O JOVEM PROFESSOR DE FÍSICA E A ESCOLHA PELA DOCÊNCIA: HISTÓRIA DE VIDA COMO FERRAMENTA METODOLÓGICA
Renata Pojar, Rodolpho Lima Leite, André Rodrigues
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXII
- Ano
- 2017
- Data
- 25/01/2017
- Linha de pesquisa
- Formação De Professores E Prática Docente
- Tipo
- Pôster
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Texto completo
## O JOVEM PROFESSOR DE FÍSICA E A ESCOLHA PELA DOCÊNCIA: HISTÓRIA DE VIDA COMO FERRAMENTA METODOLÓGICA
Renata Pojar , Rodolpho Lima Leite , André Rodrigues 1 2 3
- 1 Universidade de São Paulo/Programa de Pós-graduação Interunidades em Ensino de Ciências, renata.pojar@usp.br
## Resumo
Segundo dados da UNESCO, existe uma falta mundial de professores. No Brasil, a situação não é diferente. A procura pelos cursos de licenciatura é baixa, além do número de formandos ser pequeno, devido à grande evasão durante a graduação. Além disso, dos professores formados, poucos lecionam. Estudos mostram que metade dos alunos de licenciatura nas áreas de Exatas não pretendem ou tem dúvida quanto a seguir a carreira de professor de educação básica. Soma-se a isso, o abandono do magistério. Contudo, da mesma forma que existem jovens professores que desistem da profissão ao se deparar com múltiplas demandas, existem outros que permanecem em exercício nas escolas públicas. Esta pesquisa tem como objetivo estudar professores licenciados em Física pelo IFUSP, que estão iniciando sua carreira docente, e que atuem em escolas públicas do Estado de São Paulo. A incursão em suas histórias de vida permitirá ter acesso à parte de suas vivências e escolhas, realizadas ao longo de suas vidas pessoal e profissional, relacionadas a um processo pessoal de construção de sentidos. Focar-se-á, nesta pesquisa, no processo de escolha da profissão, a entrada no curso de licenciatura, bem como seus primeiros passos dentro da carreira docente, de forma a assumir-se 'ser professor'. A pesquisa utilizou métodos qualitativos de obtenção e análise dos dados. Foi feito uma pesquisa de campo, através de entrevista semiestruturada de cunho autobiográfico com dois professores. A análise das narrativas ressalta o aspecto processual da construção do 'ser professor'. Trata-se de um processo dinâmico, cheio de contradições, que necessita de tempo para ocorrer. A decisão por ser professor não se dá de forma direta. Vai se construindo ao longo de todo o curso de licenciatura e ao longo do início do exercício profissional.
Palavras-chave : Formação inicial de professores, carreira docente, professor de Física, escolha da carreira
## Introdução
Segundo dados da Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (UNESCO), existe uma falta mundial de professores. Estima-se que até 2030, o mundo vai precisar de mais de 8,4 milhões de professores. Segundo a pesquisa, serão necessários 3,3 milhões de professores no Ensino Fundamental e 5,1 milhões no Ensino Médio (UNESCO, 2013). No Brasil, a situação não é diferente. A procura pelos cursos de licenciatura é baixa, além do número de formandos ser pequeno, devido à grande evasão durante a graduação. Além disso, dos professores formados, poucos lecionam. Em estudos com ingressantes da Universidade de São Paulo (USP), Leme (2012) mostra que metade dos alunos de licenciatura nas áreas de Matemática e Física não pretendem ou tem dúvida quanto a seguir a carreira de professor de educação
básica. Dos que cursam licenciatura em Física, 52% não pretendem ser professor ou tem dúvida. A procura pela profissão de professor e a permanência nela é uma problemática histórica, motivo de preocupações das políticas públicas educacionais diante da constatação da grande falta de profissionais licenciados, conforme constatado pelos dados apresentados acima (ENS et al, 2014). Soma-se a isso, o abandono do magistério. Os motivos mais alegados para a exoneração são: baixa remuneração docente, péssimas condições de infraestrutura e de trabalho nas escolas públicas, desprestígio social da profissão, dificuldade em relação ao comportamento dos alunos, pouco investimento na educação, entre outros. Nesse sentido, existem diversos trabalhos que tratam do abandono profissional docente, nesse contexto