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O ENSINO DE ALGUNS FENÔMENOS ASTRONÔMICOS EM UMA ESCOLA DE INCLUSÃO

Márcia Augusta De Almeida, Beatriz Augusta Novais De Oliveira, Alex Sandro De Lima, Renata Pojar, Cristina Leite

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XXII
Ano
2017
Data
25/01/2017
Linha de pesquisa
Ensino E Aprendizagem Em Física
Tipo
Pôster

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Texto completo

## O ENSINO DE ALGUNS FENÔMENOS ASTRONÔMICOS EM UMA ESCOLA DE INCLUSÃO

Márcia Augusta de Almeida 1 , Beatriz Augusta Novais de Oliveira , Alex 1 Sandro de Lima 1 , Renata Pojar , Cristina Leite 2 3

1 Licenciandos do Instituto de Física da USP, beatriz.augusta.oliveira@usp.br, alex.lima@usp.br, marcia.augusta.almeida@usp.br Mestranda em Ensino de Ciências da Pós-Graduação Interunidades 2 da USP e professora da E.M.E.F.M Vereador Antônio Sampaio, renata.pojar@usp.br; 3 Professora Doutora da Universidade de São Paulo/Instituto de Física da USP e do Programa de Pós-Graduação Interunidades em Ensino de Ciências da USP, crismilk@if.usp.br.

Resumo: Astronomia normalmente é vista como uma ciência envolvente e com grande potencial para o desenvolvimento de habilidades espaciais. Na perspectiva de trazer à tona essa temática, desenvolveu-se um projeto no contexto do PIBID, aplicado em uma escola da rede municipal da cidade de São Paulo, que se destaca pelo atendimento a alunos com deficiências, principalmente surdez. Na tentativa de aproveitar o campo de conhecimento espacial de alunos surdos e conhecendo-se as dificuldades já relatadas em pesquisas da área de educação em astronomia (LEITE & HOSOUME, 2002; LANGUI & NARDI, 2007) a respeito dos conhecimentos básicos de astronomia, resolveu-se construir uma proposta didática na perspectiva de explorar essa temática. A proposta foi dividida em três grandes temas: a Terra, o Dia e a Noite e as Estações do Ano. Com intuito de propiciar o protagonismo dos alunos a proposta buscou perspectiva inclusiva e teve o suporte do grupo de intérpretes de Libras da escola. Em uma investigação inicial, por meio de desenhos produzidos pelos alunos, percebeu-se que eles realmente tinham uma compreensão incipiente sobre os fenômenos astronômicos, tendo dificuldade até mesmo em conceber a esfericidade da Terra ou apresentar uma explicação para o dia e a noite. Foi interessante perceber que as dificuldades não estavam relacionadas à surdez, baixa visão ou autismo, por exemplo. A proposta didática foi construída com uma perspectiva inclusiva, de modo a contemplar as necessidades pedagógicas do maior número possível de alunos. Considerando o acompanhamento realizado pelos licenciandos e a análise das respostas dos alunos aos questionários e atividades, percebeu-se que os alunos compreenderam os fenômenos abordados na proposta, e principalmente, apresentaram sutis modificações em suas concepções acerca dos conceitos discutidos. Apesar de ser esta uma proposta pontual, imagina-se que ela tenha múltiplas contribuições, mas certamente para os licenciandos em física tem um papel ímpar, uma vez que se amplia o conhecimento destes a respeito da sala de aula e neste caso, um espaço ainda pouco freqüente na realidade escolar, a escola inclusiva e também pouco discutida no âmbito da formação inicial de professores.

Palavras-chave : PIBID, Educação Inclusiva, Ensino de Astronomia, Proposta Didática.

## Introdução

Este artigo é resultado do trabalho desenvolvido pelos bolsistas do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (PIBID), ao longo de 2015. O PIBID visa o desenvolvimento e a formação sólida de alunos das licenciaturas, através de atuações em escolas púbicas. O programa vem contribuindo de forma positiva na formação de licenciados e ganhando cada vez mais importância nas instituições de ensino onde atuam, como também dentro das universidades.

