb-educacaobasica-007048997/12598-publicacoes-sp-265002211 - Acessado em 15/07/16.

MOREIRA, MARCO ANTÔNIO. Aprendizagem Significativa: a teoria e textos complementares. São Paulo, Editora Livraria da Física, 2011.

PESSANHA, Márlon; COZENDEY, Sabrina; ROCHA, Diego Marceli. O compartilhamento de significado na aula de Física e a atuação do interlocutor de Língua Brasileira de Sinais. Ciencia &amp; Educação, v. 21, n. 2, p. 435-456, 2015.

TUCKMAN, Bruce (2000) Manual de investigação em educação: como conceber e realizar o processo de investigação em educação. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian.

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Texto extraído automaticamente do PDF: podem existir erros de conversão, especialmente em fórmulas, tabelas e figuras.