de frustração e desencanto com o exercício profissional, onde são levantados e discutidos os motivos da evasão (LAPO & BUENO, 2002; LAPO & BUENO, 2003). Contudo, da mesma forma que existem jovens professores que desistem da profissão ao se deparar com múltiplas demandas, existem outros que permanecem em exercício nas escolas públicas. Alguns resultados de pesquisas realizadas apontam razões atreladas a aspectos afetivos, assumindo o caráter de missão, numa visão romantizada, sem uma análise crítica dos aspectos políticos e da falta de condições objetivas de trabalho (ENS et al, 2014), enquanto outros apontam para o impacto das experiências vividas nos espaços escolares, dos professores que obtiveram sucesso no processo de ensinoaprendizagem são mais propensos a permanência na profissão (JOHNSON & BIRKELAND, 2003). Além disso, outros indicam o fator financeiro e a forte relação com a Pedagogia, como fatores de permanência para professores de Ciências (OGO, LABURÚ & BARROS, 2009). Assim, existem poucos trabalhos sobre a permanência de professores na profissão. Esta pesquisa tem como objetivo estudar professores licenciados em Física pelo Instituto de Física da Universidade de São Paulo (IFUSP), que estão iniciando sua carreira docente, e que atuem em escolas públicas do Estado de São Paulo. A incursão em suas histórias de vida permitirá ter acesso à parte de suas vivências e escolhas, realizadas ao longo de suas vidas pessoal e profissional, relacionadas a um processo pessoal de construção de sentidos. Focar-se-á, nesta pesquisa, no processo de escolha da profissão, a entrada no curso de licenciatura, bem como seus primeiros passos dentro da carreira docente, de forma a assumir-se 'ser professor'. A pesquisa utilizou métodos qualitativos de obtenção e análise dos dados. Foi feita uma pesquisa de campo, aplicando-se instrumentos de coletas de dados para a pesquisa, através de entrevista semiestruturada de cunho autobiográfico, com dois professores. Ao final foi feita uma discussão e análise dos dados, através da codificação e criação de categorias.
## Subjetividade, sentido e significados
Algo que se destaca nas reflexões de Vigotski é a ênfase nos aspectos processuais da relação entre pensamento, palavra e linguagem, e sua relação com a consciência como sistema. A tendência em compreender a psique como sistema nos leva a pensar que em sua ênfase na relação entre o sentido da palavra e o sistema da consciência, Vigotski estava gestando, naquele momento, um novo tipo de unidade da vida psíquica, envolvida com uma compreensão mais sistêmica da psique (REY, 2007). Segundo Rey (2004), Vigotski está se referindo ao sentido como um movimento permanente, daí sua ênfase na instabilidade. Nessa definição, Vigotski está dando um
caráter ontológico diferente ao sentido, que não reifica em nenhum tipo de conteúdo abstrato, mas sim que existe como momento processual do sujeito, associado aos diferentes contextos de sua ação. Ele passa a representar a psique humana como um sistema complexo a partir de sua representação de 'sistema de sentidos', definição que remete à subjetividade. O sentido não se produz por qualquer influência externa ao sistema psíquico, e sim como resultado de um processo que tem lugar em um nível psíquico, dentro do qual toda influência externa atua através das possibilidades geradoras de sentido da subjetividade em seu momento atual. Esta visão rompe com a dicotomia social/individualidade. O sentido subjetivo permitiu compreender a personalidade como uma forma de organização da subjetividade individual, sem reduzila a esta esfera, pois Rey também definiu a subjetividade social como produções sociais carregadas de sentido subjetivo que estão configuradas por processos emocionais e simbólicos produzidos nas mais diferentes esferas da sociedade. A subjetividade não é um sistema determinista intrapsíquico, situado apenas na mente individual, mas uma qualidade de um tipo de produção humana, que permite penetrar em dimensões ocultas do social e da cultura, que só se tornam visíveis na sua dimensão subjetiva. Assim, a subjetividade é uma produção humana, e não uma internalização. É uma produção de nossas práticas e relações (REY, 2007).