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- O projeto foi aplicado em uma das escolas de Ensino Médio da rede municipal de São Paulo. Uma importante característica desta escola é o atendimento a alunos com deficiências, tratando-se de uma escola de ensino regular, contudo, inclusiva. Essa característica singular tem sido fundamental para a melhoria na formação dos licenciandos envolvidos no projeto, uma vez que é rara a discussão de elementos desta natureza no âmbito da formação inicial.
- O grupo optou pela elaboração de uma proposta didática inclusiva, de modo que, abrangesse as necessidades pedagógicas dos alunos com ou sem deficiência. Considerando a perspectiva inclusiva e as possibilidades pedagógicas, a temática Astronomia sobressaiu-se entre as outras, uma vez que, possibilita a construção de uma variedade de atividades com interações sensoriais compatíveis com a concepção inclusiva almejada pelo grupo.

Devemos esclarecer que há uma distinção entre educação especial e educação inclusiva, 'O termo Inclusão tem sido tão intensamente usado que se banalizou de forma que encontramos o seu uso indiscriminado no discurso político nacional e sectorial, nos programas de lazer, de saúde, de educação etc . (RODRIGUES, 2006, p.1)'.

A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) e o decreto Nº 7.611/2011 dispõem sobre o atendimento educacional especializado, bem como a Educação Especial são para as pessoas com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades ou superdotação. Enquanto a educação inclusiva diz respeito à inclusão de todos independente de suas características, deficiências, cultura, crenças e etc.

O conceito de Inclusão no âmbito específico da Educação, implica, antes de mais, rejeitar, por princípio, a exclusão (presencial ou académica) de qualquer aluno da comunidade escolar. Para isso, a escola que pretende seguir uma política de Educação Inclusiva (EI) desenvolve políticas, culturas e práticas que valorizam o contributo activo de cada aluno para a construção de um conhecimento construído e partilhado e desta forma atingir a qualidade académica e sócio cultural sem discriminação. (RODRIGUES, 2006, pag.02)

Para construir a proposta didática nesta perspectiva estruturaram-se duas linhas de orientação: a) parceria com o grupo de intérpretes de Libras da escola, para auxiliarem na construção de estratégias de acordo com a necessidade dos alunos surdos; b) conceder espaço para os alunos expressarem suas concepções, de modo que, sempre houvesse o diálogo entre professor, aluno e intérprete.

A delimitação dos conteúdos de Astronomia a serem abrangidos pela proposta didática surgiu a partir da aplicação de uma atividade de sondagem com as turmas do 1º Ano do Ensino Médio, na qual os alunos apresentaram concepções em dissonância com o conhecimento científico acerca dos movimentos da Terra, a dimensão da Terra em relação à Lua e ao Sol e a ocorrência dos fenômenos como o Dia e a Noite. Com estes resultados percebeu-se a necessidade de retomada de alguns conhecimentos de astronomia. Neste contexto, sobressaiu à abordagem dos conceitos básicos sobre a Terra, seus movimentos e fenômenos astronômicos comuns no cotidiano.

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## Metodologia

Ao longo do projeto, o grupo de bolsistas, professora da escola e a professora coordenadora do projeto reuniram-se para discutir e desenvolver a proposta didática que abarcasse o currículo de Física e a singularidade da escola parceira. Para que a proposta fosse adequada ao público alvo, os bolsistas se inseriram no cotidiano escolar, de modo que, pudessem compreender a realidade da escola, bem como, dos alunos.

A partir da aplicação de um questionário para se conhecer melhor o perfil dos alunos verificou-se que cerca de 30% dos alunos apresentavam algum tipo de deficiência, destacando-se a deficiência auditiva como a mais comum. Considerando este cenário, optou-se pela construção da parceria com o grupo de intérpretes de Libras da escola, de modo que, os mesmos contribuíram para os bolsistas compreenderem as especificidades da prática de ensino para os alunos surdos.

Com intuito de promover a dialogicidade entre professor e aluno, as aulas foram guiadas por constantes problematizações. Através destas os bolsistas buscavam conhecer as concepções alternativas dos alunos na perspectiva de melhor provocar reflexão e discussão sobre os temas em discussão.

Baseados em propostas didáticas com enfoque na construção de um conhecimento em astronomia que envolva uma preocupação com a espacialidade (LEITE, 2006; FERREIRA & LEITE, 2015; MATIAS & LEITE, 2011). A proposta didática englobou três grandes temas da astronomia básica, com seus respectivos subtemas, sendo: a Terra, esfericidade, representações (plano, globo e etc.), gravidade e conceito de em cima e embaixo; Dia e Noite, rotação da Terra, relógio de Sol, fuso horário e Sol da meia noite; Estações do Ano, translação da Terra, horário de verão, características das estações e diferentes estações nos hemisférios Sul e Norte.