A incursão, nas histórias de vidas dos jovens professores de Física que atuam em escolas públicas, permitirá ter acesso à parte de suas vivências e escolhas, realizadas ao longo de suas vidas pessoal e profissional. Estas escolhas estão relacionadas a um processo pessoal de construção de sentidos. Essa construção utiliza como recurso a existência singular dos sujeitos, com suas experiências e afetividades, mas também uma gama de significações e de forma de relacionamento e produção social em que sucedem e que circunscrevem a experiências vividas por cada um. Assim, a vida social, na qual estão os determinantes para as escolhas de atuação profissional, como a ideologia dominante, as formas de trabalho dentro da escola, o papel da educação, entre outros, não é algo externo ao indivíduo (BOCK, 2008).
## Pesquisa autobiográfica
A principal ferramenta de coleta de dados empíricos foi a realização de entrevistas, de cunho (auto)biográfico, com jovens professores de Física licenciados na Universidade de São Paulo e que atuaram em escolas públicas. Elas foram conduzidas com o intuito de estimular os participantes da pesquisa a expressarem sua visão sobre o tipo de atividade realizada dentro da escola, a escolha da profissão, os desafios do início do exercício da docência, a compreensão da função da escola, bem como da disciplina de Física. Além disso, buscou-se saber a leitura do contexto sociocultural que esta pessoa faz da escola em que trabalha, dos fatores de permanência de trabalho em escolas públicas, suas ideologias articuladas à sua atuação profissional. Procurou-se saber também o tipo de escolarização vivenciada em toda a sua vida escolar, características da família de origem e impacto da formação escolar em sua vida. Assim, trabalhou-se com as representações dos próprios entrevistados sobre os sentidos da escola e seu papel individual dentro delas. As entrevistas foram gravadas em áudio e depois transcritas, recurso que possibilitou o acesso reiterado e minucioso às informações coletadas. As perguntas elaboradas buscaram extrair dos entrevistados
uma narrativa do tipo autobiográfica. Ou seja, por meio dessas narrativas, os sujeitos realizaram uma análise de sua história de vida e das relações com o seu trabalho na escola pública (REGO, 2003). As histórias de vida utilizam-se de uma metodologia que visa recuperar verdadeiramente o sujeito, como uma 'tentativa de enfatizar o recurso da memória (individual ou coletiva), como eixo norteador da construção de práticas de formação' (BUENO, 1993, p. 300). Desse modo, essa metodologia que opõe à exacerbação do racionalismo, sendo, portanto, contra a racionalidade no tocante ao processo de formação de professores. Além do potencial acadêmico das histórias de vida para o pesquisador, o profissional docente também pode se tornar mais reflexivo, mudando a sua prática ao fazer esse exercício narrativo (GOODSON, 2008). Assim, este gênero de pesquisa ligam as experiências pessoais à prática de forma irrevogável.
## Resumo das Entrevistas
Fábio participou da entrevista com envolvimento, narrando os fatos de sua vida com bastante objetividade. Oriundo de família com poucos recursos financeiros, teve sua escolarização iniciada em escola pública, obtendo bolsa de estudo em escola particular do segundo ano do ensino fundamental I ao primeiro ano do ensino médio. Terminou a educação básica em escola pública, em um curso técnico em elétrica. Por não querer seguir a profissão do pai serralheiro, vê no prosseguimento dos estudos uma oportunidade de desenvolver outra profissão. Assim, começa a fazer um curso preparatório para o vestibular. Por fim, adentra na Universidade de São Paulo no curso de Licenciatura em Física. Mesmo dando prosseguimento no curso que escolheu, demonstra que não sabia qual era o objetivo principal deste curso, pois não tinha como meta de vida ser professor. Com o desenvolvimento da graduação, o professor Fábio lembra de algumas matérias que fez, destacando a disciplina de 'Práticas em Ensino de Física' como um divisor de águas em sua formação inicial, fazendo referência ao estágio realizado na escola da Zonal Sul de São Paulo, vinculado à disciplina. Relata a experiência de fazer experimentos de Física em sala de aula, atrelados ao que o professor estava abordando e com a experiência proporcionada pelo estágio. Após esta vivência, começou a incorporar a ideia de ser professor. Contudo, após passagem por outras escolas, decide sair da escola pública para trabalhar em instituições particulares, sendo um dos principais fatores a baixa remuneração.
João, também oriundo de família muito humilde do interior do Rio Grande do Norte, iniciou os estudos em escola pública no mesmo estado de seu nascimento. Continuou a sua escolaridade na cidade de Cajamar, Estado de São Paulo, onde foi morar com a família. Sempre viu nos estudos uma forma de galgar novos degraus socioeconomicamente. Diversos professores ao longo de sua vida escolar o inspiraram e motivaram para o estudo. Através de colegas da escola, descobre que existem cursos técnicos gratuitos, com prova de seleção. Ele consegue passar na seleção para o curso de Edificações do Centro Paula Souza. Ao final do ensino médio toma ciência das graduações em universidades públicas. Por três anos tenta entrar no curso de Engenharia Civil e, por não conseguir, começa a fazer o curso de Licenciatura em Física, não tendo a intenção de desenvolver a profissão. Porém, quando cursa a disciplina de Proposta e Projetos vê com outros olhos a profissão de professor, assumindo um discurso de membro da licenciatura, iniciando sua vivência na profissão como professor eventual na escola onde estudou o ensino médio. Após diversas
experiências no meio educacional, opta por trabalhar em escola particular, sendo fator preponderante para essa decisão dificuldade financeira.
## Resultados
A imersão nos dados, gerados pela audição e pela leitura das transcrições, permitiu não apenas a apropriação do discurso, como igualmente o conhecimento das características das experiências relatadas por cada entrevistado e de suas visões sobre o valor das experiências vividas (REGO, 2003). Este trabalho originou um documento, chamado de narrativas. Criou-se uma série de dimensões e de categorias, sendo parte delas explicitadas e analisadas abaixo.
Primeiramente, buscou-se analisar como se deu a escolha da carreira docente como profissão, identificando quais expectativas permearam tal escolha. O professor Fábio apresenta um conflito quanto a qual carreira seguir. Por ter feito curso técnico na área de eletricidade, fica em dúvida se prestaria Engenharia Elétrica ou Física. Presta vestibular para ambas as carreiras e acaba obtendo aprovação para o curso de Física. Contudo, nesse momento da narrativa, a carreira docente não aparece como opção. Refere-se à Física num sentido mais amplo, como área de conhecimento, como expectativa de carreira ligada ao bacharelado. Em nenhum momento de sua fala, se refere à escolha da carreira de físico atrelada a de professor. Já o professor João afirma categoricamente querer fazer o curso de Engenharia. Tentou por três anos consecutivos prestar o vestibular da Fuvest para a carreira de Engenharia Civil, não obtendo êxito. Resolve então cursar Física, devido à nota de corte para entrada no curso ser menor, facilitando o acesso à universidade pública. Cursaria Física, para depois fazer Engenharia. Em ambos os casos, os sujeitos relatam que entram no curso de Física sem desejar a profissão docente. No entanto, prosseguem nos estudos.
Sobre a aceitação do curso de licenciatura pelos professores entrevistados o professor Fábio salienta o desconhecimento da docência, através dos cursos de licenciatura, ao adentrar a universidade. Assevera que permaneceu no curso por gostar de ensinar, mas que não tinha isso como meta de vida. Já o professor João cita ambas as formações da carreira de Física, tanto a da licenciatura quando a do bacharelado. Essa imprecisão no discurso pode ter ocorrido por não saber a diferença entre ambos na época ou por dúvida quanto a qual formação seguir.