Na perspectiva da inclusão, as atividades propostas em aula intercalaram entre atividades dissertativas, discussões e desenhos acerca do mesmo tema, ou seja, permitiu-se aos alunos expressarem suas concepções de formas variadas possibilitando os mesmos explorarem suas potencialidades de expressão e encontrarem aquela que mais se adequava a sua necessidade. Ressaltando que os alunos surdos puderam expor suas respostas em Libras, sendo traduzido pelos intérpretes, assim o aproveitamento dos alunos surdos pode ser enriquecido pelo diálogo com o professor.

Os resultados a respeito da aplicação da proposta didática foram obtidos pela análise das atividades realizadas nas aulas e a aplicação de um questionário sobre a satisfação dos alunos com os temas e métodos utilizados nas aulas.

A proposta didática foi elaborada com base na leitura de materiais específicos de ensino de astronomia e ciências da natureza, como, o segundo volume do Caderno do Professor de Ciências do 7º e 8º ano do Estado de São Paulo e o volume 11 da Coleção Exploração o Ensino Médio. Todas as aulas foram previamente apresentadas ao grupo, antes da aplicação na proposta na escola, para que pudéssemos avaliar e discutir sobre o conteúdo e estratégias propostos de cada aula. As atividades propostas nas escolas, principalmente as que envolviam leitura, foram apresentadas para o grupo de intérpretes da escola, de modo que, os mesmos pudessem se organizar para a aplicação em sala de aula.

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A seguir, apresentaremos uma tabela descritiva acerca dos temas, atividades, objetivos e questionamentos que compõem a proposta didática. Quadro 1: Atividades propostas, objetivos e questionamentos propostos da proposta didática

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## Análise da proposta didática

Durante as aulas ocorreram atividades para acompanhar o desenvolvimento dos alunos. Primou-se, assim, por uma avaliação processual. Através destas e com as discussões realizadas em cada aula, efetuou-se a análise da aplicação da proposta didática. Ressaltando que cada atividade foi analisada de modo singular, pois as mesmas mesclavam questões dissertativas e representações através de desenhos. As gravações com os alunos surdos foram utilizadas para complementar suas respostas dissertativas, uma vez que, os mesmos podem apresentar dificuldades na modalidade escrita da Língua portuguesa.

Na perspectiva da inclusão, o acompanhamento do desenvolvimento dos alunos surdos concentrou-se nos diálogos realizados nas aulas, pois o aluno pode explicar sua resposta e/ou desenho para um dos bolsistas. Os diálogos com os alunos surdos evidenciaram alguns aspectos com relação à forma de interpretação do mundo pelos mesmos. Os alunos surdos faziam associações para facilitar a compreensão de alguns conceitos, porém alguns casos causavam mais confusão do que esclarecimento, por exemplo, em uma das discussões percebemos que os alunos associavam o Sol há algo muito quente, mas também faziam a mesma associação para compreender o núcleo da Terra, ou seja, os alunos compreendiam que o Sol e o núcleo da Terra eram iguais por ambos serem muito quente.

De modo geral, podemos evidenciar sutis modificações nas concepções dos alunos acerca dos fenômenos astronômicos apresentados nas aulas, uma vez que, comparando às atividades, principalmente, as representações em desenho, os alunos incluíam detalhes que antes não estavam presentes anteriormente.

Na aula sobre a temática Terra podemos verificar, através da atividade sondagem, que os alunos tinham a concepção sobre o formato esférico da Terra, mas na discussão sobre os tipos de representações percebemos a dificuldade dos mesmos em transpor a ideia da Terra esférica, por exemplo, para a planificação do mapa.

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Na primeira atividade sobre a localização no globo terrestre os alunos se posicionaram na superfície do planeta e verticalmente 'para cima', da mesma forma que Leite (2006) e Bisch (1998) já salientavam sobre a forma que professores de ciências e alunos do Ensino Fundamental também apresentam como dificuldade, mas ao final da proposta ao questionarmos sobre a possibilidade de estarmos 'de cabeça para baixo' e o fato de alguém nesta situação não estar caindo, os alunos conseguiram relacionar com a gravidade para nos mantermos fixos na superfície da Terra e que os conceitos de 'em cima' e 'embaixo' são relativos ao referencial. Segue algumas das respostas dos alunos nessa atividade:

'Entendi que a gravidade nos fixa na terra não nos deixando cair. E o cima e em baixo depende do seu referencial.'