No que se refere à disciplina cursada na licenciatura determinante para a permanência no curso de licenciatura o professor Fábio destaca a disciplina de 'Práticas em Ensino de Física' como um divisor de águas em sua formação inicial, fazendo referência ao estágio realizado na escola, vinculado à disciplina. Relata a experiência de fazer experimentos de Física em sala de aula. Ressalta que esta disciplina foi a que mais o aproximou da realidade de sala de aula. Assim, o objetivo da disciplina não é só introduzir os alunos na sala de aula, mas sobretudo em uma sala de aula real. O professor João destaca a disciplina de 'Propostas e Projetos' ou 'Produção de Material Didático' como marcantes em sua formação acadêmica. O professor da disciplina, ao discutir o conceito de realidade, o fez refletir sobre o papel social da educação, ressignificando sua formação docente. Destacamos o caráter processual, complexo e dinâmico, cheio de contradições, da construção do 'ser professor', ou seja,
em que momento o licenciando reconhece-se como professor. Por exemplo, apesar da aceitação pela carreira, os professores buscam outras alternativas de trabalho, dentro de mesma área de formação.
O professor Fábio trabalhou boa parte de sua graduação em licenciatura em Física no Aeroporto de Guarulhos, onde exerceu a função de técnico em eletricidade. Relata o desligamento desta função, em grande parte devido ao baixo salário, e ao oferecimento de outras oportunidades vinculadas a sua formação acadêmica que a Universidade oportunizava. Passa a se questionar 'onde a Física fica, o que a Física faz, no que eu posso trabalhar?'. O professor reitera que 'estava começando a incorporar a ideia de professor', descrevendo o processo pessoal de 'se tornar professor', apropriando-se dos sentidos de ser professor. Ele conta da sua experiência de trabalho como estagiário na área bancária, ao sair do trabalho do aeroporto. Muitos licenciandos migram de área para obter um maior reconhecimento profissional, apesar de haver uma interface de formação entre as duas áreas, atualmente conhecida como Econofísica. Apesar das reflexões iniciais quanto a sua formação como professor, esta ainda está em processo de aceitação, criando formas de negação/contradição. Concomitante ao estágio no banco, procurou uma escola para fazer estágio de uma das disciplinas da licenciatura. Narra uma experiência positiva, com relação ao estágio nessa escola próxima ao banco. Ao não ser efetivado no banco, procura mais aulas para trabalhar, nessa mesma escola em que estava fazendo estágio. Por fim, expressa empolgação com o início da carreira docente. O professor João, após cursar a disciplina do professor Carlos no curso de licenciatura, começou a lecionar, como professor eventual, na escola pública na qual estudou o Ensino Médio. Apesar de repetir reiteradas vezes que queria cursar Engenharia, afirma pela primeira vez que também quer dar aulas. Quase se matricula em um curso de Engenharia Química, em uma universidade particular, mas desiste no último momento. Nesse meio tempo, o professor João decide casar, mas como professor eventual da escola pública ganhava muito pouco. Então, vai trabalhar na empresa Natura, na parte de logística. O trabalho nesta empresa o fez valorizar a carreira docente, fazendo-o pedir demissão. Assume-se professor. Ao cursar nova disciplina do Carlos e ao fazer estágios nas escolas, ressignificar todo o curso de licenciatura, como se tudo passasse a fazer sentido para ele. Sai da empresa, para prestar o concurso de professor efetivo do Estado. Logo após concluir a licenciatura em Física assume o cargo de professor efetivo na mesma escola em que estudou o Ensino Médio.
Por fim, buscamos descrever as lembranças da primeira experiência docente, vendo os sentidos atribuídos a elas. O início de carreira docente para o professor Fábio ocorreu em uma escola estadual da Zona Sul da cidade de São Paulo. Ele conheceu a escola fazendo estágio em uma disciplina da licenciatura em Física, depois passou a atuar como professor temporário, com aulas atribuídas na sexta-feira, no período noturno. Ressalta-se que o professor estava fazendo o último ano da graduação do curso de Licenciatura em Física. Relata a empolgação inicial de dar aula e dos desafios de início de carreira. Narra que poucos alunos iam à escola de sexta-feira à noite. Inicialmente achou que a ausência dos alunos era pessoal, mas logo percebeu que existia uma cultura escolar que incentivava a falta dos mesmos. De forma a sanar o problema, estabelece um pacto junto aos alunos, vinculando a nota da disciplina à presença em sala de aula. Como houve uma adesão dos alunos pelas aulas, começou
a se preocupar com a melhor metodologia de aula para encantar os alunos pela disciplina. Relata também o estranhamento da cultura escolar e sua divergência com os inspetores e demais professores, que corroboravam em liberar os alunos mais cedo. O professor João iniciou sua carreira docente na mesma escola em que cursou o Ensino Médio, ou seja, na escola pública que ficava ao lado da favela, no bairro em que residia na cidade de Cajamar. Relata que seu desafio inicial foi uma sala de primeiro ano do ensino médio, com problemas de drogas, indisciplina e analfabetismo. Para sanar as dificuldades, realizou projetos anti-drogas e de leitura e escrita, com outros docentes. Além disso, fazia escuta às vozes dos alunos, que não viam sentido na escola. Percebeu rapidamente, que tinha que construir o significado da importância da escola na formação humana. Relata o processo de avaliação classificatória, com alto número de reprovação de alunos ao final do primeiro ano do Ensino Médio. Conclui que a reprovação não ajudava o aluno, principalmente no período noturno, que era mais complexo. Nas turmas de Ensino de Jovens e Adultos (EJA) tinha os mesmos problemas. Propôs a formulação de um currículo novo, que se adequasse aos seus alunos, propondo avaliações processuais e auto-avaliativas. Dessa forma, o professor João explicita as dificuldades, mas articula diversas ações e executa-as, buscando formas de superá-las. Não faz isso sozinho, articula projetos de forma colaborativa com outros professores. Faz um diagnóstico claro dos problemas estruturais, fazendo uma reflexão ampla e conjuntural, fortalecendo-se no seu compromisso e responsabilidade. Não se sente refém da situação, apesar da complexidade inerente à sua prática.
Nesse sentido, a análise das narrativas ressalta o aspecto processual da construção do 'ser professor'. Trata-se de um processo dinâmico, cheio de contradições, que necessita de tempo para ocorrer. Ao longo das narrativas, a decisão por ser professor não se dá de forma direta. Vai se construindo ao longo de todo o curso de licenciatura e ao longo do início do exercício profissional.
## Considerações Finais
Essa análise foi construída a partir da concepção histórico-crítica, que compreende que o homem não nasce completo, mas faz-se homem na existência coletiva permeada pela cultura. Nesse sentido, o objetivo é entender que sentidos subjetivos mobilizam os sujeitos em direção à profissão docente, evidenciando, principalmente, os fatores de permanência ao atuar em escolas públicas e suas ligações com a Física. Desse modo, a abordagem das histórias de vida de professores tem possibilitado verificar o aprendizado experiencial vivido nas escolas e em outros meios, como a família e a sociedade de forma geral, e como estas experiências ressignificam os sentidos. Nesse sentido, a subjetividade individual, seguindo uma abordagem defendida por Rey, constitui-se numa integração com a subjetividade social, de forma inter-relacionada. A subjetividade individual é determinada socialmente, mas não por um determinismo linear externo, do social ao subjetivo, e sim em um processo de constituição que integra de forma simultânea as subjetividades social e individual. Assim, o indivíduo é um elemento constituindo da subjetividade social e, simultaneamente, se constitui dela. Afirma-se, então, que a subjetividade se dá em um amplo processo, em constante desenvolvimento e com contraditórios. Nesse trabalho mostramos como a escolha de ser professor de Física e de permanecer na carreira
envolve múltiplos fatores e é, sobretudo, um processo longo de construção da identidade do jovem professor de Física.
## Referências
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