(Aluno 4)

'Eu entendi que não tem cima e em baixo no universo, e a gravidade da Terra, puxa para o centro.'

(Aluno 15)

Na aula sobre a temática do Dia e a Noite, inicialmente, os alunos haviam feito representações distintas, uns associavam o Dia ao Sol e a Noite a Lua e as estrelas, de modo que, estes trocavam de lugar com a Terra fixa; outros apresentaram a Terra maior que Sol; não indicavam o eixo de rotação da Terra. Ao compararmos as primeiras representações com as últimas podemos verificar o aparecimento do eixo de rotação, bem como, as dimensões mais plausíveis entre a Terra, Sol e a Lua. Por meio da análise das respostas no questionário, notou-se que os alunos compreenderam como é o movimento que a Terra realiza para a ocorrência do Dia e a Noite, sendo poucos casos que persistiu a ideia de que o dia ocorre quando o Sol está no visível no céu e a noite está a Lua.

'Em uma parte da terra está claro (dia) e na outra está escura (noite) isso graças a um movimento que a terra faz em torno do próprio eixo, chamado 'rotação'. Assim sendo, quando uma parte da terra está clara, a outra está escura.'

(Aluno 10)

'O dia e a noite acontece durante a rotação da terra em que o sol ilumina somente uma parte da terra, ou seja somente uma parte da terra, ou seja somente a face que está voltada para ele'

(Aluno 5)

A análise do questionário, quanto ao fenômeno das Estações do Ano, a maioria dos alunos compreendeu a relação do movimento de translação com o fenômeno das estações do ano e a importância do eixo de inclinação para ter estações diferentes nos hemisférios.

'A inclinação do eixo da terra é importante porque ela que define as estações diferentes em cada hemisfério.'

(Aluno 5)

'Sem a inclinação da terra não teria as estações do ano.'

(Aluno 11)

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## Considerações Finais

Considerando o acompanhamento realizado pelos licenciandos e os resultados obtidos através de questionários e atividades, percebeu-se que houve uma mudança nas concepções dos alunos acerca dos fenômenos estudados, já que com o decorrer da proposta os alunos começaram a colocar a Terra em órbita ao redor do Sol, o eixo de inclinação da mesma e o seu tamanho diminuto em relação ao Sol, além de compreenderem os fenômenos trabalhados e os movimentos de rotação e translação.

As temáticas de astronomia desenvolvidas são de difícil compreensão e já relatadas em diferentes âmbitos de pesquisa devido a aspectos espaciais (Leite & Hosoume, 2009), sendo assim, um desafio para todos os diferentes grupos de alunos. Foi possível perceber, pelo questionário inicial, que todos os alunos tinham dificuldade em apresentar um conhecimento coerente com a cultura científica até mesmo sobre a ocorrência do fenômeno do Dia e da Noite e de como estamos posicionados na mesma.

Além da apropriação do conhecimento, os alunos, em cada aula, mostravam-se mais confiantes e participativos. A oportunidade de dar voz aos alunos mostrou-se como eficiente para despertar o interesse dos mesmos na aula, bem como, facilitar a compreensão acerca dos conhecimentos propostos.

O enfoque dado ao grupo de alunos surdos gerou uma experiência positiva para todos os envolvidos, alunos e licenciandos. Eles puderam expor seu conhecimento em sua primeira língua, a Libras, minimizando as perdas causadas pela dificuldade de expressar-se na Língua Portuguesa em sua modalidade escrita. A parceria entre licenciandos e intérpretes é um fator importante para o desenvolvimento pleno de toda a dinâmica de sala de aula, bem como, para a aplicação da proposta didática. Os intérpretes auxiliaram os licenciandos nas explicações para os alunos surdos e ajudaram a adaptar o material, como textos e atividades, trazidos para a aula.

No decorrer do projeto pôde se observar e vivenciar a interação de uma sala de aula heterogênea, percebendo a importante de desenvolver aulas com uma diversidade de métodos e avaliação de acordo com o perfil de alunos. Com isso, em uma perspectiva inclusiva deve se levar em conta a singularidade da cada aluno, de modo que, os métodos, estratégias, avaliações e recursos permitam que o mesmo desenvolva suas potencialidades.

## Referências Bibliográficas

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BRASIL. Lei n. 9394, de 20 de dezembro de 1996. Dispõe das Diretrizes e Bases da Educação Nacional . <http://www.planalto.gov.br/ccivil\_03/leis/L9394.htm> . Acesso em 20/08/16.

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